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Anais da Sociedade Entomológica do Brasil

Print version ISSN 0301-8059

An. Soc. Entomol. Bras. vol.29 no.4 Londrina Dec. 2000

http://dx.doi.org/10.1590/S0301-80592000000400024 

COMUNICAÇÃO CIENTÍFICA

 

Associação de moscas-das-frutas (Diptera: Tephritidae) com a "meleira do mamoeiro" (Carica papaya L.)

 

Association of fruit flies (Diptera: Tephritidae) with the sticky disease of papaya (Carica papaya L.)

 

 

Antonio S. NascimentoI; Walter J. R. MatrangoloII; Cristiane J. BarbosaI; Oton M. MarquesIII; Tuffi C. HabibeIII

IEmbrapa Mandioca e Fruticultura, Caixa postal 007, 44.480-000, Cruz das Almas, BA
IIEmbrapa Milho e Sorgo, Caixa postal 151, 35.701-970, Sete Lagoas, MG
IIIEscola de Agronomia, UFBA, 44.380-000, Cruz das Almas, BA

 

 


ABSTRACT

Since 1988, the medfly Ceratitis capitata (Wiedemann) was described infesting papaya (Carica papaya) cv. Sunrise Solo in North of the State of Espírito Santo, Brazil. Two experiments were carried out to determine the infestation of C. capitata and Anastrepha obliqua (Macq.) in papaya fruit, healthy and infected by sticky disease. In the 1st experiment (forced infestation), no infestation of C. capitata in the healthy fruits was observed, and 60.6 pupae/fruit were obtained in the infected fruit. For A. obliqua, the infestation index was 10.3 and 72.4 pupae/fruit for healthy and infected fruit respectively. In the 2nd experiment (inoculated eggs), the infestation index for C. capitata was 4.0 and 6.3 pupae/fruit and for A. obliqua 10.1 and 10.4 pupae/fruit, for healthy and infected fruit respectively. The high suscetibility of green fruit of papaya infected by sticky disease for C. capitata and A. obliqua was discussed.

Key words: Insecta, Ceratitis capitata, Anastrepha obliqua, host plant, susceptibility


 

 

A primeira ocorrência de moscas-das-frutas em mamão (Carica papaya L.) no Brasil foi registrada em um pomar comercial no Norte do Estado do Espírito Santo por Martins & Alves (1988). Esses autores obtiveram cerca de 5.000 exemplares de Ceratitis capitata (Wied.) e três de Anastrepha fraterculus (Wied.) nas 600 amostras avaliadas. Martins et al. (1993), utilizando frascos caça-moscas, efetuaram o levantamento populacional de moscas-das-frutas na mesma região e observaram que 98,96% dos exemplares coletados pertenciam à espécie C. capitata.

No Havaí, Liquido et al. (1989) estudaram a taxa de infestação de Dacus dorsalis Hendel (atualmente Bactrocera carambolae Drew & Hancoc ) e Dacus cucurbitae Coquillett em frutos de mamoeiro em quatro estágios de maturação, desde o fruto verde até o completamente maduro. O estudo demonstrou que o aumento do grau de infestação pelas duas espécies de moscas-das-frutas era proporcional ao grau de maturação do fruto. Esse fato está associado à presença de benzil-isotiocianato (BITC) no látex dos frutos. O BITC é ovicida, repelente de insetos e sua concentração no látex dos frutos verdes é alta, decrescendo à medida que os mesmos amadurecem (Tang 1971, Tang & Syed 1972, Tang 1973).

A "meleira" é uma doença caracterizada por intensa exudação de látex dos frutos do mamoeiro e está associada a um vírus (Kitajima et al. 1993) Esses autores constataram a presença de partículas isoméricas, aproximadamente 50 nm e dsRNA com 6 x 106 d, em amostras de plantas afetadas e inoculadas experimentalmente. Barbosa et al. (1998 a,b) estudaram a distribuição de formas replicativas de virus em plantas de mamoeiro afetadas pela meleira e detectaram essas formas de vírus em plantas de mamoeiro inoculadas com a doença. Em experimentos em gaiolas de campo, Nascimento et al. (dados não publicados), corroboraram a transmissibilidade mecânica da doença, e levantaram a hipótese da sua transmissibilidade por inseto; sendo as mais prováveis a cigarrinha verde Empoasca sp. e a mosca branca Bemisia tabaci (Genn.), biotipo B.

