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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional

versão impressa ISSN 0303-7657versão On-line ISSN 2317-6369

Rev. bras. saúde ocup. vol.44  São Paulo  2019  Epub 09-Maio-2019

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6369000045918 

Dossíê: Entrevista

Intervenção em Saúde do Trabalhador

Olhar etnográfico e intervenção social na produção e uso de imagens: entrevista com José Roberto Novaes (Beto Novaes)

José Roberto Pereira Novaesa 
http://orcid.org/0000-0001-6378-1500

José Marçal Jackson Filhob 
http://orcid.org/0000-0002-4944-5217

Angela Paula Simonellic 
http://orcid.org/0000-0003-4337-5796

aUniversidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Instituto de Economia. Rio de Janeiro, RJ, Brasil

bFundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), Centro Estadual do Paraná. Curitiba, PR, Brasil

cUniversidade Federal do Paraná (UFPR), Terapia Ocupacional, Curitiba, PR, Brasil

Resumo

Beto Novaes é professor aposentado do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro, onde coordena o projeto Educação através das Imagens. Desenvolve desde meados dos anos 1970 pesquisas e atividades de extensão baseadas no uso de imagens sobre trabalho e trabalhadores, em sua maioria no setor rural. Imagens são o meio que utiliza para aproximar a pesquisa e o saber acadêmico da sociedade, descontruindo hierarquia de saberes na qual o conhecimento acadêmico seria superior. Suas produções têm origem em demandas sociais para tratar de problemas com pouca visibilidade social, dentre eles: a exploração do trabalho e as migrações no mundo rural; trabalho infantil e das mulheres; resistências dos trabalhadores; agroecologia e enfrentamento aos agrotóxicos. Seu olhar etnográfico faz contraponto ao exercício da dominação por meio das narrativas dos trabalhadores, “dando voz para quem não têm voz” e, desenhando caminhos de enfrentamento e mudança da realidade. Seus documentários são ensinamentos da arte da etnografia e da prática de intervenção, não apenas para participar da mudança da realidade social, mas também para influenciar a práxis acadêmica. Seus filmes são também peças artísticas onde a beleza convive com a sensibilidade, generosidade, engajamento e esperança.

Palavras-chave: universidade; trabalho; saúde; pesquisa; relações comunidade-instituição

Entrevistadores (E): Beto, fale sobre sua formação profissional e acadêmica.

Beto Novaes: Nasci em São Carlos em 1945, ano em que terminou a Segunda Guerra Mundial. Em São Carlos passei toda minha infância e juventude. Fiz graduação na Escola de Agronomia Luiz de Queiroz da Universidade de São Paulo (USP), em Piracicaba. Tendo me formado em 1970, recebi o título de engenheiro agrônomo com especialização em economia rural.

Meu primeiro emprego foi na Superintendência do Vale do São Francisco (Suvale), 1970. Enquanto economista rural, acompanhei a implantação de cooperativas em projetos de irrigação no Submédio São Francisco, região de Petrolina (PE) e Juazeiro (BA). Essa experiência foi um aprendizado importante na minha formação profissional pela convivência com os agricultores tradicionais que ocupavam as margens do rio para irrigação de suas lavouras. O modelo de desenvolvimento regional posto em prática pelo regime militar, todavia, não era para atender demandas desses produtores, mas para atrair grandes empresas nacionais e internacionais para a região. Essas empresas ocuparam as terras das margens do rio, expulsaram a população ribeirinha e implantaram grandes projetos de irrigação para produção de frutas e legumes.

Em 1972 eu me desliguei da Suvale para fazer mestrado em economia no Chile. Não conclui o curso devido ao golpe militar de 1973, que derrubou o presidente Salvador Allende. Dias tenebrosos…

Em 1975, de regresso ao Brasil, retomei minha atividade acadêmica para concluir o mestrado, agora na Coordenação dos Programas de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia (Coppe) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

Em 1977, após concluir o mestrado, fui trabalhar como professor no Departamento de Economia da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), em Campina Grande.

Naquela época, com a anistia política, muitos exilados foram contratados pela universidade. O reitor, Lynaldo Cavalcanti de Albuquerque, optou pela contratação dessas pessoas que chegavam com doutorado em universidades estrangeiras devido a sua titulação e qualidade profissional.

Grupos de pesquisadores da universidade procuravam construir pontes entre a formação teórica, pesquisa acadêmica e o trabalho de extensão na universidade, numa conjuntura de ascensão das lutas sociais pela democratização do país, pelo fim do regime militar. Foi nesse contexto que tive a primeira experiência com o uso das imagens na educação, com a produção do documentário “O que eu conto do sertão é isso”1.

No início da década de 1980 voltei para aprofundamento dos meus estudos, agora no programa de doutorado em economia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Depois de concluí-lo, retornei às atividades acadêmicas na UFPB e depois de 4 anos fui contratado pelo Instituto de Economia da UFRJ, onde coordeno até hoje, mesmo tendo me aposentado, o projeto de extensão Educação através das Imagens.

E: Como surgiu seu interesse pela extensão universitária e difusão?

Beto Novaes: O interesse pela extensão surgiu ao final da década de 1970 e início de 1980, num cenário de avanço das lutas sociais pela democratização do país. Nessas décadas, os trabalhadores criaram várias entidades para representá-los nas diferentes frentes de luta: Comissão Pastoral da Terra (CPT), Central Única dos Trabalhadores (CUT), Movimento dos Trabalhadores Sem Terra (MST), Movimento dos Atingidos pelas Barragens (MAB), Conselho Nacional de Seringueiros (CNS), dentre outras.

Os programas de mestrado em economia e sociologia da UFPB, Campina Grande, se voltaram para essa conjuntura. Os movimentos sociais se aproximaram da academia e foram acolhidos por esses programas. Muitos encontros e seminários passaram a ser realizados nos espaços da academia em parceria com os movimentos sociais, sindicais e eclesiais. Muitos agentes e militantes dos movimentos sociais e pastorais passaram a frequentar os cursos de mestrado em economia e sociologia da UFPB. Assim, os estudos teóricos passaram a ser referenciados pela práxis social, pela integração das atividades de ensino, pesquisa e extensão.

Nesse contexto, a pesquisa acadêmica passou a reconstruir a relação pesquisador e pesquisado. O desafio era desconstruir a valorização do saber acadêmico sobre outros saberes, encontrar mecanismos de devolução para a sociedade dos resultados da investigação acadêmica. Essas questões contribuíram para a valorização das atividades de extensão nas universidades.

Um grupo de professores do mestrado em economia da UFPB (eu, João Otávio Paes de Barros, Francisco Alves e Maria Rita Assumpção) decidiu tratar da necessidade de devolver os resultados das pesquisas às entidades que colaboraram na sua construção.

Em 1978, uma pesquisa foi realizada no sertão da Paraíba. O objeto da investigação consistia em analisar as mudanças nas relações de produção nos latifúndios e o processo migratório de trabalhadores do campo para as cidades paraibanas. Processo visível nas diferentes regiões da Paraíba, porém não circunscrito a esse estado. Tratava-se de questão nacional, consequência da implementação da política de modernização tecnológica da agricultura e da apropriação das terras públicas e privadas pelos grandes grupos empresariais.

