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Anais da Sociedade Entomológica do Brasil

Print version ISSN 0301-8059On-line version ISSN 1981-5328

An. Soc. Entomol. Bras. vol.29 no.4 Londrina Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0301-80592000000400017 

PROTEÇÃO DE PLANTAS

 

Resistência cruzada entre o dicofol e outros acaricidas em Brevipalpus phoenicis (Geijskes) (Acari: Tenuipalpidae)

 

Cross-resistance between dicofol and other acaricides in Brevipalpus phoenicis (Acari: Tenuipalpidae)

 

 

Everaldo B. Alves; Celso Omoto; Claudio R. Franco

ESALQ/USP, Departamento de Entomologia, Fitopatologia e Zoologia Agrícola, Av. Pádua Dias 11, 13418-900, Piracicaba, SP; E-mail: celomoto@carpa.ciagri.usp.br

 


RESUMO

Relações de resistência cruzada entre o dicofol e alguns acaricidas recomendados na cultura de citros foram avaliadas em Brevipalpus phoenicis (Geijskes) para identificar produtos alternativos a serem utilizados em um programa de manejo da resistência ao dicofol. Linhagens de B. phoenicis susceptível e resistente ao dicofol foram testadas com os acaricidas óxido de fenbutatina, propargite, fempiroximato e bromopropilato. A linhagem de B. phoenicis resistente ao dicofol apresentou resistência cruzada positiva ao bromopropilato e resistência cruzada negativa ao fempiroximato. Não foi detectada resistência cruzada entre o dicofol e os acaricidas óxido de fenbutatina e propargite. Os resultados indicam que dentre os acaricidas testados, somente o bromopropilato deve ser evitado em programas de manejo da resistência de B. phoenicis ao dicofol.

Palavras-chave: Ácaro da leprose, Citrus sinensis, controle químico, manejo da resistência


ABSTRACT

Cross-resistance relationships between dicofol and other acaricides recommended in citrus were evaluated in Brevipalpus phoenicis (Geijskes) to find alternative products for managing dicofol-resistant mites. Susceptible and dicofol-resistant B. phoenicis strains were tested against fenbutatin oxide, propargite, fenpyroximate and bromopropilate. Dicofol-resistant B. phoenicis showed positive cross-resistance to bromopropilate and negative cross-resistance to fenpyroximate. No cross-resistance was detected between dicofol and the acaricides fenbutatin oxide and propargite. Therefore, among the acaricides tested only bromopropilate should be avoided for managing dicofol resistance in B. phoenicis.

Key words: Citrus leprosis mite, Citrus sinensis, chemical control, resistance management


 

 

O conhecimento das relações de resistência cruzada entre os produtos recomendados para o controle do complexo de pragas em uma determinada cultura é uma das condições básicas para a implementação de qualquer estratégia de manejo da resistência envolvendo o uso de produtos químicos (Georghiou 1983, Tabasknik 1989, Denholm & Rowland 1992). Dentre as pragas que atacam a cultura de citros no Brasil, destacam-se o ácaro da leprose, Brevipalpus phoenicis (Geijskes), e o ácaro da falsa ferrugem, Phyllocoptruta oleivora (Ashmead). Estima-se que mais de 90 milhões de dólares são gastos anualmente com acaricidas na citricultura brasileira, o que representa aproximadamente 20% do custo de produção (Salvo Filho 1997). Devido à alta pressão de seleção com acaricidas, a evolução da resistência a acaricidas nestas duas espécies de ácaro tem sido um problema emergente (Gravena 1994, Omoto et al. 1994, Omoto 1995). Sendo assim, a correta escolha do acaricida a ser utilizado é fundamental para a obtenção do controle satisfatório da praga, assim como para a preservação da vida útil dos acaricidas.

Estudos de resistência cruzada com o dicofol têm sido realizados em outras espécies de ácaros, principalmente da família Tetranychidae. Mansour & Plaut (1979) constataram resistência cruzada positiva entre o dicofol e o bromopropilato em Tetranychus cinnabarinus (Boisd.) resistente a dicofol. Fergusson-Kolmes et al. (1991) também comprovaram a presença de resistência cruzada positiva entre o dicofol e os acaricidas bromopropilato, clorobenzilato e amitraz em uma linhagem isogênica de Tetranychus urticae (Koch) resistente ao dicofol. A ocorrência de resistência cruzada depende do mecanismo de resistência, e portanto não pode ser extrapolada interespecificamente, ou mesmo intraespecicamente. O objetivo do presente trabalho foi o de determinar as relações de resistência cruzada em B. phoenicis entre o dicofol e outros acaricidas recomendados na cultura de citros no Brasil, como o óxido de fenbutatina, propargite, fempiroximato e bromopropilato.

