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Entomología y Vectores

versão impressa ISSN 0328-0381

Entomol. vectores v.11 n.4 Rio de Janeiro out./dez. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0328-03812004000400001 

NECROLÓGIO

 

Rodolfo Ubaldo Carcavallo (« 1931 † 2004)

 

 

José Jurberg

 

 

Aos 73 anos de idade, faleceu no dia 23 de outubro de 2004 na cidade de Buenos Aires, Rodolfo Ubaldo Carcavallo, no qüinquagésimo ano em que comemoraria suas atividades de ensino e pesquisa.

Conheci pessoalmente Rodolfo em 1992 em um Congresso que se realizava na cidade de Belém do Pará. Estávamos hospedados no mesmo hotel e íamos as reuniões do Congresso caminhando pelas frondosas ruas de Belém, trocando impressões sobre nossos trabalhos e projetos, descobrindo uma afinidade mútua.

Numa das manhãs, Rodolfo convidou-me para visitar a Coleção de insetos do Museu Emílio Goeldi, já instalado no Instituto de Pesquisas da Amazônia (INPA). Fomos bem recebidos e a coleção foi aberta para nosso gáudio.Seus olhos argutos e experientes vislumbraram prontamente na Coleção de Triatominae alguns exemplares que lhe chamaram a atenção. Foi feito um pedido de empréstimo para um estudo mais acurado e entre eles estava uma espécie nova descrita algum tempo mais tarde Belminus laportei Lent, Jurberg & Carcavallo, 1995.

Convidei Rodolfo para visitar nosso laboratório no Instituto Oswaldo Cruz propondo-lhe trabalhos em parceria. O convite foi aceito com vários desdobramentos.

Ao conhecer o Centro de Referência, ele resolveu transferir sua Coleção particular de barbeiros e incorpora-la a Coleção de Triatomíneos do Instituto. Foi feita uma venda da Coleção por um preço simbólico, o episódio da venda se materializou pelas condições adversas que a pesquisa na Argentina estava passando, ele tinha acabado de perder seu emprego, quando o governo argentino em 1996 fechou 40 Instituições de Pesquisa.

Durante sete anos, Rodolfo usufruiu de uma bolsa de pesquisador-visitante do Convênio Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) e Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).

Sua vinda para o Rio de Janeiro juntamente com Lélia, sua esposa, propiciou para todos nós um período fantástico de trabalho, a experiência e a cultura do Rodolfo aliada a sabedoria do Herman Lent, juntos ao pessoal do laboratório, técnicos, pesquisadores, estudantes de pós-graduação, permitiram o recrudescimento das atividades. Rodolfo trouxe consigo os originais do Atlas sobre os vetores da doença de Chagas que há muito vinha preparando na Argentina para finaliza-los no Laboratório, o que acabamos conseguindo e com o apoio da Fundação Nacional de Saúde, do CNPq e da Fiocruz. A obra foi publicada em três volumes bi-língue português/inglês.

A alegria do Rodolfo era tamanha que logo começou a arquitetar a publicação do 4º volume que infelizmente não pode se concretizar.

O relacionamento com Rodolfo incentivou-me a ir a Buenos Aires algumas vezes, com passagens que jamais serão esquecidas.

Numa manhã chuvosa Rodolfo foi me buscar no Hotel, pois tinha uma programação intensa, desconhecida para mim. Fomos a um bar tomar café e ele mostrou-me provas de vários artigos científicos e queria que eu as lesse e opinasse. Já tinha ouvido outros pesquisadores, estava nascendo uma nova Revista Científica, sem recursos, sem sede própria, apenas pela determinação de um homem. Após a leitura e alguns cafés, fomos a uma gráfica nos fundos de uma loja dar ordem para que fosse impresso em papel jornal o Fascículo nº 1 do 1º volume da Revista Entomologia y Vectores, cujo Diretor era o Dr. Itamar Galíndez Girón, da Venezuela que fazia doutorado na Argentina. Anos mais tarde, Rodolfo já vivendo no Brasil pediu-me que assumisse a responsabilidade da Editoria da Revista, ainda sem dinheiro para edita-la, e sem sede. Assim era o Rodolfo, um visionário que concretizava seus sonhos.

Sua vida foi repleta de realizações naquilo que gostava de fazer; a pesquisa, ensino, viagens, editoração de livros e revistas. Sua cultura abrangente na música, arte, literatura era de causar admiração. Vínhamos todos os dias conversando e ouvindo música clássica no som do carro. No meio do diálogo, Rodolfo fazia uma pausa para que eu observasse o 1º solo do instrumento ou o trecho da música. Ele dizia o nome do solista, e discorria sobre a música, no final da música ouvíamos do radialista os créditos da música, Rodolfo acertava todas, e a conversa era reiniciada.

Nos cinqüenta anos de pesquisa, Rodolfo publicou cento e sessenta e quatro artigos científicos, descobriu dezessete espécies novas, duas tribos e dois gêneros, teve seu nome imortalizado com uma espécie de barbeiro Triatoma carcavalloi além de espécies Coleóptera, Hemíptera e Lepidóptera, publicou trinta e um livros, quarenta capítulos de livros.

A ciência ficou órfã de um brilhante discípulo, nos, seus amigos, tristes, vamos lembrá-lo sempre pelo seus ensinamentos, retidão de caráter e sabedoria.

Sua biobibliografia está registrada na Revista Entomologia y Vectores, nºs 10 (1) e 10 (2), março e junho de 2003.