Realizamos a pesquisa entrevistando trabalhadores rurais, dirigentes sindicais e grandes proprietários de terra no sertão paraibano e moradores, migrantes, na periferia da cidade de Campina Grande. Assim, a pesquisa foi concluída com a redação de um relatório.

Todavia, esse relatório não estava adequado para a devolução dos resultados da pesquisa aos dirigentes sindicais e trabalhadores da região. Além da linguagem acadêmica complexa, havia muitos trabalhadores analfabetos ou com pouca habilidade para leitura.

Essa preocupação foi compartilhada com colegas dos cineclubes de Campina Grande. Em nossos encontros, de reflexão e discussão, foi ganhando consistência a ideia de devolver os resultados da pesquisa por meio de documentário com argumento e roteiro construídos a partir dos resultados da pesquisa acadêmica. Elaboramos um projeto e fomos transformar nossa pesquisa em imagem.

E: Como foi a primeira experiência de filmagem?

Beto Novaes: Nós, da academia, não tínhamos experiência com a linguagem cinematográfica, pensávamos utilizar o recurso das imagens como ilustração da linguagem acadêmica. Bastava produzir um texto com começo, meio e fim e cobri-lo com imagens…

Foi preciso aprender a trabalhar com as imagens com Bráulio Tavares, Romero de Azevedo e José Umbelino, todos ligados às atividades culturais em Campina Grande, que muito contribuíram para concretizar nosso projeto. Isso ocorreu nos anos de 1978 e 1979. Por fim, coube ao grupo elaborar o argumento, produzir o documentário e dirigi-lo.

Nossa ideia do documentário era trazer à tona as interpretações dos latifundiários e dos trabalhadores sobre as condições de trabalho nos latifúndios, evidenciando a desestruturação da relação de parceria e a migração de trabalhadores do campo para as cidades. No município de Pombal, alto sertão paraibano, encontramos um personagem para expor o pensamento do latifundiário: Padre Levi, grande proprietário de terra na região, padre e candidato a deputado estadual. Ele se prontificou a colaborar na produção do documentário. Fomos convidados à sua casa para fazer a entrevista; deitou-se numa rede, na varanda da casa, e começou sua narrativa. Depois fomos filmar na sua propriedade. O padre tinha habilidade com as palavras, sua fala era concisa na argumentação e convincente na narrativa.

Procuramos posteriormente um dirigente sindical. Nossa inserção no movimento sindical facilitou o contato com um dirigente, que fez esta única exigência para participar do documentário: não ser filmado, pois não queria ser identificado. O personagem nos deu uma entrevista e não foi identificado no filme.

Daí nossa equipe se deslocou para a periferia de Campina Grande, para a favela do Pedregal, bairro de Bodocongó. O Pedregal era uma favela que crescia ao lado do conjunto residencial em construção, localizado em frente da universidade, para professores. Lá entrevistamos uma senhora procedente do sertão. Ela morava num puxadinho com parentes também vindos do sertão, expulsos da terra. Ela não se opôs a dar entrevista, não fez nenhuma objeção, queria falar sobre sua trajetória de vida. No final de sua fala, disse: “O que eu conto do sertão é isso”, frase que se tornou o nome do filme1.

Ao mesmo tempo que o documentário se nutre das pesquisas acadêmicas para elaboração do argumento e do roteiro, ele se torna instrumento para divulgar temas contemporâneos sobre a realidade brasileira no campo, a serem explorados pelas pesquisas acadêmicas. Observa-se, assim, que a linguagem acadêmica interage com a linguagem das imagens.

E: Como foi a restituição, a devolutiva aos trabalhadores e sindicatos? Como o documentário foi difundido na época?

Beto Novaes: O documentário foi produzido em 16mm, nos anos 1978 e 1979. A tecnologia digital não estava disponível naquela época. As dificuldades de produção e exibição foram imensas. Na UFPB, no campus de Campina Grande, existia apenas um projetor para 16mm, frequentemente com defeito, cuja manutenção demorava diante dos trâmites burocráticos.

Só existiam 3 matrizes do documentário em rolos, que foram distribuídas da seguinte forma: uma foi depositada na cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, devido às condições adequadas para conservação de filmes em película e, portanto, para poder preservá-la; a segunda foi entregue aos cineclubes de Campina Grande para exibição em circuitos, mostras, festivais de cinema - em 1979, o filme foi premiado pelo Júri do Festival de Cinema Jornal do Brasil/Shell, realizado no Rio de Janeiro; a terceira ficou na coordenação do programa de mestrado em economia da UFPB para atender demandas dos movimentos sociais e para exibição nos sindicatos. Recebidas as solicitações, agendava-se local, dia e hora para exibição, que, quando ocorria, em cidades do interior, era realizada no sindicato, em dia de feira.

Na data programada, os trabalhadores chegavam no sindicato com a expectativa de assistir mais uma sessão de slides sobre difusão de tecnologias para produtores rurais, patrocinada pelos técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater).

Quando começava a exibição do documentário, a plateia ficava surpresa ao se deparar com um confronto de opiniões contraditórias entre o latifundiário (padre) e o trabalhador sobre as condições de trabalho nos latifúndios e sobre a expulsão dos trabalhadores do campo para a cidade, de forma violenta, sem pagamento dos direitos. Logicamente a plateia se posicionava a favor da interpretação do dirigente sindical e criticava a narrativa do latifundiário no filme. Criticar a opinião de um padre/latifundiário no sertão não era pouca coisa durante o regime militar.

Assim, andei por muitos sindicatos da Paraíba exibindo o filme, percebendo a reação dos trabalhadores e ouvindo histórias contadas por eles. Em todas as exibições que acompanhei, após a apresentação do documentário os trabalhadores continuavam discutindo o filme no sindicato e na feira local, misturando o argumento do filme às narrativas de suas histórias de vida, denunciando as injustiças numa região onde vigorava a “lei do patrão e não a lei da nação”.

Com a evolução tecnológica na área do cinema foi feita a telecinagem do documentário, ou seja, a conversão da matriz de 16mm, a fim de permitir a reprodução em DVD. Essa mudança ampliou a capacidade de distribuição do documentário, por permitir a reprodução de cópias em larga escala. Assim, as cópias foram distribuídas para grupos de pesquisa de universidades, sindicatos e instituições afins.

“O que eu conto do sertão é isso” foi relançado na Universidade Federal de Campina Grande no início dos anos 2000.

Depois dessa experiência, realizamos mais dois documentários sobre conflitos na Paraíba: “Campo de batalha”, sobre as ocupações de áreas urbanas na cidade de Campina Grande2; e “Até quando”, sobre a precarização do trabalho na lavoura da cana3.

