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Mana

versão impressa ISSN 0104-9313versão On-line ISSN 1678-4944

Mana vol.25 no.1 Rio de Janeiro jan./abr. 2019  Epub 30-Maio-2019

https://doi.org/10.1590/1678-49442019v25n1p293 

Resenhas

SHOSHAN, Nitzan. 2016. The Management of Hate: Nation, Affect, and the Governance of Right-Wing Extremism in Germany. Princeton, New Jersey: Princeton University Press. 300 pp.

Andrea Roca1 

1Universidade Estadual de São Paulo, São Paulo, SP, Brasil.

SHOSHAN, Nitzan. 2016. The Management of Hate: Nation, Affect, and the Governance of Right-Wing Extremism in Germany. Princeton, New Jersey: Princeton University Press, 300 pp.,


Se a observação participante como técnica de pesquisa exige a construção de uma relação de empatia e confiança com nossos interlocutores, como avançar neste quesito quando a ideia é justamente se aproximar daqueles que, se soubessem a nossa identidade real, só teriam palavras de ódio para nós? É com este quebra-cabeça ético e metodológico que se inicia o livro The Management of Hate: Nation, Affect, and the Governance of Right-Wing Extremism in Germany. Entre 2004 e 2006, Nitzan Shoshan, antropólogo israelense da Universidade de Chicago, atualmente professor do Centro de Estudios Sociológicos do El Colegio de México, apresentou-se como “Nate”, um pesquisador americano interessado no espaço público, para um grupo de jovens com tatuagens da ultradireita e discurso xenófobo - os quais acompanhou no decorrer desses anos em bares, shows de heavy metal e jogos de futebol. Tal forma de aproximação - no mínimo, controversa - foi sugerida pelos trabalhadores de uma ONG local. Foram eles que o auxiliaram em sua inserção no campo e, dessa forma, também protagonizam o livro como interlocutores - e, talvez, um pouco mais que isso, já que aparecem como coprodutores de conhecimento. Em tempos como o nosso, marcados pelo debate a respeito do extrativismo acadêmico e a busca por formas mais dialógicas de produção de conhecimento, tal escolha se torna aceitável - e mesmo acertada - quando consideradas as contribuições analíticas e teóricas apresentadas neste livro de antropologia política.

Diferentemente do que esperaria um leitor atento ao debate sobre extremismos políticos na Europa, a obra, de forma deliberada, foge do termo “radicalização”, conceito que domina certas esferas da academia. Este termo já vem sendo criticado por sua pouca eficácia explicativa, psicologismo excessivo e, não menos importante, por sua funcionalidade com os aparelhos de segurança. Nesse sentido, o autor propõe um novo olhar para se pensarem as margens da política contemporânea, construindo um objeto analítico singular: a governança dos afetos na Alemanha pós-reunificação.

Os bairros precarizados de Treptow-Köpenick, distrito da outrora Berlim Oriental, são o cenário do trabalho de campo. Ali se observa, em movimento, a engrenagem do que Shoshan chama de “neutralização do ódio”, operação executada por uma miríade de atores estatais e não estatais. Retomando autores como Nikolas Rose e a discussão sobre o paradigma de responsabilização individual no neoliberalismo, o livro aborda a gestão dos afetos em duas frentes, por certo concomitantes: a repressiva e a preventiva. Nessa medida, agentes policiais, trabalhadores sociais, animadores culturais e esportivos, cada um com seus próprios saberes e modos de intervenção, têm em comum jovens clientes que, no geral, carecem de inserção formal em partidos ou organizações de ultradireita, mas que aderem a um nacionalismo saudoso do passado nacional-socialista, o qual é reproduzido no seu dia a dia em discursos, gostos, estéticas e práticas.

O livro divide-se em três partes, com nove capítulos, distribuídos em 300 páginas. No primeiro capítulo, “A specter of nationalism”, discute-se o lugar da figura do jovem precarizado de extrema direita no projeto de construção nacional na Alemanha pós-reunificação. Figura ominosa, desprezada pela comunidade política (que descreve a si própria, com um tanto de hipocrisia, como democrática e defensora acirrada do multiculturalismo), o extremista é o fantasma que encarna os medos e as ansiedades de um país que carrega memórias e tabus vinculados ao fascismo. Da análise do debate político, o texto envereda para o mundo cotidiano dos jovens que participam, sem saber, deste livro. Nos capítulos dois e três, “East and West, Right and Left” e “The Kebab and the Wurst”, o autor reconstrói, com base nos depoimentos de seus interlocutores, a paisagem cotidiana da alteridade: antifascistas, árabes e “ocidentais” (os do outro lado do muro) são os “outros”, a partir dos quais os homens e as mulheres protagonistas desta obra se definem. Aqui, o que nos chama a atenção, nós, leitores latino-americanos, é a vigência do muro no imaginário daqueles nascidos no pós-1989, mas também no discurso nacional que aponta a ex-República Democrática Alemã como o lugar a ser reabilitado politicamente do seu autoritarismo atávico.

