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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000200007 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Terapêutica fotodinâmica com ácido delta-aminolevulínico em neoplasias queratinocíticas superficiais*

 

Photodynamic therapy with delta-aminolevulinic acid for superficial keratinocytic neoplasms*

 

 

Renato Marchiori BakosI; Lucio BakosII; Elton FerlinIII; Tania CestariIV; Tobias OrlandiniV; Roberto RezendeVI; Carolina PeukertVII; Clarissa BertiVIII; Emileine Di DomenicoIX

I e VIMédico Residente do Serviço de Dermatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre
IIProfessor Titular da UFRGS e Chefe do Serviço de Dermatologia do HCPA
IIIEngenheiro do Serviço de Engenharia Biomédica do HCPA
IVProfessor Adjunto da UFRGS e do Serviço de Dermatologia do HCPA
VMédico Especializando do Serviço de Dermatologia do HCPA
VII-IXAcadêmicas de Medicina da UFRGS

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: A terapêutica fotodinâmica (TFD) é técnica de tratamento em que são aplicadas, nos tecidos, substâncias fotossensibilizantes, posteriormente ativadas com luzes de comprimentos de onda específicos, com a finalidade de produzir destruição celular, por meio da ação de produtos citotóxicos fotoativados. Tal método tem sido utilizado em diversos tipos de neoplasias cutâneas, com resultados bastante entusiasmadores.
OBJETIVOS: Avaliar o efeito de uma única sessão de terapêutica fotodinâmica (TFD) com ácido delta aminolevulínico (ALA) tópico, estimulado por luz não coerente, em ceratoses actínicas (CAC), carcinomas basocelulares (CBC) superficiais e doenças de Bowen (DB).
MATERIAL E MÉTODOS: Utilizando uma fonte de luz não coerente, emitida por protótipo desenvolvido no Serviço de Engenharia Biomédica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), para ativar o ácido delta-aminolevulínico (ALA) a 20%, aplicado com oclusão, foram tradadas 80 lesões cutâneas, em 52 pacientes. Entre as lesões, 32 (40%) eram carcinomas basocelulares superficiais, 37 (46,3%) ceratoses actinícas e 11 (13,7%) doenças de Bowen. Em 23 casos (28,7%), além das características clínicas, o diagnóstico foi confirmado por biópsia e exame histopatológico.
RESULTADOS: Não foi possível obter o seguimento de cinco lesões tratadas. Das 75 lesões que puderam ser avaliadas, 41 (54,6%) apresentaram cura, 22 (29,4%) apresentaram melhora, e 12 (16,0%) permaneceram inalteradas, tendo o tratamento sido considerado ineficaz nestas últimas. Das 35 ceratoses actínicas, 23 (65,7%) obtiveram cura, 7 (20%) melhoraram, e cinco (14,3%) não responderam ao tratamento.Trinta carcinomas basocelulares superficiais foram tratados, com cura em 10 (33,3%), melhora em 13 (43,4%) e sem alterações em sete (23,3%). Dos 10 casos de doença de Bowen avaliados, oito (80%) curaram e dois (20%) melhoraram. Os efeitos colaterais observados foram ardência em 24 lesões (32%), dor em cinco (6,7%) e prurido em um caso (1,3%). A maioria dos casos (60%) apresentou boa tolerância ao tratamento, não havendo efeitos paralelos dignos de nota.
CONCLUSÕES: Os resultados obtidos no trabalho assemelham-se, em parte, aos relatados na literatura com aplicação única da terapêutica fotodinâmica com ácido delta-aminolevulínico em neoplasias queratinocíticas superficiais, principalmente nas ceratoses actínicas e na doença de Bowen.

Palavras-chave: carcinoma basocelular; doença de Bowen; fotobiologia; fotoquimioterapia.