Em pomares infectados pela meleira do mamoeiro, a infestação dos frutos por C. capitata é elevada (D.S. Martins - inf. pes.), sugerindo que o fruto da planta infectada por essa doença torna-se altamente suscetível ao ataque de tefritídeos. Visando a comprovação dessa hipótese e considerando a importância quarentenária das moscas-das-frutas, foram realizados dois experimentos, os quais consistiram em infestação de frutos verdes sadios e frutos verdes infectados pela meleira, com duas espécies de moscas-das-frutas: C. capitata e Anastrepha obliqua (Macq.).

Em todos os testes (infestação forçada e inoculação de ovos) foram utilizados frutos verdes de mamoeiro - muito anterior ao estágio 1 da escala de 1 a 5 da cv Improved Sunrise Solo. Esta escala de 1 a 5 expressa os diferentes graus de maturação do fruto: estágios 1 e 2 para exportação e até 3 para o mercado interno. Nos estágios 4 e 5 os frutos encontram-se maduros e pouco resistentes ao transporte (Martins et al. 2000).

Os experimentos foram conduzidos em gaiolas teladas no Laboratório de Entomologia do Centro de Pesquisa de Mandioca e Fruticultura/EMBRAPA - Cruz das Almas, BA. Utilizou-se C. capitata silvestre, procedente de frutos de amendoeira-da-praia (Terminalia catappa) e A. obliqua, procedente de manga (Mangifera indica L.) cv. Carlota. Os frutos sadios procederam da área experimental do centro de pesquisa e os infectados pela meleira foram coletados no Município de Miguel Calmon, BA.

A infestação forçada em laboratório foi efetuada em 100 frutos (50% sadios e 50% infectados), que foram expostos por 48 horas à população de cerca de 1.200 casais de C. capitata, com 10 dias de idade. Os casais foram confinados em uma gaiola com 1,2 m x 1 m x 0,6 m. Semelhantemente, vinte frutos (50% sadios e 50% infectados) foram expostos por 48 horas a uma população de cerca de 600 casais de A. obliqua, com 15 dias de idade, confinados em gaiola de 0,6 m x 0,6 m 0,6 m.

Na inoculação de ovos, os de C. capitata foram obtidos através da postura em tecido voil, colocado em uma das laterais da gaiola de criação e os de A. obliqua em pequenas bolas de agar recobertas com parafilme. Após a obtenção, os ovos eram lavados em solução de hipoclorito de sódio a 0,5% e, com o auxílio de um pincel e microscópio estereoscópico, foram contados e inoculados no fruto. Para a inoculação, cortou-se o fruto com um estilete de modo a obter-se uma câmara com cerca de 1,5 cm de profundidade. Após a inoculação dos ovos, a câmara era fechada com o mesmo fragmento de polpa retirado, e a superfície danificada era pincelada com parafina aquecida para vedação. Cada fruto recebeu 50 ovos (dez em cada câmara, construída ao redor do mesmo).

Quinhentos ovos de C.capitata (com 12 horas de idade) e 500 de A obliqua, foram inoculados na polpa de 20 frutos à profundidade aproximada de 1,5 cm. Após a infestação, os frutos foram individualizados em recipientes contendo vermiculita para a obtenção das pupas e posterior avaliação.

Os resultados dos dois ensaios são expressos em número de pupários obtidas nos frutos sadios e infectados pela meleira (Tabelas 1 e 2).

 

 

 

 

Nos frutos sadios, a infestação por C. capitata foi nula (índice de infestação zero), enquanto que, nos frutos infectados pela meleira, a infestação foi de 60,6 pupários/fruto, demonstrando alta suscetibilidade dos frutos doentes a esta espécie de moscas-das-frutas (Tabela 1).

