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Revista Brasileira de Saúde Ocupacional

Print version ISSN 0303-7657On-line version ISSN 2317-6369

Rev. bras. saúde ocup. vol.44  São Paulo  2019  Epub Nov 25, 2019

http://dx.doi.org/10.1590/2317-6369000030418 

Tema livre/Artigo

Exposição ocupacional a agrotóxicos, riscos e práticas de segurança na agricultura familiar em município do estado do Espírito Santo, Brasil

Occupational exposure to pesticides, risks and safety practices in family farming in a municipality of Espírito Santo, Brazil

Glenda Blaser Petarlia 
http://orcid.org/0000-0002-6828-1238

Monica Cattafestaa 
http://orcid.org/0000-0002-8973-622X

Tamires Conceição da Luza 
http://orcid.org/0000-0003-1771-2998

Eliana Zandonadea 
http://orcid.org/0000-0001-5160-3280

Olívia Maria de Paula Alves Bezerrab 
http://orcid.org/0000-0002-5596-657X

Luciane Bresciani Salarolia 
http://orcid.org/0000-0002-1881-0306

aUniversidade Federal do Espírito Santo (UFES), Centro de Ciências da Saúde. Vitória, ES, Brasil.

bUniversidade Federal de Ouro Preto (UFOP), Escola de Medicina, Departamento de Medicina de Família, Saúde Mental e Coletiva. Ouro Preto, MG, Brasil.


Resumo

Objetivo:

caracterizar a exposição ocupacional, percepção do risco, práticas de segurança e fatores associados ao uso de equipamento de proteção individual (EPI) durante a manipulação de agrotóxicos.

Métodos:

estudo transversal com amostra representativa de agricultores de Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo. Procedeu-se à caracterização sociodemográfica e ocupacional dos agricultores com exposição direta a agrotóxicos e a identificação dos ingredientes ativos e classificação toxicológica dos produtos utilizados.

Resultados:

foram referidas 106 marcas comerciais, 45 grupos químicos e 77 ingredientes ativos. Houve predomínio do herbicida glifosato. Dos 550 agricultores avaliados 89% referiram uso de agrotóxicos extremamente tóxicos, 56,3% utilizavam mais de cinco agrotóxicos e 51% trabalhavam há mais de 20 anos em contato direto com estes produtos. Metade não lia rótulo dos agrotóxicos, mais de um terço não observava o tempo de carência para colheita e reaplicação e nem o de reentrada na lavoura; 71,4% não utilizavam EPI ou utilizavam de forma incompleta. Entre os fatores associados à não utilização do EPI, destaca-se a classe socioeconômica (p = 0,002), baixa escolaridade (p = 0,05), falta de suporte técnico (p < 0,001) e não leitura dos rótulos (p < 0,001).

Conclusão:

os agricultores apresentaram exposição ocupacional prolongada a múltiplos agrotóxicos de elevada toxidade, referindo práticas inseguras de manuseio.

Palavras-chave: agrotóxicos; agricultura familiar; trabalho rural; exposição ocupacional; saúde do trabalhador

Abstract

Objective:

to characterize occupational exposure, risk perception, safety practices and factors associated with the use of personal protective equipment (PPE) during pesticide handling.

Methods:

cross-sectional study with a representative sample of farmers from Santa Maria de Jetibá, Espírito Santo, Brazil. We collected sociodemographic and occupational data of farmers directly exposed to pesticides and identified the active ingredients and toxicological classification of the pesticides used.

Results:

106 trademarks, 45 chemical groups and 77 active ingredients were identified. There was a predominance of the herbicide glyphosate. Of the 550 farmers evaluated, 89% reported using extremely toxic pesticides, 56.3% used more than five different agrochemicals, and 51% worked for over 20 years in direct contact with these products. Half of them did not read the label, more than a third did not observe the pre-harvest, reapplication, or reentry intervals; 71.4% used incomplete PPE or none. Factors associated with non-use of PPE include socioeconomic class (p = 0.002), low educational level (p = 0.05), lack of technical support (p < 0.001) and non-reading of labels (p < 0.001).

Conclusion:

farmers have prolonged occupational exposure to multiple high toxicity pesticides, referring to unsafe handling practices.

Keywords: pesticides; family farming; rural work; occupational exposure; occupational health

Introdução

Considerado um importante fator para o aumento da produtividade das lavouras, a utilização de agrotóxicos tornou-se parte integrante do cotidiano agrícola. No entanto, a exposição humana a essas substâncias representa um problema de saúde pública1, visto que seu uso intensivo e indiscriminado tem acarretado consequências negativas para o ambiente e para a saúde das populações2. Em 2016, cerca de 550 mil toneladas desses produtos foram vendidos no Brasil3, que desde 2008 ocupa a posição de maior consumidor mundial de agrotóxicos1.

Devido a sua toxicidade intrínseca, os agrotóxicos impactam a saúde humana, produzindo efeitos que variam conforme o princípio ativo, a dose absorvida e a forma de exposição1. Além disso, a ampla utilização desses produtos, o desconhecimento dos riscos associados a sua utilização, o desrespeito às normas de segurança em seu manuseio, a livre comercialização, a grande pressão comercial por parte das empresas distribuidoras e produtoras e os problemas sociais encontrados no meio rural constituem importantes causas que levam ao agravamento dos quadros de contaminação humana e ambiental observados no Brasil4.