SUMMARY

BACKGROUND: Photodynamic therapy (PDT) is a treatment technique in which photosensitizing substances are applied in tissues and excited with specific wavelengths of light energy to obtain cell destruction through photoactive cytotoxic substances. This method has been used in several skin neoplasms, with quite successful results.
OBJECTIVES: To study the effects of one single session of topical delta-aminolevulinic acid (ALA) irradiated with incoherent light, in actinic keratosis (AK), superficial basal cell carcinoma (BCC) and Bowen's disease (BD).
PATIENT AND METHODS: Eighty skin lesions, in 52 patients, were treated with an incoherent light source prototype built by the Service of Biomedical Engineering of Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), after the application of 20% ALA under occlusion. Thirty two (40%) were superficial BCC, 37 (46.3%) AK, and 11 (13.7%) BD. Diagnosis was confirmed by biopsy and histology in 23 cases (28.7%).
RESULTS: Follow up was not available in five lesions. From the remaining 75, 41 (54.6%) were completely resolved, 22 (29.4%) showed partial remission, and 12 (16.0%) were considered as treatment failures. Considering the 35 treated AK, 23 (65.7%) presented complete response, 7 (20%) improved, and 5 (14.3%) showed no benefit after treatment. Thirty BCC were treated, 10 (33.3%) completely resolved, 13 (43.4%) improved, and 7 (23.3%) remained unaffected. From 10 treated BD, 8 (80%) resolved and 2 (20%) improved. Observed side effects were burning sensation in 24 lesions (32%), pain in 5 (6.7%), and itch in one case (1.3%). Most patients (60%) did not experience any important side effects.
CONCLUSION: The results of this study are similar, in part, to the results of other studies present in the literature that used a single treatment with ALA/PDT for superficial keratinocytic neoplasms, especially for actinic keratosis and Bowen's disease.

Keywords: carcinoma, basal cell; Bowen's disease; photobiology; photochemotherapy.


 

 

INTRODUÇÃO

O termo fotodinâmica data de 1904, quando von Tappeiner descreveu as reações químicas com consumo de oxigênio induzidas pela fotossensibilização em biologia. A terapêutica fotodinâmica (TFD), na concepção atual, é modalidade de tratamento baseada fundamentalmente na aplicação de substâncias fotossensibilizantes que se acumulam nas células alvo e são ativadas por uma fonte luminosa. Esse processo libera espécies reativas de oxigênio (principalmente oxigênio singleto), responsáveis pelo dano de membranas celulares e destruição tumoral. O composto sensibilizante é administrado por via oral ou endovenosa, para o tratamento de tumores broncopulmonares, gastrointestinais ou cerebrais. Em tumores endometriais, carcinomas de bexiga e tumores cutâneos, o agente é aplicado topicamente.3,4

Para afecções dermatológicas, o ácido delta aminolevulínico (ALA), precursor das porfirinas e do heme, é a substância mais utilizada.3 Quando oferecido de maneira exógena aumenta a produção da protoporfirina tipo IX que se acumula, preferencialmente, em células displásicas e neoplásicas. A fotoativação, em princípio, pode ser feita por meio de qualquer fonte de luz visível, desde que ela possua características espectrais específicas, alta potência de saída e máxima absorção pelo fotossensibilizante. Em estudos clínicos iniciais, lâmpadas incandescentes e projetores de diapositivos foram utilizados. Recentemente, aparelhos profissionais de luz incoerente têm sido desenvolvidos. O comprimento de onda mais utilizado nos trabalhos com TFD-ALA localiza-se em torno de 630nm. Aparelhos de laser também podem ser utilizados, mais comumente os de argônio (argon ion pumped dye laser, de 630nm) e de ouro (gold vapor laser, de 628nm), sendo também possível alcançar bons resultados com laser de diodos.3

Apesar de ter sido testado também em doenças não neoplásicas, como a psoríase, infecções por vírus de papiloma humano (HPV), alopecia areata e outras, sua principal indicação é o tratamento de lesões neoplásicas não melanocíticas, queratinocíticas superficiais, como carcinomas epidermóides, ceratoses actínicas, carcinomas basocelulares e doenças de Bowen.2 A TFD já foi utilizada experimentalmente em micose fungóide, sarcoma de Kaposi e ceratoacantomas.

