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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000100002 

EDUCAÇÃO MÉDICA CONTINUADA

 

Doenças priônicas: avaliação dos riscos envolvidos na utilização de produtos de origem bovina*

 

 

Omar Lupi

Pós-Doutorado pela University of Texas (UTMB). Mestre e Doutor em Dermatologia pela UFRJ. Professor Adjunto de Dermatologia e Imunologia pelo IPGMCC/PGRJ. Professor Assistente de Dermatologia da UGF. Licenciado do Serviço de Dermatologia do HUCFF/UFRJ e UGF

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os príons são proteínas que se mostram capazes de auto-replicação apesar de, para isso, alterar o metabolismo celular. São responsáveis por inúmeras doenças em animais e no ser humano (doenças priônicas), todas elas fatais. Essas moléstias apresentam enorme variabilidade quanto ao período de incubação, de alguns meses a 40 anos. Os príons acumulam-se e destroem os neurônios, provocando quadros conhecidos como encefalopatias espongiosiformes. Discute-se a apresentação clínica, epidemiológica e histórica das doenças priônicas. O foco maior de discussão recai, no entanto, na possibilidade teórica da transmissão iatrogênica dos príons por meio das formulações tópicas que utilizam ceramidas (cerebrosídeos) ou placenta de origem bovina, assim como pelo risco representado por alguns procedimentos dermatológicos, como transplantes da pele e implantes de colágeno.

Palavras-chave: ceramidas; dermatologia; encefalopatia espongiforme bovina; príons.


 

 

INTRODUÇÃO

O conceito das doenças priônicas, proposto por Stanley B. Prusiner,1 pressupõe a existência de uma noção nova na biologia, conhecida como a "hipótese príon" (proteinaceous infectious particles). Essa concepção foi considerada herética na época por supor a existência de doenças infecciosas produzidas por agentes desprovidos de ácidos nucléicos.

Desde os trabalhos pioneiros de Watson e Crick, em 1953, considera-se que o ácido desoxirribonucléico (DNA) é a molécula orgânica capaz de armazenar informações biológicas, utilizando para isso os nucleotídeos adenina, timina, citosina e guanina. Tais bases nitrogenadas agrupam-se em pares e são capazes de estocar, em um código binário, a correta seqüência de aminoácidos que compõem cada proteína ou enzima responsável pela manutenção do metabolismo, crescimento e reprodução. Segundo a definição de Maturana e Varela,2 o DNA é o código que sustenta todos os sistemas vivos conhecidos, por permitir a autopoiese.

A molécula responsável por carrear essas informações codificadas do núcleo para o citoplasma é o ácido ribonucléico (RNA), e o produto final dessa cascata de eventos é a proteína. Um dogma da biologia moderna considera que o fluxo de informações biológicas deve, necessariamente, seguir essa seqüência de eventos. A única forma de vida conhecida capaz de subverter parcialmente esse sistema são os retrovírus (HIV, HTLV), que utilizam a enzima transcriptase reversa para sintetizar DNA a partir do RNA. Alguns raros RNA-vírus e viróides (vírus de plantas) utilizam apenas o RNA como sistema codificador, sem precisar do DNA para sintetizar proteínas.

A hipótese príon ignorou o chamado "dogma central da biologia" por aceitar que partículas protéicas pudessem, diretamente, produzir moléstias sem a participação aparente de qualquer ácido nucléico, seja DNA ou RNA.1 Apresenta-se, a seguir, possíveis repercussões desses novos patógenos na dermatologia, com especial enfoque no risco representado pelo uso tópico de produtos derivados de cerebrosídeos bovinos (ceramidas) e da placenta, além de alguns procedimentos dermatológicos que envolvem produtos potencialmente infectados pelos príons.

 

