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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.77 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962002000600005 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Distribuição da leishmaniose tegumentar por imagens de sensoreamento remoto orbital, no Estado do Paraná, Brasil*

 

 

Airton Pereira LimaI; Lorivaldo MinelliII; Ueslei TeodoroIII; Éder ComunelloIV

IProfessor Assistente de Dermatologia. Departamento de Medicina - DMD/UEM
IIProf. Associado de Dermatologia. Centro de Ciências da Saúde da Universidade Estadual de Londrina
IIIProf. Associado de Parasitologia do Departamento de Análises Clínicas - DAC/UEM
IVEstudante de Pós-Graduação do Grupo de Estudos Multidisciplinares do Ambiente - UEM

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: A leishmaniose tegumentar (LT) tem sua epidemiologia pouco conhecida no Estado do Paraná.
OBJETIVOS: Verificar a distribuição geográfica dos casos de LT em quatro municípios do Paraná, usando imagens por sensoriamento remoto orbital (ISRO), correlacionando-a com a presença de vegetação remanescente e cursos d'água.
MÉTODOS: A distribuição de 4.416 casos no Paraná, de 1993 a 1998, foi feita com informações da ficha de notificação da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná. Por ISRO verificou-se a distribuição de 231 casos de LT e a correlação destes com as matas residuais e o grau de antropia nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé.
RESULTADOS: Houve concentração de casos no Norte e Oeste do Paraná. As ISRO mostram que há relação muito íntima da LT com as áreas de mata nativa modificada, pequenas matas ciliares ou resquícios destas, nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé.
CONCLUSÃO: Em Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé a LT tem íntima relação com áreas de mata nativa modificada, pequenas matas ciliares ou resquícios de ambas. Possivelmente, as áreas onde há mais casos de LT no Paraná guardam semelhanças com as desses municípios.

Palavras-chave: ecologia; epidemiologia; leishmaniose mucocutânea.


 

 

INTRODUÇÃO

As leishmanioses são doenças causadas por protozoários do gênero Leishmania, Ross 1903, primitivamente transmitidos de mamíferos silvestres (reservatórios) para o homem (hospedeiro) pela picada de flebotomíneos (vetores). São endêmicas nas regiões tropicais da América, África e Índia, nas subtropicais do sudoeste da Ásia e no Mediterrâneo.1

Até meados do século 20 aproximadamente 40 mil casos de leishmaniose foram assinalados em inúmeros pontos do território brasileiro.2 Seguiu-se um breve período de quiescência, mas nas duas últimas décadas os casos têm aumentado sensivelmente, segundo notificação de todos os estados. 3,4 No Brasil, de 1980 a 1988, foram notificados 107.412 casos de leishmaniose tegumentar, em média 11.935 casos por ano.3 Houve expressivo crescimento para 310.767 casos, de 1989 a 1999, em média 28.252 casos por ano.3,4 Na Região Sul, nos últimos 20 anos, foram registrados 6.277 casos, representando 2% do total de ocorrências no Brasil, e, desses, 6.264 (99,8%) no Paraná.3,4

A leishmaniose tegumentar no Brasil até a década de 1940 estava intimamente relacionada com a penetração do homem em zonas de florestas em desbravamento, pois a derrubada de matas para o plantio, a construção de estradas de rodagem, ferrovias, hidrelétricas e implantação de povoados favoreciam o contato do homem com os reservatórios e vetores de Leishmania.5,6 Na região amazônica, ainda hoje observa-se o padrão epidemiológico de transmissão fundamentado no contato do homem com o ambiente silvestre, onde a doença predomina em indivíduos adultos do sexo masculino.

A persistência da leishmaniose tegumentar de forma endêmica em áreas de colonização antiga tem relação com matas remanescentes modificadas.7-10 Nessas áreas é evidente a adaptação de flebotomíneos e reservatórios silvestres de Leishmania, propiciando a formação do ciclo desse parasito no peridomicílio, em zonas rurais e na periferia de centros urbanos.11-16

No Estado do Paraná a leishmaniose tegumentar americana vem sendo registrada desde o início do século, com relato de casos até 1958.2,17,18 A doença só voltou a ser oficialmente notificada no Paraná a partir de 1980, mantendo-se endêmica em diversos municípios, apesar do desmatamento abusivo ocorrido neste estado.19

A vegetação associada a cursos d'água é fator ecológico que tem auxiliado os estudos de distribuição da leishmaniose e a identificação de áreas de risco de infecção, pela análise de paisagens. Linthicum et al.20 utilizaram a análise de paisagens por sensoriamento remoto orbital para a delimitação de áreas de ocorrência da febre do Vale do Rift, no Quênia, África. No Brasil, Miranda et al.,7,8 em imagens obtidas por sensoriamento remoto orbital, observaram a associação da leishmaniose tegumentar com áreas de vegetação arbustiva e a existência de córregos.