O propósito deste trabalho foi avaliar o efeito de sessão única de terapêutica fotodinâmica (TFD) com ácido delta-aminolevulínico (ALA) tópico em ceratoses actínicas (CAC), carcinomas basocelulares (CBC) superficiais e doenças de Bowen (DB), utilizando uma fonte luminosa não coerente desenvolvida no Serviço de Engenharia Biomédica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA).

 

MATERIAL E MÉTODOS

Os pacientes foram selecionados no Serviço de Dermatologia do Hospital de Clínicas de Porto Alegre ou encaminhados por outros serviços, nos anos de 1996 a 2000, constituindo-se de voluntários de ambos os sexos, que concordaram em participar do estudo após leitura do termo de consentimento pós-informado. O estudo teve início depois de aprovado pela Comissão de Ética e Deontologia Médica do HCPA em 1996.

Os critérios de inclusão previam pacientes de ambos os sexos, portadores de carcinomas basocelulares superficiais, ceratoses actínicas e doenças de Bowen, sem história de fotossensibilidade, não gestantes, maiores de 18 anos, sem tratamento específico por, pelo menos, 30 dias e sem história de uso de outras medicações, tópicas ou sistêmicas, especificamente fotossensibilizantes ou imunossupressores.

Os critérios de exclusão, além dos já apontados (gestantes, menores de idade, com situações de fotossensibilidade, etc.), incluíam presença de lesões nodulares, profundas ou ulceradas.

Na primeira visita, os pacientes eram orientados a respeito das características do estudo, bem como se submetiam a anamnese, exame dermatológico completo e avaliação clínica da lesão a ser tratada. Em caso de dúvida diagnóstica, a lesão era biopsiada, com realização de exame histopatológico. Ceratoses actínicas eram consideradas pequenas placas hiperceratóticas, isoladas, com escamas aderidas, acastanhadas, bem delimitadas, de bordas irregulares, localizadas em área de fotoexposição crônica. A doença de Bowen era caracterizada por placa eritêmato-escamosa, bem delimitada, levemente elevada, plana, encimada por escamas amareladas que, ao serem removidas, revelam superfície úmida, avermelhada, sem sangramento, localizada em área fotoexposta ou não.11 O carcinoma basocelular superficial era considerado quando a placa estava delimitada por uma borda de tecido tumoral translúcido, por vezes com pontos pigmentares, com centro atrófico ou escamoso, por vezes erosado, combinado com aumento de vascularidade, podendo configurar aspecto pagetóide.11

O agente fotossensibilizante utilizado foi o ácido delta-aminolevulínico (Sigma Chemical, ST. Louis, MO, EUA), incorporado a 20% em creme (emulsão óleo-em-água), de acordo com trabalhos anteriores. O produto foi importado mediante verba específica para o estudo fornecida pelo Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIPE) do HCPA e Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS). A fonte luminosa foi desenvolvida no Serviço de Engenharia Biomédica do HCPA, constituindo-se em protótipo composto basicamente de uma lâmpada halógena tipo ELH de 300W, 120V, temperatura de cor 3350 Kelvin, emissora de luz não coerente, e dois filtros, um para infravermelho, tipo Schott KG-1 (Edmund Optics, Barrington, NJ, EUA) e outro passa-banda Schott OG550 (Edmund Optics, Barrington, NJ, EEUU) para delimitar o espectro de saída do feixe luminoso em 620±70nm. Limite da banda de passagem: 610nm (transmitância > 99%); limite da banda de rejeição: 510nm (transmitância = 0,001%); ponto de corte: 550nm (transmitância = 50%). O aparelho utilizava sistema de esfriamento por ventilador (Figura 1).