HISTÓRICO

A primeira aparição histórica das doenças priônicas deu-se há 200 anos, segundo McGowan,3 com o reconhecimento, em ovelhas, de uma doença dermatológica e neurológica de evolução fatal. A zoonose conhecida pelos pecuaristas como scrapie caracteriza-se pelo surgimento de prurido constante que leva o animal infectado a esfregar-se em cercas de contenção ou árvores, seguindo-se a queda da lã e o desenvolvimento de dermatite que muito lembra quadros subagudo e crônico de eczematização. É possível que tanto as áreas de alopecia quanto a liquenificação e crostas sejam conseqüência do ato repetido pelo animal de esfregar-se para aliviar o prurido. O termo scrapie vem da palavra inglesa scrape, que tem o significado de roçar ou de tirar algo raspando. O dado mais típico da moléstia é a evolução, após período variável de seis meses a dois anos, para progressiva ataxia, paralisia motora, tremores, fasciculação e, finalmente, êxito letal.4 Sempre se desconfiou de um agente infeccioso pelo surgimento de focos epidemiológicos, mas nunca se obteve sucesso no isolamento do agente.3 Estudos experimentais demonstraram a possibilidade de transmissão da doença para outras ovelhas, sadias, e também para bodes e cabras.4 A análise histopatológica do cérebro desses animais apresentou depósitos amilóides extensos e rarefação neuronal, em padrão semelhante ao da moléstia de Alzheimer em humanos.3,4

Zigas e Gajdusek observaram o surgimento de doença neurológica incomum em algumas tribos da Nova Guiné.5 Estudo mais detalhado, realizados nas tribos Fore, demonstrou a existência de neuropatia agressiva e mortal conhecida pelos habitantes locais como kuru (morte sorridente).6 A moléstia apresentava período de incubação médio de alguns meses, causando óbito por induzir à demência, ataxia progressiva e cegueira. Impossibilitado de se alimentar, o indivíduo sucumbia, vítima de desidratação, desnutrição e infecções oportunistas. O kuru demonstrou-se doença praticamente restrita a velhos, mulheres e crianças, poupando os homens. Descobriu-se que os primeiros casos datavam da década de 1920 quando, motivadas pela súbita escassez de alimentos, as tribos Fore passaram a realizar rituais canibalísticos.5,6 Em tais cerimônias, cabia aos jovens guerreiros os músculos, por simbolizarem a força da pessoa falecida, cabendo aos demais habitantes vísceras, medula óssea e cérebro. A análise histopatológica do cérebro de aborígenes vitimados pelo kuru demonstrou impressionante similaridade com o scrapie.6 O progressivo abandono do canibalismo por parte dos Fore levou ao controle e erradicação da doença no final da década de 1960. As propriedades infecciosas do agente do kuru foram demonstradas pela transmissão experimental da moléstia a chipanzés.7

Outras doenças priônicas foram posteriormente reconhecidas como tal apesar de, ao longo dos anos, terem sido agrupadas sob a nomenclatura genérica e pouco precisa de "doenças induzidas por vírus lentos" ou de "encefalopatias espongiosiformes" (Quadro 1). A doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD) e a síndrome de Gerstmann-Straussler-Scheinker (GSS) são moléstias neurológicas raras, conhecidas desde os anos 20 na Europa.8,9 Além de apresentarem quadro de ataxia e demência, também demonstram padrão anatomopatológico similar ao do kuru.10 Recentemente descrita,11 a insônia fatal familar (FFI) afeta nove famílias em todo o mundo e também desenvolve o mesmo quadro anatomoclínico. Apesar do padrão de herança familiar presente em todas elas, casos esporádicos (mutações) e mesmo iatrogênicos podem ocorrer.11,12 São exemplo único e, aparentemente paradoxal, de doenças geneticamente determinadas, mas que podem ser transmitidas experimentalmente a cobaias.

Nenhum interesse maior foi dado a esse raro grupo de doenças neurológicas até o surgimento, na década de 1980, da encefalopatia espongiosiforme bovina (BSE), mais conhecida como "doença da vaca louca". Essa nova moléstia desenvolveu-se de forma epidêmica, matando na Inglaterra, desde 1985, cerca de 180.000 animais.13,14 Novamente, a análise histológica do cérebro dos animais doentes permitiu detectar o padrão já visto nas demais doenças priônicas.14 A BSE restringiu-se, inicialmente, ao Reino Unido e a países que de lá importaram gado.15 O Instituto Nacional de Saúde inglês descobriu que a eclosão dos casos coincidiu com a modificação da estratégia de alimentação do gado na Inglaterra.16 Visando ao aumento da produtividade e ganho de peso para o abate, os pecuaristas começaram a utilizar refugo biológico do próprio gado, como placentas e carcaças recicladas, para aumentar o teor protéico das rações.15,16 O paralelo com o kuru era impossível de ser esquecido com a transmissão da moléstia sendo veiculada por via alimentar.5,6

O receio teórico de que a BSE pudesse ser transmitida a seres humanos pela ingestão de carne bovina confirmou-se no ano de 1995. Uma nova moléstia neurológica que se assemelha a CJD, mas apresenta a evolução rápida do kuru, foi detectada em humanos e denominada nova variante da CJD (nvCJD).17,18 Desde o primeiro caso registrado até meados de 2001 já foram descritos 107 pacientes contaminados, sendo 102 no Reino Unido, três na França, um na Irlanda e um em Hong Kong.15 O período de incubação da nvCJD é desconhecido, mas o êxito letal se dá, em geral, em até 15 meses19 (Quadro 1).