Cabe destacar que, a partir do conhecimento das lavouras predominantes, dos tipos de agrotóxicos utilizados e de suas características toxicológicas, pode-se inferir as previsões de contaminação ambiental e intoxicações humanas em cada região, servindo de alerta aos profissionais de saúde para subsidiar as ações de Vigilância em Saúde5.

Visando contribuir para o planejamento de políticas públicas voltadas à vigilância das populações expostas a agrotóxicos, este estudo teve o objetivo de caracterizar a exposição ocupacional a agrotóxicos, percepção do risco, práticas de segurança e fatores associados ao uso de equipamento de proteção individual (EPI) durante a manipulação de agrotóxicos em agricultores de Santa Maria de Jetibá, considerado o principal município agrícola do Espírito Santo.

Metodologia

Trata-se de estudo epidemiológico descritivo quantitativo derivado de projeto mais amplo, de base populacional, intitulado “Condição de saúde e fatores associados: um estudo em agricultores do Espírito Santo” (AgroSaúdES), financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes) e, desenvolvido no município de Santa Maria de Jetibá, região serrana do Espírito Santo, Brasil.

O AgroSaúdES envolveu amostra representativa de agricultores de ambos os sexos que atendiam aos seguintes critérios de inclusão: indivíduos de 18 a 59 anos, não gestantes, que tivessem a agricultura como principal fonte de renda e estivessem em plena atividade laboral por, no mínimo, seis meses. A identificação dos participantes foi realizada por meio dos dados disponíveis nos cadastros de indivíduos e de famílias realizado pelas equipes da Estratégia Saúde da Família, responsáveis pela cobertura de 100% das 11 regiões de saúde do município.

Foram identificados 7.287 agricultores de um total de 4.018 famílias. O cálculo do tamanho amostral considerou prevalência de desfecho (utilização de EPI) de 50%6, erro amostral de 3,5% e nível de confiança de 95%, perfazendo uma amostra mínima de 708 pessoas. Para compensar possíveis perdas, foram convidados 806 agricultores, cuja seleção ocorreu mediante sorteio estratificado considerando o número de famílias por região de saúde e por agente comunitário de saúde (ACS), de modo a respeitar a proporcionalidade entre as 11 regiões e entre os 80 ACS. Admitiu-se apenas um indivíduo sorteado por família, evitando assim a interdependência de informações. Em caso de recusa ou não comparecimento, foi convocado um novo participante de uma lista reserva do sorteio, respeitando-se o sexo e a unidade de saúde de origem do desistente.

Cabe destacar que, devido às características do município de Santa Maria de Jetibá, onde predomina a agricultura familiar, participaram do estudo apenas pequenos agricultores, cujas práticas agrícolas caracterizam-se pelo predomínio da policultura e baixo grau de mecanização.

A coleta de dados ocorreu entre dezembro de 2016 e abril de 2017 nas dependências das unidades de saúde do município. Foi aplicado questionário semiestruturado contendo questões sobre características socioeconômicas, demográficas, laborais e de exposição ocupacional a agrotóxicos, incluindo os produtos utilizados, frequência de uso, percepção de risco e práticas adotadas durante a manipulação de agrotóxicos.

Foram excluídos participantes que não apresentavam exposição ocupacional direta a agrotóxicos, considerada como a manipulação em qualquer uma das etapas de armazenamento, transporte, preparo, aplicação, descarte, e descontaminação de equipamentos e vestimenta.

As variáveis sociodemográficas analisadas foram: sexo, faixa etária, escolaridade, estado civil e classe socioeconômica. Esta última foi determinada de acordo com o Critério de Classificação Econômica Brasil (Abep) (7.

Para a caracterização ocupacional, considerou-se o tempo de trabalho como agricultor, a carga horária semanal de trabalho na agricultura, a posse/propriedade da terra, o total de culturas produzidas e os principais tipos de cultivos.

Para caracterização do uso e das práticas de segurança adotadas para manipulação de agrotóxicos, avaliou-se: a marca comercial, o número de produtos citados, o tempo (anos) de exposição ocupacional, o período decorrido desde o último contato, se houve orientação técnica para a aquisição dos produtos, o tipo de equipamento utilizado para aplicação, a utilização de EPI, o hábito de leitura do rótulo das embalagens e a observância do tempo estabelecido no rótulo e/ou no receituário agronômico para reentrada na lavoura e tempo de carência para a reaplicação ou colheita dos alimentos após aplicação.

A aquisição dos agrotóxicos foi considerada “Com orientação técnica” quando a indicação era realizada por profissionais da Assistência Técnica e Extensão Rural (Ater) do município e “Sem orientação técnica” quando tal indicação era realizada por vizinhos, vendedores ou por iniciativa própria.

A utilização de EPI foi categorizada em “EPI completo”, “EPI incompleto” e “Não utiliza EPI”. Foi considerado “EPI completo” o uso no, momento do contato com agrotóxicos, dos seguintes itens: touca, jaleco e calça de materiais resistentes a produtos químicos, óculos de proteção, máscaras/respiradores, luvas e botas impermeáveis.

Para caracterização química e toxicológica dos agrotóxicos empregados, foi utilizado o Sistema de Agrotóxicos Fitossanitários (Agrofit) (8, identificando-se grupo químico, ingrediente ativo, classificação toxicológica e de periculosidade ambiental, utilizando-se como termos de busca as marcas comerciais dos produtos.