As lesões a serem tratadas eram limpas com solução salina estéril 0,9%, e, caso houvesse crostas, essas eram removidas para facilitar a penetração da substância ativa (ALA). A lesão era coberta com fina camada do creme de ALA a 20%, deixando-se margem de cerca de 0,5cm na pele normal. A área era ocluída com papel alumínio (para evitar fotoativação precoce), sendo removida após o mínimo de três e o máximo de seis horas.3,12 Nesse momento, após remoção do resíduo de creme, fazia-se a monitorização da fluorescência produzida pela protoporfirina IX no tumor, mediante exame com lâmpada de Wood (Skiner, São Paulo, Brasil). A seguir, após proteção dos olhos e da pele vizinha ao tumor, a lesão era fotoirradiada com o filtro do aparelho mantido à distância de cerca de 20cm. O tempo de iluminação variava entre 10 e 20 minutos, de acordo com critérios clínicos, ditados principalmente pelo tamanho e espessura lesionais, além da fluorescência.3,12 A densidade de potência irradiada era de 200mW/cm2 e, conforme o tempo de exposição, a fluência variava entre 120 e 240J/cm2. Eram monitorizados, durante a aplicação, os possíveis efeitos adversos imediatos, como ardência, dor e calor, sendo considerados presentes ou ausentes, para fins de avaliação. Após a aplicação, o paciente era liberado e agendado para retorno dentro de três a quatro semanas, sendo, então, submetido a novo exame clínico e revisão da(s) lesão(ões) tratada(as). Em sua estada domiciliar era orientado a utilizar pomada de colagenase com cloranfenicol, em caso de presença de necrose ou secreção purulenta na área irradiada. No retorno, era feita a avaliação da resposta clínica ao tratamento. Eram definidas cura como a ausência de lesão clínica no local tratado (Figuras 2 e 3); melhora quando houvesse desaparecimento de mais de 50% da lesão; e ineficácia havendo menos de 50% de desaparecimento lesional. Os dados obtidos foram registrados e tabulados.

 

RESULTADOS

Foram tratadas 80 lesões em 52 pacientes (Tabela 1). Deles, 35(67,3 %) eram do sexo feminino e 17 (33,7%) do masculino. A média de idade da população foi 60 anos. Entre as lesões, 32 (40%) eram carcinomas basocelulares superficiais, 37 (46,3%) ceratoses actinícas e 11 (13,7%) doenças de Bowen. Em 23 casos (28,7%) o diagnóstico foi confirmado por biópsia e exame histopatológico. As localizações predominantes das lesões eram a face (33 / 41,3%), o dorso (14 / 17,5%) e os membros superiores (11 / 13,8%). O diâmetro das lesões variou entre 0,5 e 3cm. A média do tempo de oclusão das lesões foi de três horas e 54 minutos. As lesões foram irradiadas por 10 minutos em 26% dos casos, 15 minutos em 55% e 20 minutos em 19%. Da população inicial de 80, não foi possível obter o seguimento de cinco lesões tratadas. Das 75 lesões tratadas que puderam ser avaliadas, 41 (54,6%) apresentaram cura, 22 (29,4%) apresentaram melhora, e 12 (16%) permaneceram inalteradas, tendo sido o tratamento considerado ineficaz nestas últimas (Gráfico 1). Trinta carcinomas basocelulares superficiais foram tratados, com cura em 10 (33,3%), melhora em 13 (43,4%) e sem alterações em sete (23,3%) (Gráfico 2). Das 35 ceratoses actínicas tratadas, 23 (65,7%) obtiveram cura, sete (20%) melhoraram, e cinco (14,3%) não responderam ao tratamento (Gráfico 3). Dos 10 casos de doença de Bowen, oito (80%) curaram e dois (20%) melhoraram (Gráfico 4). Os efeitos colaterais observados foram ardência em 24 lesões (32%), dor em cinco (6,7%) e prurido em um caso (1,3%). A maioria dos casos (60%) apresentou boa tolerância ao tratamento, não havendo efeitos paralelos dignos de nota (Gráfico 5).

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O princípio da terapêutica fotodinâmica foi observado por Raab, em 1900, que conseguiu a morte rápida de Paramaecium caudatum após exposição à luz na presença do corante acridina orange. A seguir, von Tappeiner, autor do termo fotodinâmica, e Jesionek relataram o uso de eosina tópica e luz visível no tratamento de tumores cutâneos, condilomas planos e lúpus vulgar. Foi feito uso clínico da TFD pela primeira vez por Dougherty et al., em 1978, com relato de sucesso no tratamento de câncer cutâneo e outras malignidades. Desde então, a técnica vem sendo aplicada experimentalmente para o tratamento de vários tumores, como de esôfago, gastrointestinais, broncogênicos e cutâneos.2 Em 1990, Kennedy et al. introduziram uma nova abordagem da TFD envolvendo a produção de protoporfirinas endógenas, mediante a utilização de ALA a 20% tópico seguido de exposição única à luz filtrada de projetor de diapositivos. Os autores relataram índice de cura de 90% em ceratoses actínicas. A aplicação tópica do ALA proporciona maior penetração através da epiderme com camada córnea alterada e bem menos através da epiderme normal, permitindo a fotossensibilização seletiva dos tumores cutâneos. As células tumorais metabolizam o ALA produzindo porfirinas endógenas, particularmente a protoporfirina IX, que destrói o tecido tumoral quando irradiada pela luz visível, por meio da liberação de intermediários de oxigênio altamente reativos, que oxidam irremediavelmente componentes celulares essenciais, causando dano tecidual e necrose.3 Além disso, o ALA não causa fotossensibilidade prolongada, mesmo com o uso sistêmico, ao contrário dos fotossensibilizantes primitivamente utilizados (porfirinas exógenas).

Vários estudos têm demonstrado a eficácia clínica da TFD com ALA 20% no tratamento de neoplasias cutâneas não melanocíticas. Wolf et al. demonstraram resposta completa com TFD em nove ceratoses actínicas, cinco de seis CECs superficiais e 36 de 37 CBCs superficiais. Em relação às doenças de Bowen, a resposta clínica variou consideravelmente, com taxas de cura a longo prazo entre 50 e 100%. A TFD demonstrou boa eficácia no tratamento de CBCs superficiais, com taxas de resposta completa variando de 79 a 100%.10,20 Apenas dois estudos demonstraram taxa de apenas 50%.19 A relação inversa entre a espessura tumoral e a resposta dos CBCs superficiais à TFD foi demostrada por Morton et al. Cairnduff et al.20 estudaram a TFD para o tratamento de CBCs superficiais, doença de Bowen e metástases cutâneas de carcinoma de mama. Entre as doenças de Bowen (36 lesões), ocorreu resposta completa em 89%, com seguimento médio de 18 meses. A resposta entre os CBCs (16 lesões) foi de 50% durante o seguimento de 17 meses. Nódulos metastáticos não obtiveram boa resposta.