 

A HIPÓTESE PRÍON

Durante décadas vem-se estudando material biológico oriundo de animais e humanos infectados com as doenças priônicas, sem que nunca tenha sido isolado qualquer agente infeccioso. A microscopia eletrônica de varredura, capaz de detectar os menores vírus conhecidos, atestou apenas a presença de depósitos amilóides anormais.20 Amostras de tecido contaminado foram expostas à radiação ultravioleta, calor (até 170°C), óxido nítrico, peróxido de hidrogênio, hidroxilaminas ou enzimas capazes de fragmentar ácidos nucléicos (nucleases) sem que o agente perdesse sua capacidade infectiva.20,21 Esses procedimentos são efetivos na destruição de todos os fungos, bactérias, clamídeas e vírus (RNA ou DNA) conhecidos.

Outro aspecto muito peculiar da moléstia diz respeito ao fato de o material proveniente de ovelhas poder infectar camundongos, macacos e outros animais, sem respeitar qualquer barreira entre as espécies.21,22 Como a invasão da célula alvo é, geralmente, específica a cada espécie ou espécies correlatas, por depender de receptores de membrana celular, concluiu-se que as doenças priônicas eram causadas por uma nova classe de agentes infecciosos, menores ainda do que os vírus e, aparentemente, desprovidos de DNA ou RNA.

Agentes capazes de desnaturar proteínas, no entanto, eram efetivos na redução da infectividade.20 Amostras expostas ao fenol, dietilpirocarbonato (DEP) ou tioproteases deixavam de transmitir a moléstia. A única explicação possível era a de que, de alguma forma, proteínas sozinhas eram capazes de provocar esses quadros neurológicos. No entanto, todo rastreamento para proteínas estranhas também se mostrou improdutivo.21

Prusiner1 desenvolveu, então, novo conceito, pelo qual uma proteína do próprio hospedeiro tornava-se infecciosa (príon) por mudar sua configuração espacial. Muito da atividade biológica de uma molécula depende de sua conformação estrutural. O DNA, por exemplo, só consegue codificar informacões se estiver em sua forma de dupla espiral. Sabe-se hoje que o gene príon (gene 20p12.3), localizado no braço curto do cromossoma 20, codifica uma proteína (PrP) importante nas funções de sinalização transmembrana.20-22 Uma mutação nesse gene produz isoforma aberrante (PrPSc de scrapie), que é extremamente estável e que tem a impressionante capacidade de modificar a estrutura espacial da PrP normal com que tiver contato. Ambas são exatamente iguais em termos de seqüência de aminoácidos, exceto pelo fato de a PrPSc apresentar predomínio das cadeias beta, em detrimento das alfa.1,10,20,22

Acredita-se que a CJD possa ser causada por mutações eventuais (casos esporádicos), mas possa também ser familial (mutações prévias que passam a ser transmitidas geneticamente) ou iatrogênica (material cirúrgico contaminado, transplante de dura-máter e córnea, hormônio de crescimento cadavérico).22 Os casos de GSS e FFI apresentam o mesmo padrão, exceto pela transmissão iatrogênica, ainda não observada10-12 (Quadro 1). O kuru surgiu, provavelmente, de mutação espontânea do tipo CJD em um aborígene da Nova Guiné, mas, devido ao canibalismo, a proteína estranha disseminou-se na população da ilha.12 O primeiro caso de BSE deve ter surgido de forma semelhante, uma vez que os príons formam um grupo de proteínas presentes em todos os vertebrados.4 Disseminou-se no gado pelo canibalismo artificial induzido pelos criadores.16 A cadeia epidemiológica prosseguiu com a contaminação humana pela carne bovina (nvCJD).18 Dado que o período de incubação das moléstias priônicas pode ser muito longo (Quadro 1), acredita-se que muitos outros casos da nvCJD vão eclodir nos próximos meses ou anos.19

 

