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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000500001 

EDITORIAL

 

A Essência da Ciência

 

 

Sir Robert Boyle era um químico notável. De mente extremamente arguta e organizada, desenvolveu pesquisas pioneiras na área da química orgânica, disciplina ainda incipiente naquele longínquo ano de 1662. A cidade de Londres florescia com os recursos oriundos das colônias além-mar e da mentalidade progressista que permeava a sociedade britânica de então. Sir Boyle havia sido convidado pela monarquia inglesa para fundar e presidir a Royal Society of London, a primeira e mais antiga sociedade científica nos moldes modernos.

Cientistas de toda a Europa freqüentavam as reuniões que se revezavam entre Londres e Oxford, contando com a presença de cientistas do porte de Isaac Newton, Darwin e Huxley, entre tantos outros. A monarquia inglesa finalmente reconheceu que dessas reuniões emergia a semente de uma nova visão do mundo, capaz de modificá-lo por completo. Aqueles homens escolheram como lema da nova sociedade científica a expressão latina Nullius in verba, que pode ser traduzida e adaptada por algo como "apenas os fatos interessam", demonstrando sua intenção em deixar de considerar explicações não apoiadas na evidência científica e em hipóteses plenamente passíveis de serem testadas.

Somos os herdeiros diretos desses homens tão notáveis que, há 350 anos, lançaram as fundações de nossa sociedade moderna. O empirismo foi ferido de morte na tarde em que Sir Boyle proferiu seu famoso discurso de criação da Royal Society of London; foi também a data em que começamos a nos libertar de séculos e séculos de obscurantismo, crenças e superstições. A Ciência passou a acreditar no que era possível mensurar, testar ou observar e reproduzir. Essa nova postura de modo algum restringiu a criatividade científica ou inviabilizou o surgimento de novas disciplinas puramente teóricas como a física quântica e a psiquiatria, por exemplo. Muito pelo contrário, forneceu a grandes pensadores do futuro, como Einstein e Max Planck, o ambiente científico ideal para que suas idéias pudessem ser testadas e analisadas por uma ampla e multidisciplinar comunidade científica.

Uma revista científica é a materialização desse ideal Iluminista, abrindo espaço para o relato de estudos de investigação, em que novas concepções podem ser testadas e mensuradas. Há espaço também para os relatos de casos clínicos, que permitem a troca de informações técnicas entre especialistas, e a seção de cartas ao editor, que promove o amplo debate e a troca de opiniões entre toda a comunidade científica. Os artigos devem ter rígido embasamento científico, citar a bibliografia pertinente previamente consultada e seguir moldes predefinidos, que evitem conclusões de duplo sentido ou duvidosas. Não são normas restritas demais, no entanto, que impeçam o livre-pensar e a emissão de novas opiniões e experiências. Todo esse material é cuidadosamente avaliado por pareceristas, cujas opiniões e sugestões poderão ou não ser incorporadas ao texto final. Os editores exercem a função de coordenação de todo esse intrincado processo, zelando para que haja um equilíbrio final entre as diversas partes envolvidas.

Cada exemplar de sua revista traz, portanto, muito mais do que textos impressos em papel, fotografias de qualidade e tabelas explicativas. Traz também um pouco da herança que Sir Boyle nos deixou, a noção de que o trabalho científico árduo, honesto e bem conduzido pode modificar nossos destinos. Podemos assim entender melhor por que Sir Boyle estava tão esperançoso naquela tarde, tantos séculos atrás. Afinal, a verdadeira aventura humana acabara de começar!

 

REFERÊNCIAS

1. Hunter M. How Boyle became a scientist, History of Science 1995; 33: 59-103.

2. Burns DT. Robert Boyle (1627-1691): A Foundation Stone of Analytical Chemistry in the British Isles. Literary Style, Specific Contributions to the Principles and Practice of Analytical Chemical Science. Anal Proc 1982, 19: 288-95.

3. Lupi O. Prefácio. In: Ferreira CMM, Barcaui C, Maceira J, eds. Dermatoscopia. Ed Atheneu, Rio de Janeiro, 2003.

 

Omar Lupi
Editor Associado