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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000200003 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Estudo clínico aberto multicêntrico da efetividade e tolerabilidade do gel de adapaleno a 0,1%* em pacientes com acne vulgar**

 

Multicentric open clinical study of the efficacy and tolerability of adapalene 0.1% gel* in patients with acne vulgaris**

 

 

Marcia Ramos-e-SilvaI; Sueli Coelho da Silva CarneiroII; Humberto Antonio PonzioIII; Bernardo Faria Gontijo AssunçãoIV; Alberto Eduardo Cox CardosoV; Fernando Augusto de AlmeidaVI; Clarisse ZaitzVII; Iphis CampbellVIII

IMD, PhD - Professor Adjunto e Chefe - Serviço de Dermatologia e Curso de Pós-Graduação, HUCFF-UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.
IIMD, PhD - Dermatologista - Serviço de Dermatologia e Curso de Pós-Graduação, HUCFF-UFRJ, Universidade Federal do Rio de Janeiro; e Professor Adjunto - Serviço de Dermatologia, HUPE-UERJ, Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, RJ.
IIIMD - Professor Adjunto de Dermatologia - ULBRA, Universidade Luterana do Brasil, Porto Alegre, RS.
IVMD, PhD - Professor Adjunto - Serviço de Dermatologia e Curso de Pós-Graduação, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
VMD, PhD - Professor Adjunto - Serviço de Dermatologia e Curso de Pós-Graduação, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, SP.
VIMD, PhD - Professor Titular e Chefe - Serviço de Dermatologia e Curso de Pós-Graduação, Universidade Federal de Alagoas, Maceió, AL.
VIIMD, PhD - Professor Adjunto - Serviço de Dermatologia e Curso de Pós-Graduação, Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, São Paulo, SP.
VIIIMD - Dermatologista - Serviço de Dermatologia e Curso de Pós-Graduação, Hospital da Universidade Federal de Brasília, Brasília, DF.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: O adapaleno é um derivado do ácido naftóico, com propriedades biológicas similares às do ácido retinóico e utilizado no tratamento da acne vulgar.
OBJETIVOS: Avaliar a eficácia e a tolerabilidade do adapaleno 0,1% gel no tratamento da acne vulgar leve à moderada, em pacientes residentes no Brasil.
MATERIAIS E MÉTODOS: Os pacientes aplicaram o gel à noite, durante 12 semanas, e foram avaliados quanto à efetividade pelo número de lesões em cada visita e quanto à tolerabilidade ao produto nas consultas da segunda e da décima segunda semana.
RESULTADOS: Dos 125 pacientes, 81,6% completaram as 12 semanas de tratamento, e 10,4% dos casos terminaram o estudo antes do período estabelecido por estarem livres de lesões. Os resultados permitem confirmar a marcante atividade antiinflamatória, antiproliferativa e na diferenciação celular dos ceratinócitos. Houve diminuição dos comedões e das lesões inflamatórias, com resposta satisfatória no eritema, no ressecamento e na descamação da pele. Efeitos adversos pouco graves foram relatados em apenas 9,6% dos pacientes.
CONCLUSÕES: O adapaleno, neste estudo e nos vários que o antecederam, vem-se mostrando uma das melhores opções de tratamento tópico para os casos leves a moderados de acne vulgar.

Palavras-chave: acne vulgar; terapêutica; tretinoína.


SUMMARY

BACKGROUND: Adapalene, a naftoic acid derivative with biological properties similar to those of the retinoic acid, is indicated in the treatment of acne vulgaris.
OBJECTIVES: The present study was carried out to evaluate the therapeutic action of adapalene 0.1% gel and its tolerability in the treatment of mild to moderate acne vulgaris in patients living in Brazil.
MATERIAL AND METHODS: Patients applied the gel at night for 12 weeks; and were evaluated regarding the efficacy and tolerability of the product according to the number of lesions observed at each of the 2-week and 12-week visits.
RESULTS: Out of 125 patients, 81.6% completed 12 weeks of therapy and 10.4% of the cases left the study before week 12 because they were found to be lesion-free. Results allow us to confirm its effect upon keratinocyte cellular differentiation with antiinflammatory and antiproliferative properties. Adapalene induces a marked decrease in comedos and inflammatory lesions. Mild adverse events were reported in less than 10% of patients.
CONCLUSION: Adapalene has been shown to be one of the best topical therapies for mild or moderate acne both in the present study and in previous studies.

