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Anais da Sociedade Entomológica do Brasil

versão impressa ISSN 0301-8059versão On-line ISSN 1981-5328

An. Soc. Entomol. Bras. v.28 n.3 Londrina set. 1999

http://dx.doi.org/10.1590/S0301-80591999000300004 

ECOLOGIA, COMPORTAMENTO E BIONOMIA

 

Besouros coprófagos (Coleoptera: Scarabaeidae) coletados em Campo Grande, MS, Brasil

 

Coprophagous beetles (Coleoptera: Scarabaeidae) collected in Campo Grande, MS, Brazil

 

 

Wilson W. KollerI; Alberto GomesI; Sérgio Roberto RodriguesII; Rafael G. de Oliveira Alves I

IEmbrapa Gado de Corte, Caixa postal 154, 79002-970, Campo Grande, MS
IIUEMS, Rodovia Aquidauana/CERA, km 12, 79200-000, Aquidauana, MS

 

 


RESUMO

Massas fecais semi-frescas a quase secas foram coletadas semanalmente, em uma pastagem de Brachiaria decumbens Stapf, de maio de 1990 a abril de 1992. Estas fezes foram colocadas em baldes plásticos opacos (15 l), apresentando uma saída lateral e uma outra no topo, contendo frascos para a coleta dos besouros coprófagos adultos presentes nas massas. Foram coletados 18.844 exemplares da família Scarabaeidae, pertencentes a 37 espécies, dos seguintes gêneros: Ataenius, Aphodius, Agamopus, Pedaridium, Trichillum, Eurysternus, Dichotomius, Ontherus, Ateuchus, Sulcophanaeus, Gromphas, Digitonthophagus, Onthophagus e Canthon. Das espécies coletadas, 57% apresentam comportamento endocoprídeo, 35% paracoprídeo e, 8% telecoprídeo. Onthophagus hirculus (Mannerheim), Aphodius nigrita (Fabr.) e Ataenius sp.1 (Harold), foram as espécies mais freqüentes, constantes e abundantes.

Palavras-chave: Insecta, besouros coprófagos, pastagem, ecologia.


ABSTRACT

Semi-fresh to almost dried cattle dung pats were collected weekly in a pasture of Brachiaria decumbens Stapf, from May of 1990 to April of 1992. The faeces were placed into opaque plastic buckets (15 l) with oppenings at the sides and on the top, occluded with flasks to capture adult coprophagous beetles present in the pats. A total of 18.844 Scarabaeidae specimens were collected, belonging to 37 species of the Genera: Ataenius, Aphodius. Agamopus, Pedaridium, Trichillum, Eurysternus, Dichotomius, Ontherus, Ateuchus, Sulcophanaeus, Gromphas, Digitonthophagus, Onthophagus, and Canthon. Approximately 57% of the species were endocoprids, 35% were paracoprids, and 8% were telecoprids. The most frequent, constant, and abundant species were; Onthophagus hirculus (Mannerheim), Aphodius nigrita (Fabr.), and Ataenius sp.1 (Harold).

Key words: Insecta, dung beetles, pasture, ecology.


 

 

As massas fecais (MF) de bovinos podem permanecer nas áreas de pastagens durante oito a nove meses (Alves 1977) constituindo uma ameaça de ordem sanitária ao rebanho presente, devido aos parasitos de bovinos a elas associados. Temporariamente, estas MF reduzem a área útil da pastagem (Miranda et al. 1998, Haynes & Williams 1993). Calafiori & Alves (1980) e Miranda et al. (1998) relatam que os besouros coprófagos constituem uma maneira econômica e prática de incorporação dessas MF no solo. Os besouros, ao enterrarem ou colaborarem para a desestruturação das MF, aceleram o seu processo de ressecamento e decomposição. Isto reduz o período de utilização e permanência nesse ambiente de larvas de moscas ou nematódeos.

Segundo o ANUALPEC, Anuário da Pecuária Brasileira (FNP 1997), o rebanho de bovinos de corte do Mato Grosso do Sul (MS) é o maior do País, constituindo-se na principal atividade econômica do estado. Apesar das vastas áreas de pastagem existentes no MS pouco se sabe sobre os besouros coprófagos que nelas ocorrem, sendo até agora conhecidas algumas espécies coletadas por Flechtmann et al. (1995 b) em Selvíria, município situado na região Leste do MS.

