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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000100009 

CASO CLÍNICO

 

Manifestações dermatológicas desencadeadas por ácaros da família Cheyletidae: relato de caso*

 

 

Oscarina da Silva EzequielI; Gilberto Salles GazêtaII; Nicolau Maués da Serra FreireII

IMestre em Biologia Parasitária. Médica especialista pela Sociedade Brasileira de Alergia e Imunopatologia. Professora Assistente da Universidade Federal de Juiz de Fora
IIDoutor pela Universidade Rural do Rio de Janeiro. Pesquisador da FIOCRUZ-IOC. Laboratório de Ixodides. Departamento de Entomologia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Ácaros da família Cheyletidae são de grande importância na veterinária, por estarem associados com parasitismo em aves e mamíferos. Permanecem, contudo, pouco estudados como fatores etiológicos em dermatites humanas, apesar de serem encontradas referências a esse respeito desde o início do século 20. O objetivo dos autores foi o de analisar, em paciente de seis meses de idade, um caso clínico de dermatite por ácaros da família Cheyletidae. O achado de três espécies dessa família no ecossistema domiciliar desse paciente, associado às manifestações cutâneas e cura definitiva após higienização do ambiente, faz acreditar na necessidade de se considerar essa hipótese diagnóstica nas dermatites humanas.

Palavras-chave: ácaros; dermatite; poeira.


 

 

INTRODUÇÃO

Ácaros e carrapatos apresentam íntima associação com ambientes antrópicos, conferindo-lhes especial possibilidade de afetar direta ou indiretamente a saúde do homem.12,14,19,28

Os ácaros das famílias Pyroglyphidae, Glycyphagidae, Acaridae e Cheyletidae são os mais prevalentes no ecossistema domiciliar, estando as três primeiras famílias associadas à sensibilização em pacientes com asma brônquica extrínseca, rinite alérgica e dermatite atópica.5,9,12,13,15,20,22 Os ácaros Cheyletidae, por sua vez, são predadores de outros ácaros, estando associados com parasitismo em aves e mamíferos, mas permanece pouco estudado seu papel em dermatites humanas.2,8,25,30

Os ácaros Cheyletidae, sobretudo as espécies associadas com o ecossistema domiciliar, parecem ter melhor adaptação em climas úmidos, o que pode explicar a prevalência mais alta em determinadas regiões fisiográficas, em que o homem está mais exposto a eles, com mais possibilidade de sua associação a agravos da saúde humana.13 Em 1917, o médico dinamarquês Lomholt fez pela primeira vez descrições de dermatites no homem desencadeadas por ácaros Cheyletidae. Nos casos relatados, o gênero envolvido foi Cheyletiella sp, tendo o mesmo sido encontrado parasitando gatos presentes nos domicílios dos pacientes em questão.8 Yoshikawa30 reportou o potencial do Cheyletus malaccensis, e o do Chelacaropsis sp em causar urticária papulosa em humanos em contato com tatames de palha, provavelmente pela inserção de partes do gnathossoma ou aparelho bucal e injeção de fluido salivar, que seriam os responsáveis pelas respostas alérgicas em pessoas susceptíveis.

O objetivo deste trabalho foi, a partir de um caso clínico, valorizar os ácaros da família Cheyletidae como agentes etiológicos de manifestações dermatológicas em humanos e, assim, direcionar futuras pesquisas para melhor conhecimento da biologia e interação desses ácaros com o homem.