Keywords: acne vulgaris; therapeutics; tretinoin.


 

 

INTRODUÇÃO

A acne é doença genético-hormonal, de localização pilossebácea, caracterizada pela formação de comedões, pápulas e cistos. Quando há inflamação mais intensa, formam-se pústulas e abscessos que regridem em geral deixando cicatrizes. É doença típica dos adolescentes, de elevadíssima freqüência (85%), que acomete tanto os do sexo feminino (60%) quanto os do masculino (70%). Embora mais precoce na adolescência feminina, aos 14 anos, do que na masculina, aos 16 anos, é o sexo masculino que apresenta as formas mais intensas e graves de acne. Observa-se regressão espontânea após os 20 anos de idade, e tem sido referido que é incomparavelmente mais usual nos caucasianos do que nos amarelos e negros.1,2,3,4 Lucky et al., em 1997,5 no entanto, acompanharam 900 adolescentes durante cinco anos e não encontraram diferenças raciais ou nos níveis hormonais, mas constataram que houve aumento progressivo do número de lesões com a idade e a maturidade.

A seborréia caracteriza-se pelo aumento do fluxo sebáceo, que confere à pele aspecto luzidio, brilhante e sedoso, poros foliculares dilatados e pápulas amareladas e umbilicadas, que correspondem à hiperplasia das glândulas sebáceas. As áreas mais atingidas são a face, o couro cabeludo e a região superior do tronco.

É nos folículos pilosos que se instalam as lesões de acne decorrentes do aumento da secreção sebácea, da hiperceratose do canal folicular com retenção do sebo e do desenvolvimento da flora bacteriana, que provoca alterações químicas do sebo, elevando os níveis dos ácidos graxos livres. Esse aumento da secreção sebácea é a mudança inicial, e sua retenção na glândula por obliteração acroinfundibular leva à formação do comedão. A partir da multiplicação de germes, principalmente do Propionibacterium acnes (P. acnes), que libera ácidos graxos livres irritantes, forma-se a pápula-pústula.6,7,8 É provável que não haja influência de excesso de andrógenos nesse processo, apesar de serem verificados níveis plasmáticos de testosterona mais elevados em homens com acne do que nos controles.6 Os ácidos graxos livres, principalmente C8 e C14, podem provocar até destruição da glândula e mesmo formar um granuloma na derme. Sabe-se que há dois tipos de P. acnes, o P. acnes I e o P. acnes II, este último com maior potência lipolítica,6,9-12 e que no processo de acnegênese tomam parte também os estafilococos, muitos dos quais coagulase-positivos.12 A resposta imunológica ao P. acnes tem sido revelada pela presença de elevados títulos de anticorpos fixadores de complemento, pela ativação direta do sistema do complemento, pela inibição da migração de macrófagos e transformação blástica linfocitária.1,2,3,4,6,8,13,14

A acne é a doença dermatológica mais comum e, apesar de poder estar presente em todas as idades, tem alta prevalência na segunda e menor na terceira década de vida.1,3,4,15,16 Sua susceptibilidade é determinada geneticamente. É quadro que não ameaça a integridade física do paciente, mas afeta profundamente sua integridade psíquica por causar importante alteração da aparência e da auto-estima. Não se devem desprezar, portanto, os fatores emocionais, que muitas vezes desencadeiam ou agravam a acne. O aspecto físico, em especial o da face, altera-se no início pelas lesões em atividade e depois pelas conseqüentes cicatrizes permanentes de lesões em geral não tratadas. Os estigmas físicos e psicológicos dessa afecção podem ser prevenidos por seu fácil diagnóstico clínico precoce e pela instituição da terapêutica logo ao começar a doença.1,17,18

A erupção é polimorfa e caracteriza-se pela presença de comedões (cravos), pápulas, pústulas e cistos, com graus variáveis de inflamação e cicatrizes. A lesão inicial é o comedão, que é constituído de sebo e queratina. Glândulas sebáceas ativas são necessárias para o desenvolvimento da acne, e certas frações do sebo, tais como o esqualeno e o ácido linoléico, têm papel relevante na formação do comedão. As pápulas e pústulas decorrem da inflamação dos comedões, enquanto os cistos, de uma retenção maior do sebo em determinados folículos sebáceos.3,4,8 A acne localiza-se na face, principalmente na fronte, regiões malares e mento, e no tronco. O diagnóstico é clínico e se baseia na idade em que surgem as lesões, em seu polimorfismo e suas localizações. É doença crônica com períodos de exacerbação e acalmia.3,4,11,13,14,16,19