A espécie introduzida pelo Centro Nacional de Pesquisa de Gado de Corte (CNPGC), da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) e, até o presente momento mencionada como sendo Onthophagus gazella (Fabr.), foi incluída no Gênero Digitonthophagus, passando a denominar-se D. gazella, conforme verificado no relato de Barbero & Lopes-Guerrero (1992), entre outros.

O presente estudo visou conhecer a fauna de besouros coprófagos associados a MF de bovinos na região de Campo Grande, MS, bem como a dinâmica populacional das espécies autóctones e da espécie introduzida.

 

Material e Métodos

O experimento foi conduzido na Fazenda da EMBRAPA-CNPGC, em Campo Grande, MS, no período de maio de 1990 a abril de 1992. A área de pastagem em estudo, com predominância de Brachiaria decumbens Stapf, esteve permanentemente ocupada por bovinos da raça Nelore. Semanalmente, entre as 8 e 9 h da manhã, foram coletadas e conduzidas ao laboratório três massas fecais (MF). Estas apresentavam textura semi-fresca a quase seca, como classificadas por Ávila & Fernández-Sigler (1988), ou ainda, com idades dois e três, conforme classificadas por Flechtmann et al. (1995 a).

As MF foram depositadas em baldes plásticos opacos com tampa, com capacidade para 15 l, medindo 20 cm de diâmetro de base e 30cm de abertura superior. Os baldes continham uma camada de 8 cm de solo e, no nível deste, uma saída lateral, havendo ainda uma segunda saída no topo. Nessas saídas eram posicionados os frascos para captura dos insetos presentes nas MF.

As MF foram mantidas nos baldes durante 40 dias, recolhendo-se duas vezes por semana os insetos retidos nos frascos de captura. Após esse período, o solo e os resíduos das MF eram retirados dos baldes, recolhendo-se os insetos remanescentes. Os insetos adultos obtidos eram acondicionados em frascos contendo álcool 70º GL até serem devidamente identificados.

Os dados de coleta foram analisados utilizando-se índices faunísticos de abundância, freqüência, constância e diversidade (Silveira Neto et al. 1976).

 

Resultados e Discussão

Foram coletados 18.844 besouros coprófagos, pertencentes a 37 espécies. A quantidade de espécies foi inferior às 46 obtidas por Flechtmann et al. (1995b) em Selvíria, MS.

Utilizando-se da classificação proposta por Waterhouse (1974), verificou-se que os besouros de comportamento endocoprídeo (que se alimentam e nidificam dentro das MF) foram coletados em maior quantidade, totalizando 57% das espécies em comparação aos paracoprídeos, que representaram 35% e, 8% de telecoprídeos. Estes dois últimos grupos enterram porções (esferas) de MF no próprio local de obtenção (paracoprídeos) ou a diferentes distâncias (telecoprídeos). Os besouros de hábito endocoprídeo representaram 82,6% do total de indivíduos coletados, os paracoprídeos 17,4 e os telecoprídeos menos de 0,1% (Tabela 1). Em trabalho semelhante, realizado em Selvíria, MS, Flechtmann et al. (1995c) verificaram que 53,6% das espécies apresentaram comportamento endocoprídeo e o restante (46,4%) eram paracoprídeos.

Ao se coletar MF no campo, os besouros de comportamento endocoprídeo foram capturados em maior número de indivíduos e ou de espécies porque permaneceram mais tempo nas MF do que os pertencentes aos outros dois grupos. Os besouros paracoprídeos foram encontrados nas fezes apenas no momento da retirada das porções que iriam enterrar nas galerias previamente escavadas sob as MF. Já os telecoprídeos, que preparam suas esferas de MF e as transportam (rolam) a distâncias locais, permaneceram menos tempo junto às fezes do que os besouros dos grupos anteriores.

