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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.77 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2002

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962002000600010 

CASO CLÍNICO

 

Tinea nigra na cidade de Santos: relato de cinco casos*

 

 

Sandra Lopes Mattos e DinatoI; José Roberto Paes de AlmeidaII; Ney RomitiIII; Fabiana Addário de Abreu CamargoIV

IProfessora Doutora em Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas de Santos - UNILUS
IIProfessor de Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas de Santos - UNILUS e mestrando em Ciências da Saúde - UNILUS
IIIProfessor Livre-Docente em Dermatologia do Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas de Santos - UNILUS
IVMédica Residente de Dermatologia do Hospital Guilherme Álvaro

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Relato de cinco casos de tinea nigra palmaris observados em quatro crianças, do sexo feminino, e um adolescente, do sexo masculino, em Santos, litoral de São Paulo. Discutem-se os aspectos históricos, epidemiológicos, diagnósticos, terapêuticos e prognósticos embasados em revisão de literatura.

Palavras-chave: cladosporium; epidemiologia; exophiala; tinea.


 

 

INTRODUÇÃO

Essa dermatomicose é também chamada de tinha negra, keratomicosis nigricans palmaris, pitiríase negra, ceratofitose negra, microsporosis nigra, keratophytia nigra, cladosporiose epidérmica e keratomycosis nigricans.1,2,3

Trata-se de infecção fúngica superficial, assintomática, da camada córnea. Afeta em geral a pele das regiões palmares, ocasionalmente plantares, manifestando-se por máculas não escamativas, de coloração que varia do castanho ao negro.4 É considerada dermatose rara, sendo mais comum em regiões tropicais e subtropicais.1,2,3,5,6,7,8

O objetivo do relato de cinco casos dessa dermatose observados em Santos, litoral de São Paulo, no período de um ano, é discutir, particularmente, sua freqüência nas várias regiões do país.

 

RELATO DOS CASOS

Caso 1 - L.S., branca, do sexo feminino, 3 anos, natural e procedente de Santos. Há dois anos apresenta mácula hiperpigmentada, de contornos irregulares, não escamativa, assintomática, na região palmar esquerda. Esporadicamente, freqüenta praias. Não manipula plantas.

Caso 2 - L.M.R., branca, do sexo feminino, 4 anos, natural e procedente de Santos. Há aproximadamente quatro meses, apresenta mácula cônica hiperpigmentada, não escamativa, medindo cerca de 2,5cm em seu maior eixo, assintomática, na palma da mão direita. (Figura 1). Freqüenta praias. Não manipula plantas.

 

 

Caso 3 - A.O.C., branca, do sexo feminino, 6 anos, estudante, natural e procedente de Santos, há um ano com mácula acastanhada, de bordas irregulares, sem escamação, assintomática, de crescimento lento, na região palmar direita. Nega contato com plantas; eventualmente vai à praia. A paciente é destra.

Caso 4 - B.C., branca, do sexo feminino, 12 anos, estudante, natural e procedente de Santos. Há quatro anos apresenta mácula hiperpigmentada, de contornos irregulares, não escamativa, assintomática, tomando cerca de dois terços da região palmar direita.(Figura 2). Freqüenta a praia regularmente. Nega contato com plantas. É destra.

 

 

Caso 5 - A.C. B.B., branco, do sexo masculino, 16 anos, estudante, natural e procedente de Santos. Há seis meses notou a presença de mácula hiperpigmentada, de bordas irregulares, não descamativa, assintomática, de aproximadamente 4,5cm de diâmetro desde seu surgimento, na região palmar direita. Esporadicamente, freqüenta as praias. Refere manipulação de plantas. É destro.

Em todos os casos, o diagnóstico clínico de tinea nigra foi confirmado pelos exames micológicos (direto e cultivo), que revelaram hifas septadas escuras (Figura 3) e aspecto pigmentado (Figuras 4 e 5), respectivamente.

 

 

 

 

 

 

Os pacientes foram tratados com antifúngicos tópicos, à base de derivados imidazólicos, com regressão completa das lesões.

 

DISCUSSÃO

Os primeiros casos de tinea nigra foram, provavelmente, descrições errôneas de pitiríase versicolor.3

A primeira descrição autêntica foi feita por Alexandre Cerqueira, em 1891, na Bahia. Suas pesquisas, no entanto, só foram amplamente divulgadas após a publicação da tese de doutorado de seu filho Antônio Gil de Cerqueira, em 1916.1,3,7,8,9

Em 1921 o fungo foi isolado por Parreras Horta, que o denominou cladosporium werneckii, em homenagem ao dermatologista brasileiro Werneck Machado.3,6,7,8,10

Posteriormente, em 1970, novos estudos o classificaram no gênero exophiala (exophiala werneckii).5,6,7,8,10,11,17 Em 1978, Mc Guinnis provou que os gêneros cladosporium e exophiala apresentavam ontogenias conidiais diferentes.3,8,10,17

Mais recentemente, em 1985, Nishimura e Miyagi propuseram o gênero Hortae werneckii em homenagem a Parreras Horta.10 Mc Guinnis considerou essa expressão desprovida de embasamento científico, sugerindo, então, no mesmo ano, o gênero Phaeoannellomyces - pois se trata de fungo demácio (Phaeo = escuro), cuja conidiogênese se faz por anelação (annellomyces = anel) -, nomenclatura que persiste até hoje.3,8,10

Assim, o fungo é denominado Phaeoannellomyces werneckii, da família Phaeoannellomyceae.1,3,7,8,9,10,12,13