A percepção dos riscos referentes aos agrotóxicos foi avaliada por meio das perguntas: “O(a) sr.(a) acha que os agrotóxicos podem fazer mal para saúde do agricultor?” e “O(a) sr.(a) acha que os agrotóxicos podem fazer mal para saúde das pessoas que consomem os alimentos produzidos com agrotóxicos?”, admitindo-se com resposta “sim”, “não” e “não sei”.

Para análise descritiva dos dados, foram calculados os valores absolutos e percentuais de cada variável. Empregou-se o teste qui-quadrado para determinação dos fatores associadas à utilização de EPIs, adotando-se nível de significância de 5%. Foram apresentadas na tabela apenas as variáveis com associação estatisticamente significante. Utilizou-se para as análises o programa IBM SPSS Statistics 22.0.

O estudo original foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa do Centro de Ciências de Saúde da Universidade Federal do Espírito Santo, Parecer n° 2091172 (CAAE 52839116.3.0000.5060). Todos os participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE).

Resultados

Dos 806 agricultores convidados para o estudo, foram efetivamente avaliados 790. Destes, foram considerados para fins deste artigo os dados de 550 (69,62%) por referirem contato ocupacional direto com agrotóxicos. Neste grupo (Tabela 1), houve predomínio de indivíduos do sexo masculino, faixa etária entre 30 a 39 anos e com menos de quatro anos de estudo. Mais de 80% deles se declararam casados ou vivendo com companheiro(a). A classe socioeconômica C foi predominante.

Tabela 1 Caracterização sociodemográfica de agricultores do município de Santa Maria de Jetibá, ES 

Variáveis n % IC 95%
Sexo
Masculino 355 64,5 61 - 69
Feminino 195 34,5 31 - 39
Faixa Etária
Até 29 anos 143 26,0 22 - 30
30 a 39 anos 166 30,2 26 - 34
40 a 49 anos 139 25,3 21 - 28
50 anos ou mais 102 18,5 16 - 22
Escolaridade
Menos de 4 anos 374 68,0 64 - 72
4 a 8 anos 122 22,2 19 - 26
Mais de 8 anos 54 9,8 7 - 12
Estado Civil
Solteiro 45 8,2 6 - 10
Casado(a)/Vive com companheiro(a) 464 84,4 81 - 87
Separado(a)/Divorciado(a)/Viúvo(a) 41 7,5 5 - 10
Classe Socioeconômica*
Classe A ou B 42 7,6 5 - 10
Classe C 279 50,7 46 - 55
Classe D ou E 229 41,6 37 - 46

IC95%: intervalo de 95% de confiança.

*Baseada no Critério de Classificação Econômica Brasil (Abep).

A caracterização ocupacional expressa na Tabela 2 mostra que 44,9% dos agricultores trabalhavam na atividade há mais de 30 anos, 84,2% relataram jornada de trabalho superior a 40 horas semanais e 77,8% referiram serem proprietários da terra em que trabalhavam. Houve predomínio de cultivo de 5 a 10 tipos de culturas, sendo, em sua maior parte, lavouras temporárias. Os cultivos mais citados foram repolho, feijão e milho.

Tabela 2 Caracterização ocupacional de agricultores do município de Santa Maria de Jetibá, ES 

Variáveis n* % IC 95%
Tempo de trabalho como agricultor
Menos de 10 anos 24 4,4 3 - 6
De 10 a 29 anos 278 50,7 46 - 55
30 anos ou mais 246 44,9 41 - 49
Carga horária semanal de trabalho
Menor ou igual a 40 horas 87 15,8 13 - 19
Maior de 40 horas 463 84,2 81 - 87
Posse/Propriedade da Terra
Proprietário 428 77,8 74 - 81
Não-proprietário 122 22,2 19 - 26
Total de culturas cultivadas
Até 4 culturas 245 44,5 40 - 49
5 a 10 culturas 263 47,8 43 - 52
11 ou mais culturas 42 7,6 5 - 10
Tipo de lavoura predominante
Lavoura somente temporária 279 50,7 46 - 55
Lavoura somente permanente 43 7,8 5 - 10
Lavoura temporária e permanente 228 41,5 37 - 45
Culturas cultivadas**
Repolho 282 51,2 47 - 55
Feijão 259 47,1 43 - 51
Milho 237 43,1 39 - 47
Café 162 29,4 25 - 33
Inhame 156 28,3 24 - 32
Pimentão 146 26,5 23 - 30
Abobrinha 131 23,8 20 - 27
Morango 127 23,1 19 - 26
Chuchu 121 22,0 18 - 25
Couve-flor 121 22,0 18 - 25
Vagem 119 21,6 18 - 25
Beterraba 118 21,4 18 - 25
Tomate 110 20,0 17 - 23

IC95%: intervalo de 95% de confiança.

*n variou de 548 a 550 em função de não respostas. **Foram apresentados os dados das 13 culturas citadas com maior frequência; no total, 59 tipos de culturas foram relatadas.