A ocorrência de leishmaniose tegumentar tem sido notificada em diversos municípios do Estado do Paraná,10,19 porém não foi estabelecida nenhuma relação com o nível antrópico e outras variáveis ambientais das regiões abrangidas pelos municípios.

Procurou-se estabelecer neste trabalho: I) a correlação dos casos de leishmaniose tegumentar notificados, no período de 1993 a 1998, nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé, Estado do Paraná, com a presença de vegetação remanescente e cursos d'água nas localidades com maior probabilidade de infecção, utilizando imagens obtidas por sensoriamento remoto orbital; II) a distribuição geográfica dos casos de leishmaniose tegumentar notificados no Estado do Paraná, no período de 1993 a 1998, correlacionando-a com as características ambientais e meteorológicas (vegetação remanescente, precipitação pluviométrica e temperatura) nas diversas regiões do Paraná.

 

MATERIAL E MÉTODOS

1. Descrição Geral do Estado do Paraná

O Estado do Paraná localiza-se na Região Sul do Brasil, entre 22º30'58"e 26º43'00"de latitude Sul e 48º05'37"e 54º37'08"de longitude Oeste.21

Suas cartas climáticas de 1994, elaboradas pelo Instituto Agronômico do Paraná - Iapar,22 mostram que há três tipos climáticos no estado, segundo a classificação de Köppen: 1) Af, clima tropical superúmido, sem estação seca, com temperatura média em todos os meses superior a 18°C (megatérmico), precipitação média no mês mais seco acima de 60mm e isento de geadas; 2) Cfa, clima subtropical; temperatura média no mês mais frio inferior a 18°C (mesotérmico) e temperatura média no mês mais quente acima de 22°C, com verões quentes, geadas pouco freqüentes e tendência de concentração das chuvas nos meses de verão, contudo sem estação seca definida; 3) Cfb, clima temperado propriamente dito; temperatura média no mês mais frio abaixo de 18°C (mesotérmico), com verões frescos, temperatura média no mês mais quente abaixo de 22°C e sem estação seca definida.

A vegetação primitiva do Paraná, que era constituída por diversos tipos de matas, logo no início do século XX começou a ser destruída para a extração de madeiras, expansão das lavouras cafeeiras e exploração do carvão vegetal. Em menos de meio século, as florestas de cobertura primitiva praticamente desapareceram. Em 1980, delas restavam apenas 5% e, em 1990, só 2,6% da vegetação original, a maioria em parques e áreas de proteção e conservação das matas remanescentes.23

2. Descrição Geral dos Municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé

Os municípios de Cianorte, Jussara, Japurá e São Tomé situam-se na mesorregião do noroeste paranaense, entre 52º20' e 52º50' longitude Oeste e 23º20' e 23º60' latitude Sul (Figura 1). Esses municípios pertencem à unidade geomorfológica do planalto central da bacia do Paraná,24 que é parte do terceiro planalto paranaense25 ou planalto arenito-basáltico. O relevo é de planaltos rebaixados, de topos planos e pouco dissecados, com vertentes convexas, compreendido entre as cotas de 250 e 600m de altitude, cujo nível de base local é constituído pelo talvegue do médio rio Ivaí, que forma uma das principais bacias hidrográficas do noroeste do Paraná. A cobertura original era constituída pela floresta estacional semidecidual.26 O clima é do tipo tropical subquente superúmido com subseca.27 Na fase de subseca de inverno as temperaturas médias são inferiores a 18°C. A pluviosidade média é de 1.700mm/ano.