Bons resultados com a TFD também foram relatados por Svanberg et al. Houve cura em 100% dos CBCs superficiais (55 lesões), 64% dos CBCs nodulares (25 lesões), 90% das lesões de doença de Bowen (10 lesões) e em dois de quatro linfomas de células T, com seguimento que variou de seis a 14 meses.23 Calzavara-Pinton et al.10 realizaram TFD em várias aplicações, em CACs, CBCs, carcinomas epidermóides, DBs e ceratoacantomas. Todas as ceratoses actínicas (50 lesões), CBCs superficiais (23), doenças de Bowen (seis) e ceratoacantomas (quatro) mostraram cura clínica total. Além disso, 91,6% dos CECs superficiais (11/12), 80% dos CBCs nodulares (24/30) e 66,7% dos CECs nodulares (quatro/seis) apresentaram resposta completa. Todos os CBCs pigmentados (quatro) foram resistentes ao tratamento. Após o seguimento por 29 meses de 63 lesões e de análise histológica de 59 áreas de lesões com cura clínica, as taxas de resposta final foram: 84% das CACs, 86,9% dos CBCs superficiais, 50% dos CBCs nodulares, 83,3% dos CECs superficiais e 33,3% dos CECs nodulares. As taxas de resposta dos ceratoacantomas e das doenças de Bowen permaneceram em 100%. A resposta das CACs à TFD é semelhante à resposta obtida com outros tratamentos tópicos, como crioterapia com nitrogênio líquido e peelings químicos. Um estudo realizado por Morton et al. comparou a eficácia da TFD com ALA aplicado topicamente com a crioterapia em 40 lesões de doença de Bowen. A cura ocorreu em 10 das 20 lesões tratadas com crioterapia e em 15 de 20 lesões tratadas com TFD, após uma aplicação. A diferença tornou-se estatisticamente significativa após correção para o tamanho da lesão. Além disso, ocorreram menos efeitos adversos com a TFD.

Fritsch et al.3 cobriram um amplo espectro de neoplasias epiteliais, com os mais diversos tamanhos e profundidades. Para o carcinoma basocelular superficial, a cura depende do tamanho e da intensidade da luz e do número de sessões. Os nodulares respondem mal e devem ser excisados. As doenças de Bowen podem ser curadas em até 70%, mas com repetidas sessões (até 10) de TFD. A melhor indicação para TFD são as ceratoses actínicas, com cura de até 100%, com duas ou três sessões. Com sessão única o índice de cura variou de 50 a 95%.

O propósito deste trabalho foi avaliar o efeito de sessão única de TFD em alguns tumores queratinocíticos superficiais, utilizando tecnologia própria, uma luz não coerente de fabricação artesanal local. Os resultados no grupo analisado foram bastante satisfatórios, com baixo índice de efeitos paralelos na avaliação a curto prazo proposta no projeto. Nas ceratoses actínicas obteve-se índice de cura clínica de 65,7%, semelhante aos resultados de Fritsch et al.3 que, entretanto, recomendam pelo menos duas sessões para obter cura completa, com resultado cosmético satisfatório. Nas doenças de Bowen, os 80% de cura obtidos com um só tratamento não devem ser motivo de euforia na resolução do tumor, pois, muito embora outros trabalhos tenham relatado resultados semelhantes, esses achados não foram confirmados em estudos subsequentes,3 pois foram observadas recidivas, mesmo com sessões repetidas. A espessura do epitélio, com redução da penetração do ALA pode ser a causa dessa resposta incompleta. A troca de laser por luz incoerente incrementou os resultados terapêuticos da TFD na doença de Bowen.10 Nos carcinomas basocelulares, a cura clínica em apenas 33,3% dos casos pode ser interpretada como em outros trabalhos, que correlacionavam a resposta ao tamanho, à profundidade do tumor e à intensidade da luz.3,19 Estudos relatam que biópsias revelaram resíduos de tecido neoplásico em derme média e profunda, cobertos por pele normal, em diversas lesões clinicamente curadas após aplicação única de TFD, podendo haver recorrência local dos tumores a longo prazo.3,10 Haller et al. avaliaram a eficácia da TFD no tratamento de 26 CBCs superficiais, utilizando duas aplicações, com intervalo de uma semana. A taxa de reposta completa após um mês de tratamento foi de 100%, ocorrendo apenas uma recidiva no seguimento de 27 meses. Nos CBCs, alguns autores recomendam que não se espere a cicatrização após a primeira aplicação para realizar as sessões subseqüentes, pois tecido cutâneo normal poderá cobrir possíveis restos do tumor em camadas mais profundas, produzindo ilhotas de tumor protegidas contra a penetração do ALA e facilitando a resistência ao tratamento.3 Baseada nestas pesquisas e em testes de Fase III do produto, recentemente, a Food and Drug Administration (FDA) americana aprovou o uso de uma solução de ALA a 20% (Levulan® Kerastick, DUSA Pharmaceuticals Inc, Wilmington, MA, EUA), com luz azul de 471nm para tratamento das ceratoses actínicas, aumentando oficialmente, dessa forma, o espectro terapêutico disponível para essas afecções.26 Embora a maioria dos estudos clínicos tenha utilizado luz vermelha ao redor de 630nm, devido ao maior poder de penetração de comprimentos de onda mais longos, considerando o fato de a excitação máxima da protoporfirina IX ser ao redor dos 410nm, há trabalhos mais recentes com luz na faixa do violeta (400-450nm), que citam ser essa 10 vezes mais eficaz do que a vermelha.27

