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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000200009 

CASO CLÍNICO

 

Larva migrans visceral: relato de caso*

 

Visceral larva migrans: case report*

 

 

Alexandre Bortoli MachadoI; Marice Emanuela El AchkarII

IMédico Dermatologista, Sócio efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, Florianópolis/SC
IIResidente de Pediatria do Hospital Infantil Joana de Gusmão

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Larva migrans visceral é doença infecciosa, adquirida por ingestão de ovos provenientes dos vermes Toxocara canis e/ou Toxocara cati que infestam cães e gatos; as larvas penetram a parede intestinal e migram através dos tecidos levando a alterações diversas, conseqüentes a uma resposta inflamatória imune.1 Os autores descrevem um caso clínico de larva migrans visceral com apresentação clínica atípica.

Palavras-chave: larva migrans visceral; Toxocara canis; Toxocara.


SUMMARY

Visceral larva migrans is an infectious human disease that occurs following ingestion of eggs from the environment originating from roundworms which commonly infect dogs and cats, Toxocara canis and Toxocara cati. The larvae penetrate the gut wall and migrate through the tissues causing disorders consequent to an inflammatory immune response1. The authors describe a clinical case of visceral larva migrans with an unusual clinical presentation and also its clinical aspects, diagnosis and treatment are reviewed.

Keywords: larva migrans visceral; Toxocara canis; Toxocara.


 

 

INTRODUÇÃO

A larva migrans visceral é doença causada por helmintos, Toxocara canis, Toxocara leonina e Toxocara cati, cujos vermes adultos vivem nos tratos intestinais de seus hospedeiros, cães e gatos, que liberam grande número de ovos nas fezes.

As infecções humanas são esporádicas e ocorrem em todo o mundo, atingindo principalmente crianças abaixo de 10 anos de idade, com pico entre um e quatro anos, que, em contato com a sujeira do solo ou areia contaminada por fezes de animais, ingerem ovos desses parasitas.2

 

RELATO DE CASO

Paciente de 25 anos, branco, do sexo masculino, advogado, natural e procedente de Florianópolis.

Paciente previamente hígido, iniciou com lesões da pele pruriginosas na região periumbilical, com progressão rápida em poucos dias. Evoluiu com comprometimento do tórax, abdômen e região deltóidea, sendo preservados membros, dobras flexurais, região anogenital, face, mucosas e anexos. Negava qualquer intercorrência prévia, bem como uso de medicações e/ou outros sinais e sintomas.

Ao exame percebiam-se diversas pápulas eritematosas, confluentes em alguns pontos, formando placas papulosas eritematosas de bordas bem delimitadas (Figuras 1, 2 e 3).

 

 

 

 

Os exames laboratoriais de sangue (glicemia, bioquímica hepática e renal, VHS e sorologias para colagenoses), parcial de urina e parasitológico de fezes (três amostras em dias alternados) mostraram-se inalterados, com exceção do hemograma e IgE. O hemograma apresentou eosinofilia relativa com 1092 eosinófilos/mm3 (12%), e os títulos de IgE 836KU/L (normal < 100). Os exames radiológicos de tórax e a ultra-sonografia abdominal não evidenciaram alterações. A histopatologia da pele demonstrou dermatite perivascular superficial com predomínio de eosinófilos, bem como espongiose com formação de vesículas contendo linfócitos e eosinófilos (Figuras 4 e 5).

 

 

 

Os diagnósticos iniciais formulados foram: dermatite de contato alérgica, penfigóide bolhoso inicial, vasculite urticariforme, angeíte alérgica de Churg-Strauss e síndrome hipereosinofílica. Tendo em vista que em nosso meio a principal etiologia de eosinofilia é a infecção parasitária intestinal com (potencial) ciclo evolutivo invasivo, procedeu-se com pesquisa sorológica, por meio de enzima imunoensaio (Elisa) para Echinococus granulosus, Trichinella spiralis, Toxocara canis e Toxocara cati. Evidenciaram-se títulos reagentes elevados para T. canis de 2,45 (positivo > 1,10) - Laboratório Balage, Espanha, caracterizando quadro de larva migrans visceral, todavia apenas com repercussões cutâneas e hematológicas.

Realizou-se tratamento sistêmico com ivermectina 12mg/dia (200mg/kg/dia) durante três dias consecutivos com melhora imediata da eosinofilia, bem como involução total das lesões cutâneas. Solicitou-se sorologia de controle 30 dias após o tratamento, que exibiu títulos reduzidos de 0,25, considerados negativo (negativo < 1,00 / borderline 1,00 - 1,10 / positivo > 1,10) - Laboratório Balage, Espanha.

 

DISCUSSÃO

Trata-se de paciente portador de larva migrans visceral, que apresentou apenas lesões cutâneas e eosinofilia como elementos clínicos auxiliares no diagnóstico.