RISCOS NA UTILIZAÇÃO DE PRODUTOS DE ORIGEM BOVINA

O risco representado pela nvCJD ou pela transmissão acidental de novas variedades de doenças priônicas está muito longe de ser controlado com o sacrifício em massa do gado bovino europeu e com a implementação de técnicas mais rigorosas e controladas de sua alimentação.19 Uma das razões é que ainda se desconhece a maneira segura de esterilização efetiva contra os príons. Há trabalhos demonstrando que são muito resistentes à UVC e à autoclavagem, permanecendo viáveis após uma hora de exposição à temperatura de 360°C.21 Admite-se, hoje, que um procedimento seguro de esterilização para materiais contaminados por príons teria que envolver a imersão, durante uma hora, em hidróxido de sódio 2N, seguido de autoclavagem por mais uma hora. Todo material não autoclavável deve ser prontamente incinerado.23

Outro ponto que pode influir no surgimento de novos casos é o uso generalizado de tecido de origem bovina em alimentos, produtos farmacêuticos e manufaturados24 (Quadro 2). Além da óbvia utilização da carne bovina para alimentação, diversos outros tecidos ou órgãos e várias das proteínas e enzimas bovinas são economicamente importantes.24 Muitos desses produtos são processados quimicamente, como a glicerina e o glicerol presentes em cápsulas de medicamentos, supositórios e veículos para aplicação tópica. Tais derivados apresentam, em geral, risco diminuto da presença de príons. Outros, no entanto, como o categute e os implantes de colágeno, são utilizados quase in natura e podem apresentar risco real de disseminação da doença.25 Vários dos hormônios e enzimas bovinos, como a insulina e a heparina, seriam desnaturados se submetidos ao calor ou ao tratamento químico necessário à esterilização. Perderiam assim seu potencial de uso biológico. Outros, como o soro fetal bovino (FBS), soro de bezerros recém-nascidos (NCS) e tripsina bovina, são ingredientes fundamentais na manutenção das culturas de células que vão produzir pele cultivada para enxertos ou colágeno para implantes intradérmicos. Os autores sugeriram, recentemente, que qualquer um desses produtos biológicos oriundos de culturas de células infectadas por príons poderia, teoricamente, transmitir a doença.25

Como a PrPSc é uma proteína do próprio hospedeiro, apresentando exatamente os mesmos determinantes antigênicos que sua contraparte normal (PrP), não é imunogênica ao hospedeiro. Isso pode impossibilitar o diagnóstico sorológico da moléstia e muito dificulta a avaliação laboratorial de possíveis animais, materiais e pacientes contaminados.22

A BSE não afeta todos os tecidos bovinos com freqüência igual, da mesma forma que o scrapie.26 É notória a preferência pelo sistema nervoso central e pelos olhos, tecidos considerados de alto risco.17,18,26 Entre os órgãos de risco médio encontram-se baço, amígdalas, linfonodos, intestino, líquor, glândulas supra-renais, placenta e dura-máter. Na categoria de risco moderado encontram-se medula óssea, fígado, pulmões, pâncreas e timo. São considerados de baixo risco o tecido cardíaco, leite de origem bovina, ossos e sistema geniturinário.17,18,26 Existe muita discussão com relação ao risco representado pelas vacinas de origem bovina, mas ainda prevalece a noção de que, nesse caso, os benefícios em muito ultrapassam os riscos.27,28

Não parece haver ainda avaliação de risco satisfatória para a pele e material de origem dérmica. Pammer e cols.,29 no entanto, detectaram a expressão da PrP na pele normal e afetada por dermatoses diversas, como eczemas, psoríase e úlceras de perna. A presença da proteína priônica normal na pele permite, teoricamente, a contaminação mediante o uso de produtos tópicos ou intradérmicos, uma vez que se trata de tecido que expressa a PrP. Na verdade, graças a sua extensão, riqueza de macrófagos e freqüência de injúrias, a pele representa excelente porta de entrada para as infecções priônicas, como já desconfiavam Gajdusek e Zigas6 quando estudaram o kuru.