 

CONCLUSÕES

Os resultados do presente trabalho assemelham-se, em parte, aos existentes na literatura, obtidos com aplicação única da terapêutica fotodinâmica com ácido delta-aminolevulínico em neoplasias queratinocíticas superficiais, principalmente nas ceratoses actínicas e na doença de Bowen. Os trabalhos sugerem que, além de ser terapêutica eficaz, a TFD possui algumas vantagens, como a baixa incidência de efeitos colaterais e bom resultado estético da área tratada. A TFD também representa alternativa útil no tratamento de tumores cutâneos superficiais de grande extensão ou localizados em áreas anatômicas de difícil acesso, em que métodos invasivos causariam maior destruição tecidual. Um dos limites impostos pela TFD/ALA é de ordem econômica, pois o custo operacional é bem mais elevado do que o das técnicas tradicionais mais difundidas, como a crioterapia, a curetagem e o creme de 5-fluoro-uracil, pois, além da dificuldade de obtenção do ácido delta-aminolevulínico, há o valor elevado dos aparelhos de fotoativação disponíveis no mercado. Entretanto, a introdução, no futuro, de aparelhagens menos dispendiosas, talvez semelhantes ao protótipo utilizado no presente trabalho, ou de outro tipo, em conjunto com maior facilidade de acesso ao ALA, poderá tornar esse tratamento muito mais difundido e acessível à população portadora de neoplasias não melanocíticas superficiais, principalmente quando múltiplas ou em situações de difícil resolução com terapias convencionais.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem às Dras. Simone Pessatto e Paula B. D'Elia, médicas do Curso de Especialização em Dermatologia do HCPA, que, na ocasião da pesquisa, colaboraram intensamente no tratamento e avaliação dos pacientes. O trabalho recebeu auxílio do Centro de Estudos e Pesquisas Dermatológicas de Porto Alegre (CEPEDERM), quota de pesquisa do FIPE do Hospital de Clínicas de Porto Alegre, bem como bolsas de iniciação científica do CNPq (PIBIC) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS) que, pela união dos recursos, tornaram possível a sua realização. A essas instituições nossos agradecimentos pelo apoio e pelo estímulo ao progresso da Ciência.

Suporte financeiro: O presente trabalho contou com auxílio financeiro do Fundo de Incentivo à Pesquisa (FIPE) do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e do Centro de Estudos e Pesquisas Dermatológicas de Porto Alegre (CEPEDERM) para compra de material, e com Bolsas de Iniciação Científica da Fundação de Amparo à Pesquisa do Rio Grande do Sul (FAPERGS) e do CNPq/PIBIC para auxílio aos Acadêmicos de Medicina pesquisadores.

 

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Endereço para correspondência
Renato Marchiori Bakos
Rua Nossa Senhora Aparecida, 71
Porto Alegre RS 91920-690
Tel/Fax: (51) 32667117 / 32667061
E-mail: rbakos@portoweb.com.br

Recebido em 04.03.2002.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 25.11.2002.

 

* Trabalho realizado nos Serviços de Dermatologia e de Engenharia Biomédica do Hospital de Clínicas de Porto Alegre (HCPA), da Faculdade de Medicina (FAMED), da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Porto Alegre, RS.