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Entomología y Vectores

versão impressa ISSN 0328-0381

Entomol. vectores v.12 n.1 Rio de Janeiro jan./mar. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0328-03812005000100010 

NOTA DE PESQUISA RESEARCH NOTE

 

Ocorrência de Dentocarpus silvai silvai Dusbabek & Cruz, 1966 (Acari: Chirodiscidae) em duas espécies de molossídeos (Mammalia: Chiroptera) no estado do Rio de Janeiro, Brasil

 

 

Marcelo A. FonsecaI; Michel P. ValimII; Raphael A. Botão-MirandaI; Clayton B. GittiIII; Marinete AmorimI; Nicolau M. Serra-FreireI

ILaboratório de Ixodides, Departamento de Entomologia, Instituto Oswaldo Cruz / FIOCRUZ, Av. Brasil 4365, CEP: 21040-900 Manguinhos, Rio de Janeiro, RJ, Brasil
IIDepartamento de Parasitologia, Instituto de Ciências Biológicas, Universidade Federal de Minas Gerais, Caixa Postal 486, CEP: 31270-901 Pampulha, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil. E-mail: mpvalim@hotmail.com
IIIDepartamento de Vigilância Sanitária do estado do Rio de Janeiro, Rua do México 128, 3º andar, CEP: 20.031-142 Centro, Rio de Janeiro, RJ, Brasil

 

 


ABSTRACT

Occurence of Dentocarpus silvai silvai, Dusbabek & Cruz, 1966 (Acari: Chirodiscidae) on two molossids (Mammalia: Chiroptera) species in Rio de Janeiro state, Brazil - In 2001 mites from three bats were collected, Molossus ater at Silva Jardim municipality and from Molossus molossus at Rio de Janeiro municipality, both in the Rio de Janeiro state. The mites where identified as Dentocarpus silvai silvai (Acari: Chirodiscidae), this being the first report of this mite species in Brazil.

Key words: Molossidae, Molossus ater, Chirodiscidae, Dentocarpus silvai silvai


 

Ácaros do gênero Dentocarpus (Acari: Chirodiscidae) foram primeiramente encontrados parasitando morcegos em Cuba, quando foi proposto como um gênero novo, separando-se dos outros existentes na família principalmente com base na estrutura dos tarsos III e IV, pela forma da placa propodosomal e outros caracteres.

O primeiro hospedeiro referido em literatura para este ácaro foi Molossus major tropidorhynchus (Gray, 1839), procedente da cidade Santiago de Cuba, Cuba e tendo como espécie tipo Dentocarpus silvai (Dusbabek & Cruz, 1966). Em uma revisão sobre o assunto, Fain (1973) mostrou alguns hospedeiros para esta espécie de listroforídeo como: Molossus molossus (Pallas, 1766), Molossus ater Geoffroy, 1805 e Cynomops planirostris (Peters, 1865) todos provenientes de Suriname, na América do Sul.

A única espécie de listroforoidea (Chirodiscidae), em quirópteros, relatada no Brasil foi Lawrenceocarpus mimon Fain, 1970 parasitando um Mimon bennetti (Gray, 1838) na Amazônia (Fain, 1973). O mesmo autor, descreveu outras espécies parasitas de Molossus ater em diferentes países das Américas: Dentocarpus silvai silvai Dusbabek & Cruz, 1966 em Cuba; Dentocarpus aitkeni (Pinichpongse, 1963) no Suriname; Parakosa tadarida McDaniel & Lawrence, 1962 em Trinidad e Tobago e Parakosa flexipes (Pinichpongse, 1963) em Trinidad e Tobago e no Suriname.

Apesar de sua especificidade os estudos sobre os ectoparasitos de morcego podem fornecer dados importantes e auxiliar no entendimento da epizootiologia de certas patologias, porque apresentam papel fundamental na manutenção e disseminação de bioagentes entre morcegos (Desiderio et al., 2000). O relato se justifica pela escasses de literatura referente a ácaros parasitando Chiroptera e tem como objetivo registrar a ocorrência pela primeira vez no Brasil de uma espécie de ácaro já encontrado em outros países latino-americanos.

