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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana vol.25 no.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2019  Epub 30-Maio-2019

https://doi.org/10.1590/1678-49442019v25n1p281 

Resenhas

VIVEROS VIGOYA, Mara. 2018. As cores da masculinidade: experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Trad. Alysson de Andrade Perez. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens. 224 pp.

Brena O’Dwyer1 

1 Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

VIVEROS VIGOYA, Mara. 2018. As cores da masculinidade: experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Perez, Alysson de Andrade. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens, 224 pp,


Escrito pela antropóloga colombiana Mara Viveros Vigoya, fundadora e atual coordenadora da Escuela de Estudios de Género de la Universidad Nacional de Colombia, em Bogotá, As cores da masculinidade: experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América (2018) é a primeira tradução da autora para o português.

O livro é de grande interesse para as/os leitoras/es brasileiras/os. Primeiro, por apresentar o conceito de “Nossa América” em oposição à ideia de América Latina. Também por sua contribuição aos estudos de gênero a partir de uma perspectiva interseccional articulada aos estudos pós-coloniais. Por fim, pelo levantamento empreendido por Mara Viveiros sobre os estudos nossamericanos sobre masculinidades que, além de apresentarem diversas pesquisas brasileiras no contexto nacional, abordam também as lacunas nessa área.

A autora parte de uma perspectiva pós-colonial sobre gênero, homens e masculinidade para refletir acerca dos estudos sobre masculinidades na “Nossa América” e sobre a fabricação das masculinidades negras e a hegemônica branca. O livro rejeita a ideia essencialista de um machismo latino-americano e defende que não há uma, mas diversas masculinidades historicamente situadas. Enquanto algumas masculinidades colocam as mulheres em posição de subordinação, outras são marginalizadas. Assim, o trabalho chama a atenção para a importância de analisar os efeitos subjetivos e objetivos da posição de dominação dos homens em relação às mulheres e as consequências para estes dos ideais de masculinidade, atentando para as diversas experiências de homens colombianos e para as tensões e as ambiguidades que caracterizam as masculinidades nesse contexto. Não havendo uma única masculinidade, a hegemônica é construída em oposição a uma feminilidade hegemônica e em tensão com outras masculinidades marginais.

Como mulher negra, a autora acena para sua vivência das hierarquias de raça e de gênero e aponta para o lugar do autor como um recurso para a compreensão da sociedade.

No meu caso, esta experiência teve a ver, primeiramente, com minha consciência de não ser “simplesmente” uma mulher e de entender que o sexismo não se experimenta sempre da mesma maneira, já que o sexo não é a única fonte de opressão das mulheres colombianas (:19).

A obra conta com prefácio da cientista social australiana Raewyn Connel, e as principais influências da autora para analisar as interações entre raça e gênero são Fanon, Du Bois e o Black Feminism.

O livro está dividido em duas partes. A primeira parte, Teorias feministas e masculinidades, é composta por dois capítulos. O primeiro versa sobre as lacunas e os pressupostos da teoria feminista e de gênero no tocante à dominação masculina, os novos tipos de homens e de masculinidades. No segundo, a autora realiza um levantamento dos estudos sobre homens e masculinidades na “Nossa América” para refletir sobre como o tema aparece e quais questões são privilegiadas, em contraponto à maior parte da literatura sobre o assunto publicada em inglês com foco nas sociedades norte-americanas e europeias.

A segunda parte do livro, intitulada Masculinidades nossamericanas, contém três capítulos. O terceiro capítulo traz entrevistas com homens colombianos para analisar estereótipos associados à masculinidade negra na Colômbia. A autora analisa também imaginários sobre corpos negros masculinos no país com base em grupos musicais afro-colombianos. O quarto capítulo versa sobre a história da branquitude no contexto “nossamericano” colombiano desde o período colonial até os dias atuais, de forma a demonstrar uma relação distintiva entre raça e sexo que produz hierarquias, especificamente uma masculinidade branca hegemônica, que subordina simultaneamente mulheres e homens não brancos. Mara Viveros utiliza o exemplo do ex-presidente colombiano Álvaro Uribe Vélez para explorar como valores positivos associados à masculinidade e à branquidade foram importantes na sua trajetória política. Por fim, o quinto capítulo relaciona a violência simbólica e doméstica contra as mulheres com a violência estrutural advinda da colonização, demonstrando como as mortes violentas de mulheres estão ligadas a atitudes masculinas favorecidas pelo contexto de neoliberalismo da região.

A autora faz uma crítica ao uso esvaziado do conceito de interseccionalidade, apontando que é preciso pensar as relações de dominação em um processo complexo e contraditório, no qual os sujeitos dominados têm também agência. Assim, é preciso reconhecer que não existem sujeitos “exclusivamente dominados, como as mulheres, ou exclusivamente dominantes, como os homens” (:23). Mara Viveros ressalta que, embora a dominação masculina seja estrutural, é também um processo paradoxal, historicamente determinado e dinâmico no qual as variáveis não são aditivas, mas distintivas.

A dominação não se exerce a partir da soma de certas condições, mas a partir de uma determinada forma de habitar o gênero, a classe, a raça, a idade, a nacionalidade etc., como relações sociais que se coproduzem... Em meu trabalho, proponho uma análise interseccional não apenas dos grupos sociais marginalizados, aos quais está vinculada historicamente esta teoria, mas também daqueles que ocupam posições dominantes em distintas ordens sociais, como os homens, as pessoas brancas ou mestiças de pele clara na Colômbia e as pessoas heterossexuais (:23).

O conceito de “Nossa América” surge como crítica à ideia de América Latina, sendo ela resultante do processo de independência do controle português e espanhol, marcada pela desvalorização da participação indígena e de afrodescendentes nessas nações. A “Nossa América” também se contrapõe ao imperialismo dos Estados Unidos na região e questiona ainda a utilização de marcos teóricos produzidos nos EUA e na Europa.

“Nossa América” busca uma reapropriação e um deslocamento do significado do caráter mestiço de nossa história... É também a afirmação da capacidade de ressonância que produz habilidade para viver nos limites, na fronteira, nesse espaço Che’je onde coexistem, em tensão e em conversação, o colonial e o colonizado. Falar de Nossa América em vez de América Latina é, finalmente, escolher uma denominação que não foi criada nos contextos acadêmicos hegemônicos metropolitanos para dar conta de experiências sociais particulares (:29, 30).

Outras publicações da autora são: “Sexuality and Desire in Racialized Contexts”, capítulo do livroUnderstanding Global Sexualities: New Frontiers,organizado por Peter Aggleton, Paul Boyce, Henriette Moore e Richard Parker (2012) e De quebradores y cumplidores: sobre hombres, masculinidades y relaciones de género em Colombia (2002), publicado pela Universidad Nacional de Colombia.

REFERÊNCIAS

VIVEROS VIGOYA, Mara. 2018. As cores da masculinidade: experiências interseccionais e práticas de poder na Nossa América. Trad. Alysson de Andrade Perez. Rio de Janeiro: Papéis Selvagens. 224 pp. [ Links ]

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