O ácido retinóico all-trans tópico (ou tretinoína) é efetivo no tratamento da acne, promovendo a descamação do epitélio anormal, alterando o microclima do microcomedo e favorecendo a penetração de outras drogas, como antimicrobianos.20,21,22,24,25

Em 1995, foi lançada uma nova molécula derivada do ácido naftóico, o adapaleno, com propriedades biológicas similares às do ácido retinóico. Suas propriedades farmacológicas conferem-lhe habilidade para controlar, em especial, a diferenciação celular epidérmica, mas também sua proliferação e para prevenir e eliminar comedões, além de ter eficiente atividade antiinflamatória.26,27,28 A partir dessas constatações, muitas investigações com o novo medicamento foram realizadas na Europa e nos Estados Unidos; algumas multicêntricas, umas abertas, outras em estudos duplos cegos, comparando sua eficácia e grau de irritabilidade cutânea com os dos retinóides e veículos.29-41 No Brasil foi feito o presente protocolo clínico multicêntrico aberto para avaliação da efetividade e tolerabilidade do adapaleno 0,1% em gel em pacientes com acne vulgar, residentes no Brasil, expostos às condições de um país com áreas de clima tropical e temperado, o que poderia levar a efeitos adversos, dada a maior fotossensibilidade. Além disso, as características populacionais, alimentares e de outros hábitos são bastante diferentes das dos estudos anteriores. Sete centros universitários brasileiros participaram do projeto, a saber: Hospital Universitário Clementino Fraga Filho, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Universidade Federal de São Paulo, Universidade Federal de Minas Gerais, Universidade Federal de Alagoas, Santa Casa de Misericórdia de São Paulo e Hospital da Universidade Federal de Brasília.

 

OBJETIVO

Avaliar a ação terapêutica do gel de adapaleno a 0,1% e sua tolerabilidade no tratamento da acne vulgar leve a moderada em pacientes residentes no Brasil.

Justificativa

Há vários trabalhos sobre a eficácia e tolerabilidade do adapaleno nos diversos tipos de acne, mas nenhum com pacientes com os tipos de pele e condições climáticas e alimentares a que está sujeita a população brasileira, que são muito diferentes dos da população européia e americana, junto às quais a maioria dos trabalhos foi realizada.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este foi um estudo multicêntrico aberto, não comparativo, realizado em sete centros universitários. Os 125 pacientes apresentavam diagnóstico de acne vulgar, foram avaliados em quatro visitas - pré-tratamento e nas segunda, sexta e décima segunda semanas - e foram instruídos a usar gel de adapaleno a 0,1% uma vez à noite durante 12 semanas.

Os pacientes incluídos neste estudo obedeceram aos seguintes critérios de inclusão:

• pacientes de ambos os sexos com idade superior a 12 anos;

• pacientes com diagnóstico de acne vulgar variando de leve a moderada;

• pacientes com no mínimo 20 lesões não inflamatórias (comedões abertos e fechados) e cinco lesões inflamatórias (pápulas, pústulas) na face.

Não puderam ser incluídos no estudo os pacientes que apresentassem:

• alergia ou sensibilidade a qualquer componente do adapaleno gel a 0,1%.

• uso de qualquer outro tratamento tópico ou sistêmico para acne até 15 e 30 dias, respectivamente, do início do estudo;

• inabilidade de seguir o protocolo;

• gravidez;

• uso de substâncias como acetato de ciproterona e desogestrel.

A gravidade da acne dos pacientes no início do estudo foi avaliada pelo número de lesões. A sensibilidade da pele da face dos pacientes ao produto foi verificada quanto ao surgimento de eritema, ressecamento, descamação e queimação. Os pacientes receberam um tubo de 30g de gel de adapaleno a 0,1% e foram instruídos a aplicar o gel à noite durante 12 semanas. Também lhes foi entregue um frasco de loção não lipídica para limpeza da pele com instruções de com ela lavarem a face todas as noites, enxaguá-la, secá-la, e, após 10 minutos, aplicar o gel de adapaleno a 0,1%.