 

 

Nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé a mata original foi largamente alterada ou eliminada, cedendo terreno aos cultivos e ao reflorestamento. Persistem manchas de mata ciliar densa e intrincada, com muitas lianas e taquaras ao longo do rio Ivaí, além de pequenas faixas de mata secundária de largura variável. Observam-se também matas secundárias, que acompanham descontinuamente os cursos d'água constituintes da bacia hidrográfica do Ivaí. Essas formações florestais primárias ou secundárias favorecem a ocorrência de flebotomíneos, sendo um dos fatores ambientais de importância na epidemiologia da leishmaniose tegumentar na região.28

A fauna local de mamíferos nativos e possíveis reservatórios de Leishmania é pouco numerosa e variada. As áreas reflorestadas com espécies exóticas e os bosques internamente desbastados atraem poucas espécies animais. As matas ciliares podem abrigar roedores, gambás, cervos e raros felinos. Essas formações apresentam, contudo, fauna de aves numerosa e variada.28

A principal atividade econômica nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé é a agricultura, com destaque para as lavouras temporárias e principalmente para os cultivos de soja, cana-de-açúcar, milho e mandioca.

3. Procedimentos

A distribuição dos casos de leishmaniose tegumentar notificados nos diversos municípios do Estado do Paraná, as informações sobre faixa etária, sexo, ocupação, área de residência (urbana/rural) e forma clínica da doença foram obtidas do Relatório de Cadastro de Pacientes de Leishmaniose no Estado do Paraná de 1993 a 1996. Parte dos dados de 1997 foram obtidos desse relatório e parte do Sistema de Informação de Agravos de Notificação -Sinan, pois foram identificadas incompatibilidades nas informações dessas fontes de registro. Os dados de 1998 foram obtidos inteiramente do Sinan. O relatório supracitado e os dados do Sinan foram fornecidos pela Secretaria de Saúde do Estado do Paraná. Além deles, foram utilizadas fichas de notificação e livros de registro das Regionais de Saúde de Cianorte, Londrina, Maringá e Umuarama, da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, para a retificação de informações a respeito das notificações. As notificações de leishmaniose tegumentar no Estado do Paraná de 1993 a 1998 foram analisadas uma a uma, eliminando-se grande número de casos com duplo registro e corrigindo-se a procedência dos mesmos.

A distribuição espacial dos casos de leishmaniose tegumentar nas diversas regiões do Estado do Paraná foi feita segundo os municípios de procedência e de notificação dos pacientes. Foi estabelecida ainda a correlação da distribuição dos casos de leishmaniose com as temperaturas, precipitações pluviométricas e, especialmente, matas.

Na Regional de Saúde de Cianorte foram utilizadas fichas com informações complementares de 231 casos de leishmaniose tegumentar, do total de 382, notificados nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé, de 1993 a 1998. Esses casos foram selecionados conforme os locais de maior probabilidade de ocorrência das infecções, e esses locais definidos com auxílio de plantas contendo a hidrografia, a malha viária, os lotes rurais de cada um dos municípios, incluindo ruas e quadras da zona urbana de Cianorte.

Os casos identificados foram transferidos para o Sistema de Informações Geográficas-SGI/Sitim 2.5,29 junto com os temas de relevância para o estudo em questão, tais como hidrografia, limites urbanos e municipais. No SGI/ Sitim realizou-se também a classificação do uso e ocupação do solo em imagem de sensoriamento remoto orbital, referente à órbita-ponto 223-076, com data de passagem em 16 de outubro de 1996.

A imagem, produto do sensor múltiplo TM do satélite Landsat, foi adquirida em formato digital, com nível de correção PL-4 (Processing Level-4), requerendo o georreferenciamento para adquirir propriedades de escala e de projeção.

Como base cartográfica utilizaram-se nos estudos preliminares as cartas planialtimétricas de Umuarama (SF-22-Y-C) e Londrina (SF-22-Y-D) na escala 1:250.000, produzidas pelo IBGE. Após a correção geométrica, a imagem foi classificada utilizando-se o algoritmo Maxver.30

Nesse ponto, utilizou-se o SGI para cruzar informações a respeito da localização dos casos com os diferentes temas relacionados (classes de uso e ocupação do solo, hidrografia), gerando um mapa preliminar da área de estudo, a partir do qual foi possível definir algumas subáreas de investigação, buscando selecionar aqueles ambientes com maior quantidade de casos de leishmaniose, que poderiam ser habitats apropriados de mamíferos (reservatórios) e vetores (flebotomíneos) de Leishmania. Dessa forma escolheram-se sete quadrantes de 64km2 (8 x 8km), nominados de A até G. A área de cada quadrante foi definida de maneira a possibilitar a observação dos locais mais prováveis de ocorrência das infecções (Figura 2).

