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Anais da Sociedade Entomológica do Brasil

Print version ISSN 0301-8059

An. Soc. Entomol. Bras. vol.29 no.2 Londrina June 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0301-80592000000200003 

ECOLOGIA, COMPORTAMENTO E BIONOMIA

 

Estágios ninfais fotossensíveis à indução da diapausa em Euschistus heros (Fabr.) (Hemiptera: Pentatomidae)

 

Photosensitive nymphal stages to diapause induction in Euschistus heros (Fabr.) (Hemiptera: Pentatomidae)

 

 

Ana P. M. MourãoI; Antônio R. PanizziII

IUniversidade Estadual de Londrina, Departamento de Agronomia, Caixa postal 6001, 86051-970, Londrina, PR
IIEmbrapa, Centro Nacional de Pesquisa de Soja, Caixa postal 231, 86001-970, Londrina, PR

 

 


RESUMO

Foram desenvolvidos estudos em laboratório com o percevejo-marrom Euschistus heros (Fabr.) para se determinar o estágio fotossensível à indução da diapausa. Utilizaram-se duas combinações de fotoperíodo 10L: 14E e 14L: 10E mantendo-se constante a temperatura em 25 ± 1ºC e a umidade relativa em 65 ± 5%. Fases distintas do desenvolvimento dos insetos foram submetidas às combinações fotoperiódicas, com os seguintes tratamentos: T1 = 10L: 14E (ovo-adulto); T2 = 14L: 10E (ovo) e 10L: 14E (1º ínstar-adulto); T3 = 14L: 10E (ovo-1º ínstar) e 10L: 14E (2º ínstar-adulto); T4 = 14L: 10E (ovo-2º ínstar) e 10L: 14E (3º ínstar-adulto); T5 = 14L: 10E (ovo-3º ínstar) e 10L: 14E (4º ínstar-adulto); e T6 = 14L: 10E (ovo-4º ínstar) e 10L: 14E (5º ínstar-adulto). Sob fotoperíodo de dias curtos, de ovo a adulto (T1), o tempo de incubação dos ovos foi maior (6,1 dias) do que o observado nos demais tratamentos (5,3 a 5,6 dias). O tempo total de desenvolvimento foi maior (35,5 dias) para insetos submetidos a fotoperíodo de dias curtos, a partir do ovo (T1), do 1º ínstar (T2), do 2º ínstar (T3) ou do 4º ínstar (T4), do que para os insetos sob fotoperíodo de dias curtos a partir do 4º (T5) ou 5º ínstar (T6; cerca de 32,0 dias). A mortalidade total foi maior (56,7%) para os insetos que permaneceram sob fotoperíodo de dias curtos, de ovo a adulto (T1), do que para aqueles nos demais tratamentos (26,7 a 45,0%). Insetos submetidos ao fotoperíodo de dias curtos, a partir do ovo (T1), 1º ínstar (T2), 2º ínstar (T3) ou 3º ínstar (T4) apresentaram de 84,8% a 100% dos indivíduos em diapausa. A partir do tratamento com fotoperíodo longo, até o 3º ínstar (T5), não ocorreu mais diapausa. Esses resultados demonstram que a fotossensibilidade de E. heros inicia-se nos primeiros estágios de desenvolvimento, e que se acentua a partir do 3º ínstar.

Palavras-chave: Insecta, percevejo-marrom, diapausa, fotossensibilidade, soja.


ABSTRACT

Studies were conducted in the laboratory to determine the photosensitive stage to diapause induction in Euschistus heros (Fabr.). Two photoperiods (10L: 14D and 14L: 10D) were used, maintaining the temperature at 25 ± 1ºC and the relative humidity at 65 ± 5%. Distinct developmental stages were submitted to the following photoperiodic combinations: T1 = 10L: 14D (egg-adult); T2 = 14L:10D (egg), and 10L:14D (1st instar-adult); T3 = 14L:10D (egg-1st instar), and 10L: 14D (2nd instar-adult); T4 = 14L: 10D (egg-2nd instar), and 10L: 14D (3rd instar-adult); T5 = 14L: 10D (egg-3rd instar), and 10L: 14D (4th instar-adult); T6 = 14L: 10D (egg-4th instar), and 10L: 14D (5th instar-adult). Under short photophase from egg to adult (T1), the incubation period was longer (6.1 days) than that observed for bugs in the other treatments (5.3 to 5.6 days). The developmental time was longer (35.5 days) for insects reared under short photophase from egg to adult (T1), 1st instar to adult (T2), 2nd instar to adult (T3) or 3rd instar to adult (T4), than that presented by insects maintained under short photophase starting on the 4th (T5) or 5th instar (T6) (32.0 days). Nymph mortality was greater (56.7%) under T1 than under the other treatments (26.7 to 45.0 %). Insects submitted to short photophase from egg to adult (T1), and long photoperiod from egg to 2nd instar (T2-T4), showed 84.8% to 100.0% of individuals in diapause. Diapause did not occur in bugs exposed to short photophase only after the 4th or 5th instar. These results showed that E. heros photosensitivity occurs during the first stages of development, and that from the 3rd instar on, photosensitivity increased.