Os casos de larva migrans visceral são ocasionados freqüentemente por Toxocara canis e Toxocara cati, por ingestão de ovos embrionados do ambiente. Tais parasitas infectam normalmente cães e gatos, respectivamente. No homem, os ovos ingeridos, ao alcançarem o intestino, originam larvas que apresentam potencial de invasão tecidual.10,11

A maioria dos portadores não apresenta sinais e sintomas de infecção. O quadro clínico (vide Quadro 1), muito variável, pode manifestar-se com tosse, febre, dor abdominal, hepatomegalia e lesões da pele. Infecções graves podem ocasionar grave comprometimento respiratório, cardiovascular e neurológico. A infecção ocular pode resultar em amaurose.6,8

As lesões cutâneas geralmente estão ausentes. Quando presentes, são inespecíficas e polimórficas, predominando lesões urticadas, papulosas e papulovesiculosas, decorrentes de hipersensibilidade aos parasitas. Tal fato evidencia-se pela ausência de larvas nas lesões e predomínio de infiltrado eosinofílico à histopatologia.3

O diagnóstico de larva migrans visceral pode ser estabelecido por sorologia.4,9 O exame histopatológico apresenta alterações inespecíficas, freqüentemente dermatite perivascular superficial com predomínio de eosinófilos. Em alguns casos, pode-se observar ainda exocitose de eosinófilos, bem como vesículas espongióticas.12

O tratamento geralmente é bem-sucedido quando do diagnóstico precoce e emprego correto das drogas anti-helmínticas. Não há consenso quanto à droga de escolha, sendo relatados albendazol e ivermectina com bons resultados terapêuticos.7

As causas de eosinofilia são muito variáveis (vide Quadro 2), destacando-se infecções parasitárias, reações a drogas e reações alérgicas. Em nosso meio, enfatiza-se o papel das infecções por helmintos, principalmente ascaridíase, estrongiloidíase, triquinose e toxocaríase. Helmintos que permanecem na luz intestinal e não invadem a mucosa causam pouca ou nenhuma eosinofilia.4,5

Critérios importantes a serem considerados para o diagnóstico de larva migrans visceral fundamentam-se em dados epidemiológicos, quadro clínico polimorfo e eosinofilia periférica. Ressalta-se, também, que grande parte dos pacientes apresenta-se previamente hígida, iniciando abruptamente o quadro, cuja evolução procede de modo variável. A sorologia ratifica o diagnóstico de larva migrans visceral, havendo entretanto necessidade, algumas vezes de iniciar-se a terapêutica de modo empírico, dada a gravidade do caso em questão, bem como os altos índices de suspeita clínica.

O caso em questão exibia apenas lesões pruriginosas predominantemente no tronco e eosinofilia. A história clínica permitiu excluir possíveis causas como reações a drogas e correlatos. A pesquisa de parasitas nas fezes mostrou-se negativa. Devido à investigação inicial improdutiva, prosseguiu-se com exames sorológicos e histopatologia das lesões. Os títulos elevados encontrados na sorologia permitiram o diagnóstico de larva migrans visceral. O diagnóstico precoce permitiu a imediata instituição terapêutica apropriada, evitando maior morbidade.

 

REFERÊNCIAS

1. Herry I. Acute life-threatening toxocaral tamponade. Chest 1997 Dec; 112(6): 1692-3.        [ Links ]

2. Tierney Jr LM, McPhee SJ, Papadakis MA. Larva Migrans Visceral (Toxocaríase). LANGE Diagnóstico e Tratamento 2001. Atheneu Editora São Paulo 2001: 1416-17.        [ Links ]

3. Wilson ME. Skin problems in the traveler. Infect Dis Clin North Am 1998 Jun; 12(2):471-88.        [ Links ]

4. Moore TA. Eosinophilia in the returning traveler. Infect Dis Clin North Am 1998 Jun; 12(2):503-21.        [ Links ]

5. Wolfe MS. Eosinophilia in the returning traveler. Med Clin North Am 1999 May; 19(2):327-346.        [ Links ]

6. Magnaval JF. Highlights of human toxocariasis. Korean J Parasitol 01 Mar 2001; 39(1):1-11.        [ Links ]

7. Arango CA. Visceral larva migrans and the hypereosinophilia syndrome. South Med J 1998 Sep; 91(9):882-3.        [ Links ]

8. Khodasevich LS. Visceral toxocariasis. Arkh Patol 1998 Jan-Feb; 60(1):54-5.        [ Links ]

9. Hanslik T. Metastasis or visceral larva migrans? Ann Med Interne 1998 Dec; 149(8):533-5.        [ Links ]

10. Velez RL. Two cases of toxocariasis (larva migrans visceral). Enferm Infecc Microbiol Clin 1996 Nov; 14(9):548-50.        [ Links ]

11. Fedorenko AN. A case of toxocariasis. Lik Sprava 1996 Oct-Dec; (10-12): 159-60.        [ Links ]

12. Barra LA. Visceral larva migrans: a mixed form of presentation in adult - The clinical and laboratory aspect. Rev Soc Bras Med Trop 1996 Jul-Aug; 29(4):373-6.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Alexandre Bortoli Machado
Alameda Governador Heriberto Hülse, 38
Florian[opolis SC 88015-170
Tel/Fax: (48) 223-2304
E-mail: abm01@uol.com.br

Recebido em 10.10.2001.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 21.05.2002.

 

 

* Trabalho realizado no Hospital de Guarnição de Florianópolis, Santa Catarina.