Os Estados Unidos e vários países asiáticos baniram, no início deste ano, por tempo indeterminado, produtos cosméticos de origem bovina procedentes de países da União Européia.30 O bloqueio visa evitar a comercialização de cosméticos derivados do colágeno dérmico e da placenta bovina, reforçando novamente o risco considerável desta última na transmissão da BSE.26 Os principais alvos desse bloqueio são, no entanto, os vários produtos cosmecêuticos contendo ceramidas.30 Embora componham apenas cerca de 10% do peso total do extrato córneo, as ceramidas são componentes essenciais da barreira epidérmica.31 Junto com o colesterol e os ácidos graxos livres, compõem uma camada hidrolipídica intercelular que reduz a perda hídrica transepidérmica e constitui proteção adequada contra substâncias irritantes exógenas e infecções cutâneas.31 O gado bovino e suíno é a origem das ceramidas utilizadas em muitas das formulações tópicas de uso corrente. Deve-se destacar, no entanto, que tais ceramidas são derivadas de um grupo de moléculas conhecidas como cerebrosídeos.31 As ceramidas formam grupo particularmente heterogêneo e complexo de esfingolipídeos, contendo as esfingosinas (tipos 1, 2, 4 e 5) e as fitoesfingosinas (tipos 3, 6I e 6II).31 O risco na utilização dessas substâncias é obvio, considerando ser a pele órgão que expressa efetivamente a PrP e o tecido nervoso, o reservatório natural e local de replicação da proteína priônica.22,29

Deve-se também considerar que tecidos animais de outras origens, como porcino e aviário, também apresentam risco de transmissão das doenças priônicas. Isso ocorre pelas técnicas que envolvem a reciclagem de proteína animal nas criações modernas. Carcaças e tecidos de pouco valor comercial são triturados e moídos, mas não esterilizados, e usados para enriquecer as rações desses animais, exatamente como no caso do gado bovino.16 A inexistência aparente de casos em porcos, galinhas e outros animais utilizados na alimentação humana pode decorrer apenas do abate precoce ou da subnotificação de doenças nesses animais. Esse, na verdade, pode até ser um fator agravante, dado que quaisquer animais mortos antes do período habitual de abate são imediatamente reciclados como ração, podendo criar retroalimentação positiva que gere infecção maciça desses animais.

 

CONCLUSÃO

A recente descoberta dos príons como agentes infecciosos tem modificado os conceitos vigentes sobre alimentação e utilização de tecidos de origem animal por seres humanos. Barreiras biológicas entre as espécies, o que costuma restringir a disseminação de outros tipos de patógenos, parecem pouco afetar a disseminação das doenças priônicas. O longo período de incubação dessas moléstias, por vezes medido em décadas, não permite tirar conclusões mais exatas quanto à extensão da contaminação humana. Fato é que grande parte das técnicas há muito consideradas seguras, como protocolos de esterilização e reciclagem da proteína animal, está sendo revista. Parece sensato, portanto, tomar medidas semelhantes quanto ao uso de produtos animais em implantes, suturas e formulações tópicas.

 

AGRADECIMENTOS

A realização deste trabalho contou com o apoio do CNPq - Brasil (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) através do projeto nº 200868/00-4 (Pós-doutorado no Exterior).

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Omar Lupi
Mary Moody Northern Pavilion 301 - University Blvd - Galveston/TX
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Tel/Fax: +1-409-747-8145 / +1-409-747-8150
E-mail: omrosasa@utmb.edu

Recebido em 05.06.2002.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 31.07.2002.

 

 

* Trabalho realizado na "University of Texas Medical Branch (UTMB) - Sealy Center for Vaccine Development".

 

 

Questões e Resultados das Questões

1. Além dos seres humanos que outros animais já foram comprovadamente infectados pelos prions?
a) suínos e ovídeos
b) ovídeos e muares
c) gado bovino e ovídeos
d) felinos e muares
e) galinhas e roedores

2. O termo "prions" pode ser melhor definido como:
a) proteínas recombinantes
b) proteínas mutagênicas
c) proteínas infecciosas
d) proteínas transgênicas
e) proteínas quiméricas

3. A base fisiopatogênica para a atuação dos prions anormais (PrPSc) se dá por:
a) serem proteínas com aminoácidos translocados
b) serem proteínas com estrutura espacial alterada
c) serem produzidos por DNA alterado por mutação
d) serem produzidos por RNA alterado por mutação
e) tanto o DNA quanto o RNA estão alterados

4. A proteína priônica aberrante (PrPSc) quando comparada à forma norma dominante (PrPC) se caracteriza por:
a) resistência às proteases
b) maior solubilidade em água
c) localização transmembrana
d) predomínio de cadeias alfa
e) não apresenta diferença significativa

5. A doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD) foi descrita e tem sido extensivamente estudada entre:
a) aborígenes australianos
b) aborígenes da Nova Guiné
c) populações caucasianas
d) judeus ashkenasi
e) populações afro-americanas