Com relação ao uso e às práticas de segurança na manipulação dos agrotóxicos (Tabela 3) verificou-se que a maior parte dos agricultores utiliza habitualmente mais de cinco tipos diferentes de agrotóxicos e está há mais de 20 anos trabalhando em contato direto com esses produtos. Mais de 60% relataram ter tido contato ocupacional com agrotóxicos nos sete dias anteriores à entrevista. Uma parcela expressiva relatou comprar os produtos sem orientação técnica da Ater, utilizar pulverizador costal manual, e apenas 28,6% relataram utilizar EPI completo. O motivo mais citado para não utilização de EPI foi o desconforto. Aproximadamente metade dos agricultores relatou não ler o rótulo dos agrotóxicos; 35,5% referiram não observar o tempo de carência para colheita, 32% não observavam o período de carência para reaplicação e 46,2% não cumpriam o período de reentrada na lavoura. Quando questionados sobre a percepção dos riscos referentes à utilização de agrotóxicos, 94,7% referiram considerar que esses produtos fazem mal à saúde do agricultor e 74,9% consideraram que ocasionam efeitos nocivos à saúde de quem consome os alimentos.

Tabela 3 Caracterização da exposição ocupacional, práticas de manipulação e percepção do risco para saúde relacionado à manipulação de agrotóxicos pelos agricultores do município de Santa Maria de Jetibá, ES 

Variáveis n* % IC 95%
Número de agrotóxicos utilizados
Até 5 tipos de agrotóxicos 223 43,7 39 - 48
Mais de 5 agrotóxicos 287 56,3 52 - 60
Anos de trabalho com agrotóxicos
20 anos ou menos 263 49,0 45 - 53
Mais de 20 anos 274 51,0 47 - 55
Tempo desde o último contato
Nos últimos 7 dias 335 61,6 57 - 65
Mais de 7 dias 209 38,4 34 - 42
Orientação técnica para aquisição de Agrotóxicos
Não é responsável pela compra de agrotóxicos 184 33,5 29 - 37
Aquisição sem orientação técnica da Ater 188 34,2 30 - 38
Aquisição com orientação técnica da Ater 178 32,4 28 - 36
Equipamento de aplicação
Pulverizador Costal Manual 302 59,3 55 - 63
Pulverizador Costal Mecanizado 102 20,0 16 - 23
Utiliza ambas as formas de aplicação 105 20,6 17 - 24
Conduta após aplicar agrotóxicos
Toma banho imediatamente 450 84,7 81 - 88
Apenas se lava imediatamente 32 6,0 4 - 8
Toma banho algumas horas após a aplicação 37 7,0 4 - 9
Lava-se algumas horas após a aplicação 2 0,4 0,1 - 0,9
Não toma banho ou não se lava após aplicação 10 1,9 0,7 - 3
Utilização de EPI**
Utiliza EPI completo 152 28,6 25 - 32
Utiliza EPI incompleto 259 48,7 44 - 53
Não utiliza EPI 121 22,7 19 - 26
Motivo para não utilização do EPI**
Por considerá-los desconfortáveis 48 41,4 32 - 50
Por não considerar necessário utilizar 38 32,8 24 - 41
Por considerá-los de alto custo 23 19,8 12 - 27
Por não saber como utilizar 7 6,0 1,7 - 10
Realizada leitura do rótulo dos agrotóxicos
Sim 260 50,6 46 - 55
Não 254 49,4 45 - 54
Respeita o tempo de carência para colheita
Sim 330 64,5 60 - 68
Não 182 35,5 31 - 39
Respeita o tempo de carência para reaplicação
Sim 340 68,0 64 - 72
Não 160 32,0 28 - 36
Respeita o tempo de reentrada na lavoura após aplicação
Sim 278 53,8 49 - 58
Não 239 46,2 42 - 50
Considera o agrotóxico prejudicial à saúde do agricultor
Sim 521 94,7 93 - 96
Não 20 3,6 2 - 5
Não sabe 9 1,6 0,5 - 2,7
Considera o agrotóxico prejudicial à saúde do consumidor
Sim 412 74,9 71 - 78
Não 106 19,3 16 - 22
Não sabe 32 5,8 4 - 8

IC95%: Intervalo de 95% de confiança; Ater: Assistência Técnica e Extensão Rural; EPI: equipamento de proteção individual.

*n variou de 500 a 550 em função de não respostas. ** EPI: equipamento de proteção individual

Conforme apresentado na Tabela 4, estiveram associados à não utilização de EPI o sexo feminino (p < 0,001), baixa escolaridade (p = 0,05), baixa classe socioeconômica (p = 0,002), cultivar lavouras temporárias (p = 0,023), utilizar até 5 agrotóxicos (0,044), comprar agrotóxicos sem orientação técnica (p < 0,001), utilizar equipamento não mecanizado para aplicação (p = 0,002), não tomar banho ou se lavar adequadamente após o uso (p < 0,001) e não observar os tempos de carência para reentrada (p < 0,001), reaplicação (p < 0,001) e colheita dos produtos após aplicar agrotóxicos (p < 0,001).