As espécies coprófagas autóctones observadas, bem como a espécie introduzida, Digitonthophagus gazella (Fabr.), apresentaram maior atividade noturna ou crepuscular, especialmente no que diz respeito à colonização de MF. Nas horas mais quentes do dia havia pouca ou nenhuma atividade de separação e enterrio de porções de MF pela maioria das espécies de besouros de comportamento paracoprídeo observadas, sendo que os indivíduos se recolhiam às galerias sob as fezes. Os endocoprídeos, reduzindo ou não o ritmo de atividade coprófaga, permaneceram no interior das MF. Portanto, a coleta de maior quantidade de besouros de hábito endocoprídeo pode, em parte, ser explicada em função da metodologia utilizada, o horário de coleta e o comportamento próprio de cada grupo de besouros envolvidos. Flechtmann et al. (1995c) comentaram que, para estudos direcionados a besouros endocoprídeos, a metodologia de coleta de MF seria a mais adequada.

No primeiro ano de coleta, Onthophagus hirculus (Mannerheim) e Ataenius sp.1 foram as espécies mais freqüentes, constantes e abundantes, enquanto que, no segundo ano, além destas, incluiu-se Aphodius nigrita Fabr. (Tabela 2). A maior diversidade de espécies ocorreu no segundo ano de coleta (Tabela 1).

Na região de Selvíria, MS, Aphodius lividus Blt. (inicialmente identificado como A. pseudolividus), Ataenius sp.3, Trichillum externepunctatum de Borre, Aphodius nigrita, Onthophagus hirculus Mannerheim e Dichotomius nisus (Germar) apresentaram alto índice de abundância, sendo que O. hirculus foi a espécie mais freqüente no período seco do ano (Flechtmann et al. 1995d).

Aphodius infuscatipennis Schm., A. lividus, A. nigrita, Ataenius sp.1 e Trichillum externepunctatum foram coletados em grande quantidade, mesmo durante os meses de maio a setembro, que corresponde ao período frio e seco do ano (Figs. 1, 2 e 3). Essas são espécies endocoprídeas e todo seu ciclo evolutivo ocorre dentro de MF, mas quando as condições locais se tornam desfavoráveis estes abandonam as MF onde se encontram para procurar outras mais adequadas.

Ávila & Fernández-Sigler (1988) observaram que, quando as temperaturas mínimas alcançavam valores abaixo de 0ºC as fezes mais hidratadas congelavam com maior rapidez. Neste caso, os besouros coprófagos preferiam fezes com textura mais seca, demonstrando claramente uma situação em que houve influência da temperatura na preferência por massas fecais de diferentes texturas ou idades. A coleta de besouros coprófagos no período frio e seco do ano corrobora os dados de Rodrigues (1996) que, ao estudar o microclima presente em MF de bovinos na região de Piracicaba, SP, observou que estas apresentavam condições de serem exploradas por estes besouros durante o período seco e frio do ano.

Dentre os besouros de hábito paracoprídeo apenas O. hirculus ocorreu durante todo o período de condução deste estudo. Entretanto, mesmo ocorrendo em grande quantidade (Fig. 3), por ser uma espécie de pequena biomassa, consegue remover pouco volume de MF da superfície das áreas de pastagem.

D. gazella passou a ser coletada em maior quantidade no final do segundo ano (Fig. 3). Esta espécie foi liberada, em maio de 1990, em áreas de pastagem adjacentes quando do início das presentes coletas. Acredita-se que a pequena quantidade inicialmente coletada seja em função de esta espécie estar, na ocasião, em processo de colonização daquela área.

Flechtmann et al. (1995d) selecionaram Dichotomius anaglypticus (Mannerheim), D. nisus, D. semiaeneus (Germar), Ontherus appendiculatus (Mannerheim) e O. sulcator (Fabricius), como merecedores de estudos mais detalhados, devido à sua importância como agentes de remoção de MF nas pastagens. Os dados aqui apresentados corroboram o relato daqueles autores, podendo-se acrescentar D. gazella àquela relação, pois esta espécie parece estar colonizando bem as áreas de pastagens da região de Campo Grande, MS. A espécie introduzida certamente está contribuindo substancialmente na incorporação ou desestruturação das MF e, assim, auxiliando no controle de moscas e helmintos de interesse veterinário que as utilizam como veículo de disseminação ou substrato para o desenvolvimento.

 

Agradecimentos

Aos colegas Carlos A. H. Flechtmann (UNESP Ilha Solteira, SP), Ivo Bianchin (CNPGC) e ao Técnico Agrícola, Ronaldo Luiz da Silva, pela colaboração.

 

Literatura Citada

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Recebido em 08/05/98. Aceito em 21/06/99.

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