6. A hipótese prion pode ser melhor explicada por:
a) DNA produzindo RNA mensageiro com a síntese de proteína anormal
b) RNA mensageiro codificando DNA através da transcriptase reversa
c) RNA mensageiro codificando proteína anômala por erro de transdução
d) Proteína de isoforma anormal sem participação de DNA ou RNA
e) Mutação no RNA mensageiro codifica proteína anormal que se dissemina

7. Doenças priogênicas já foram comprovadamente transmitidas a seres humanos em todas as opções abaixo, exceto:
a) transplante de dura-mater
b) transplante de córnea
c) hormônio de crescimento cadavérico
d) material cirúrgico contaminado
e) transplante cardíaco

8. Qual dos procedimentos de esterilização abaixo parece ser efetivo na descontaminação de material infectado por prions?
a) Aquecimento a 360°C por 1 hora
b) Exposição ao UVC por até 2 horas
c) Hidróxido de sódio por 1 hora seguido de autoclavagem
d) Utilização de filtros com orifícios de menos de 20 mm
e) Aplicação de óxido nítrico por 30 minutos seguido de autoclavagem

9. Entre os tecidos considerados de alto risco para a transmissão da "doença da vaca louca" podemos destacar:
a) Baço e fígado
b) Pâncreas e timo
c) Pericárdio e linfonodos
d) Olhos e cérebro
e) Colágeno e ossos

10. Produtos de origem bovina, para uso biomédico, relacionados com uma possível transmissão da infecção priogênica incluem:
a) colágeno bovino injetável
b) laticínios de origem bovina
c) vacinas para uso médico
d) implantes odontológicos
e) insulina de origem bovina

11. A epidemia de kuru na Papua Nova Guiné acometeu principalmente:
a) Homens jovens
b) Idosos e obesos
c) Mulheres e crianças
d) Imunodeprimidos
e) Gêmeos univitelinos

12. a nova variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (nvCJD) quando comparada à CJD:
a) tem evolução clínica mais lenta
b) a taxa de letalidade é maior
c) afeta uma faixa etária mais jovem
d) apresenta distribuição também randômica
e) não apresenta diferenças detectáveis

13. Sobre a proteína priônica do estado dominante (PrPC) podemos afirmar:
a) É uma proteína de localização citoplasmática
b) O gene codificador está localizado no cromossomo 20
c) É uma proteína filtrável de 12 Kilodaltons
d) É uma proteína não-filtrável de configuração dextrógera
e) É uma glicoproteína de alto peso molecular

14. A pele, por expressar a proteína priônica celular, é um alvo para as doençãs priogênicas. A disseminação da moléstia se dá:
a) pelos axônios e neurônios
b) pelas hemácias e plaquetas
c) pelos linfócitos e macrófagos
d) através dos vasos linfáticos
e) por neurotransmissores cutâneos

15. O scrapie é uma doença priogênica que afeta:
a) gado bovino
b) suínos
c) ovinos
d) celenterados
e) insetos

16. a disseminação da "doença da vaca louca" ou encefalopatia espongiosiforme bovina deve-se a:
a) contaminação dos pastos pelos prions
b) transmissão dos prions por vacinas contaminadas
c) transmissão por aerossol entre os animais no pasto
d) transmissão através de alimentos contaminados
e) a forma de transmissão nunca foi totalmente elucidada

17. O substrato anatomopatológico das doenças priogênicas é:
a) hepatite crônica ativa
b) encefalopatia espongiosiforme
c) pneumonite obstrutiva crônica
d) miocardite amiotrófica grave
e) vasculite sem leucocitoclasia

18. Qual dos padrões epidemiológicos melhor caracteriza as doenças priogênicas:
a) alta incidência
b) alta prevalência
c) alta letalidade
d) moderada morbidade
e) alta transcendência

19. É exemplo de doença priogênica em seres humanos:
a) doença de Alzheimer
b) esclerose lateral amiotrófica
c) Sd. da Insônia familiar fatal
d) Paralisia geral progressiva
e) Esclerose múltipla

20. As ceramidas de uso tópico são substâncias de risco potencial para a transmissão das doenças priogênicas por diversos fatores, exceto:
a) atuam na pele, órgão que expressa a proteína priônica
b) têm como origem os cerebrosídeos, tecido com alta expressão priônica
c) podem ter como origem o gado bovino contaminado por prions
d) podem sofrer contaminação durante o processo de fabricação
e) são de difícil esterilização para prions pois perderiam sua capacidade biológica

GABARITO
Nevo Melanocítico Congênito
2002; 77(6): 649-656

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