Tabela 4 Variáveis associadas à utilização de equipamento de proteção individual por agricultores de Santa Maria de Jetibá, ES 

Variáveis EPI* completo EPI* incompleto Não utiliza EPI*  
n % n % n % p-valor
Sexo
Masculino 115 32,5 183 51,7 56 15,8 <0,001
Feminino 37 20,8 76 42,7 65 36,5
Escolaridade
Menos de 4 anos 110 30,6 161 44,7 89 24,7 0,050
4 a 8 anos 27 22,7 66 55,5 26 21,8
Mais de 8 anos 15 28,3 32 60,4 6 11,3
Classe Socioeconômica**
Classe A ou B 12 28,6 22 52,4 8 19,0 0,002
Classe C 81 30,2 144 53,7 43 16,0
Classe D ou E 59 26,6 93 41,9 70 31,5
Tipo de lavoura predominante
Lavoura somente temporária 71 26,5 120 44,8 77 28,7 0,023
Lavoura somente permanente 13 31,7 20 48,8 8 19,5
Lavoura temporária e permanente 68 30,5 119 53,4 36 16,1
Número de agrotóxicos utilizados
Até 5 tipos de agrotóxicos 65 30,5 90 42,3 58 27,2 0,044
Mais de 5 agrotóxicos 75 26,6 150 53,2 57 20,2
Orientação técnica para aquisição de agrotóxicos
Não é responsável pela compra de agrotóxicos 42 24,7 72 42,4 56 32,9 <0,001
Compra sem orientação técnica 42 22,6 90 48,4 54 29,0
Compra com orientação técnica 68 38,6 97 55,1 11 6,3
Equipamento de aplicação
Não-mecanizado 73 24,3 150 50,0 77 25,7 0,002
Mecanizado 36 35,3 51 50,0 15 14,7
Mecanizado e Não-mecanizado 42 40,0 51 48,6 12 11,4
Conduta após utilizar agrotóxicos
Toma banho ou se lava imediatamente 147 30,7 235 49,1 97 20,3 <0,001
Não toma banho ou não se lava imediatamente 5 10,4 22 45,8 21 43,8
Realiza leitura do rótulo dos agrotóxicos
Sim 103 39,9 123 47,7 32 12,4 <0,001
Não 43 17,4 120 48,6 84 34,0
Respeita o tempo de carência para colheita
Sim 111 34,4 162 50,2 50 15,5 <0,001
Não 33 18,3 88 48,9 59 32,8
Respeita o tempo de carência para reaplicação
Sim 119 35,7 160 48,0 54 16,2 <0,001
Não 21 13,3 84 53,2 53 33,5
Respeita o tempo de reentrada na lavoura após a aplicação
Sim 116 42,5 124 45,4 33 12,1 <0,001
Não 32 13,6 126 53,6 77 32,8

*EPI: equipamento de proteção individual. **Baseada no Critério de Classificação Econômica Brasil (Abep).

Foram citadas 106 marcas comerciais diferentes de agrotóxicos, totalizando 45 grupos químicos e 77 ingredientes ativos distintos. Com relação à marca comercial, o herbicida Roundup® foi o produto mais citado, seguido pelo Gramoxone®, pelo inseticida Decis® e pelo fungicida Dithane Nt®. Analisando-se o ingrediente ativo (Tabela 5), o glifosato sal di-amônio foi o mais prevalente, sendo utilizado por 66,4% dos agricultores, seguido pelo fungicida mancozebe, o herbicida dicloreto de paraquate e em, quarto lugar, o inseticida deltametrina.

Com relação à finalidade, herbicidas foram mais frequentes, utilizados por 78,8% dos agricultores. Analisando-se a classe toxicológica, 88,8% dos agricultores utilizavam agrotóxicos “extremamente tóxicos à saúde humana” e mais de 91% produtos classificados como “muito perigoso” para o meio ambientec.

Tabela 5 Ingredientes ativos mais utilizados pelos agricultores do município de Santa Maria de Jetibá/ES considerando as marcas comerciais citadas 

Ingrediente ativo* Grupo químico n** %***
Glifosato-sal de di-amônia Glicina substituída 339 66,4
Mancozebe Alquilenobis(ditiocarbamato) 298 58,4
Dicloreto de paraquate Bipiridílio 296 58,0
Deltametrina Piretróide 260 51,0
Abamectina Avermectina 242 47,5
Azoxistrobina Estrobilurina 203 39,8
Difenoconazol Triazol 193 37,8
Tiametoxam Neonicotinóide 187 36,7
Lambda-cialotrina Piretróide 183 35,9
Metalaxil-M Acilalaninato 153 30,0
Tiofanato-metílico Benzimidazol 148 29,0
Clorfenapir Análogo de pirazol 134 26,3
Tebuconazol Triazol 126 24,7
Imidacloprido Neonicotinóide 120 23,5
Trifloxistrobina Estrobilurina 110 21,6
Clorantraniliprole Antranilamida 104 20,4
Profenofós Organofosforado 104 20,4
Indoxacarbe Oxadiazina 102 20,0
Metomil Metilcarbamato de oxima 101 19,8
Metolacloro Cloroacetanilida 98 19,2

*Dos 77 Ingredientes ativos (IA) identificados no estudo, foram apresentados nesta tabela os dados dos 20 mais frequentes. **Corresponde ao número de agricultores que referiram utilizar pelo menos 1 agrotóxico com o respectivo ingrediente ativo. ***Calculado levando-se em consideração o total de 510 agricultores que souberam informar a marca comercial dos agrotóxicos utilizados.