A partir desses trabalhos, que utilizavam os resultados das pesquisas acadêmicas para a construção de argumento e roteiro dos documentários, passamos a integrar na UFPB as atividades de ensino, pesquisa e extensão. Assim, a valorização da extensão nesse projeto permitiu estreitar as relações da universidade com os movimentos sociais. A partir dessa experiência foi criado um Núcleo de Assessoria aos Movimentos Sociais, congregando alunos e professores dos mestrados de economia e sociologia e estudantes da graduação.

Essa experiência de devolver os resultados da pesquisa acadêmica por meio de imagens reorientou meu trabalho na universidade. Foi o início do projeto Educação através das Imagens, que coordeno até hoje como professor aposentado na UFRJ.

Em 1989, logo após a aprovação da nova Constituição, fui transferido para o Instituto de Economia da UFRJ.

E: Como você deu continuidade na UFRJ?

Beto Novaes: A retomada do projeto na UFRJ se deu no início da década de 1990, numa conjuntura de aprovação e cumprimento do Estatuto da Criança e do Adolescente4 e diante da chacina da Candelária, no Rio de Janeiro (23 de junho de 1993). Nessa chacina, 8 crianças foram fuziladas por policiais, suspeita-se que a mando dos comerciantes locais, conforme notícias da imprensa da época. Esse fuzilamento virou notícia na imprensa nacional e internacional, dando maior visibilidade à problemática da criança em situação de rua nas grandes cidades.

No bojo desse fatos lamentáveis, o tema do trabalho infantil ganhou destaque na mídia nacional e internacional. A exibição de documentário produzido pela BBC de Londres sobre o trabalho de crianças nas carvoarias do Mato Grosso teve grande repercussão no Brasil e no exterior. Nesse contexto, fomos procurados na UFRJ por várias instituições para produzir documentários sobre o trabalho infantil no campo. Assim o projeto foi retomado, agora com a temática do trabalho infantil e da precarização do trabalho na lavoura de cana na área rural.

Com o tema do trabalho infantil, produzimos quatro documentários na década de 1990: “Meninos da roça1”, sobre crianças trabalhando na colheita da cana-de-açúcar no município de Campos (RJ)5; “Sonhos de criança”, sobre crianças trabalhando nas colheitas de algodão e tomate no estado de Goiás6; “Conversas de criança”, sobre a realidade das crianças nos acampamentos do MST em duas regiões dos estados do Paraná e São Paulo7; e “Meninas mulheres”, filmado na comunidade de São Marcos, na periferia de Campinas (SP)8.

Com parte dessa produção concluída, elaboramos o projeto “Trabalho infantil: saúde, direito e trabalho”, para dar visibilidade à problemática do trabalho infantil no campo entre estudantes e professores das escolas estaduais, públicas e privadas, e aos grupos de pesquisa das universidades. O projeto consistia numa combinação de atividades: exposição fotográfica e documentários. A primeira apresentação foi no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ, em 1995, com apoio do Fundo Internacional de Emergência para a Infância das Nações Unidades (Unicef). Cada turma que participava do evento recebia os documentários para atividades complementares a serem realizadas pelos professores nas escolas e nos grupos de pesquisa. O evento durou 10 dias. Participaram 40 escolas e aproximadamente 2 mil estudantes.

O evento se tornou itinerante com apoio da Organização Internacional do Trabalho (OIT). Durante cinco anos (de 1995 a 2000), foram realizadas atividades em todas as regiões do país, de Belém a Porto Alegre, organizadas em parceria com entidades locais.

Construímos e aprimoramos uma metodologia do uso da imagem na educação para integrar, nas universidades, atividades de ensino, pesquisa e extensão e para dar maior visibilidade à problemática do trabalho infantil no campo.

E: É evidente a importância de projetos como esse para valorizar a extensão universitária. Quais desdobramentos você pode observar que nos permitem avaliar seu impacto?

Beto Novaes: Com certeza. É importante, todavia, ressaltar as características da organização projetada para favorecer a difusão dos temas, uma vez que seus impactos na sociedade local dependem do modo de organização das atividades.

No evento “Criança no campo: educação, direito e trabalho”, realizado entre 1995 a 1998, foram organizadas visitas programadas para as escolas de ensino médio, grupos de pesquisa e estudantes de universidades; universitários e alunos do segundo grau foram treinados para monitoria do projeto. Realizaram-se debates com especialistas no tema, além do lançamento de livros e outras atividades culturais no mesmo espaço (Figura 1).

Figura 1 Cartaz de exposição fotográfica 

O projeto, ao se tornar itinerante com apoio da OIT, foi realizado em parceria com várias instituições de diversas localidades: Ministério Público do Trabalho (MPT), universidades, Conselho Tutelar, Conselho de Direito, movimentos sociais e sindical. Fomos de Belém a Porto Alegre, realizando atividades em mais de 40 municípios sobre o trabalho infantil. Assim, contribuímos para dar visibilidade à problemática na sociedade.

Posso citar alguns exemplos de desdobramento do projeto, fruto das iniciativas das equipes locais que organizaram as exposições. No Rio de Janeiro, logo após o evento, abriu-se um espaço para incorporar o uso das imagens na educação em oficinas de treinamento para professores, por meio do projeto coordenado pelos professores da UFRJ, chamado a “Escola que protege”. Desenvolvemos oficinas em vários municípios do estado do Rio de Janeiro.

Na cidade de Campos (RJ), os organizadores locais do evento fizeram um concurso de redação para os estudantes sobre trabalho infantil com as fotos da exposição. Uma comissão foi formada pelos professores das escolas do município para selecionar e premiar os três melhores trabalhos, com uma bicicleta e máquinas fotográficas. Essa iniciativa mobilizou alunos e professores a pesquisarem sobre o tema.

Em João Pessoa (PB), os professores organizaram um concurso de poesias sobre as fotografias da exposição para os alunos. Uma comissão formada pelos estudantes do curso de comunicação da UFPB selecionou alguns textos para publicação. O Unicef organizou uma coletânea dessas poesias, que foi posteriormente utilizada pelos professores como material pedagógico em sala de aula. Assim, o tema do trabalho infantil foi sendo disseminado pela sociedade graças às iniciativas das entidades locais.

As fotos podem também ter impacto na vida pessoal dos estudantes. Podemos nos valer da narrativa da experiência relatada pela professora Leile Silvia Cândido Teixeira, da Escola de Serviço Social da UFRJ. Recentemente, ao lhe mostrar fotos do meu arquivo de imagens sobre a exposição do trabalho infantil, ela reconheceu de imediato algumas delas, que tinha visto numa exposição fotográfica que visitou com sua escola, em Goiânia - visita que considerou determinante para sua escolha profissional, levando-a à carreira universitária. O evento a que ela se referiu era o projeto “Criança no campo: educação, direito, trabalho”. A imagem que a impressionou foi a foto de um menino esquálido, trabalhando no interior de um forno nas carvoarias do Mato Grosso do Sul (Figura 2).

Assim, o projeto se desdobra de forma diferenciada, abrindo novos horizontes nas trajetórias das pessoas e nas práticas de diversos profissionais.

Fotografia: João Roberto Ripper.

Figura 2 Menino trabalhando em carvoaria 

E: A questão do trabalho no campo não ficou suspensa na década de 1990?