Em relação a seu habitat, Uijithof et al., em trabalho publicado no ano de 1994, relatam a presença do fungo em meio ambiente, principalmente em fontes com grande concentração salina. Já foi encontrado no solo, água suja, vegetação deteriorada, em florestas e em ambientes extremamente úmidos.3,8,14 Inoculação na pele de voluntários suscetíveis tem reproduzido a doença.3

De acordo com os dados epidemiológicos disponíveis, constata-se que a tinea nigra ocorre, esporadicamente, em muitas partes do mundo, incluindo as Américas e o Caribe, sul da África, Austrália, Europa e Extremo Oriente,3,5,7,8,9 sendo mais encontrada nas regiões tropicais e subtropicais.3,5,7,8

No Brasil, os casos até então descritos são originários do Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo e Bahia, todos estados litorâneos.3 Segundo estudo de Marques e Camargo, de 1996, que compilaram 39 casos, publicados por diversos autores no Brasil, entre 1921 e 1996, discreto predomínio ocorreu no Nordeste, com 16 casos, seguido pelo Sudeste, com 14; a Região Norte apresentou cinco casos e a Região Sul, quatro, não tendo sido relatado nenhum caso no Centro-Oeste (área desprovida de litoral).7

A literatura mostra que, clinicamente, as lesões são assintomáticas, não escamativas, de coloração preta ou castanha, localizadas principalmente nas regiões palmares ou nas bordas dos quirodáctilos. Há casos de localização plantar. Já foram relatados casos de acometimento palmar bilateral.4,9 Há descrições, mormente na Ásia, de acometimento de outras áreas do corpo, como pescoço e tronco. Com a evolução, as lesões podem coalescer ou crescer centrifugamente, levando a contornos irregulares. A cura espontânea é muito rara.1,2,3,5,6,7

É oportuno ressaltar que as publicações mostram predomínio dessa dermatose em jovens, com menos de 20 anos, da raça branca e do sexo feminino, com nível sócio-econômico mais alto.3,7,8,9,15 As observações dos autores estão concordes com esses achados.

De acordo com estudos realizados por Montiel, em 1986, a localização preferencial em crianças é na palma da mão direita e em adultos é na palma da mão esquerda, sendo que 50% dos pacientes da casuística venezuelana padeciam de hiperidrose.1,3,16 Dos cinco pacientes de Santos, quatro apresentavam acometimento da região palmar direita, incluindo o adolescente, e a paciente de três anos apresentava lesão na palma da mão esquerda; a hiperidrose não foi observada na casuística santista. Não foi possível a observação quanto à mão predominante em dois casos, as crianças de três e de quatro anos, em função de sua pouca idade. Todos os pacientes freqüentam, esporadicamente, a praia.

Em publicação de 1994, Velozo et al. observam que 100% de seus pacientes apresentavam antecedente de manipulação de plantas,9,15 fato que, no universo aqui apresentado, só foi observado em um dos casos.

O diagnóstico é clínico, podendo ser confirmado laboratorialmente, por meio do exame micológico direto que, após clarificação com hidróxido de potássio entre 10% e 20%, mostra hifas escuras septadas, irregulares e ramificadas, cujo pigmento é a melanina.1,2,3,7,8,9,10

O crescimento em ágar Sabouraud demanda espera que varia de 21 a 25 dias para ser evidenciado, sendo as colônias brilhantes, de coloração, inicialmente branca ou cinza, tornando-se, mais tarde, profundamente pigmentadas.3,4,7,9,16 Tais achados micológicos também foram confirmados pelos autores.

Na histologia das lesões biopsiadas, há espessamento da camada córnea, na qual estão presentes hifas septadas, escuras, discreta acantose e reação inflamatória linfocitária perivascular, mínima ou ausente.3,5,6,8 A histopatologia é exame desnecessário na rotina. Excepcionalmente é utilizada, só se recorrendo a ela quando a hipótese diagnóstica principal não é a micose em estudo. Nos pacientes aqui relatados, tal procedimento não foi realizado.

Cabe lembrar a importância do diagnóstico diferencial com lesões melanocíticas, ou seja, nos casos de nevo juncional e de melanoma. No entanto, o conhecimento dessa infecção fúngica evita a remoção cirúrgica da lesão em casos de tinea nigra erroneamente diagnosticados.1,3,6,8,9,12,18 A cor preta e a ausência de descamação a diferenciam da pitiríase versicolor.5 Eventualmente, no diagnóstico diferencial outras dermatopatias devem ser lembradas, tais como: pigmentação exógena, dermatite de contato, sífilis, eritema pigmentar fixo e hematomas.3

Por outro lado, não apresenta dificuldade quanto ao tratamento, que é feito com antifúngicos de uso tópico, podendo ser utilizados derivados imidazólicos. Responde de modo inconstante ao ácido undecilêmico, sendo o tolnaftato ineficaz.1,2,3,19,20

Concluindo, trata-se de dermatose considerada rara em alguns estados brasileiros, porém comum em áreas litorâneas. Em Santos, com relativa freqüência, depara-se com pacientes portadores dessa micose superficial característica. Cabe ressaltar que se trata de doença de fácil tratamento e com excelente prognóstico, desde que seja reconhecida, para que se evitem procedimentos cirúrgicos desnecessários.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Sandra Lopes Mattos e Dinato
Rua Bento de Abreu nº 65
Santos SP 11045-140
Tel/Fax: (13) 3233-2964
E-mail: dinato33@hotmail.com

Recebido em 08.12.2000.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 04.06.2002.

 

 

* Trabalho realizado na Faculdade de Ciências Médicas de Santos - Fundação Lusíada - UNILUS.