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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.77 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962002000500014 

COMUNICAÇÃO

 

Professor Luiz Marino Bechelli*

 

 

Rubem David Azulay

 

Chefe do Instituto de Dermatologia da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Professor Emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro e da Universidade Federal Fluminense. Professor Titular da Universidade Gama Filho, da Fundação Técnico Educacional Souza Marques e da Cesanta.

Endereço para correspondência

 

 

É com enorme satisfação que dedicamos este Editorial ao Prof. Dr. Luiz Marino Bechelli, que completa este ano seu 90º aniversário e continua a trabalhar pelo bem-estar de seus concidadãos, apesar de ter requerido sua aposentadoria em 1982.

Nascido em 25 de março de 1912, em Pirambóia, São Paulo, Bechelli formou-se em medicina pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo em 1933. Desde então, dedicou-se como poucos à pesquisa em hansenologia, tendo publicado uma série de trabalhos no Brasil e no exterior. Ao mesmo tempo, dedicou-se ao ensino da Dermatologia, fazendo carreira metódica e progressiva. Um ano depois de formado fez tese de doutoramento na Faculdade de Medicina da USP. De 1946 a 1957 preencheu, com mérito, as funções de assistente extranumerário da mesma faculdade, em que, em 1947, defendeu a livre-docência de Dermatologia. Em agosto de 1957 ingressou na Faculdade de Ribeirão Preto, inicialmente como professor contratado e, em seguida (abril de 1961), como professor catedrático por concurso, trabalhando em regime de dedicação exclusiva até aposentar-se, tendo sido vice-chefe do Departamento de Clínica Médica. Exerceu ainda a chefia do Serviço de Dermatologia nessa faculdade. Nos anos de 1959 e 1960 foi elevado ao posto de diretor da mesma, em substituição temporária ao Prof. Zeferino Vaz.

Depois de 14 anos de atividade, pediu demissão, em 4 de março de 1990, aos 84 anos de idade. Cabe ressaltar que, em 1994 recebeu o honroso título de Professor Emérito da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto.

Desejamos salientar, em sua formação de dermatologista, o curso da especialidade no New York Skin and Cancer da Columbia University (1944-1945). Estagiou no Hôpital St. Louis (Paris) e visitou várias clínicas dermatológicas na Europa, Ásia, América do Norte e do Sul. Seu livro de Dermatologia, intitulado Compêndio de Dermatologia, com a colaboração de Curban, é um repositório de ensinamentos aos estudantes de medicina e aos dermatologistas em formação. É um livro sempre atualizado, com novas edições, que deve fazer parte do cotidiano de qualquer dermatologista.

Sua maior contribuição científica e profissional fez-se no campo da hansenologia - seus trabalhos e intensa atividade profissional levaram-no a exercer praticamente todos os postos oficiais dessa especialidade, culminando com o de expert e chefe da Leprosy Unit da World Health Organization, Genebra, durante quase 10 anos.

Iniciou seus estudos de hansenologia no então Departamento de Profilaxia da Lepra, em São Paulo. Em 1934 foi médico estagiário e no ano seguinte, após concurso, médico clínico do Sanatório de Cocais e, mais tarde, seu diretor clínico. Nesse departamento exerceu, entre outras, as seguintes funções: chefe da Unidade de Epidemiologia, diretor da Divisão dos Sanatórios e, depois, dos Dispensários de Lepra; cabe referir, merecendo destaque especial, o fato de que o Departamento de Lepra de São Paulo foi, nas décadas de 1930 a 1950, um dos maiores centros de estudos e investigações de hanseníase do mundo, pois contava com um grupo notável de médicos, dentre os quais destacamos Abrahão Rotberg, Lauro de Souza Lima, Nelson de Souza Campos, entre outros. Foi nesse âmbito de estudos que surgiram as primeiras idéias de classificação brasileira de hanseníase, com a colaboração de outros hansenólogos, como Francisco Eduardo Rabelo, do Rio de Janeiro.

Esta classificação tornou-se, mais tarde, brasileiro-argentina, sul-americana, pan-americana e finalmente mundial. Bechelli foi um dos principais autores do Tratado Brasileiro de Leprologia (vários volumes).

Em 1951, junto com Rotberg, veio à luz o Compêndio de Leprologia, com 634 páginas de excelente texto com farta e original documentação fotográfica. Foi ainda autor dos capítulos Premunition der Lepra e Behandlung der Lepra no monumental Handbuch des Haut in Gerchlechtskrankenheiten, de Yadasshon, reeditado por Marchionini. Do livro de Veronesi Doenças Infecciosas e Parasitárias, escreveu os capítulos sobre lepra, bouba e pinta. Colaborou ainda em outros tratados estrangeiros, como os de Dharmendra e de Chatterjee, e em Theory and Practice of Public Health, Oxford-University Press. Ao todo, Bechelli publicou 275 trabalhos, muitos dos quais com contribuições originais, alguns até com ultramicroscopia de dermatoses. Teve 12 monografias premiadas.

Seus alunos, por intermédio do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, criaram a Liga de Combate à Hanseníase Prof. L.M. Bechelli. Do mesmo modo, no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto, o quarto andar foi intitulado Divisão de Dermatologia Prof. L. M. Bechelli.

Bechelli sempre exerceu vida científica associativa, haja vista sua participação ativa em inúmeras sociedades médicas e congressos brasileiros e estrangeiros com os destaques seguintes:

n Membro Honorário das seguintes sociedades: Association des Léprogues de Langue Française, Sociedad de Dermatología y Sifiligrafía del Uruguay, Sociedad Cubana de Dermatología y Sifilografía, Sociedade Brasileira de Hansenologia, Societé de Pathologie Exotique, Sociedad Argentina de Dermatología, Colegio Ibero-Latino-Americano de Dermatología e Sociedade Brasileira de Dermatologia.

n Membro ativo da New York Academy of Sciences.

n Membro da American Association for the Advance of Science.

n Membro correspondente de: Società Italiana di Dermatologia e Sifilografia, Societé Française de Dermatologie et Syphiligraphie, entre outros.

n Afiliado da Royal Society of Medicine, Londres.

n Secretário-geral da II e III Confederação Pan-Americana de Lepra (Rio de Janeiro, 1946 e Buenos Aires, 1951).

n Diretor do Manila Regional Seminar on Leprosy, WHO e de outro evento do WHO, West Pacific Regional Office, no Tahiti.

n Participou da revisão da International Nomenclature of Diseases, vol. II; Infections Diseases, 1st. Edition, Cioms, Genebra.

n Membro do Advisory Board of Paho.

n Secretário-geral, vice-presidente e presidente da Sociedade Paulista de Medicina.

n Membro do Conselho da International Leprosy Association (1958-1982).

n Contributing Editor do International Journal of Leprosy.

n Coordenador do Comitê de Controle de Lepra no X Congresso Internacional de Lepra -CIL, Bergen, 1973.

n Coordenador da sessão sobre epidemiologia e controle no XI Congresso Internacional de Lepra, México, 1978.

n Membro do Comitê de Epidemiologia e Controle nos CILs de Havana, 1948, e Rio de Janeiro, 1963.

n Membro do Comitê de Imunologia do VI Congresso Internacional de Lepra, Madri, 1952, e Tóquio, 1958.

n Participou do Congresso Brasileiro de Hansenologia, Foz do Iguaçu, 1996. Presidiu a sessão de controle de hanseníase e, ao encerrá-la, assinalou que não se dispõe de uma droga ideal, como a penicilina para a sífilis, nem de uma vacina, como o BCG na prevenção da tuberculose. Além disso, são desfavoráveis as condições socioeconômicas nas áreas endêmicas. Por isso não parece possível alcançar a eliminação global da lepra como problema de saúde pública até o ano 2000.

n Homenagedo pela Sociedade Brasileira de Hansenologia (1999).

Embora aposentado, continua trabalhando, em ritmo mais lento, na disciplina de Dermatologia da FMRP, USP, e tem publicado vários trabalhos. Presidiu os dois últimos concursos para professor titular de clínica médica da mesma faculdade. Anualmente, tem cooperado com o professor Cottenot no Curso de Aperfeiçoamento em Leprologia, em Paris.

Ministrou aulas sobre lepra e/ou micoses profundas em departamentos das faculdades de medicina de Paris, Lyon, Toulouse, Bordéus, Montpellier, Genebra e Lausanne (Suíça), Nova York, Saint Louis (Missouri) e Birmingham (EUA). Na China teve a oportunidade de proferir a conferência Prospects of controlling leprosy in the world, na Universidade de Pequim. Proferiu ainda a conferência Epidemiological survey of skin diseases in school children of Ribeirão Preto, Brasil, no Jeangsu Provintional People's Hospital Najing.

Casado com Laura Bechelli, teve nela uma companheira extraordinária, responsável por seu sucesso. Viúvo em 1978, casou-se em 1982 com Maria Helena Machado Bechelli, professora associada da Escola de Enfermagem de Ribeirão Preto, USP, em quem encontra todo apoio e estímulo para o trabalho científico. Bechelli diz que foi sorteado com dois grandes prêmios da loteria.

Tem cinco filhas e um filho, oito netos e uma bisneta. Destaco o fato de ser a medicina a área de maior dedicação de sua família: filho, um genro, dois netos e uma neta. Exercem a profissão com amor e inteligência. Foge ao âmbito deste Editorial falar sobre todos, por isso limitar-me-ei ao filho, Luiz Paulo de Campos Bechelli: fez residência em psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de Lyon (França). Publicou cerca de 50 trabalhos, destacando-se o livro intitulado Esquizofrenia: atualização em diagnóstico e tratamento, do qual é co-autor. Recentemente, junto com seu colega Santos, trouxe à luz o livro Psicoterapia de grupo: noções básicas. Foi presidente da Sociedade Paulista de Psiquiatria Clínica. Um dos netos é dermatologista.

Campeão de bola ao cesto na Faculdade de Medicina de São Paulo, USP, Bechelli sempre amou o esporte, em todas as modalidades Torce pelo Palmeiras e joga tênis. É amante de arte, literatura e música, desde a popular até a clássica Com ele convivi diariamente, durante um ano, nos Estados Unidos, quando fazíamos curso de pós-graduação na Columbia University e na Western Reserve University como bolsista da Leonard Wood Memorial (1944-45). Fazia parte do grupo o venezuelano Jacinto Convit.

Uma de suas principais características pessoais é o diálogo científico, a discussão sobre os assuntos médicos, sobretudo no terreno da hansenologia. Seguramente, dessas discussões, com algumas discordâncias, surgiram planos de trabalhos que foram levados a efeito em São Paulo (Bechelli), em Caracas (Convit) e no Rio de Janeiro (Azulay) e que trouxeram contribuições novas e relevantes para o conhecimento da imunopatologia da hanseníase.

Outra característica séria de Bechelli é a sua religiosidade: católico praticante, com fé inabalável. Suas atitudes têm a marca da sinceridade e seriedade. Educação e austeridade de caráter são outros de seus atributos.

 

 

Endereço para correspondência
Rubem David Azulay
Av. Atlântica, 3.130, apto. 701 - Copacabana
Rio de Janeiro RJ 22070-000
Tel.: (21) 2547-0786
Fax: (21) 2521-9445

Recebido em 01.08.2002.
Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 04.08.2002.