Os pacientes foram avaliados quanto à efetividade, pelo número de lesões, e quanto à tolerabilidade ao produto nas consultas da segunda e da décima segunda semana. O retorno na sexta semana teve o propósito de assegurar a adesão ao tratamento e verificar a tolerabilidade ao produto. Na consulta final, na décima segunda semana, os investigadores fizeram a avaliação da impressão global, e os pacientes preencheram um questionário para medir a aceitabilidade e a satisfação com o resultado do tratamento com gel de adapaleno a 0,1%.

 

RESULTADOS

Foram incluídos neste estudo multicêntrico 125 pacientes em sete centros universitários brasileiros. Desses pacientes, 81,6% completaram as 12 semanas de tratamento. Do grupo restante, que não completou o tempo total de uso da medicação, 10,4% dos casos terminaram o estudo antes do período estabelecido por estarem sem lesões, 3,2% interromperam o tratamento por falta de eficácia, 4% por efeito adverso e um caso de violação de protocolo (0,8%), pois o paciente não aderiu corretamente ao estudo.

Dados demográficos

A média de idade dos pacientes incluídos no protocolo foi de 19,4 anos, com variação entre 12 e 41 anos. Houve ligeiro predomínio de pacientes do sexo feminino (59,2%). A raça branca predominou com 76,2% dos casos (Tabela 1).

 

 

Número de lesões faciais

A avaliação da gravidade e da melhora das lesões foi feita por meio da contagem das lesões faciais.

Lesões não inflamatórias

O número médio de comedões abertos e fechados decresceu significativamente após as 12 semanas de tratamento. O número total de lesões não inflamatórias diminuiu de 41,2 lesões no pré-tratamento, para 20,2 lesões ao final do estudo (Tabela 2, Gráfico 1).

 

 

Lesões inflamatórias

Tanto as pápulas como as pústulas apresentaram decréscimo estatisticamente significativo em suas médias ao final do estudo. O total das lesões inflamatórias apresentava média de 15,9 lesões no pré-tratamento, diminuindo para 7,6 lesões no pós-tratamento (Tabela 3, Gráfico 2).

 

 

Avaliação da tolerabilidade da pele facial ao produto

A tolerabilidade da pele da face dos pacientes ao gel de adapaleno a 0,1% foi analisada quanto à presença de eritema, ressecamento, descamação e queimação.

Eritema

Eritema foi descrito como vermelhidão anormal da pele e classificado como: ausente (nenhum eritema), leve (levemente róseo), moderado (vermelhidão definida, facilmente conhecida), grave (vermelhidão intensa). Dos pacientes que apresentaram eritema a melhora foi estatisticamente significativa ao final do estudo, comparando-se com a segunda semana (Tabela 4, Gráfico 3).

 

 

Ressecamento

Ressecamento foi definido como a sensação de tensão e/ou rachadura da pele, e pontuado pelo pesquisador como: ausente (nenhum ressecamento), leve (ressecamento leve, mas definido), moderado (ressecamento moderado), grave (ressecamento marcante). Na comparação entre o ressecamento presente na segunda e na décima segunda semana, a melhora observada foi altamente significativa (Tabela 5, Gráfico 4).

 

 

Descamação

Tendo sido definida como o desprendimento da porção mais superficial da epiderme, ou seja, do estrato córneo, o pesquisador utilizou a seguinte pontuação para a descamação: ausente (nenhuma descamação), leve (desprendimento mal perceptível, notado apenas com escoriação leve ou fricção), moderado (desprendimento óbvio, mas não profuso), grave (produção intensa de escamas). A descamação também apresentou melhora bastante significativa entre a segunda semana e o final do estudo (Tabela 6, Gráfico 5).

 

 

Sensação de queimação

A queimação foi classificada pelo pesquisador com base na descrição do indivíduo e pontuada como: ausente (nenhuma queimação), leve (leve calor, sem incômodo), moderada (calor definido, discreto incômodo), grave (quente, desconforto bem definido). Dos pacientes que apresentaram esse desconforto foi observada melhora significativa na visita da décima segunda semana, quando comparada ao início do sintoma, na segunda semana (Tabela 7, Gráfico 6).