Foram utilizados no estudo ácaros provenientes de três morcegos da espécie Molossus ater, capturados com o auxilio de Rede Japonesa ou "mist net" no Distrito de Imbaú, município de Silva Jardim-RJ (S 22º38.724'; W 42º28.103'), e de outro morcego da espécie M. molossus encontrado moribundo no campus da Fundação Oswaldo Cruz, no município do Rio de Janeiro, RJ.

Os animais foram levados ao laboratório de Ixodides, Departamento de Entomologia, Instituto Oswaldo Cruz/FIOCRUZ para a coleta e identificação dos parasitos. Os ácaros foram montados entre lâmina e lamínula seguindo a técnica que consiste na utilização do meio de Hoyer, segundo Flechtmann (1990). Os ácaros foram identificados com o auxílio da chave dicotômica proposta por Fain (1973). O material do presente estudo encontra-se depositado na coleção Acarológica (lâminas 106-118) do Laboratório de Ixodides, Departamento de Entomologia, IOC/FIOCRUZ.

Dos quatro morcegos capturados parasitados, foram coletados 70 ácaros localizados nos pelos do propatágio e plagiopatágio. Todos foram identificados a Dentocarpus silvai silvai, por apresentarem o tarso III com uma unha igual ou pouco mais larga que o próprio tarso com uma cerda auxiliar muito mais larga que a unha e duas unhas acessórias situadas subterminalmente, destacando espinhos apicais nos tarsos posteriores que são longos e afilados terminalmente e a forma de seu escudo propodosomal.

Constatou-se a presença de vários estádios nos espécimes examinados, sendo 37 fêmeas (Fig. 1A), 13 ácaros machos (Fig. 1B), sete ninfas e 13 larvas. Dentre eles observou-se a presença de ninfas copuladoras (Fig. 1C), larvas livres e larvas no interior de várias fêmeas (Fig. 1D), já em adiantado estado de desenvolvimento, ocupando cerca de 2/3 do idiossoma e com gnatossoma posicionado em sentido oposto ao da fêmea, constatando assim a ovoviviparidade desta espécie de parasito.

 


 

Justifica o presente relato o fato de morcegos insetívoros terem sido encontrados naturalmente infectados pelo vírus da raiva por Silva et al. (1999), o que poderia fazer com que o hospedeiro, pela ação do parasito, abandonasse a colônia aumentando a possibilidade de um encontro casual com seres humanos, podendo causar acidentes.

O hábito de auto-higienização, através da lambedura não determina a eliminação do ácaro no pêlo, os morcegos, que apresentam este mesmo hábito de maneira individual e coletiva, não estão isentos da dificuldade da remoção desses ectoparasitos (Fig. 2).

 

 

Para distribuição geográfica de D. silvai silvai adiciona-se o Brasil como área de distribuição deste ácaro, com um hospedeiro já assinalado parasitado por este listroforídeo em outras partes do continente americano.

 

Referências Bibliográficas

Desiderio, M.H.G.; Santos, H.D.; Sá-Freire, L. & Serra-Freire, N.M., 2000. Registro do encontro de Strebla (Diptera: Streblidae) em Desmodus rotundus (Mammalia: Chiroptera) capturado em Tocantins, Brasil. Rev. Cienc. Biol. Saude 1:98-100.         [ Links ]

Dusbabek, F. & Cruz, J., 1966. Nuevos generos y especies de acaros (Acarina: Listrophoridae) parasitos de murcielagos cubanos. Poeyana (Sér. A) 31:1-20.         [ Links ]

Fain, A., 1973. Les Listrophorides d'Amérique néotropicale (Acarina: Sarcoptiformes) I. Familles Listrophoridae et Chirodiscidae. Bull. Inst. R. Sci. Nat. Belg. Entomol. 49:1-149.         [ Links ]

Flechtmann, C.H.W., 1990. Ácaros de Importância Médica e Veterinária. Editora Nobel, São Paulo, 192 p.         [ Links ]

Silva, L.H.Q.; Cunha, E.M.S.; Pedro, W.A.; Cardoso, T.C.; Souza, M.C.C. & Ferrari, C.I.L., 1999. Isolamento do vírus rábico em Molossus ater (Chiroptera: Molossidae) no Estado de São Paulo. Rev. Saude Publica 33:626-628.         [ Links ]

 

 

Recebido em: 01/12/2003.
Aceito em: 24/02/2005.