Uma vez definidos os quadrantes de A a G, selecionaram-se os quadrantes A, E, F, G, dos quais algumas áreas foram vistas in loco para confirmar a presença de vegetação e levantar a necessidade da inserção de novas classes de uso e ocupação do solo ou correção das preexistentes.

Na busca de maior precisão os quadrantes foram retificados, utilizando-se como bases cartográficas folhas na escala 1:100.000 do Departamento de Serviços Geográficos do Exército (SF-22-Y-C-III e VI) e 1:50.000 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (SF-22-Y-D-I e IV). Dessa forma foi feita nova classificação da imagem, tendo como subsídios a verificação in loco de localidades da área em estudo.

Ao término das operações supracitadas os dados foram transferidos para o software Spring 3.3, que gerou os mapas finais dos quadrantes, apresentando a demarcação dos casos nos locais de maior probabilidade de ocorrência das infecções e a relação espacial com elementos da paisagem, tais como córregos e vegetação.

Para o conhecimento do nível antrópico, dos padrões de uso do solo e da influência desses fatores na ocorrência da leishmaniose tegumentar no Estado do Paraná realizaram-se o georreferenciamento e a classificação de frações de imagens orbitais do sensor TM Landsat das regiões norte (Cena 221-076 de 24/12/97) e oeste (Cena 223-078 de 10/06/96), destacando-se os municípios com maior ocorrência de casos.

 

RESULTADOS

Segundo a tabela 1 observa-se que em 1994 houve maior ocorrência de leishmaniose no Estado do Paraná, no período de 1993 a 1998. Nota-se que dos 4.416 pacientes com leishmaniose tegumentar 2.808 (63,6%) eram do sexo masculino. Em ambos os sexos a faixa etária mais atingida foi a de 21 a 50 anos, com 2.306 (52,2%) casos. A faixa etária de pacientes entre 0 e 10 anos foi a menos atingida.

Na figura 3 observa-se que a distribuição da leishmaniose tegumentar, de 1993 a 1998, ocorreu especialmente nas regiões norte e oeste no Estado do Paraná.

 

 

Aproximadamente 94% dos casos de leishmaniose tegumentar do estado ocorreram nas regiões com clima do tipo Cfa, e mais de 96% nas regiões com temperatura média anual acima de 18°C. Houve predomínio de leishmaniose nas áreas em que as médias anuais das temperaturas mínimas e máximas são acima de 14°C e acima de 25°C, respectivamente, o que abrange as regiões norte e oeste do Estado do Paraná (Figura 3).

O maior número de notificações da doença (acima de 90% dos casos) ocorreu nas regiões cuja média anual da umidade relativa do ar oscilou entre 70 e 75%, e praticamente a totalidade dos casos registrados ocorreu em áreas com precipitação pluviométrica (total médio anual) variando de 1.300 a 2.000mm.

Verificou-se que os casos de leishmaniose tegumentar estão distribuídos em 276 municípios no Estado do Paraná, da seguinte forma: em 173 (62,8%) foram notificados de um a nove casos, em 62 (22,5%) de 10 a 24, em 23 (8,3%) de 25 a 49, em 11 (4%) de 50 a 99 e em sete (2,5%) 100 ou mais.

Nos quadrantes de A a G (Figura 2), abrangendo os municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé, foram assinalados 60, 22, 82 e 17 casos de leishmaniose tegumentar, respectivamente.

Na área urbana de Cianorte (Figura 4) assinalaram-se 37 casos nos locais de maior probabilidade de ocorrência da infecção por Leishmania, bem como outros cinco fora dos limites da área urbana.

 

 

Nas figuras 5 e 6 nota-se a demarcação de 59 e 27 casos, respectivamente, com três demarcados na área de intersecção dessas figuras e um no Município de Cianorte, totalizando 82 casos pertencentes ao Município de Jussara e demarcados nos locais ou áreas de maior probabilidade de infecção.

 

 

 

 

Nas frações de imagens orbitais do sensor TM Landsat observou-se que nos municípios em que ocorreram numerosas notificações de leishmaniose tegumentar, de 1993 a 1998, na região norte do Paraná, houve extrema devastação do meio ambiente, persistindo matas nativas de pequeno porte ou resquícios delas. O mesmo fato vale para os municípios da região oeste do Paraná.