Beto Novaes: Não, paralelamente a essa temática do trabalho infantil, vínhamos, desde a Paraíba, realizando pesquisas acadêmicas sobre as condições de trabalho e sobre as lutas dos trabalhadores canavieiros realizadas numa estreita relação com o Departamento Nacional dos Trabalhadores Rurais (DNTR) da CUT, com o Centro Ecumênico de Documentação e Informação (Cedi), com sindicatos de trabalhadores rurais e organizações não governamentais. Assim, enfrentamos novos desafios em transformar a linguagem acadêmica em imagens, em trazer para a academia as demandas dos movimentos sociais.

No início da década de 1990, produzimos dois documentários sobre a precarização do trabalho nos canaviais: “Ribeirão Preto: Califórnia à brasileira”, sobre as condições de vida e trabalho dos migrantes que chegavam do Vale do Jequitinhonha (MG) para trabalhar nos canaviais e nas usinas da região de Ribeirão Preto (SP)9, uma produção realizada em parceria com o Cedi; e “Os rurais da CUT: imagens e memórias”, sobre o congresso de criação do DNTR-CUT10. Essa produção, resultou de parceria entre a CUT e o Cedi.

Participamos de várias pesquisas e organizamos encontros sobre a precarização e intensificação do trabalho na lavoura da cana. No início da década de 2000, uma nova demanda surgiu para nosso projeto de imagens, agora relacionada ao resgate de memória das lutas dos trabalhadores canavieiros na década de 1980, tema já presente no documentário “Os rurais da CUT: imagens e memória”.

A demanda ao projeto, que consistia em resgatar a memória da greve de Guariba (em 1984), cidade-dormitório localizada na região de Ribeirão Preto, foi feita pela Federação dos Trabalhadores Assalariados do Estado de São Paulo (Feraesp) e realizada com apoio da Fundação Interuniversitária de Estudos e Pesquisas sobre o Trabalho (Unitrabalho)2.

Realizamos dois documentários: “Guariba 84”, sobre a greve de Guariba11, e “A memória em nossas mãos”, acerca das lembranças e interpretações dos trabalhadores sobre aquela greve12. Em ambos, a narrativa da greve foi construída a partir de entrevistas com trabalhadores e dirigentes sindicais, e imagens cedidas pela TV Cultura e pela TV Manchete3.

A greve de Guariba teve grande repercussão na mídia nacional e internacional. Os trabalhadores conseguiram importantes conquistas econômicas, apesar da violência e da repressão à greve. Com o passar do tempo, a interpretação da greve difundida pelos usineiros na região passou a ser predominante. Para eles, o movimento tinha sido causado por baderneiros (migrantes) que queriam destruir a cidade. As novas gerações e os próprios trabalhadores foram incorporando essa narrativa, associando a greve com a baderna. As narrativas dos trabalhadores, que enalteciam as conquistas econômicas advindas da paralização, ficaram circunscritas à linguagem acadêmica, às pesquisas realizadas pela academia. O resgate de memória da greve por meio dos documentários pretendeu recuperar essas narrativas11), (12.

Em 2006, como desdobramento de uma assessoria ao Sindicato dos Empregados Rurais de Cosmópolis, foi produzido o documentário “Quadra fechada”, resultante da pesquisa que realizamos sobre o controle pelo sindicato da metragem e da pesagem da cana cortada por cada trabalhador13. Esse tipo de controle evitava distorção na pesagem da cana e “enganos” nas medições pelos fiscais das usinas. Os ganhos salariais, com esse tipo de controle, foram imediatos.

Nosso projeto caminhava abrindo a possibilidade de agregar novos temas trazidos por grupos de pesquisa das universidades, movimentos sociais, instituições públicas de pesquisa e pelos ministérios do governo.

E: Fale um pouco sobre o projeto que realizou sobre a questão dos trabalhadores migrantes.

Beto Novaes: Em 2007 finalizamos um trabalho solicitado pelo Ministério da Educação. O projeto implicava pesquisa, com produção de livro e documentário, cujo tema se referia aos jovens trabalhadores migrantes que saíam do Nordeste (Maranhão e Piauí) para trabalhar no corte de cana em usinas canavieiras de São Paulo. O tema da migração ressurgia em nosso projeto.

A pesquisa foi transformada no livro “Migrantes, trabalho e trabalhadores no complexo agroindustrial canavieiro”14. O documentário, “Migrantes”15, distribuído pela Editora da UFRJ, recebeu premiação na 3ª Mostra Cine Trabalho, realizada pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) em 2008.

O projeto foi desenvolvido com a cooperação entre pesquisadores de 4 universidades federais: eu, da UFRJ; Francisco Alves, da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar); Maria Dione Carvalho de Moraes, da Universidade Federal do Piauí (UFPI); e Marcelo Sampaio Carneiro, da Universidade Federal do Maranhão (UFMA). Além disso, contou com a participação do Movimento Sindical, da Procuradoria do Trabalho do Piauí, da Pastoral do Migrante e da CPT.

Na época, 2006/2007, 200 a 300 mil jovens trabalhadores chegavam ao estado de São Paulo para trabalhar na safra da cana; eles deixavam suas cidades em busca de trabalho. Tratava-se de migração forçada, pois nas regiões de origem não havia trabalho. A partir dos resultados da pesquisa produzimos o argumento e o roteiro para o documentário15.

A primeira filmagem foi realizada no Nordeste, em municípios do Maranhão e do Piauí. Em Teresina, fizemos uma filmagem com dois artistas populares, Marcos Valle e Pedro Costa, que, por meio do teatro de mamulengo e do repente, contaram histórias da migração de jovens nordestinos para trabalhar nos canaviais das “modernas” usinas no interior de São Paulo4. Numa segunda etapa da produção, as filmagens foram realizadas no interior do estado de São Paulo registrando o trabalho penoso no eito da cana e a vida dos migrantes em alojamentos e becos das cidades-dormitórios da região.

E: Você não comentou ainda sobre o filme Expedito, que recebeu o prêmio Margarida de Prata em 20075. Quais são o objeto e o argumento?

Beto Novaes: Em 2006 produzimos um documentário relacionado ao resgate de memória de trajetórias de vida. Tratava-se da trajetória de vida e morte do sindicalista Expedito Ribeiro de Souza. A demanda chegou pelo Movimento Humanos Direitos6 e pelo Grupo de Pesquisa de Trabalho Escravo Contemporâneo (GPTEC) da UFRJ, coordenados por Ricardo Rezende Figueira, professor da Escola de Serviço Social.

“Expedito: em busca de outros nortes”16) documenta a vida e a luta de um personagem compromissado com a construção de uma sociedade mais justa, mais humana, mais solidária. Expedito Ribeiro de Souza era trabalhador, sindicalista, negro, poeta, escritor popular, militante político.