 

 

Eventos adversos

Muitos dos efeitos adversos se superpunham nos mesmos pacientes. Os mais relatados foram eritema (dois pacientes), descamação (três pacientes), sintomas como prurido ou queimação (três pacientes) e piora das lesões (um paciente). Em sua maioria foram considerados de leve a moderado.

Dois pacientes apresentaram febre, artralgias e exantema máculo-papuloso, tendo sido feito o diagnóstico epidemiológico e clínico de dengue.

Em cinco dos pacientes com efeitos adversos, o gel de adapaleno foi suspenso; em outros cinco o uso do adapaleno foi diminuído para dias alternados ou descontinuado temporariamente; e os dois pacientes com dengue mantiveram a medicação para acne em conjunto com as drogas sintomáticas para a virose. Apenas cinco tiveram efeitos adversos com definitiva relação com o adapaleno; em três pacientes a relação causa/efeito do efeito adverso foi possível, e em dois, provável. Nos dois pacientes que apresentaram dengue, o quadro de febre, artralgias e exantema máculo-papuloso não teve nenhuma relação com o adapaleno.

Razão para o término/interrupção do estudo

Em 81,6% dos pacientes o tratamento foi concluído normalmente. Cerca de 10,4% dos pacientes tiveram remissão antecipada e não precisaram completar as 12 semanas do estudo. Dois pacientes interromperam o tratamento por falta de eficácia, cinco pela ocorrência de efeitos adversos e um paciente não aderiu corretamente ao tratamento.

Questionário do paciente

Ao final do estudo 114 pacientes preencheram um questionário para medir a aceitabilidade e a satisfação com o tratamento com gel de adapaleno a 0,1%. As respostas obtidas estão descritas na tabela 8.

 

 

Dos 114 pacientes que responderam ao questionário, 90,4% disseram que o odor de gel de adapaleno a 0,1% é agradável, 99,1% que é de fácil aplicação e 95,6% que a consistência do gel é agradável. O gel de adapaleno a 0,1% não irritou a pele em 70,2% dos casos e melhorou a acne de 90,4% dos pacientes. Cento e três pacientes (91,2%) responderam que continuariam o tratamento de acne com o referido produto.

Cerca de 67,5% dos pacientes haviam utilizado anteriormente outras substâncias tópicas para acne, sendo os mais citados: eritromicina tópica, peróxido de benzoíla e tretinoína em variadas formulações. Os produtos utilizados previamente ao estudo foram receitados por médicos em 82,9% dos casos.

Na comparação entre o tratamento com o gel de adapaleno a 0,1% e aquele com o produto anterior que o paciente havia utilizado, foram encontradas as seguintes respostas:

• a efetividade do gel de adapaleno a 0,1% foi maior em 67,1% dos casos;

• a comodidade de aplicação do gel de adapaleno a 0,1% foi maior em 44,7% dos casos e igual em 55,3%; e

• a tolerabilidade ao gel de adapaleno a 0,1% foi maior em 64,1% dos casos.

Avaliação global da melhora

Após as 12 semanas de tratamento, os investigadores avaliaram globalmente a melhora em 120 pacientes. Somando-se a melhora moderada (26,7%), a melhora marcante (40%), a quase-remissão (16,7%) e a remissão clínica total (2,5%), o índice atingiu 85,9% (Tabela 9, Gráfico 7).

 

 

Estatística

Para a avaliação estatística da contagem das lesões optou-se pela utilização do teste não paramétrico, Teste de Friedman, devido à grande variação dos valores observados, isto é, o desvio-padrão foi muito grande, chegando a ultrapassar a média calculada. O nível de significância em todos os testes aplicados foi fixado em 5%. A melhora dos pacientes foi comprovada pela diminuição significativa das médias do número de lesões ao final das 12 semanas de tratamento, quando comparadas às médias iniciais.