Key words: Insecta, Neotropical brown stink bug, diapause, photosensitivity, soybean.


 

 

O percevejo-marrom Euschistus heros (Fabr.) (Hemiptera: Pentatomidae), relativamente raro na década de 70, é atualmente uma das principais pragas da soja [Glycine max (L.) Merrill] no Brasil, principalmente nas regiões mais quentes do Norte do Estado do Paraná ao Centro-Oeste brasileiro (Panizzi & Slansky 1985, Cividanes & Parra 1994).

No Norte do Paraná (latitude 23º 11'S, longitude 51º 11'O), observou-se que após a soja ser colhida, adultos de E. heros alojam-se sob folhas secas, aí permanecendo em estado de diapausa (neste caso hibernação ou quiescência) (Panizzi & Niva 1994). Neste período os insetos entram em um estado dinâmico de baixa atividade metabólica mediado neuro-hormonalmente (Tauber et al. 1986).

O início da diapausa é ocasionado pela detecção de mudanças sazonais no ambiente, como redução do fotoperíodo, da temperatura e de fontes alimentares. O fotoperíodo, entretanto, é o fator considerado mais determinante (Beck 1980). A premissa básica para que ocorra a diapausa é a existência de estágios sensíveis aos sinais do ambiente, no caso, o fotoperíodo (Tauber et al. 1986).

Neste estudo, procurou-se testar o efeito de diferentes combinações fotoperiódicas a fim de se detectar um possível estágio ninfal fotossensível em E. heros.

 

Material e Métodos

Os estudos foram conduzidos no Laboratório de Entomologia da Embrapa-Soja em Londrina, PR, de março a junho de 1998. Posturas de E. heros foram obtidas da colônia mantida em laboratório a 25 ± 1ºC, 65 ± 5% UR e 14L: 10E. As posturas foram divididas em seis grupos, para evitar o efeito maternal, e colocadas em placas de Petri (9,0 x 1,5cm) forradas com papel filtro úmido e mantidas em câmaras climatizadas (BOD), a 25 ± 1ºC, 65 ± 5% UR e 14L: 10E ou 10L: 14E de regime fotoperiódico, de acordo com o tratamento (Tabela 1).

 

 

No dia da eclosão, as ninfas foram individualizadas em placas de Petri e alimentadas a partir do segundo ínstar (o primeiro ínstar não se alimenta) com vagem verde de soja, cv. Paraná. O alimento foi renovado a cada dois dias. No dia da emergência, os adultos obtidos foram sexados e pesados.

Ao atingirem o 25º dia da fase adulta, os percevejos foram dissecados para a observação do grau de desenvolvimento dos órgãos reprodutivos sob microscópio estereoscópico. Avaliou-se também o tamanho dos espinhos pronotais, que foram medidos sob o microscópio com ocular micrométrica. Esses parâmetros são usualmente avaliados como indicadores da diapausa em pentatomídeos (Albuquerque 1989).

Os dados obtidos foram submetidos à análise de variância, usando-se o sistema SANEST, e as médias comparadas utilizando-se o teste de Duncan (P<0,05).

 

Resultados e Discussão

Tempo de desenvolvimento e mortalidade. Foram observadas diferenças, embora nem sempre significativas, na duração média (dias) dos períodos de vida dos insetos, nos diferentes tratamentos (Tabela 2). Na fase de ovo, ovos do tratamento 1 (fotoperíodo curto) permaneceram sem eclodir por 6,1 dias, enquanto nos demais tratamentos a eclosão dos ovos variou de 5,3 a 5,6 dias, sendo significativamente menor. Sob fotoperíodo de 14L: 10E, Villas Bôas & Panizzi (1980) encontraram em média 6,8 dias de período de incubação. Esses dados obtidos comparados com o encontrado na literatura, demonstram que há uma correlação negativa entre fotoperíodo e tempo necessário para eclosão.

Ninfas do 2º e 3º ínstar, mantidas em menor tempo de luz (10L: 14E), necessitaram de períodos mais longos para completar o desenvolvimento (6,5 e 5,5 dias, T2, respectivamente) que ninfas mantidas sob fotoperíodo maior (14L: 10E) (4,7 e 4,1 dias, T5, respectivamente) (Tabela 2). Esses resultados suportam aqueles relatados por Pinto & Panizzi (1994) (5,5 e 4,7 dias respectivamente), para condições fotoperiódicas de 14L: 10E. Esse maior período no desenvolvimento foi observado também no 4º ínstar (6,2 dias) com as ninfas submetidas a fotoperíodo curto a partir do 2º ínstar, em comparação aos 5,4 dias necessários para completar o 4º ínstar sob fotoperíodo longo.