O argumento do documentário foi construído a partir da narrativa dos familiares de Expedito. Durante o regime militar, sua família migrou de Minas Gerais para a Amazônia, precisamente para o sul do Pará, no município de Rio Maria, em busca de terra e trabalho. Durante a caminhada, a família foi se desmembrando. As filhas foram se casando e ficando pelo caminho. Chegaram a Rio Maria, Expedito, a mulher, os pais, uma irmã e um sobrinho. A região tornou-se violenta pelos conflitos de terra. Expedito, importante liderança do movimento sindical de trabalhadores rurais na Amazônia, envolveu-se na luta pela reforma agrária16.

O documentário surgiu para dar visibilidade à trajetória de vida e colocar o personagem como sujeito na construção da história do país, fazendo um contrapondo com a historiografia oficial, que geralmente atribui aos trabalhadores o papel de coadjuvantes no processo histórico.

Para elaborar o projeto e construir o argumento, formamos um grupo de pesquisadores e cineastas, que contou com a participação de Rosilene Alvim, eu e Ricardo Resende, da UFRJ, Adonia Prado e Aida Marques, da Universidade Federal Fluminense (UFF).

Como a narrativa foi construída a partir da fala dos familiares e companheiros, a primeira tarefa era localizá-los. Dessa forma, foi possível reconstituir os momentos vividos com Expedito a partir das entrevistas com três irmãs no Espírito Santo, com um irmão e um sobrinho em Minas Gerais, com a viúva, uma filha e uma irmã em Rio Maria e com companheiros de Expedito em Conceição do Araguaia, sul do Pará. Os poemas produzidos por Expedito foram narrados no filme por Chico Buarque16.

Assim, por meio da história do Expedito pudemos contar a história de milhares de trabalhadores brasileiros que se deslocaram para a Amazônia durante o regime militar, em busca de terra e trabalho. A desilusão foi grande: a experiência vivenciada por milhares de trabalhadores na fronteira foi desastrosa, pois a terra estava sendo distribuída para os grandes empresários.

E: Quais foram os desdobramentos do filme? Como foi sua distribuição?

Beto Novaes: O documentário está legendado em vários idiomas e foi selecionado para exibição em mostras de cinema na França, em mostras de filmes etnográficos no Museu da República, no Rio de Janeiro, e foi exibido em muitos encontros acadêmicos e dos movimentos sociais.

A primeira exibição pública do documentário foi realizada para os familiares de Expedito, numa parceria com a Prefeitura Municipal de Cariacica (ES), cidade onde morava uma de suas irmãs. Com o apoio do prefeito, viabilizamos a vinda do irmão e do sobrinho de Minas Gerais. A exibição foi um reencontro da família. Inúmeras cópias em DVD foram distribuídas no lançamento.

Outro lançamento interessante foi na Câmara Municipal de Rio Maria, com a presença do Padre Ricardo Rezende e muita gente da cidade. Cópias também foram distribuídas durante o evento.

E: Você poderia falar sobre o documentário Conflito? Qual foi a particularidade dessa produção?

Beto Novaes: A produção do documentário “Conflito”17 evidenciou a facilidade de acesso dos trabalhadores aos celulares e a habilidade deles no manuseio do aparelho para registrar e divulgar imagens. A particularidade é que “Conflito” só foi produzido graças às imagens registradas e cedidas pelos trabalhadores. Vejamos: em 2011 a diretoria do Sindicato de Cosmópolis foi solicitada pelos trabalhadores da cana de uma usina localizada no município de Itapeva (SP) para mediar uma greve, cuja pauta de reivindicação era a demissão coletiva. Os trabalhadores não queriam mais trabalhar na usina devido às precárias condições de trabalho. Mas faltavam 45 dias para terminar a safra da cana, o que significava grande prejuízo para a empresa, que não conseguiria contratar nova turma para terminar a colheita.

A presidenta do sindicato, Carlita Costa, foi acompanhada por um cameraman para registrar a assembleia. Foram filmadas as condições do alojamento, a precariedade dos ônibus que transportavam os trabalhadores, os equipamentos de proteção individual disponibilizados pela usina, dentre outros aspectos. As imagens e entrevistas foram encaminhadas para edição. Com essa única filmagem, não foi possível editar uma greve que durou sete dias.

Voltamos para a usina com o objetivo de produzir imagens sobre fatos que os trabalhadores tinham narrado na primeira filmagem. Naquela oportunidade, foram entrevistados Gustavo Rizzo Ricardo, procurador do trabalho, e Carlita Costa, responsáveis pela mediação da greve entre os trabalhadores e a empresa.

Mesmo com as novas imagens, não foi possível construir o argumento e o roteiro do documentário. Faltavam imagens do dia a dia da greve, do seu início e do desfecho. Olhando mais atentamente as imagens gravadas na primeira filmagem, percebemos que muitos trabalhadores seguiam o câmera, filmando com seus celulares. Logo, pensamos que deveriam ter filmado toda a greve. Fomos em busca dessas imagens.

Entramos em contato com dirigentes do Sindicato dos Trabalhadores de São José de Piranhas, alto sertão da Paraíba, pois sabíamos que muitos trabalhadores desse município haviam partido no início da safra, para o trabalho da cana na usina. Os dirigentes sindicais encontraram os trabalhadores e recuperaram as imagens da greve. Depois de 15 dias, eu as recebi num DVD. Com essas imagens, conseguimos editar o documentário.

O filme foi enviado para o Sindicato de São José de Piranhas e distribuído para outros sindicatos de trabalhadores rurais nos municípios de origem desses trabalhadores.

E: Qual foi o aprendizado dessa produção?

Beto Novaes: Como desdobramento dessa experiência, a diretoria do Sindicato dos Empregados Rurais de Cosmópolis passou a distribuir celulares para os delegados sindicais. Por quê? Os delegados acompanhavam as turmas de trabalhadores no corte da cana, onde se negociava o preço da cana com o fiscal da usina. A fixação desse preço dependia do tipo de cana a ser cortada pela turma, negociada no eito da cana entre o delegado sindical da turma e o fiscal da usina, sendo, em geral, conflituosa. Com os celulares, a cana era fotografada e enviada para a diretoria do sindicato, o que permitia envolver novos agentes e reduzir a margem de manobra dos fiscais das usinas na determinação do preço da cana.

Em muitas situações, o fiscal do sindicato solicitava, via celular, a presença da diretoria do sindicato no talhão da cana para resolver impasses na negociação. Essas paralizações por turma não tinham visibilidade na sociedade, ficavam circunscritas aos territórios da usina.

Assim, vivenciando essa e outras experiências, o nosso projeto na UFRJ foi absorvendo e transmitindo experiências, se multiplicando de forma descentralizada e criativa. O uso das imagens na educação passava a ser um instrumento importante na difusão das pesquisas acadêmicas, como também um instrumento pedagógico.

E: Quanto à saúde do trabalhador, quando surge como preocupação para você?

Beto Novaes: A temática da saúde coletiva e dos trabalhadores apareceu como fruto das pesquisas realizadas sobre precarização e intensificação do trabalho no agronegócio da cana. Para compreender melhor a questão, o encontro “Trabalhadores canavieiros da região Sudeste: saúde, direito, trabalho” foi organizado na UFSCar em 2004.