Na segunda parte do livro, analisa-se a arquitetura institucional que sustenta o projeto de desnazificação e a gestão do ódio. Em “Penal Regimes of Political Delinquency”, capítulo quatro, examinam-se as leis de controle da liberdade de expressão, unidades policiais especializadas em extremismo político e comitês de censura. Utilizando uma abordagem semiótica, Shoshan atenta para a persecução de símbolos, parafernálias e conteúdos multimídias - músicas, filmes, tatuagens, livros - que seriam expressivos, aos olhos dos aparelhos estatais, da ideologia neonazista. O livro aponta para um regime de visibilidade que, no anseio de controle, circunscreve em determinados corpos, especificamente os dos jovens empobrecidos, esse inimigo interno e íntimo, a ameaça da xenofobia e o racismo nacional. Em ressonância com a antropologia do Estado influenciada pela obra de Walter Benjamin, o autor examina os paradoxos da lei e as ambiguidades e contradições constitutivas do exercício de neutralização do ódio. Utilizando-se de casos concretos, Shoshan demonstra como às vezes o mesmo símbolo é banido ou tolerado, dependendo de quem o carregue e do contexto de uso. Por exemplo, enquanto a tatuagem de um soldado da Segunda Guerra Mundial é perdoada, a mercadoria antifascista é condenada por exibir uma suástica (mesmo que seja para a sua crítica) e a moradia dos jovens clientes dos aparelhos de intervenção estudados por Shoshan é invadida - logo depois de ser acolhida uma denúncia anônima de um vizinho alertando sobre música e símbolos nazistas.

Em tal engrenagem penal, as relações de intimidade e paródia, os excessos e as paranoias são constitutivos do trabalho de inteligência e segredo policial, destacando-se, nesses processos, duas figuras que são, no geral, ignoradas pelas ciências políticas e a sociologia do Estado: o policial encoberto e as redes de informantes civis, quesitos abordados no capítulo cinco, “The State Inside”. Para tanto, e em diálogo com Begoña Aretxaga, Allen Feldman e Michael Taussig, antropólogos que se debruçaram, na virada dos 2000, no tema da violência política, Shoshan recupera na sua análise o conceito de mímesis. A segunda parte do livro se encerra com os capítulos “Knowing Intimately” e “Advances in the Sciences of Exorcism”, dedicados ao papel dos trabalhadores sociais da ONG que o acolhera no trabalho de campo. Esses atores também produzem, como a polícia, um conhecimento íntimo do “delinquente político”, isto é, dos jovens que mostrariam interesse em abandonar o circuito de sociabilidade da ultradireita e sobre os quais são aplicadas outras técnicas de controle e de subjetivação, como o incentivo à participação em atividades culturais e esportivas.

Já na terceira parte, o livro indaga sobre os mecanismos através dos quais se procura inocular os valores da tolerância e o amor ao multiculturalismo, empreitada afetiva na qual participam diferentes atores, muitas vezes em contradição, como organizações civis pró-democracia, agências governamentais e militâncias antifascistas. Shoshan explora performances diversas, tais como passeatas, eventos de rua e seminários com especialistas e migrantes vítimas de racismo, atividades que sempre contam com ampla cobertura da mídia e que são tratadas em “Inoculating the National Public”. Em seguida, em “National Visions”, partindo do caso da misteriosa disseminação da estrela de Davi em diferentes monumentos em Berlim, em 2005, o autor discorre acerca do confronto entre regimes de visibilidade, termo do já citado Allen Feldman, debruçando-se sobre a miríade de interpretações que circularam a respeito dessas intervenções anônimas no espaço público. Neste capítulo final, as análises sobre o episódio são intercaladas com as conclusões da obra e o debate acerca da aparição dos corpos neonazistas, aqui definidas como performances de transgressão, em que o próprio corpo emerge como tática de visibilidade e legibilidade.

The Management of Hate, livro originalmente apresentado como tese doutoral que contou com a orientação da renomada antropóloga sul-africana Jean Comaroff, coloca-se como uma leitura mais do que necessária nestes tempos em que o Brasil se defronta, ou melhor, colide, com o “espectro do pertencimento político à direita”, conforme afirmaram Dmitri Fernandes e Debora Messenberg. Assim, o espírito crítico exibido no livro, ao examinar o diagrama político construído ao redor deste fenômeno, o dito extremismo de direita, apresenta um exercício analítico rigoroso que evita fórmulas simplórias e não teme incomodar tanto as forças pró-fascistas como aquelas ditas progressistas, que sob a retórica da defesa da paz social implodem qualquer imagem de racionalidade e parcimônia do aparelho burocrático. Nesta luta, como demonstra Shoshan, os excessos, os desejos e as ansiedades parecem dominar todas as frentes. Assim, embora a opacidade do pesquisador em sua inserção em campo possa incomodar alguns, o livro nos deixa uma pergunta importante: como fazer antropologia com aqueles do outro lado de nossas convicções políticas e éticas? Na atual ordem do mundo, estas são questões que, embora já seja um tanto tarde, a academia não pode seguir ignorando.

REFERÊNCIAS

SHOSHAN, Nitzan. 2016. The Management of Hate: Nation, Affect, and the Governance of Right-Wing Extremism in Germany. Princeton, New Jersey: Princeton University Press. 300 pp. [ Links ]

1Bolsista da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP).

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