 

Material e Métodos

Duas linhagens de B. phoenicis, uma susceptível e outra resistente ao acaricida dicofol, foram utilizadas no presente estudo. Uma população de B. phoenicis que vinha sendo criada em laboratório na ausência de pressão seletiva com acaricidas há mais de cinco anos foi tomada como a linhagem susceptível de referência (S). A linhagem de B. phoenicis resistente ao dicofol (R) foi obtida através da seleção com dicofol em condições laboratoriais, a partir de uma população de B. phoenicis coletada em um pomar comercial de citros da região de Itápolis, SP em 1997, onde a freqüência de uso deste acaricida era bastante alta. As CL50s estimadas para as linhagens S e R foram de 7,44 µg de dicofol / mL de água destilada [ppm (I.A.)] e 422,45 ppm (I.A.), respectivamente.

As linhagens S e R foram testadas com os acaricidas óxido de fenbutatina (Torque® 500 SC, suspensão concentrada, 500 g de óxido de fenbutatina/L, Cyanamid Química do Brasil Ltda.), propargite (Omite® 720 CE BR, concentrado emulsionável, 720 g de propargite/L, Uniroyal Química S. A.), fempiroximato (Kendô® 50 SC, suspensão concentrada, 50 g de fempiroximato/L, Hoechst Schering AgrEvo do Brasil Ltda.) e bromopropilato (Neoron® 500 CE, concentrado emulsionável, 500 g de bromopropilato/L, Novartis Biociências S. A.). O método de bioensaio adotado foi o de contato residual para todos os acaricidas. Cinco a seis concentrações de cada produto, que proporcionassem mortalidade entre 5 a 99%, foram testadas em ambas as linhagens. As diferentes concentrações dos produtos escolhidas para os bioensaios foram preparadas através da diluição dos produtos comerciais em água destilada. Os bioensaios foram realizados em arenas de 2,6 cm de diâmetro confeccionadas com folhas de laranjeira da variedade Pera Rio coletadas em um pomar sem aplicação de acaricidas. As arenas de folha foram mantidas sobre algodão embebido em água até a pulverização do produto. A aplicação foi feita sobre a superfície adaxial dos discos de folha através da torre de pulverização de Potter (Burkard Manufacturing, Rickmansworth, Herts, Reino Unido) calibrada a uma pressão de 10 psi (68,95 kPa). Foi utilizado um volume de 2 mL de solução em cada pulverização, obtendo-se a deposição média de resíduo úmido de 1,56 mg/cm2 sobre as arenas. Após a aplicação, as arenas foram retornadas sobre o algodão umedecido até a secagem do produto. Em seguida, as arenas foram acondicionadas individualmente em placas acrílicas de 3,5 cm de diâmetro (Falcon 1008, Becton Dickinson Labware, Lincoln Park, NJ, Estados Unidos) contendo 2 ml de uma mistura ainda não geleificada de ágar-água na concentração de 2,3%. Após a geleificação do substrato no fundo da placa, uma barreira para evitar a fuga dos ácaros foi construída ao redor dos discos de folha com a mesma mistura de ágar-água (adaptado de Vestergaard et al. 1995).

Foram transferidos 10 ácaros adultos por arena. Cada concentração foi repetida cinco a seis vezes ao longo do tempo e cada repetição foi constituída por aproximadamente 40 ácaros. Após a infestação dos ácaros nas arenas, as placas foram tampadas e mantidas em câmara climática a 25±1ºC, umidade relativa de 70±10% e fotofase de 14 horas. A mortalidade foi avaliada 24 horas após a infestação com o auxílio de um pincel com um único pelo e microscópio estereoscópico. Os ácaros foram virados de costas e aqueles que retornaram à posição normal e andaram foram considerados vivos. As repetições que apresentaram uma mortalidade superior a 15% na testemunha foram descartadas, assim como aquelas cuja perda de ácaros no ágar ultrapassou 15%.

Os dados de mortalidade de cada produto para as duas linhagens de B. phoenicis foram submetidos à análise de Probit através do programa POLO-PC (LeOra Software 1987). Um teste de paralelismo das linhas de concentração-resposta de cada produto para as linhagens S e R foi conduzido. As relações de resistência cruzada entre os produtos estudados e o dicofol foram obtidas através da análise de sobreposição ou não dos intervalos de confiança das CL50s estimadas de cada produto para as linhagens S e R. O nível de significância adotado para os testes foi de a=0,05.

 

Resultados e Discussão

Os acaricidas óxido de fenbutatina, propargite e fempiroximato se mostraram como opções viáveis dentro de um programa de manejo da resistência de B. phoenicis ao dicofol. Não foi detectada presença de resistência cruzada entre o dicofol e os acaricidas óxido de fenbutatina e propargite. Pelo teste de paralelismo das linhas de regressão estimada através da análise de próbite, verificou-se que as respostas das duas linhagens foram semelhantes para o óxido de fenbutatina (c2=0,285; g.l.=1; P>0,05) (Fig. 1A) e propargite (c2=0,027; g.l.=1; P>0,05) (Fig. 1B). Foi verificada uma sobreposição dos intervalos de confiança das CL50s do óxido de fenbutatina e propargite estimados para as duas linhagens (Tabela 1).