Nele, pretendia-se compreender como as instituições estavam trabalhando as questões relacionadas à saúde, ao direito e ao trabalho dos trabalhadores da cana nos estados de São Paulo, Paraná, Minas Gerais. A ideia era socializar experiências de trabalho na perspectiva de aproximar as instituições.

Essa atividade foi organizada em uma articulação entre diferentes entidades: UFRJ, UFSCar, Fundacentro, Feraesp, movimentos sociais, sindicatos e MPT e representantes da OIT.

Em 2004, no início do governo Lula, o tema da saúde dos trabalhadores assalariados da cana começou a aparecer na mídia como consequência da precarização e intensificação do trabalho na safra da cana. O tema ganhou maior visibilidade quando um agente da Pastoral do Migrante de Guariba denunciou na imprensa o aumento das mortes dos trabalhadores canavieiros entre os anos de 2006 e 2007 e a causa das mortes. Nos atestados de óbito, as mortes geralmente eram atribuídas a causas convencionais, infarto principalmente. A Pastoral do Migrante denunciou que a causa da morte era a exploração do trabalho no corte da cana, o ritmo que extrapolava o limite da capacidade física dos trabalhadores, os quais eram obrigados a atingir a meta de produção da usina: cortar no mínimo 8 a 10 toneladas de cana por dia. Segundo a Pastoral, essa exigência prejudicava a saúde dos trabalhadores, tornando-os incapacitados precocemente para o trabalho ou levando-os a óbito.

Com nosso projeto, acompanhamos o desdobramento das denúncias por meio das audiências públicas realizadas pelo MPT.

E: De que forma você retomou o tema da saúde dos trabalhadores, da saúde coletiva de modo geral?

Beto Novaes: Foi em 2010, quando Carlos Minayo, do Centro de Estudos em Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) nos convidou para fazer parte do projeto “Saúde coletiva e saúde dos trabalhadores do agronegócio”, que coordenava. Nossa participação objetivava produzir documentários para dar maior visibilidade aos resultados das pesquisas realizadas no projeto, e poder utilizá-los na formação continuada de agentes do controle social na saúde do trabalhador.

A primeira atividade dessa proposta consistiu na participação em dois eventos, realizados nas cidades de Piracicaba (SP) e Cuiabá (MT), organizados pelo Ministério da Saúde/Fiocruz, para socializar resultados de pesquisa sobre a relação saúde e trabalho no agronegócio.

A segunda atividade consistiu na produção de três documentários. O primeiro deles foi “Nuvem de veneno”18) (Figura 3), cujo argumento se fundou nos resultados das pesquisas realizadas no Mato Grosso e coordenadas por Wanderlei Pignatti, sobre as consequências do uso intensivo de agrotóxicos nas lavouras de grãos (soja, milho e algodão) na saúde coletiva, dos trabalhadores e no meio ambiente19.

Figura 3 Cartaz do filme “Nuvens de veneno” 

O segundo documentário, “Linha de corte”20, trata da intensificação e precarização do trabalho no corte da cana e suas consequências para a saúde dos trabalhadores (Figura 4), a partir de pesquisa coordenada por Rodolfo Vilela21, da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Fotografia: Flávio Condé.

Figura 4 Trabalhador cortando cana, durante filmagens do documentário “Linha de corte” 

O terceiro documentário, “Mulheres das águas”, registra o impacto causado pela poluição ambiental das grandes empresas que se instalam nos territórios pesqueiros na saúde das mulheres pescadoras nos manguezais do Nordeste22 (Figura 5). O argumento do documentário foi construído a partir dos resultados da pesquisa coordenada por Paulo Pena, da Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia (UFBA) nos manguezais do Nordeste23.

Fotografia: Flávio Condé.

Figura 5 Marisqueira durante filmagem de “Mulheres das águas” 

E: Enquanto o argumento dos dois primeiros está alicerçado nos resultados de pesquisas acadêmicas, no caso de “Mulheres das águas”, há um distanciamento da perspectiva da pesquisa do Paulo Pena, que visava compreender a prevalência de problemas músculo-esqueléticos nas trabalhadoras dos mangues, não? O que levou à mudança de perspectiva no documentário?

Beto Novaes: Verdade. Os três documentários foram concebidos com o objetivo de traduzir em imagens os conhecimentos produzidos pelas pesquisas, mas em “Mulheres das águas” a narrativa foi se modificando e se adequando à problemática dos territórios pesqueiros, ou seja, indo além da pesquisa realizada por Paulo Pena23. Isso porque as marisqueiras preferiram tratar a questão da saúde num contexto de poluição ambiental e de ameaças que sofrem as comunidades tradicionais pela invasão de seus territórios por grandes complexos empresariais22.

Nos documentários “Nuvem de veneno”18) e “Linha de corte”20 a narrativa foi centrada nos resultados das pesquisas acadêmicas.

E: “Mulheres das águas” mostra, a meu ver, a busca de emancipação dessas mulheres diante da irracionalidade do desenvolvimento e sua perspectiva oficial. Emancipação e minoria não se constituíram em outros temas de sua obra?

Beto Novaes: Nosso projeto trabalha com uma concepção de documentário que coloca em cena a narrativa “daqueles que não têm voz”, que não têm condições de dar visibilidade às suas lutas cotidianas, que não têm acesso à mídia oficial. Para “dar voz a quem não tem voz”, precisamos apresentar as narrativas das lutas fazendo um contraponto à narrativa oficial, à narrativa dos segmentos dominantes na sociedade. Por exemplo, no documentário “O que eu conto do sertão é isso”1 explicitamos o confronto de duas narrativas contraditórias (a do latifundiário e a do sindicalista) sobre as mesmas questões. Os documentários sobre resgate de memória das lutas sociais (“A memória em nossas mãos”12, “Guariba 84”11, “Expedito: em busca de outros nortes”1) seguem nessa linha, sem colocar em cena explicitamente o contrapondo das narrativas. Neles predomina a narrativa dos trabalhadores.

Priorizamos construir os documentários a partir das narrativas dos movimentos sociais e dos trabalhadores porque a classe dominante tem todos os mecanismos midiáticos para dar visibilidade à sua interpretação dos fatos. Nós optamos por fazer um contraponto a essa narrativa. Os documentários “Nuvem de veneno”18, “Linha de corte”20, “Mulheres das águas”22 colocam em questão a problemática da saúde tendo como referência tanto a narrativa das pesquisas acadêmicas comprometidas com os movimentos sociais, quanto a perspectiva dos(as) trabalhadores(as) envolvidos(as).

O documentário “Ribeirão Preto: Califórnia à brasileira”9 faz um contraponto à visão ufanista do progresso e do dinamismo econômico da região de Ribeirão Preto, da tecnologia dos investimentos empresariais. Inúmeros programas de televisão tratam a região com sendo a “Califórnia brasileira”. Nós a tratamos como “Califórnia à brasileira” ao enquadrá-la pela narrativa dos trabalhadores migrantes, oriundos do Vale do Jequitinhonha (MG) e do Nordeste para o trabalho nos canaviais das “modernas” usinas da região. Olhar o progresso do ponto de vista dos trabalhadores traz para o cenário a profunda desigualdade social, a concentração de renda e riqueza9. Falar de progresso e de desenvolvimento a partir desse olhar nos permite relativizar os conceitos de progresso e desenvolvimento. De que progresso e desenvolvimento estão falando? Para quem? Precisamos debatê-los fazendo esse contraponto.