Discussão

Este estudo de base populacional realizado com amostra ampla e representativa, selecionada de modo estratificado e aleatório, com pequenas proporções de perdas, possibilita a extrapolação dos resultados para a população-alvo, composta por pequenos agricultores, cujas práticas agrícolas caracterizam-se pelo predomínio da policultura e utilização de agrotóxicos. Por meio desta investigação, foi possível evidenciar importantes achados que corroboram o perfil de exposição ocupacional aos agrotóxicos encontrados em outras regiões brasileiras, com destaque para a exposição a uma vasta gama de produtos, de elevada toxicidade, por vários anos e sem utilização dos equipamentos de proteção individual recomendados.

Segundo o relatório anual de comercialização de agrotóxicos do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama) (3, o Brasil passou de 162.461,96 toneladas de agrotóxicos comercializadas em 2000 para 551.313,25 em 2016, o que representou um aumento aproximado de 240%. Esse crescimento, no entanto, não foi acompanhado pelo aumento proporcional das áreas cultivadas, que cresceram apenas 49% no período3), (9. No Espírito Santo essas diferenças foram ainda maiores: enquanto a comercialização de agrotóxicos aumentou 64,6% de 2000 a 2016, a área plantada ou destinada à colheita reduziu em 17%3), (9.

Do volume total de agrotóxicos comercializados no Brasil em 2016, 58,5% eram herbicidas, 13,3% fungicidas e 8,53% inseticidas9, o que parece refletir na tendência de consumo identificada neste estudo. Pesquisa anterior realizada na região de Alto Santa Maria, ES, também revelou perfil de consumo semelhante10. Um quadro preocupante é delineado quando se constata o aumento crescente da utilização de fungicidas nas plantações de hortaliças do Brasil. Estima-se que cerca de 20% da comercialização nacional de fungicidas seja destinada a esse tipo de cultura, na qual o consumo de agrotóxicos por hectare pode chegar a ser 8 a 16 vezes maior quando comparado ao utilizado na cultura da soja, por exemplo11.

No Brasil, o Glifosato e seus sais ocuparam o primeiro lugar no ranking dos mais vendidos em 2016. Entre os 10 agrotóxicos mais comercializados também estão o Mancozebe e o Dicloreto de Paraquate3, corroborando dados encontrados em Santa Maria de Jetibá. Cabe destacar que dentre os 77 ingredientes ativos de utilização frequente pelos agricultores desta investigação, aproximadamente 20% (n = 15) são proibidos na União Europeia12, entre eles Paraquate, Clorfenapir e Profenofós, e aproximadamente 12% (n = 9) não são registrados nos Estados Unidos13.

Diferente do encontrado por outros autores14, o grupo químico dos organofosforados não foi amplamente citado neste estudo. Uma das hipóteses pode estar relacionada ao tipo de cultura predominante na região de Santa Maria de Jetibá. Apesar dos organofosforados serem registrados para algumas culturas de hortaliças, também são utilizados em culturas de algodão, soja, trigo8, que não são cultivos características na região.

Embora os efeitos à saúde pela exposição aos agrotóxicos não tenham sido objeto desta pesquisa, diversos estudos na literatura associam efeitos potencialmente danosos relacionados com várias substâncias utilizadas pelos agricultores investigados. Segundo dados da Pesticide Action Network (PAN) (15, 30% dos ingredientes ativos de uso contínuo pelos agricultores deste estudo (n = 23) são classificados como carcinogênicos para humanos ou animais, 17% (n = 13) apresentam elevada toxicidade para o sistema reprodutor e 26% (n = 20) são suspeitos de causar alterações no sistema endócrino.

Estudo de Koifman, Koifman e Meyer16 demonstrou que em alguns estados brasileiros houve correlação entre a utilização de agrotóxicos e manifestações endócrinas na população exposta. Seus efeitos podem ser decorrentes de sua capacidade de agirem como disruptores endócrinos (DE), substâncias químicas capazes de interferir no funcionamento normal de hormônios ou enzimas de animais e humanos. Glifosato, Mancozebe, Deltrametrina, Tebuconazol, Metalocloro são exemplos de agrotóxicos que apresentam indícios de interação com o sistema endócrino17. Goldner et al. (18 encontraram associação entre o hipotireoidismo e o uso do inseticida organoclorado Clordano, o herbicida Paraquate e os fungicidas Benomil e Mancozebe , tendo sido este último o único associado tanto ao hipertireoidismo como ao hipotireoidismo. Efeitos sobre o sistema reprodutor também foram observados por Hossain, Ali, D’Souza e Nain19, que identificaram risco 3 a 9 vezes maior de parâmetros seminais anormais em indivíduos expostos à agrotóxicos.

As evidências em estudos da literatura também indicam possíveis relações entre exposição a agrotóxicos e doenças respiratórias20. Organofosforados, Piretróides e Dicloreto de Paraquate foram associados à rinite alérgica no estudo de Koureas e colaboradores21. Associações com desenvolvimento de doenças de Parkinson22, linfoma não Hodgkin23 e leucemia24) permanecem controversas. O herbicida Glifosato, conhecido pela marca Roundup®, agrotóxico mais citado neste estudo, também tem sido associado a efeitos negativos sobre a saúde25, incluindo provável potencial carcinogênico, de acordo com a International Agency for Research on Cancer26. Cabe destacar recente decisão judicial que condenou a empresa Monsanto, fabricante do referido produto, a pagar 289 milhões de dólares em indenizações por suposta associação do glifosato com o desenvolvimento de câncer em trabalhador. Além disso, a empresa responde a mais de cinco mil processos semelhantes nos Estados Unidos27.