 

 

Trabalhos realizados em outras espécies de ácaros confirmam a inexistência de resistência cruzada entre o dicofol e acaricidas organoestânicos, como por exemplo em Panonychus ulmi (Koch) (Pree & Wagner 1987), T. cinnabarinus (Mansour & Plaut 1979) e T. urticae (Fergusson-Kolmes et al. 1991). Com relação ao propargite, Fergusson-Kolmes et al. (1991) não detectaram presença de resistência cruzada entre o dicofol e propargite em T. urticae. Por outro lado, Mansour & Plaut (1979) reportaram presença de uma moderada resistência cruzada entre o dicofol e propargite em T. cinnabarinus. Pelo fato dos autores não terem utilizado uma linhagem isogênica, há a possibilidade da ocorrência de resistência múltipla na linhagem de T. cinnabarinus testada.

Resistência cruzada negativa foi verificada entre o dicofol e fempiroximato em B. phoenicis, ou seja, uma maior susceptibilidade ao fempiroximato foi verificada para a linhagem R do que em relação à linhagem S (Tabela 1 e Fig. 1C). Não foram verificadas diferenças estatísticas no coeficiente angular estimado pela análise de Probit para as linhagens S e R (c2=0,003; g.l.=1; P>0,05) (Fig. 1C), indicando que as duas linhagens respondem de maneira semelhante ao fempiroximato. No entanto, a CL50 estimada para a linhagem R foi estatisticamente inferior à da linhagem S (Tabela 1). Os estudos realizados na presente pesquisa não permitem explicar as causas da resistência cruzada negativa entre os dois acaricidas; pois haveria a necessidade da elucidação dos mecanismos de resistência de B. phoenicis ao dicofol. Fergusson-Kolmes et al. (1991) detectaram resistência cruzada negativa entre o dicofol e clorpirifós etil em T. urticae. Uma maior ativação de clorpirififós para clorpirifós-oxon através das enzimas oxidativas mediadas pelo citocromo P-450 na linhagem de T. urticae resistente ao dicofol foi apontada por Hatano et al. (1992).

Resistência cruzada positiva foi verificada entre o dicofol e bromopropilato em B. phoenicis, ou seja, a linhagem de B. phoenicis resistente ao dicofol também se mostrou resistente ao bromopropilato (Tabela 1; Fig. 1D). A estimativa da CL50 do bromopropilato para a linhagem R não foi possível de ser realizada devido à repelência ocasionada pelo produto em concentrações superiores a 320 ppm de bromopropilato. Sendo assim, a maioria dos ácaros testados foram perdidos na solução ágar-água; diminuindo a precisão na estimativa da mortalidade nas concentrações testadas para a linhagem R. Ácaros sobreviventes da linhagem R foram observados mesmo a uma alta concentração de bromopropilato de 3.200 ppm. No entanto, a linhagem S se mostrou altamente susceptível a este acaricida. As CL50 e CL99 estimadas para a linhagem S através da análise de Probit foram de 5,81 (IC 95% 4,64-7,29) e 21,91 (IC 95% 13,12-37,16) ppm (I.A.), respectivamente. Pela impossibilidade de obtenção de uma linhagem isogênica de B. phoenicis resistente ao dicofol devido ao seu modo de reprodução predominantemente por telitoquia, os resultados obtidos poderiam indicar a ocorrência de resistência múltipla. Porém, de acordo com os resultados obtidos com outras espécies de ácaro como T. cinnabarinus (Mansour & Plaut 1979) e T. urticae (Fergusson-Kolmes et al. 1991), há grandes indícios de resistência cruzada entre o dicofol e bromopropilato.

A partir dos dados obtidos no presente trabalho, fica evidente que em um programa de manejo da resistência de B. phoenicis ao dicofol, o acaricida bromopropilato deve ser evitado na rotação de acaricidas. A vantagem da resistência cruzada negativa entre o dicofol e o fempiroximato no manejo da resistência de B. phoenicis ao dicofol deve ser melhor explorada. Além dos acaricidas testados no presente trabalho, outros acaricidas recomendados em citros no Brasil necessitam ser estudados quanto à caracterização da resistência de B. phoenicis, assim como as suas relações de resistência cruzada. Devido ao reduzido número de cromossomos em B. phoenicis (n=2), há um problema potencial de seleção de linhagens do ácaro resistente a mais de um produto através da resistência múltipla (Omoto 1995). Sendo assim, o uso racional de acaricidas em citros deve ser observado com grande atenção para a maximização no controle de B. phoenicis ao menor custo possível.

 

Agradecimentos

À Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) pelo apoio financeiro na execução da presente pesquisa e à Coordenação de Aperfeiçoamento do Pessoal de Nível Superior (CAPES) e ao Conselho Nacional de Desenvolvimento Cientifico e Tecnológico (CNPq) pela concessão de bolsas de estudo e de produtividade em pesquisa, respectivamente.

 

Literatura Citada

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Aceito em 21/09/2000.

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