Outra concepção de documentário que estamos produzindo está relacionada à valorização das lutas e experiências concretas em curso. Por exemplo, os documentários “Mulheres das águas”22 e “As sementes”24 valorizam as lutas das mulheres pela preservação dos territórios pesqueiros e pelo fortalecimento da produção agroecológica. O tema de gênero passa a ser incorporado em nosso projeto em virtude da organização, das lutas e das conquistas das mulheres na sociedade.

O argumento do documentário “As sementes” foi construído tendo como referência os resultados da pesquisa de doutorado de Emma Siliprandi, que retrata a luta das mulheres no campo e na agroecologia21. Com o apoio do Ministério do Desenvolvimento Agrário, em 2015 foi publicado livro baseado na tese da Emma25, contendo no encarte o documentário “As sementes”, e foi realizada exposição fotográfica.

Outro tema que passamos a incorporar foi a questão da raça. Em parceria com a Universidade do Rio de Janeiro (Unirio), a UFRJ e a Secretaria Nacional de Juventude foi produzido o documentário “Uma árvore bonita”, que relata a trajetória de vida e luta de quatro jovens negros na cidade de Salvador26.

Assim, as demandas dos movimentos sociais foram agregando novos temas em nossa produção: agroecologia7, mulheres, negritude, juventude, agrotóxicos, resgate de memória das lutas sociais e das trajetórias individuais.

E: Você gostaria de fazer mais algum comentário sobre sua obra, sobre a perspectiva que adotou, sobre nosso futuro?

Beto Novaes: Acho que é preciso ter clareza das contradições do modelo de desenvolvimento e aprimorar as formas de intervenção na realidade a fim de evitar retrocessos das conquistas de direitos obtidas pela sociedade e materializadas na Constituição de 1988. Entendo que o trabalho relacionado à educação por meio das imagens possa contribuir nessa perspectiva à medida que permite resgatar a memória das conquistas do passado para que se possa ressignificar o presente e apontar para as utopias do futuro.

E: Como superar então essas dificuldades, que não são pequenas?

Beto Novaes: Acho que o maior desafio consiste na construção de uma relação dialética entre estudos teóricos e a práxis social na perspectiva de consolidar uma educação crítica presencial em que a formação do conhecimento se processa numa relação de troca de saberes.

Outro desafio importante consiste em buscar o tempo da reflexão, da solidariedade, para contrapor o tempo da produtividade, do individualismo, da alienação que o mercado capitalista impõe como valores de vida. Nesse sentido, o projeto tem procurado valorizar os encontros presenciais, as discussões em grupos pautadas na construção coletiva e solidária do conhecimento. Organizamos oficinas de imagens para a formação de multiplicadores para reproduzir essas oficinas no trabalho, em escolas, igrejas, movimentos sociais, grupos de pesquisa e outros espaços. Nas oficinas de imagens discutimos a concepção da produção visual, as razões de sua produção e a metodologia do uso da imagem na educação. Podemos, assim, operando em rede, de forma descentralizada, enfrentar o problema da distribuição.

Há outra questão relevante a destacar em nosso trabalho. Trata-se de enfrentar as formas de violência no trabalho. A violência está entranhada na exploração dos trabalhadores. É preciso mostrar para a sociedade que uma usina que produz açúcar e álcool é violenta quando estabelece uma meta de produção para o corte manual da cana de mais de 10 toneladas de cana/dia para cada trabalhador. Isto é também uma forma de violência.

Esse tipo de violência no trabalho, que está, todavia, naturalizada na sociedade, inclusive entre os próprios trabalhadores não gera indignação. Enfim, o projeto de imagem busca na sua essência desnaturalizar essa compreensão da violência, que não se resume à questão de segurança pública. Todo o projeto está fundamentado nesse substrato: como transformar essas formas naturalizadas de violência, impregnadas no imaginário da sociedade, em indignação para provocar reflexão, gerar movimento e fomentar o controle social sobre as políticas de Estado e dos governos?

Estamos caminhando por estas veredas…

Referências

1 Alves F, Paes JO, Novaes, JRP, Umbelino J, Assunção MR, Azevedo R, directors. O que eu conto do sertão é isso [film]. Campina Grande: Universidade Federal da Paraíba; 1979 [accessed on 2018 Dec 20]. 35 min. https://www.youtube.com/watch?v=M2L3iUeW0LA. [ Links ]

2 Marques A, Novaes JRP, directors. Campo de batalha [video]. Campina Grande: Universidade Federal da Paraíba; 1980. [ Links ]

3 Novaes JRP, director. Até quando [video]. Campina Grande: Universidade Federal da Paraíba; 1983. [ Links ]

4 Brasil. Law no.8069, from July 13, 1990. Addresses the Estatuto do Adolescente e da Criança and proposes other measures. Diário Oficial da União 16 July 1990. [ Links ]

5 Pestana P, director. Meninos da roça [film]. Rio de Janeiro: MP2 Produções; 1994 [accessed on 2018 Dec. 20]. 14 min. https://www.youtube.com/watch?v=Du66ZvT_o9I. [ Links ]

6 Novaes JRP, Santos A, Revers I, Pietrofesa JP, Silva M, Sauer S, et al., directors. Sonhos de criança [filme]. Goiânia: Cedi, IFAP, Fetaeg, CPT, CUT; 1994 [accessed on 2018 Dec 20]. 15 min. https://www.youtube.com/watch?v=9MPPll8LFNw. [ Links ]

7 Novaes JRP, director. Conversas de criança [film]. Rio de Janeiro: Idaco, IE/UFRJ; 1998 [accessed on 2018 Dec 20]. 23 min. https://www.youtube.com/watch?v=zpiPfgUQriA. [ Links ]

8 Novaes JRP, director. Meninas mulheres [film]. Rio de Janeiro: MP2 Produções, UFRJ/Idaco; 1999 [accessed on 2018 Dec 20]. 21 min. https://www.youtube.com/watch?v=Wl1NDL_-CWsLinks ]

9 Novaes JRP, director. Ribeirão Preto: Califórnia à brasileira [film]. Rio de Janeiro: Cedi; 1991 [accessed on 2018 Dec 20]. 26 min. https://www.youtube.com/watch?v=KvVMU9GJM04. [ Links ]

10 Novaes JRP, director. Os rurais da CUT: imagens e memórias [film]. Rio de Janeiro: DNTR/CUT, Cedi; 1991 [accessed on 2018 Dec 20]. 35 min. https://www.youtube.com/watch?v=FzTb5-ZCtaM. [ Links ]

11 Novaes JRP, Alves F, directors. Guariba 84 [film]. Rio de Janeiro: Feraesp, UFRJ, UFSCar; 2001 [accessed on 2018 Dec 20]. 11 min. https://www.youtube.com/watch?v=3aLBbG6iIqILinks ]