Também chama a atenção no presente estudo a utilização concomitante de diversos tipos de agrotóxicos, dados que reforçam a exposição ocupacional múltipla a que o agricultor está submetido. Segundo Harding et al. (28 a exposição simultânea dificulta a investigação dos riscos para a saúde associados à utilização de agrotóxicos, uma vez que os produtos possuem diferentes modos de ação. Conforme destaca Faria29, essa investigação torna-se ainda mais complexa considerando que a maior parte das informações disponíveis sobre os efeitos à saúde está concentrada em poucos tipos químicos, não abrangendo a grande variedade de agrotóxicos de uso rotineiro que se tem evidenciado.

Convém destacar o elevado número de agricultores deste estudo que referiu tempo de exposição ocupacional a agrotóxicos superior a 20 anos. Sabe-se que a duração, a frequência e a intensidade da exposição são importantes fatores de risco para o desenvolvimento de efeitos crônicos sobre a saúde30. Esses efeitos, no entanto, não têm sido adequadamente caracterizados, pois em geral, tornam-se aparentes apenas após anos de exposição, dependem da toxicidade de seus componentes e de como estes interagem entre si31. Por isso, para compreensão do real efeito desses produtos sobre a saúde humana, torna-se fundamental a identificação dos efeitos sinérgicos de misturas de dois, três ou mais complexas de agrotóxicos, comumente realizada no campo.

A forma de pulverização adotada também aumenta a exposição do agricultor aos agrotóxicos, elevando a probabilidade de ocorrerem efeitos nocivos. Na população estudada, aproximadamente 60% dos agricultores utilizavam meios não mecanizados (bombas costais manuais) para pulverização dos produtos. Além do maior risco de intoxicação quando comparado aos meios mecanizados, os equipamentos manuais são de uso mais frequente, principalmente entre os pequenos produtores, em função do seu menor custo de aquisição e manutenção32.

Nesse cenário de múltiplos riscos, a utilização de EPIs é de fundamental importância, mas, conforme verificado em Santa Maria de Jetibá e em estudos semelhantes2), (6, a adesão dos trabalhadores rurais a esses equipamentos é pequena, fato que aumenta a sua vulnerabilidade ante os efeitos nocivos do uso de agrotóxicos33. Neste estudo, a não utilização de EPI foi associada a diversos fatores, dentre eles, sociodemográficos e econômicos. Dos indivíduos que referiram não utilizar EPI, a maioria era do sexo feminino, possuía baixa escolaridade ou pertencia às classes socioeconômicas D ou E. Corroborando a literatura, para Naidoo e colaboradores34, nos locais de precárias condições econômicas, os agricultores dariam preferência às necessidades básicas, como alimentos, roupas e transporte, não à aquisição de equipamentos de segurança.

Cabe destacar que, apesar da associação com a classe socioeconômica e o uso de EPIs, o desconforto, a exemplo de outras regiões2, foi o fator mais citado pelos agricultores. A forma como esses equipamentos são projetados e os materiais utilizados em sua confecção afetam os mecanismos fisiológicos de termorregulação35. Tais fatores, agravados pela intensa exposição solar e elevado esforço físico decorrentes do trabalho no campo, acarretam consequente elevação de temperatura corporal do trabalhador, tornando a utilização dos EPIs incômoda e com riscos de causar danos à saúde decorrentes do estresse térmico35. Apesar do grande avanço tecnológico das indústrias, essa limitação ainda não foi superada, tornando fundamental o desenvolvimento de novas tecnologias para confecção de equipamentos de segurança que ofereçam a proteção ao trabalhador ao mesmo tempo que garantam o conforto térmico necessário às atividades agrícolas29.

A não utilização de EPIs também foi associada à adoção de outras condutas inseguras no manuseio dos agrotóxicos, como o não cumprimento do tempo de reentrada e tempo de carência para reaplicação ou colheita, não tomar banho ou se lavar imediatamente após contato com esses produtos e não realizar a leitura dos rótulos dos agrotóxicos utilizados. Deve-se destacar que a baixa escolaridade dos agricultores dificulta a leitura e compreensão das informações descritas nos rótulos dos produtos6) e o consequente acesso às informações sobre os riscos associados ao uso de agrotóxicos, o que, por sua vez, pode ter sido determinante para o não seguimento das práticas de segurança recomendadas.

Também se deve evidenciar que a maior parte dos agricultores que não utilizavam EPIs referiu não receber suporte técnico especializado para aquisição dos agrotóxicos, assunto pouco referido neste estudo e em estudo anterior realizado na região10. Mais de 30% dos agricultores informaram comprar agrotóxicos baseados na indicação de vizinhos, amigos, familiares, por conta própria ou por orientação dos vendedores, por intermédio de receituários agronômicos emitidos nas próprias lojas de produtos agropecuários. Em estudo conduzido no Piauí, 87,4% dos entrevistados referiram comprar agrotóxicos em casas agropecuárias e 92% afirmaram que nunca precisaram do receituário agronômico para adquiri-los6. Na tentativa de aumentar o rigor na emissão dos receituários, essa forma de assistência, denominada “assistência técnica de balcão”, tem sido restringida em alguns estados brasileiros, onde se tem exigido que o receituário agronômico seja elaborado por profissionais qualificados apenas após visita in loco nas propriedades36.

