SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.78 issue2Visceral larva migrans: case reportSilver sulphadiazine and cerium nitrate in venous ulcers: two case reports author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000200010 

CASO CLÍNICO

 

Pitiríase rósea purpúrica: relato de caso e revisão da literatura*

 

Purpuric pityriasis rosea: case report and literature review*

 

 

Sergio Gabriel CarbiaI; Myriam ChainII; Ignacio Dei-CasII; Adrián HochmanIII; César LagodínIII; Alberto DevésIV; Alberto WoscoffV

IResidente-chefe
IIResidente
IIIDermatologista
IVDermopatologista. Divisão de Patologia
VProfessor titular consultor

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A pitiríase rósea purpúrica constitui doença rara e 10 casos foram publicados na Europa e EUA. O quadro clínico cutâneo é a forma hemorrágica ou purpúrica com variável descamação marginal. Relata-se o caso de um homem de 25 anos de idade com lesões na região escapular. A revisão da literatura enfatiza o diagnóstico diferencial das lesões purpúricas. Segundo Lilacs e Medline, não foram relatados casos na literatura latino-americana.

Palavras-chave: Exantema; pitiríase; pitiríase rósea .


SUMMARY

Purpuric pityriasis rosea is an unusual disease with ten published cases in the American and European literature. The main feature is an hemorrhagic or purpuric eruption with or without scaling. A case is reported of a 25-year-old man with skin lesions affecting the scapular region. The review emphasizes the differential diagnosis of purpuric cutaneous diseases. According to LILACS and MEDLINE, no similar case has been reported in the Latin-American literature.

Keywords: Exanthema; pityriasis; pityriasis rosea.


 

 

INTRODUÇÃO

A pitiríase rósea (PR) é dermatose aguda e inflamatória de origem desconhecida.1 Casos atípicos são comuns e colocam à prova a experiência e a perspicácia clínica do médico. Entre as variantes clínicas, as lesões purpúricas raramente têm sido descritas.2,3,4 Relata-se o caso de um homem de 25 anos de idade, que apresenta PR purpúrica sem herald patch.

 

RELATO DE CASO

Duas semanas antes da consulta, um homem branco percebeu algumas manchas assintomáticas em seu dorso. Em seu histórico não constavam outras lesões ou sintomas de pele. Ele não tinha tomado medicações.

O exame físico revelou erupções de máculas purpúricas múltiplas e simétricas sem escamação na região escapular. Eram caracterizadas por lesões ovais, com diâmetro variável de 0,5 a 1cm e eixo orientado ao longo das linhas de clivagem (Figuras 1 e 2). Não foram encontradas lesões na boca.

 

 

 

A contagem completa das células do sangue com plaquetas, a taxa da sedimentação, o tempo de protrombina (Quick), o tempo de tromboplastina parcial (KPTT) e a análise da urina apresentaram resultados normais. Venereal Diseases Research Laboratories - laboratoriais de pesquisa de doenças venéreas - (VDRL) e os títulos dos anticorpos estreptocócicos (Asto) não foram notáveis. Outras análises de rotina, como função renal ou hepática, também foram normais.

No exame histopatológico, a lesão purpúrica revelou dermatite subaguda, com espongiose focal, infiltração celular perivascular mononuclear com extravasamento de eritrócitos na derme papilar e dilatação dos capilares. Não havia evidência de células disceratóticas na epiderme. Não foram encontrados eosinófilos e vasculites. (Figura 3)

Foi feito diagnóstico de PR purpúrica.

Nenhum tratamento farmacológico foi indicado, e sua erupção clareou no período de seis semanas a partir do início da ocorrência.

 

DISCUSSÃO

A pitiríase rósea (PR) começa muitas vezes com uma placa primária escapular (herald patch) seguida de erupção papuloescamosa secundária, com distribuição característica no tronco e nas extremidades ao longo das duas próximas semanas. Trata-se de um caso clássico, e a comprovação histológica é raramente necessária. Contudo, os casos atípicos de PR chegam a cerca de 20%. As lesões primárias podem ser duplas, múltiplas ou ausentes (como no caso aqui apresentado).1,5 A PR atípica pode representar diferentes variações clínicas (Tabela 1).1,5,6 A PR2 purpúrica ou hemorrágica é uma forma atípica, acometendo especialmente as crianças.2,7 É caracterizada por máculas múltiplas, pequenas e purpúricas ou hemorrágicas com ou sem escamação periférica.1

 

 

A patogênese de PR não é conhecida.1,6 As infecções causadas por estreptococos, espiroquetas, fungos e vírus têm sido implicadas em muitos estudos.1,5,6 A principal evidência sugere uma etiologia viral. O vírus herpes humano tipo 6 e 7 (VHH-6; VHH-7), o parvovírus B19 e o picornavírus foram propostos como agentes causais. Mas, apesar de os estudos ultra-estruturais terem demonstrado algumas partículas de vírus-símile na lesão primária,9 outros exames não conseguiram isolar o agente viral.8,10,11 Recentemente, a principal etiologia sugerida por Drago e colaboradores12 foi VHH-7. Contudo, esses achados não puderam ser reproduzidos nas lesões da pele, tampouco no sangue periférico.8,13 As razões para a divergência não são claras.

A histopatologia da PR purpúrica é caracterizada pelo extravasamento de eritrócitos para dentro da derme papilar sem evidência de vasculite. Outros aspectos de PR típica, como paraceratose focal, espongiose e infiltrado linfócito perivascular superficial, podem estar presentes.2,5

O diagnóstico diferencial principal inclui doenças purpúricas, como vasculite, dermatoses purpúricas pigmentadas e manifestações cutâneas de doenças hematológicas (Tabela 2).1,4,5,6,14,15 As dermatoses purpúricas pigmentadas podem ser distinguidas porque a PR purpúrica é caracterizada pela ausência de múltiplas máculas minúsculas vermelhas ou arroxeadas que se assemelham a manchas de pimenta cayenne.6,14 Análise bioquímica normal (especialmente hemograma com contagem de plaquetas e estudos de coagulação) descartou doenças hematológicas, como linfomas, policitemia e purpúra trombocitopênica. As doenças mais importantes que podem imitar uma erupção secundária de PR atípica são a sífilis e as erupções PR-símile induzidas por drogas.1,5 Por isso o teste sorológico para sífilis e uma interrogação completa sobre reações às drogas (em particular barbitúricos, captopril, clonidine, isotretinoína, metronidazola, ouro e penicilamina) devem ser feitos em todos os casos atípicos.5,15 A biópsia da pele é necessária, visto que as vasculites, o sarcoma de Kaposi, micoses fungóides purpúricas, psoriasis guttata e líquen plano podem imitar essa doença. A pitiríase liquenóide crônica pode ser associada com uma erupção em "padrão tipo árvore de Natal", mas as lesões típicas são distintas (pápulas eritematosas múltiplas com uma escada micácea facilmente destacada por curetagem).1

A resolução espontânea da PR purpúrica em período que varia de quatro a seis semanas é a regra, sem alteração no prognóstico.2 Hartman foi o primeiro a descrever essa variante rara de PR,16 e desde então apenas 10 casos foram relatados na literatura americana e européia, segundo Pierson.2,3,4,16,17 A pesquisa bibliográfica foi efetuada em Lilacs e Medline (1968-2001), e não se encontrou nenhum caso na literatura latino-americana.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem as úteis orientações oferecidas pelas Dras. Julieta Ruiz Beguerie e Veronica Malah.

 

REFERÊNCIAS

1. Björnberg A. Pitiriasis rosada. In: Fitzpatrick TB, Eisen AZ, Wolff K, Freedberg IM, Austen KF, eds. Dermatología en medicina general. Buenos Aires: Panamericana, 1997:1171-8.        [ Links ]

2.Vervov J. Purpuric pityriasis rosea. Dermatologica 1980;160:420:142-5.        [ Links ]

3. Paller AS, Esterly NB, Lucky AW, et al. Hemorrhagic pityriasis rosea: an unusual variant. Pediatrics 1982;70:357-9.        [ Links ]

4. Pierson JC, Dijkstra JW, Elston DM. Purpuric pityriasis rosea. J Am Acad Dermatol 1993;28:1021.        [ Links ]

5. Gonzalez E. Pityriasis rosea. In: Arndt KA, LeBoit PE, Robinson JK, Wintroub BU, eds. Cutaneous medicine and surgery. Philadelphia: WB Saunders:, 1996; 218-21.        [ Links ]

6. de Souza Filho JJ, Filho RMA, Duarte F, Miot HA. Pitiríase rósea: uma revisão. An Bras Dermatol 1998; 73: 245-50.        [ Links ]

7. Bari M, Cohen BA. Purpuric vesicular eruption in a 7-year-old girl: vesicular pityriasis rosea. Arch Dermatol 1990;126:1497,1500.        [ Links ]

8. Kempf W, Adams V, Kleinhans M, et al. Pityriasis rosea is not associated with human herpesvirus 7. Arch Dermatol 1999;135:1070-2.        [ Links ]

9. Aoshima T, Komura J, Ofuji S. Virus-like particles in the herald patch of pityriasis rosea (letter). Dermatologica 1981;162:64-5.        [ Links ]

10. Marcus-Farber BS, Bergman R, Ben Porath E, Zaltzman N, Friedman Birnbaum R. Serum antibodies to parvovirus B19 in patients with pityriasis rosea. Dermatology 1997;194:371.        [ Links ]

11. Aractingi S, Morinet F, Mokni M, et al. Absence of picornavirus genome in pityriasis rosea. Arch Dermatol Res 1996;289:60-1.        [ Links ]

12. Drago F, Ranieri E, Malaguti F, Losi E, Rebora A. Human herpesvirus 7 in patients with pityriasis rosea. Dermatology 1997;195:374-8.        [ Links ]

13. Yasukawa M, Sada E, Machino H, Fujita S. Reactivation of human herpesvirus 6 in pityriasis rosea (letter). Br J Dermatol 1999;140:169-70.        [ Links ]

14. Bowers KE. Pigmented purpuric dermatoses. In: Arndt KA, LeBoit PE, Robinson JK, Wintroub BU, eds. Cutaneous medicine and surgery. Philadelphia: WB Saunders, 1996;291-4.        [ Links ]

15. Parsons JM. Pityriasis rosea update: 1986. J Am Acad Dermatol 1986;15:159-67.        [ Links ]

16. Hartman MS. Pityriasis rosea. Arch Dermatol 1944;50:201.        [ Links ]

17. Bunch LW, Tilley JC. Pityriasis rosea. A histologic and serologic study. Arch Dermatol 1961;84:79-86.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Sergio Gabriel Carbia
Aráoz 1083 2ºA
Buenos Aires (1414) Argentina
Tel/Fax: (541) 4777-6537
E-mail: scarbia@intramed.net.ar

Recebido em 03.01.2001.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 14.08.2002.

 

 

* Trabalho realizado na Cátedra de Dermatologia. Hospital de Clínicas José de San Martín. Escola de medicina. Universidade de Buenos Aires, Buenos Aires, Argentina.