 

DISCUSSÃO

Os fatores mais relevantes na acne são a diferenciação alterada dos ceratinócitos no infundíbulo da unidade pilossebácea e o aumento na secreção do sebo. Essa diferenciação anormal pode aumentar a coesão entre os corneócitos, resultando no acúmulo e obstrução do duto pilossebáceo, o que permite a colonização bacteriana.3,4,8 O adapaleno é muito eficaz no tratamento da acne porque atua na diferenciação dos ceratinócitos, na proliferação dos sebócitos e na inflamação.26,27,30,34

O adapaleno causa menor irritação da pele quando comparado aos clássicos retinóides agonistas, ácido all-trans-retinóico, tanto em modelos farmacológicos27,42 quanto em estudos isolados ou multicêntricos.21,22,26-33,37-44 Mesmo sua aplicação imediata após a limpeza da pele não aumenta a irritabilidade do produto,38 liberando o paciente para usá-lo no contexto de seus hábitos de vida, colaborando para melhor aceitação do tratamento.

A compatibilidade química e a estabilidade apresentada pelo adapaleno quando combinado com peróxido de benzoíla, além de sua ausência de fotossensibilidade, são de grande interesse para os dermatologistas, pois é imprescindível ter este tipo de segurança para a terapêutica da acne.35

Sabe-se que comedões abertos e fechados representam o primeiro sinal de acne e podem surgir muitos anos antes da menarca, em meninas com idade entre seis e nove anos. Tais lesões devem ser tratadas tão logo apareçam, já que o desencadeamento precoce de comedões parece ser um dos mais fiéis indicadores de uma futura acne grave.5 Considerando, portanto, a eficácia e tolerabilidade do adapaleno, o tratamento precoce da acne é cada vez mais seguro e obrigatório.

Os resultados do presente estudo foram semelhantes aos já encontrados em outros grandes centros e concordaram com todos os já publicados21,22,26-33,37-44 quanto à marcada atividade antiinflamatória, antiproliferativa e na diferenciação celular. Houve diminuição dos comedões e das lesões inflamatórias, com resposta satisfatória no eritema, no ressecamento e na descamação da pele. Concordou também quanto à satisfação dos pacientes e à aceitabilidade cosmética do produto.21,22,26-33,37-44 Efeitos adversos pouco graves foram relatados: houve eritema (dois pacientes), descamação (três pacientes), prurido e/ou queimação discretos (quatro pacientes) e piora das lesões (dois pacientes).

A razão mais importante para a realização deste estudo foi o fato de os pacientes brasileiros terem tipos de pele diversos dos europeus e americanos, e estarem sujeitos à exposição solar e condições climáticas e alimentares diferentes. Os pacientes não apresentaram fenômenos de fotossensibilidade, o que é de extremo interesse num país tropical como o Brasil.

 

CONCLUSÃO

No tratamento da acne, o adapaleno, no presente estudo e nos vários que o antecederam, vem-se mostrando uma das melhores opções para os casos leves a moderados. Possui grande aceitabilidade por parte dos pacientes, é cosmeticamente agradável e tem sua atividade principal sobre a diferenciação celular, sendo também antiinflamatória e antiproliferativa, todas características amplamente comprovada pelos testes in vitro, assim como na clínica. Leva à diminuição acentuada dos comedões e das lesões inflamatórias e mostra rápida recuperação nos poucos casos em que provoca eritema, ressecamento e/ou descamação da pele no início do tratamento, além de não apresentar fenômenos de fotossensibilidade.

Os efeitos adversos são contornáveis, podendo desaparecer com a insistência do uso do medicamento ou, se necessária, a suspensão; há desaparecimento completo da reação adversa. Além disso, o efeito farmacológico muitas vezes se confunde com as próprias lesões da acne.

A ausência de efeito adverso relacionado à exposição solar é de grande importância para pacientes brasileiros, porque esses, mesmo quando avisados, com freqüência se expõem em demasia ao sol.

 

AGRADECIMENTO

Estudo realizado com o auxílio da Galderma Brasil Ltda.

 

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Endereço para correspondência
Marcia Ramos-e-Silva
Rua Sorocaba, 464 / 205
Rio de Janeiro RJ 22271-110
Tel/Fax: (21) 2286-4632
E-mail: ramos.e.silva@dermato.med.br

Recebido em 12.12.2001.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 10.12.2002.

 

 

* Differin gel®
** Trabalho realizado na Universidade Federal do Rio de Janeiro; Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Universidade Federal de São Paulo; Universidade Federal de Minas Gerais; Universidade Federal de Alagoas; Santa Casa de Misericórdia de São Paulo; e Universidade Federal de Brasília.