 

DISCUSSÃO

O maior número de casos de leishmaniose em adultos do sexo masculino está provavelmente relacionado ao trabalho rural próximo a matas e a atividades de lazer (principalmente a pesca) nas margens de rios e córregos com matas ciliares que, embora alteradas, mantêm o ciclo enzoótico de Leishmania. De 147 indivíduos com a doença e residentes em Maringá, 44 (39 homens) se referiram às margens do rio Ivaí, onde costumavam pescar, como o mais provável local de infecção. Os resultados da presente investigação confirmam estudos anteriores que demonstraram a predominância da leishmaniose tegumentar no sexo masculino,31,32 incluídos os referentes ao Estado do Paraná.10,33

Os casos relativos a mulheres e a crianças do sexo masculino, embora em menor proporção (40,1%), são expressivos e devem-se mais provavelmente às atividades rurais desenvolvidas pela mão-de-obra do sexo feminino, bem como ao hábito comum de casas e abrigos de animais domésticos serem construídos ao lado de matas nativas modificadas, cujo ambiente é mais fresco e agradável.10 Geralmente as habitações são construídas próximo às nascentes de rios e córregos com matas ciliares, em função da maior facilidade de obtenção de água para o consumo humano e de animais domésticos.10 A infecção de mulheres e crianças é um forte indício de transmissão domiciliar e/ou peridomiciliar de Leishmania, o que tem sido reforçado pela verificação de elevadas densidades de flebotomíneos no domicilio e, particularmente, em abrigos de animais domésticos no peridomicílio de áreas endêmicas dos estados de Pernambuco,34 Espírito Santo,14 São Paulo,35,36 e Paraná.28,37

Houve notificação de leishmaniose em 276 municípios do Paraná. Contudo, sabe-se que há concentração de notificação da doença nos municípios que servem como sede das regionais de saúde da Secretaria de Saúde do Estado do Paraná, uma vez que o tratamento vem sendo feito, em regra, nos serviços de dermatologia desses municípios. A retificação de informações das notificações feitas nos municípios de Cianorte, Londrina, Maringá e Umuarama permitiu verificar que diversos casos de pessoas residentes em outros municípios foram notificados como referentes a residentes naqueles municípios. E mesmo entre as pessoas residentes nos municípios acima nominados muitas não eram autóctones. No caso de Curitiba, verificou-se que, apesar do elevado número de casos notificados, não há relato de casos autóctones. Esses fatos comprovam a existência de falhas de notificação da doença no Paraná.

A maioria dos municípios com ocorrência de leishmaniose tegumentar está na área de domínio de clima Cfa da classificação de Köeppen (clima subtropical), com predomínio nas faixas de temperatura média anual superior a 18°C, localizando-se os municípios com maior número de casos (acima de 100 no período considerado) nas faixas de isotermas médias anuais entre 20 e 22°C.

Aproximadamente 94% dos casos de leishmaniose tegumentar no Estado do Paraná ocorreram nas regiões com clima do tipo Cfa, e mais de 96% nas regiões com temperatura média anual acima de 18°C. Houve predomínio de leishmaniose nas áreas em que a média anual das temperaturas mínimas é acima de 14°C, e a média anual das temperaturas máximas acima de 25°C, que abrangem as regiões norte e oeste do Estado do Paraná (Figura 1). No Estado de São Paulo, de 1986 a 1995, Camargo-Neves9 observou que 76% dos municípios com notificação de leishmaniose encontram-se na faixa de isotermas médias anuais de 19 a 23°C, com os maiores coeficientes de incidência na faixa de temperatura entre 21 e 23°C. Em Corte de Pedra, Bahia, em área de ocorrência de leishmaniose, a temperatura variou entre 16 e 37°C, com média anual de 22°C,38 corroborando os dados deste trabalho.

Nas regiões de ocorrência do maior número de notificações de leishmaniose tegumentar observou-se que a umidade relativa do ar (média anual) ficou entre 70 e 75%. Nota-se ainda que a quase totalidade dos casos ocorreu em áreas com precipitação pluviométrica que oscilou de 1.300 a 1.900mm (média anual). Os municípios com maior número de registros de casos da doença se localizam em áreas com precipitação de chuva variável de 1.500 a 1.800mm. Na área endêmica de Corte de Pedra, Bahia,38 foi observada a média anual de 1.300mm de chuva e umidade média de 78%. Camargo-Neves,9 no Estado de São Paulo, verificou maior coeficiente de incidência de leishmaniose tegumentar nas áreas com quedas de chuva superior a 1.500mm, embora o maior número de municípios com notificação da doença se localizasse na faixa de 1.300 a 1.500mm de chuva.

Na figura 2, nos quadrantes A a G, estão demarcados os locais de residência de pacientes dos municípios de Japurá, Cianorte e São Tomé. Coincidentemente os locais de maior possibilidade de infecção estão muito próximo de cursos d'água com matas ciliares arbustivas ou resíduos de matas primitivas.

Os casos de leishmaniose notificados na zona urbana de Cianorte (Figura 4) tiveram como locais de maior probabilidade de infecção o domicílio e peridomicílio, uma vez que as casas se situam nas proximidades ou nas margens de matas nativas modificadas. A maior concentração dos casos ocorreu onde a mata apresenta maior grau de alteração, dentro da área denominada Cinturão Verde de Cianorte.

A Fazenda Jussara, no Município de Jussara, foi indicada como o local mais provável de infecção dos 37 casos assinalados na figura 5. Deles, 11 tiveram como local com grande probabilidade de infecção a área conhecida como horto florestal, constituída por um núcleo de habitações (colônia) ao lado do córrego do Encontro; mais dois casos na destilaria e dois na porteira principal da fazenda. Os 22 casos restantes da Fazenda Jussara ocorreram com certeza em seus limites, embora não tenha sido possível determinar mais especificamente os locais prováveis de infecção. Os demais casos (22) da figura 5 referem-se aos locais de residência próximo a cursos d'água com manchas ou resquícios de matas ou ao lado das matas de maior porte da Fazenda Jussara.

Os 21 casos agrupados na Figura 6 têm como possível local de infecção a Olaria Andirá. A maioria das infecções ocorreu muito provavelmente no domicílio e peridomicilio.

Ressalte-se que na Fazenda Jussara e na Olaria Andirá, onde houve grande concentração de casos, há áreas extensas de mata que, embora modificada, preserva muitas das características da mata nativa que existia na região.

No Estado de São Paulo, em imagens obtidas por sensoriamento remoto orbital, Miranda et al.7,8 mostraram a presença de vegetação arbustiva próximo às localidades em que pessoas notificadas com leishmaniose residiam e/ou trabalhavam. Ainda no Estado de São Paulo Camargo-Neves9 demonstrou que os tipos de vegetação natural de capoeira, resíduo de mata e de mata preservada ocorreram nas áreas de verificação dos maiores coeficientes de incidência da leishmaniose tegumentar.

As imagens por sensoriamento remoto orbital mostram que nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé a leishmaniose tegumentar tem relação muito íntima com áreas de mata nativa modificada, pequenas matas ciliares ou seus resquícios e/ou com a área domiciliar e peridomiciliar.

A maioria dos casos de leishmaniose tegumentar no Estado do Paraná foi notificado em municípios das regiões norte e oeste, coincidindo com as áreas em que houve intensa destruição da vegetação nativa. Possivelmente, os ambientes em que está ocorrendo a infecção por Leishmania nas regiões supracitadas se assemelham aos observados nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé.

 

CONCLUSÕES

1. A leishmaniose tegumentar no Estado do Paraná tem distribuição geográfica ampla e irregular, com concentração de casos em municípios das regiões norte e oeste, coincidindo com áreas de alto grau de destruição da vegetação nativa, em decorrência da exploração agrícola por monoculturas, especialmente de milho, soja e cana-de-açúcar, e pastagens; nessas regiões a temperatura média anual fica acima de 18°C, a umidade relativa do ar oscila entre 70 e 75%, e a precipitação pluviométrica média anual varia de 1.300 a 1.900mm.

2. As imagens por sensoriamento remoto orbital mostram que nos municípios de Cianorte, Japurá, Jussara e São Tomé a leishmaniose tegumentar tem relação muito íntima com áreas de mata nativa modificada, pequenas matas ciliares ou resquícios delas.

 

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Endereço para correspondência
Airton Pereira Lima
Rua Humaitá, 456
Cianorte PR 87200-000
Tel: (44) 629-1915
E-mail:airton.pl@uol.com.br

Recebido em 10.10.2001.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 22.05.2002.

 

 

* Trabalho realizado nos Departamentos de Medicina e Análises Clínicas da Universidade Estadual de Maringá (DMD/UEM; DAC/UEM).