A associação entre a adoção de práticas inseguras, como a não utilização de EPIs, e fatores sociais e econômicos, como escolaridade, classe socioeconômica e falta de suporte técnico para aquisição de agrotóxicos, demonstra que o agricultor não deve ser o único responsabilizado pelas atitudes que colocam em risco sua saúde, como frequentemente é observado37. Ao contrário, revelam a necessidade de desenvolvimento de políticas públicas que assegurem e estimulem maior acesso à educação, renda e assistência agrícola especializada, como forma de garantir maior proteção à saúde do trabalhador rural.

Segundo Veiga38, o papel do agrotóxico pode ser analisado tanto do ponto de vista do seu risco potencial à saúde humana e ao meio ambiente, quanto do ponto de vista do seu papel de agente necessário e catalisador do processo produtivo rural. No entanto, tem-se feito muito esforço para promover o uso de agrotóxicos a fim de aumentar a produtividade e pouco voltado para a proteção da saúde e do meio ambiente39. Esse modelo de desenvolvimento vem gerando impactos sociais e ambientais de curto, médio e longo prazo que têm sido custeados por toda a população, decorrente de gastos públicos para recuperação de áreas contaminadas, prevenção, diagnóstico e tratamento das intoxicações agudas e crônicas, afastamentos e aposentadorias por invalidez e mortes de trabalhadores rurais, sem que haja coparticipação das indústrias químicas na socialização destes custos, muitas vezes irreparáveis1.

Essa problemática traz à tona a necessidade de encontrar soluções que tenham como objetivo a utilização de agrotóxicos com vistas à minimização dos impactos sobre a saúde humana e à sustentabilidade ambiental. Esse desafio se reveste de alta complexidade pelo caráter multidimensional da temática, pelos diferentes interesses dos setores envolvidos e pelas controversas visões sobre benefícios e malefícios que o uso dos agrotóxicos produz40.

Diversas são as estratégias de enfrentamento da utilização desordenada de agrotóxicos no Brasil. Entre elas, cabe destacar: o fortalecimento dos Núcleos de Vigilância de Saúde de Populações Expostas a Agrotóxicos (VSPEA) e das políticas públicas que visem o incentivo ao uso de tecnologias alternativas de produção41, a implementação de ações educativas efetivas para promoção do uso seguro dos agrotóxicos, o subsídio para aquisição de EPIs, a taxação sobre a comercialização dos agrotóxicos e a implantação de subsídios para produtores que utilizem manejo integrado de pragas e práticas de cultivo mais agroecológicas40. Além disso, torna-se fundamental a qualificação das equipes de saúde para melhorar o diagnóstico, o manejo e a notificação dos casos de intoxicação, a implementação de indicadores biológicos alternativos para monitoramento e diagnóstico dos casos de intoxicação e o desenvolvimento de EPIs com materiais que, além de ser eficazes, apresentem conforto térmico e custos acessíveis29.

Considerações finais

Este estudo confirma a severidade da exposição ocupacional aos agrotóxicos a que estão submetidos os agricultores de Santa Maria de Jetibá, uma população de trabalhadores rurais exposta de forma prolongada a múltiplos agrotóxicos, em sua maioria de elevada toxidade. Além disso, foram observadas práticas inseguras de manuseio, como a não utilização de equipamentos de proteção individual e o desrespeito aos tempos de reentrada e de carência para reaplicação e colheita.

Compreender as atividades adotadas no campo e as lacunas de conhecimento que levam às práticas inseguras é fundamental para o planejamento de ações de vigilância em saúde das populações expostas a agrotóxicos, como forma de minimizar os impactos desta exposição em curto, médio e longo prazo sobre a saúde do agricultor. Aliado às ações de vigilância, deve-se buscar constantemente o desenvolvimento de novas metodologias agroecológicas de produção, com vistas à redução do consumo exagerado de agrotóxicos que têm gerado impactos incalculáveis e irrecuperáveis sobre a saúde do ser humano e do meio ambiente.

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cA classificação toxicológica utilizada para este estudo foi baseada na normativa vigente à época (Portaria Ms/Snvs, n°3, de 16 de janeiro de 1992). Cabe destacar que os critérios de classificação foram posteriormente alterados pela Resolução DC/Anvisa nº 294 de 29 de julho de 2019, publicada no Diário Oficial da União em 31/07/2019.

Os autores informam que o estudo original do qual foram derivados os dados deste artigo foi financiado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Espírito Santo (Fapes) - Edital Fapes/CNPq/Decit-SCTIE-MS/SESA - PPSUS - n°05/2015.

Os autores informam que o trabalho não foi apresentado em eventos científicos

O trabalho é oriundo da pesquisa de doutorado de Glenda Blaser Petarli intitulada Saúde de agricultores do Espírito Santo: a complexa relação entre produção de alimentos, exposição a agrotóxicos e risco à saúde humana, apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo em 2019.

Received: July 01, 2018; Revised: October 27, 2018; Accepted: December 07, 2018

Contato: Glenda Blaser Petarli E-mailglenda.petarli@gmail.com

Os autores declaram que não há conflitos de interesses.

Contribuição de autoria Todos os autores declaram que participaram diretamente no planejamento, elaboração do estudo, revisão bibliográfica, análise de dados, redação do artigo e aprovação da versão final publicada e se responsabilizam publicamente pelo seu conteúdo.

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