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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.77 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962002000600008 

CASO CLÍNICO

 

Sarcoma de Kaposi em paciente transplantada renal em uso de Fk-506*

 

 

Jorge David Rocha ZanolI; André Vicente Esteves de CarvalhoII; Sérgio Martinez LecompteIII; Elisa Gobbato TrezIV

IProfessor Assistente de Patologia. Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
IIMédico residente do Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
IIIMédico residente do Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil
IVMédica residente do Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O Sarcoma de Kaposi (SK) é neoplasia maligna multicêntrica, cutânea e extracutânea, que tem sido descrita em pacientes transplantados renais que recebem terapia imunossupressora clássica. Este estudo descreve um caso de sarcoma de Kaposi em paciente transplantada renal recebendo FK-506, que surgiu 10 meses após o transplante.

Palavras-chave: Sarcoma de Kaposi; tacrolimus; transplante de rim.


 

 

INTRODUÇÃO

O SK é neoplasia multicêntrica cutânea e extracutânea primeiramente descrita por Moritz Kaposi, em 1872.

Existem quatro subtipos de sarcoma de Kaposi descritos na literatura. O primeiro, denominado clássico, ocorre com maior freqüência em idosos, acometendo membros inferiores, com curso crônico e incidindo mais sobre os homens do que sobre as mulheres, na razão de 10:1. É descrito também um tipo chamado africano, de curso mais agressivo e com preferência pelo acometimento de crianças. O terceiro subtipo é relacionado à instituição de imunossupressão iatrogênica, principalmente em transplantados. O quarto e último subtipo descrito faz referência ao sarcoma de Kaposi de aparecimento concomitante à imunossupressão pelo HIV, predominante em homossexuais do sexo masculino.1

A administração de novos imunossupressores, entre eles o FK-506, está relacionada com diversos efeitos colaterais, alguns novos, outros já bastante conhecidos. Entre os efeitos colaterais de maior incidência em transplantados recebendo terapia com imunossupressores encontram-se as verrugas virais2 e os carcinomas cutâneos, como o carcinoma epidermóide e o carcinoma basocelular.3

Este trabalho tem como objetivo alertar os médicos quanto a possível efeito colateral de uma droga cuja prescrição é cada vez mais freqüente, com crescente indicação de uso.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo feminino, de 48 anos, branca, foi submetida a um transplante renal em 20 de julho de 1999 devido à insuficiência renal crônica, decorrente de rins policísticos. Sete meses após o transplante, percebeu o surgimento de lesões nodulares de cor violácea, assintomáticas, na região dorsal da mão esquerda e na região temporal esquerda. Negava a existência de lesões semelhantes em familiares, bem como doenças cutâneas prévias.

A terapia imunossupressora estava sendo realizada com FK-506 (8mg/dia), azatioprina (125mg/dia) e prednisona (10mg/dia). A paciente também fazia uso de furosemida (40mg/dia).

Ao exame dermatológico, apresentava uma lesão nodular violácea de superfície brilhante localizada no dorso da mão esquerda (Figura 1). Na região temporal esquerda foi observada uma lesão semelhante, mantendo bordas papulosas, mas com tendência à regressão central.

 

 

A biópsia de ambas as lesões confirmou o diagnóstico de sarcoma de Kaposi (SK) (Figura 2).

 

 

A paciente foi hospitalizada para investigação de comprometimento sistêmico, e a dose de FK-506 reduzida para 4mg/dia. Foram realizadas tomografias computadorizadas de abdômen total e tórax, não sendo encontrada evidência de tumor nos exames.Também foram realizadas pesquisas de citomegalovírus, HIV, hepatite B e C; todas com resultados negativos.

Dois meses após a redução do FK-506 para 50% da dose inicial, a lesão da região temporal esquerda continuou regredindo, não desaparecendo totalmente, e a lesão do dorso da mão esquerda permaneceu inalterada. A escolha terapêutica foi a exérese cirúrgica das lesões.