12 Novaes JRP, Alves F, directors. A memória em nossas mãos [film]. Rio de Janeiro: Feraesp, UFRJ, UFSCar; 2001 [accessed on 2018 Dec 20]. 15 min. https://www.youtube.com/watch?v=Z3qGSNAFaKU. [ Links ]

13 Novaes JRP, director. Quadra fechada [film]. Rio de Janeiro: Sindicato dos Empregados Rurais de Cosmópolis e Região, IE/UFRJ; 2006 [accessed on 2018 Dec 20]. 28 min. https://www.youtube.com/watch?v=dxGNE9x4Ioo. [ Links ]

14 Novaes JR, Alves FJC. (Org.). Migrantes: trabalho e trabalhadores no complexo agroindustrial canavieiro (os heróis do agronegócio brasileiro). São Carlos: EDUFSCAR; 2007. [ Links ]

15 Novaes JRP, Alves F, Vidal C, directors. Migrantes [film]. Rio de Janeiro: DEP/UFSCar, IE/UFRJ, CCH/UFMA, CCHLUFPI; 2007 [accessed on 2018 Dec 20]. 46 min. https://www.youtube.com/watch?v=-35fM2AC8UY. [ Links ]

16 Marques A, Novaes JRP, directors. Expedito: em busca de outros nortes [film]. Rio de Janeiro: MP2, Comitê Rio Maria; 2006 [accessed on 2018 Dec 20]. 1h15min. https://www.youtube.com/watch?v=6qfVhy4IOrU. [ Links ]

17 Novaes JRP, director. Conflito [film]. Rio de Janeiro: UFRJ; 2012 [accessed on 2018 Dec 20]. 20 min. https://www.youtube.com/watch?v=ANVc3udWA_k. [ Links ]

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19 Pignati WA, Machado JMH,Cabral JF. Acidente rural ampliado: o caso das "chuvas" de agrotóxicos sobre a cidade de Lucas do Rio Verde - MT. Ciênc. saúde coletiva 2007;12(1):105-114. [ Links ]

20 Novaes JRP, director. Linha de corte [film]. Rio de Janeiro: Terra Firme, Videosaude Distribuidora, MPP2 Produções; 2013 [ed quoted on 2018 Dec 20]. 27 min. Available at: https://www.youtube.com/watch?v=5xPzMKKOvtM. [ Links ]

21 Vilela RAG, Laat EF, Luz VG, Silva AJN, Takahashi, MAC. Pressão por produção e produção de riscos: a "maratona" perigosa do corte manual da cana-de-açúcar. Rev. bras. saúde ocup. 2015; 40(131), 30-48. [ Links ]

22 Novaes JRP, director. Mulheres das águas [film]. Rio de Janeiro: Terra Firme, Videosaude Distribuidora, MPP2 Produções; 2016 [ quoted on 2018 Dec 20]. 32 min. available at: https://www.youtube.com/watch?v=-tHBujQGKYA. [ Links ]

23 Pena PGL, Martins V, Rego RF. Por uma política para a saúde do trabalhador não assalariado: o caso dos pescadores artesanais e das marisqueiras. Rev. bras. saúde ocup. 2013; 38(127): 57-68. [ Links ]

24 Novaes JRP, Vidal C, directors. As sementes [filme]. Rio de Janeiro: UFJR; 2015 [ quoted on 2018 dez 20]. 30 min. Available at: https://www.youtube.com/watch?v=0b2zqiaT8Wc. [ Links ]

25 Siliprandi E. As sementes. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ; 2015. [ Links ]

26 Novaes JRP, director. Uma árvore bonita [film]. Rio de Janeiro: UFRJ, Secretaria Nacional da Juventude; 2012 [ quoted on 2018 dez 20]. 25 min. Available at: https://www.youtube.com/watch?v=Kn1Dz9GTK-Q. [ Links ]

27 Novaes JRP, director. Agrofloresta é mais [film]. Curitiba: Aprea, MPT, UFPR; 2018 [ quoted on 2018 Dec 20]. 33 min. Available at: https://www.youtube.com/watch?v=HN_E0kJj_eo. [ Links ]

1 Nesse documentário, Beto Novaes redigiu o argumento e roteiro.

2A Unitrabalho consiste numa rede nacional de universidades que apoia os trabalhadores na sua luta por melhores condições de vida e trabalho, realizando projetos de ensino, pesquisa e extensão que integram o conhecimento acadêmico ao saber elaborado na prática social.

3Essa greve foi violentamente reprimida, durante o período de abertura democrática, pela polícia do estado de São Paulo, cujo governador era Franco Montoro, do Partido Democrático Brasileiro (PMDB). Na época, os Ministros da Justiça e do Trabalho eram Michel Temer e Almir Pazianoto, respectivamente. O último, advogado de longa trajetória na luta sindical.

4Os trabalhos dos artistas populares encontram-se nos extras do DVD “Migrantes” e estão disponíveis no Youtube, na filmografia dedicada a Beto Novaes: mamulengo e violeiro.

5Além do prêmio Margarida de Prata da CNBB, como melhor documentário de 2007, Expedito foi premiado na 11a Mostra Internacional de Filmes Etnográficos, em 2006 no Rio de Janeiro, e selecionado para exibição nas Mostras Internacionais de Cinema do Rio de Janeiro e de São Paulo e na Mostra Internacional de documentários na França - Brésil en mouvements 2è édition - Films documentaires, Débats sur les droits humains et les questions sociales au Brésil, em 2006.

6Movimento, dedicado a defesa dos direitos humanos, que envolve entre seus ativistas artistas conhecidos. Ver http://www.humanosdireitos.org/quem-somos/.

7Seguindo a linha de valorização das lutas e dos movimentos sociais, foi lançado em setembro de 2018 o documentário “Agrofloresta é mais”, relatando uma experiência de recuperação ambiental por meio do sistema agroflorestal implantado pelo MST no acampamento José Lutzenberger, em região de Mata Atlântica, no município de Antonina (PR)27.

As transcrições da entrevista foram realizadas com recursos do projeto temático da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Processo: 2012/04721-1, cujo título é “Acidente de trabalho: da análise técnica à construção social de mudanças”.

Os autores informam que o trabalho não foi apresentado em evento científico e que não foi baseado em tese.

23Entrevista realizada em Campinas, no dia 24 de agosto de 2017, véspera do 59º Encontro do Fórum de Acidentes do Trabalho, tema “Comunicação e difusão para prevenção de acidentes”.

Recebido: 21 de Dezembro de 2018; Aceito: 18 de Janeiro de 2019

Contato: José Marçal Jackson Filho E-mail: jose.jackson@fundacentro.gov.br

Os autores declaram que não há conflitos de interesses.

Contribuições de autoria Novaes JRP foi o entrevistado e revisou o resultado da entrevista. Jackson Filho JM e Simonelli AP foram os entrevistadores e revisaram as transcrições. Todos os autores aprovaram a versão final e são responsáveis pelo conteúdo da entrevista.

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