O tempo total de desenvolvimento (ovo-5º ínstar) para insetos dos tratamentos T1 a T4 foi significativamente maior (em média 35,5 dias) do que para insetos submetidos aos tratamentos T5 e T6 (32,0 dias). Costa et al. (1998) encontraram o tempo de 38,6 dias sob fotoperíodo 14L: 10E. Isso sugere que à medida que se aumenta o número de ínstares expostos ao fotoperíodo mais longo, o tempo de desenvolvimento é gradualmente reduzido. Ali & Ewiess (1977) sugerem que a diminuição do número de dias requeridos para o desenvolvimento ninfal com o aumento do fotoperíodo se deve ao fato que o fotoperíodo longo promove um período maior de alimentação, aumentando a velocidade das funções metabólicas e acelerando o desenvolvimento.

A mortalidade das ninfas foi maior no tratamento 1 (56,7%) que nos demais tratamentos (variação de 26,7 a 45%; Tabela 2). Em outros estudos com E. heros alimentados em soja, ocorreu 28,6% (Pinto & Panizzi 1994) e 33,2% (Meneguim et al. 1989) de mortalidade. O percentual de mortalidade das ninfas relativamente alto pode ser devido à condição de fotoperíodo curto (10L: 14E), já que E. heros é melhor adaptado às regiões de temperatura elevada (Panizzi & Slansky 1985, Cividanes & Parra 1994) e, provavelmente, fotoperíodo mais longo.

Peso corporal. O peso corporal das fêmeas de E. heros tendeu a aumentar a medida que se aumentou o fotoperíodo de 79,7 (T1) a 85,6 mg (T6; Tabela 3). O peso menor de fêmeas cujas ninfas se desenvolveram total ou parcialmente sob fotoperíodo de dias curtos, pode ser explicado pelo fato de condições fotoperiódicas suprimirem ou inibirem a maturação das gônadas e o desenvolvimento dos ovários (Ali & Ewiess 1977). O peso dos machos variou de 70,0 mg (T1) a 78,4 mg (T3), mas não seguiu a tendência do observado para as fêmeas (Tabela 3). Em média, o peso desses insetos foi superior ao encontrado em experimentos realizados com E. heros alimentados em soja, por Meneguim et al. (1989; 67,0 mg) e Pinto & Panizzi (1994; 67,8 mg).

 

 

Em geral, as fêmeas apresentaram pesos frescos significativamente maiores que os machos, principalmente quando as ninfas foram submetidas por mais tempo ao fotoperíodo longo (Tabela 3).

Estágio fotossensível. Os testes realizados com as ninfas de E. heros em laboratório, demonstraram que, em condições de fotoperíodos curtos, a diapausa foi induzida em 100% dos indivíduos. A fotossensibilidade iniciou-se nos primeiros estágios de desenvolvimento, acentuando-se a partir do 3º ínstar (Tabela 4). A sensibilidade nos primeiros estágios ninfais foi observada por Albuquerque (1993), para o pentatomídeo Oebalus poecilus (Dallas). Ali & Ewiess (1977) observaram que o pentatomídeo Nezara viridula (L.) apresenta o 4º ínstar como o estágio fotossensível. Já em larvas de Platynota idaeusalis (Walker) (Lepidoptera: Tortricidae), foi necessário que os cinco estágios larvais fossem expostos a dias curtos para que 100% dos insetos entrassem em diapausa (Rock et al. 1983).

 

 

Os resultados destes estudos permitem concluir que o percevejo marrom E. heros tem o desenvolvimento prejudicado em fotoperíodos curtos (12h L ou menos), e que a fotossensibilidade inicia-se nos primeiros estágios de desenvolvimento, principalmente a partir do 3º ínstar. Embora não testado, condições de baixas temperaturas e escassêz de alimentos podem também induzir o inseto a entrar em diapausa. No caso, a determinação dos estágios fotossensíveis é importante para evitar a diapausa em condições laboratoriais, quando há necessidade de produção de ovos tanto para estudos de biologia como para a criação de inimigos naturais.

 

Agradecimentos

A Gilberto S. Albuquerque (UENF), Amarildo Pasini (UEL), Alexandre Cattelan e Lenita J. Oliveira (Embrapa-Soja) pelas sugestões na versão original do artigo. Esta é a contribuição da Embrapa Soja de número 010/99, publicada com a permissão do Chefe Adjunto de Pesquisa e Desenvolvimento.

 

Literatura Citada

Albuquerque, G. S. 1989. Ecologia de populações, biologia e estratégias da história de vida de Oebalus poecilus (Dallas,1851) (Hemiptera: Pentatomidae). Dissertação de mestrado, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, RS, 309 pp.         [ Links ]

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Recebido em 20/04/99. Aceito em 22/03/00.