 

DISCUSSÃO

Apesar de existirem controvérsias quanto à origem do tumor, sabe-se que fatores infecciosos, genéticos, sociais, imunológicos e endócrinos influem na patogênese e no curso da doença. A associação com herpes-vírus 8 pode ser encontrada em todas as formas do SK,4 e, em pacientes transplantados, existe evidência de que a transmissão do vírus possa ocorrer a partir do doador, contaminando o receptor por meio do órgão transplantado.5

Excluindo-se as formas clássicas - a epidêmica relacionada ao HIV e a endêmica africana - o SK tem ocorrido com freqüência em pacientes transplantados renais que estejam recebendo terapia imunossupressora clássica (corticóides e azatioprina) ou ciclosporina, mas não tem sido observada a ocorrência de SK como uso de novas drogas imunossupressoras. Entre esses novos medicamentos encontra-se o FK-506, um derivado do fungo Streptomyces tsukabaensis. O fármaco, desenvolvido em 1983, é 10 a 100 vezes mais potente do que a ciclosporina, e seu uso progressivamente maior em transplantados renais tem ocorrido não apenas devido a sua potência, mas à menor nefrotoxicidade (37 vezes menos nefrotóxico do que a ciclosporina).6

Em meio a transplantados renais em uso azatioprina e corticóide, a incidência de SK é de 3%, enquanto nos pacientes que utilizam ciclosporina isoladamente ou em associação com terapia imunossupressora clássica a incidência do tumor é de 8%.7 Atualmente, a ocorrência de SK tem sido relatada em transplantados hepáticos que estejam recebendo FK-506,7,8 mas não em transplantados renais, que perfazem um grupo consideravelmente maior de pacientes.

Na medida em que se verifica o elevado número de transplantes que vêm sendo realizados - e com o uso de novos agentes imunossupressores, entre eles o FK-506 - é provável que nos próximos anos venha a ocorrer elevação na freqüência de SK em pacientes transplantados.

 

REFERÊNCIAS

1. Prieto V, Shea C, Selected cutaneous vascular neoplasms: A review. Dematologic Clin 1999;17(3) 507-520.        [ Links ]

2. Smith SR, Viral infections after renal transplantation Am J Kidney Dis 2001; 37(4): 659-76.        [ Links ]

3. Gupta A, Cardella C: Cutaneous malignant neoplasms in patients with renal transplants. Arch Dermatol 1986; 122(11): 1288-93.        [ Links ]

4. Moore PS, Chang Y. Detection of herpesvirus-like DNA sequences in Kaposi' sarcoma in patients with and those without HIV infection. N Engl J Med 1995;332:1181-5.        [ Links ]

5. Regamey N, Tamm M, Wernli M, et al. Transmission of Human Herpesvirus 8 infection from renal-transplant donors to recipients. N Engl J Med 1998;339:1358-63.        [ Links ]

6. Goto T, KinoT, Hatanaka H, et al. Discovery of FK-506, a novel immunosuppresant isolated from streptomyces tsukubaensis. Transplant Proc 1987; 19 (Suppl. 6):4-8.        [ Links ]

7. Kadry Z, Bronsther O, Van Thiel DH, et al. Kaposi's sarcoma in two primary liver allograft recipients occurring under FK-506 immunosuppression. Clin Transplantation 1993;7:188-94.        [ Links ]

8. Rezeig M, Fashir B, Hainau B, et al. Kaposi's sarcoma in liver transplant recipients on FK-506. Transplantation. 1997;63:1520-40.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
André Vicente Esteves de Carvalho
Av. Pereira Passos, 480 / 204 A
Vila Assunção Porto Alegre RS 91900-240
Tel/Fax: (51) 3241-8388 / 3286-5150
E-mail: avec@terra.com.br

Recebido em 08.06.2001.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 23.03.2002.

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil.