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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.3 Rio de Janeiro May/June 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000300004 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Freqüência de dermatoses infecciosas em 208 pacientes transplantados renais*

 

Frequency of infectious dermatosis in 208 renal transplant recipients*

 

 

Gérson VettoratoI; André Vicente Esteves de CarvalhoII; Sérgio Martinez LecompteIII; Elisa Gobbato TrezIV; Valter Duro GarciaV; Elizete KeitelVI

IMédico Dermatologista responsável pelo Setor de Micologia do Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil
IIMédico Dermatologista. Ex-residente do Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil
IIIResidente do Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil
IVResidente do Serviço de Dermatologia da UFRGS. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil
VMédico Nefrologista. Chefe do Serviço de Transplante Renal. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil
VIMédica Nefrologista. Serviço de Transplante Renal. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Nos pacientes transplantados renais, a imunossupressão crônica acarreta maior suscetibilidade às dermatoses infecciosas.
OBJETIVOS: avaliar a freqüência de dermatoses infecciosas em 208 pacientes transplantados renais no período de 12 meses e verificar a relação entre sua ocorrência e o período de tempo transcorrido desde o transplante.
MÉTODO: 208 transplantados renais de uma população de 720 pacientes foram submetidos a exame dermatológico no período de um ano, tendo sido realizados exames anatomopatológico micológico, bacteriológico e/ou cultural das lesões suspeitas.
RESULTADOS: a freqüência de dermatoses infecciosas nessa população foi de 89,4%. As infecções fúngicas, virais, bacterianas e parasitárias mais freqüentes foram pitiríase versicolor (17,8%), verruga vulgar (32,2%), foliculite (4,3%) e escabiose (3,8%).
CONCLUSÃO: as dermatoses infecciosas são freqüentes nos pacientes transplantados renais, e sua ocorrência aumenta progressivamente conforme o tempo transcorrido a partir do transplante, sendo importante o acompanhamento dermatológico desses pacientes.

Palavras-chave: dermatopatias infecciosas; imunossupressão; transplante de rim.


SUMMARY

BACKGROUND: Chronic immunosuppressive therapy predisposes renal transplant recipients to a heightened susceptibility to infectious dermatoses.
OBJECTIVES: evaluate the frequency of infectious dermatoses in 208 renal transplant recipients over a 12-month period and verify the relation between the onset of dermatoses and the time elapsed since transplantation.
METHOD: 208 renal transplant recipients, taken from a population of 720 transplant recipients, received a dermatological examination for a year. Dermatopathological examination, mycological examination, bacteriologic examination, and cultures were taken from suspected lesions.
RESULTS: the prevalence of infectious dermatosis was 89.4% in this population. The more frequent fungal, viral and bacterial infections were respectively pitiyriasis versicolor (17.8%), warts (32.2%), and folliculitis (4.3%).
CONCLUSION: infectious dermatoses are common in renal transplant recipients. Their occurrence is progressively higher as time passes after the transplantation, therefore making the frequent dermatological examination of these recipients very important.

Keywords: skin diseases, infectious; immunosuppression; kidney transplantation.


 

 

INTRODUÇÃO

A imunossupressão prolongada tem aumentado a sobrevida dos pacientes transplantados renais. Em decorrência dessa imunossupressão crônica que influencia os mecanismos de defesa imune do paciente, levando à diminuição da imunidade celular, há aumento da suscetibilidade a diversas dermatoses infecciosas.1

O objetivo do presente estudo é analisar a freqüência de dermatoses fúngicas, virais, parasitarias e bacterianas em um grupo de 208 pacientes transplantados renais em terapia imunossupressiva.

 

MATERIAL E MÉTODOS

De abril de 2000 a abril de 2001, 208 pacientes transplantados renais de um universo de 720 pacientes foram avaliados no Serviço de Dermatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Complexo Hospitalar Santa Casa, o que determina erro amostral de 5,7% com grau de confiabilidade de 95%. Dos 208 pacientes, 117 (56,5%) eram do sexo masculino, e 90 (43,5%), do sexo feminino, com idade entre oito e 79 anos. O período de tempo decorrido desde o transplante variava entre 30 dias e 25 anos. Nessa população, 10 protocolos diferentes de terapia imunossupressora estavam sendo utilizados, prescritos conforme as condições clínicas do paciente, histocompatibilidade, tipo de doador (cadáver ou vivo) e época em que ocorreu o transplante.

Foram realizados anamnese e exame dermatológico de todos os pacientes e solicitados exames anatomopatológicos e laboratoriais quando havia suspeita clínica de dermatoses infecciosas. De acordo com o tipo de lesão, o paciente era encaminhado para um ou mais dos seguintes exames: biópsia cutânea, exame bacteriológico (gram e cultura de secreções), exame micológico direto e cultura, e pesquisa de ácaros.

Verificou-se a freqüência de dermatoses infecciosas fúngicas, virais, parasitárias e bacterianas nos 208 pacientes, bem como a relação entre a ocorrência de tais dermatoses e o tempo transcorrido desde o transplante, dividindo-se, nesse sentido, os pacientes em três grupos: grupo 1 (menos de um ano), grupo 2 (de um a cinco anos), grupo 3 (mais de cinco anos). Esses dados foram analisados utilizando o programa EPIINFO 2000 versão 1.0, sendo os resultados apresentados a partir da freqüência em que ocorreram essas dermatoses infecciosas.

 

RESULTADOS

As infecções fúngicas superficiais foram as mais freqüentes, perfazendo 40,9% de todas as dermatoses infecciosas. A pitiríase versicolor foi encontrada em 37 pacientes (17,8%), apresentando-se geralmente de forma disseminada, com grande número de lesões. As dermatofitoses ocorreram em 15 pacientes (7,3 %) nas seguintes formas clínicas: Tinea corporis em sete pacientes (3,4%), Tinea pedis em cinco (2,4%), Tinea cruris em dois (1%), e Tinea manuum em um (0,5%). Foram observados oito casos de candidíase cutânea (3,8%), e um paciente (0,5%) apresentou feo-hifomicose.

Os agentes mais freqüentes das onicomicoses foram os fungos contaminantes (Aspergillus spp e Fusarium spp), em 10 pacientes (4,8%), seguidos pelas onicomicoses por dermatófitos e cândida.

Nas infecções virais, as causadas por HPV foram observadas em 72 pacientes (34,6%), sendo a verruga vulgar a mais freqüente, encontrada em 67 pacientes (32,2%), e o condiloma acuminado, verificado em apenas cinco pacientes (2,4%). Observaram-se lesões de molusco contagioso, herpes simples e herpes-zóster em dois (1%), quatro (1,9%) e dois (1%) pacientes, respectivamente.

Ocorreram lesões bacterianas em 11 pacientes (5,3%), e em um, micobacteriose atípica (0,5%), cujo agente não foi possível identificar.

Foi diagnosticada infestação parasitária por Sarcoptes scabiei em oito pacientes (3,8%) (Tabela 1). Comparando os três grupos, de acordo com o tempo decorrido desde o transplante, verificou-se que a freqüência da maioria das dermatoses é maior após o primeiro ano de transplante (Tabela 2).

 

DISCUSSÃO

Nos pacientes transplantados, as infecções cutâneas são de extrema importância, pois podem indicar a presença de doenças infecciosas sistêmicas.2,3

Vários fatores contribuem para a elevada freqüência de infecções fúngicas superficiais nesses pacientes. O risco de infecção depende de fatores como critérios diagnósticos, exposição aos fungos potencialmente patogênicos, diferenças geográficas, socioeconômicas, condições de higiene, além do tempo de uso de imunossupressores.1 Destes últimos, particularmente os corticóides causam espessamento e prolongam o tempo de eliminação da camada córnea, o que também pode favorecer as infecções e sua cronicidade.4

As infecções superficiais mais freqüentes são de origem fúngica (41,4%), seguidas pelas virais (38,5%) e bacterianas (5,8%).

Nas dermatomicoses superficiais, a mais freqüente - pitiríase versicolor - ocorreu em maior número após o primeiro ano de transplante (83,8%), o que também foi observado no estudo de Virgilli et al., em 69,8% dos casos.1

As infecções virais ocorrem quase exclusivamente por herpesvírus nos primeiros anos após o transplante enquanto as verrugas são de aparecimento tardio.5,6 Observaram-se verrugas vulgares em 32,2% da população estudada, percentagem semelhante à encontrada por outros autores,2 embora a freqüência de verrugas em pacientes transplantados renais apresente variação significativa, mais precisamente, de 20 a 70%.7 Encontrou-se ocorrência relativamente pequena de verrugas nos primeiros 12 meses após o transplante (7,5%), em comparação à freqüência observada após cinco anos de transplante (52,2%).

Nas onicomicoses, foi observada maior ocorrência de fungos em geral considerados contaminantes, como Aspergillus spp e Fusarium spp, diferindo de relatos na literatura, que aponta o T rubrum8 e o T mentagrophytes1 como os agentes envolvidos mais freqüentes.

Infecções bacterianas simples são relativamente comuns nos primeiros anos após o transplante, sendo a foliculite mais rotineiramente encontrada nesse grupo de pacientes.

A escabiose é a parasitose cutânea mais freqüente, sendo característica a dificuldade em obter resposta terapêutica com as medicações antiparasitárias usualmente prescritas.

Com base na experiência de seguimento de 208 pacientes transplantados durante um ano, os autores sugerem que seja realizado acompanhamento dermatológico desses pacientes, uma vez que as dermatoses infecciosas são muito comuns e sua freqüência aumenta consideravelmente após o primeiro ano de transplante (Tabela 3).

 

REFERÊNCIAS

1. Virgili A, Zampino MR, La Malfa V, Strumia R, Bedani PL. Prevalence of superficial dermatomycoses in 73 renal transplant recipients. Dermatology 1999;199:31-34.        [ Links ]

2. Barba A, Tessari G, Boschiero L, Chieragato GC. Renal transplantation and skin diseases: review of the literature and results of a 5-year follow-up of 285 patients. Nephron 1996;73:131-136.        [ Links ]

3. Abel E. Cutaneous manifestations of immunosuppression in organ transplant recipients. J Am Acad Detmatol 1989;21:167-79.        [ Links ]

4. Selvi SG. Kamalam A, Ajithados K, Janaki C, Thambiah AS. Clinical and mycological features of dermatophytosis in renal transplant recipients. Mycoses 1999;42: 75-78.        [ Links ]

5. Bencini PL, Montagnino G, De Vecchi A, et al. Cutaneous manifestations in renal transplant recipients. Nephron 1983;34:79-83.        [ Links ]

6. Lugo-Janer G, Sánchez JL, Santiago-Delpin E. Prevalence and clinical spectrum of skin diseases in kidney transplant recipients. J Am Acad Dermatol 1991;24:410-4.        [ Links ]

7. Barba A, Tessari G, Talamini G, Chieragato GC. Analysis of risk factors for cutaneous warts in renal transplant recipients. Nephron 1997;77:422-426.        [ Links ]

8. Aly R. Ecology and epidemiology of dermatophyte infections. J Am Acad Dermatol 1994;31:S21-S25.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
André Vicente Esteves de Carvalho
Av. Guaíba, 4680 casa 07 Vila Assunção
Porto Alegre RS 91900-420
Tel/Fax: (51) 3286-5150
E-mail: avec@plugin.com.br align

Recebido em 02.01.2002.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 14.08.2002..

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia da UFRGS e Serviço de Transplante Renal. Complexo Hospitalar Santa Casa. Porto Alegre - RS, Brasil.