 

RELATO DO CASO

Durante estudo da acarofauna do ecossistema domiciliar no Município de Juiz de Fora, em um dos domicílios escolhidos aleatoriamente, a avó relatou que a criança, do sexo feminino e com seis meses de idade, vinha apresentando há quatro semanas lesões máculo-papulosas, eritematosas, associadas a placas edematosas, pruriginosas, com pigmentação pós-inflamatória (Figura 1). Foi observado que a retirada da criança do ambiente levava à regressão das referidas lesões, com aparecimento de novas manifestações dermatológicas com a reexposição a seu domicílio. A criança permanecia a maior parte do tempo em um estofado antigo da cozinha. As regiões de maior comprometimento eram o dorso e, em menor intensidade, a região do abdômen. Não havia lesões significativas nas áreas expostas, tais como face, membros superiores e inferiores. O uso de anti-histamínicos e corticosteróides tópicos levava à melhora temporária. Após avaliação da amostra de poeira coletada no local, identificaram-se três espécies de ácaros da família Cheyletidae: Cheyletus malaccensis, Cheyletus fortis e Cheletonella caucasica. O aconselhamento de higienização do ambiente, associado ao tratamento sintomático, levou à cura definitiva do quadro clínico da paciente.

 

DISCUSSÃO

Os ácaros Cheyletidae têm sido referidos na poeira domiciliar em todo o mundo, com predomínio nas regiões de clima úmido.10,18,21,23,24,26,27

No Brasil, a presença de ácaros da família Cheyletidae tem sido reportada em diversos estudos, em praticamente todo o país, desde 1979, sendo as seguintes espécies já registradas: Cheyletus malaccensis, Cheyletus eruditus, Cheyletus fortis, Ker bakeri, Cheyletonella vespertillionis e Cheyletonella caucasica.1,3,4,6,7,15,16,17 As duas últimas espécies foram reportadas pela primeira vez no Brasil no ecossistema domiciliar pela análise que os autores fizeram das amostras de poeira domiciliar no Município de Juiz de Fora, MG.11

A partir do encontro de ácaros da família Cheyletidae em tatames úmidos, Yoshikawa30 propôs serem esses ácaros prováveis responsáveis por episódios pruriginosos no homem, comprovando sua hipótese ao realizar um estudo experimental, no qual demonstrou que Cheyletus malaccensis e Chelacaropsis sp são capazes de picar o homem, provocando alterações histopatológicas cutâneas semelhantes às causadas pelos ácaros classicamente conhecidos por esse comportamento, como o Ornythonissus bacoti, fato que não foi confirmado, durante aquele experimento, para espécies de outras famílias, como Dermatophagoides farinae, Dermatophagoides pteronyssinus e Tyrophagus putrescentiae. Yoshikawa29 confirmou a presença de fluido corporal humano no estômago de ácaros Cheyletidae, após terem picado o homem durante exposição, de cinco a seis horas, sobre a pele humana.

As lesões cutâneas associadas aos cheyletídeos apresentam-se geralmente na forma de pápulas eritematosas e placas urticariformes, podendo, em menor escala, ocorrer como lesões bolhosas ou eczematosas.8,29,30

A paciente em questão apresentava um quadro de dermatite sem história natural clássica para prurigo estrófulo ou para quadros de urticárias habituais, principalmente pelo local de distribuição das lesões e suas características, além disso com resposta temporária ao uso de anti-histamínicos sistêmicos e corticosteróides tópicos, mas o que realmente chama atenção é a melhora significativa decorrente da retirada da criança de seu ambiente domiciliar. O fato de terem encontrado três espécies de ácaros da família Cheyletidae, Cheyletus malaccensis, Cheyletus fortis e Cheletonella caucasica, em seu domicílio, sobretudo em locais de contato direto com a região dorsal da paciente, ou seja, mobília estofada na cozinha, onde passava grande parte do tempo, e colchões, bem como a cura definitiva do quadro clínico com medidas para redução das populações de ácaros, fez os autores pensar no diagnóstico de dermatite por Cheyletidae.

Dessa forma, parece-lhes importante salientar que, em meio aos artrópodos, os ácaros deveriam ser considerados possíveis responsáveis por outras dermatozoonoses, além da sarna.

 

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Endereço para correspondência
Oscarina da Silva Ezequiel
Av. Barão do Rio Branco 2370 - Sala 1014
Juiz de Fora MG
Tel./Fax: +55 (32) 3213-1971
E-mail: ose@terra.com.br

Recebido em 25.01.2001.
Trabalho aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 22.02.2002.

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Federal de Juiz de Fora.