Nos frutos expostos a A. obliqua houve infestação em frutos sadios e doentes (Tabela 1); entretanto, a infestação nos frutos doentes foi 7,2 vezes maior do que nos frutos sadios, revelando a mesma tendência de suscetibilidade dos frutos infectados pela meleira à essa espécie. A infestação de 10,3 pupas/frutos de A. obliqua em frutos sadios contra zero de infestação de C. capitata pode ser explicada pela diferença na profundidade de oviposição entre essas duas espécies de moscas-das-frutas e o contato dos ovos/larvas da mosca com o BITC. C. capitata implantou os ovos próximo à superfície do fruto,à profundidade de cerca de 0,5 cm, enquanto que a profundidade de oviposição de A obliqua foi em torno de 1cm. Esses dados corroboram os obtidos por Martins et al. (2000), quando provocaram a infestação de C. capitata e A. fraterculus em frutos no estágio de maturação 5 e só obtiveram pupários nos testes com A. fraterculus.

Seo & Tang (1982) comprovaram experimentalmente o efeito letal do BITC em ovos e larvas de C. capitata. Estes autores relataram que o ferimento provocado pelo ovipositor da mosca-das-frutas durante o processo de oviposição libera um catalizador, tioglucosidase, que, ao se misturar com o látex, produz o BITC responsável pela mortalidade de ovos e larvas de tefritídeos. Como o processo de maturação do fruto se inicia do interior para a superfície, a redução da concentração do BITC ocorre de dentro para fora do fruto (Flath & Forrey 1977), possibilitando maior chance de sobrevivência das larvas na camada mais profunda do fruto. Esse fato pode explicar a diferença dos índices de infestação entre as duas espécies de moscas-das-frutas (Tabela 1).

Esse mesmo raciocínio explica os dados da Tabela 2, onde praticamente não houve diferença na taxa de infestação entre os frutos sadios e doentes, bem como entre as duas espécies de moscas-das-frutas estudadas. Nesses experimentos, os ovos foram inoculados à profundidade superior a 1 cm, livres da ação do BITC, conforme relatado por Seo & Tang (1982).

Os dados da Tabela 1, expressos em número de pupário por frutos, demonstram que o fruto verde, quando infectado pela meleira, é altamente suscetível às moscas-das-frutas. A análise conjunta dos dados das Tabelas 1 e 2 sugere que na planta infectada pela meleira, a concentração do BITC no fruto é drasticamente reduzida, permitindo a oviposição e desenvolvimento das larvas de tefritídeos. Martins & Alves (1988) relataram uma grande infestação de C. capitata (5.000 exemplares em 600 frutos analisados) em pomares comerciais do Espírito Santo. Posteriormente Martins et al. (1993), utilizando frascos caça-moscas em um pomar de 12 ha de mamão, capturaram 5.860 exemplares de C. capitata num período de dois meses. Essa elevada densidade populacional de C. capitata em mamão no Estado do Espírito Santo sugere que já naquela época existia a associação dessa praga com frutos infectados pala meleira uma vez que a doença foi relatada na região desde 1987 (Nakahawa et al. e Rodrigues et al. - dados não publicados).

Atualmente, a meleira é uma das principais doenças da cultura do mamoeiro, provocando redução de até 30% da área plantada no extremo Sul da Bahia e Norte do Espírito Santo, e com registro de ocorrência no pólo de fruticultura Juazeiro-BA/ Petrolina-PE. A associação dessa doença com as moscas-das-frutas, poderá transformar o mamão, atualmente um hospedeiro ocasional de C. capitata, em um hospedeiro primário. Desse modo faz-se necessário um rigoroso controle da meleira sob pena de inviabilização da exportação do mamão sem tratamento pós-colheita baseado no "Systems Approach" (Malavasi et al. 1996 e Martins et al. 2000)

 

Agradecimentos

Os autores são gratos aos técnicos de laboratório Dilson Barbosa de Brito e Adriano de Medeiros Sousa pelo apoio na condução dos experimentos e aos revisores anônimos pela colaboração na correção do manuscrito.

 

Literatura Citada

Barbosa, C.J., P.E. Meissner Fo., T.C. Habibe, E. Patrocínio, J.A. Ventura & O.M. Marques. 1998 a. Distribuição de formas replicativas de virus em plantas de mamoeiro afetados pela meleira. Summa Phytopatol. 24: 60.         [ Links ]

Barbosa, C.B., P.E. Meissner, T.C. Habibe, E. Patrocínio, T. Tatagiba, A.S. Nascimento & W.J.R. Matrangolo. 1998 b. Detecção de formas replicativas de virus em plantas de mamoeiro inoculadas com a meleira. Summa Phytopatol. 24: 60-61.         [ Links ]

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Aceito em 13/10/2000.