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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000500012 

COMUNICAÇÃO

 

Nascimento da Dermatologia*

 

Birth of Dermatology*

 

 

Rubem David Azulay

Professor Emérito da UFRJ e da UFF. Professor Titular da Fundação Técnico-Educacional Souza Marques e da Universidade Gama Filho. Chefe do Instituto de Dermatologia do Hospital da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro

Endereço para correspondência

 

 

Sabe-se que, desde Hipócrates (430-37 antes de Cristo), já se fazia referência às doenças da pele. Entretanto, a criação da verdadeira dermatologia iniciou-se no final do século XVIII; melhorou no século XIX e finalmente chegou a estádio superior no século XX. Três países - França, Inglaterra e Áustria - foram o berço da Dermatologia. O primeiro livro sobre Dermatologia, Doctrina de Morbis cutaneis, deve-se a Plenck, publicado em 1776 na Áustria. Os franceses desconheciam essa obra e julgaram, durante muito tempo, que o primeiro livro seria o Tractatus de Morbis Cutaneis, 1777, de Anne-Charles Lorry. Trata-se de um verdadeiro tratado, com 640 páginas, que visava simplificar o problema de modo a permitir que jovens médicos conhecessem, de maneira mais exata, as doenças dermatológicas. Lorry dividiu seu livro em duas partes: na primeira estudou anatomia, fisiologia e patologia da pele, e, além disso, procurou investigar a etiologia das doenças cutâneas, negando a etiologia humoral e chamando atenção para as causas externas, cáusticas e parasitárias; é ainda nesse capítulo que ressalta seis tipos de manifestações cutâneas: pústulas simples, pústulas contendo um humor estranho, úlceras, tumores, manchas e escamas; acrescenta ainda, de acordo com Hipócrates, que as doenças da pele podem ter "crises felizes ou maléficas", purificando o organismo e que, conseqüentemente, não deveriam ser tratadas. No segundo capítulo do livro distingue dois tipos de dermatoses: as que são internas e vêm, posteriormente, localizar-se na pele e as que nascem na própria pele; estuda ainda os efeitos tóxicos, os tumores e doenças do couro cabeludo, ou seja, as alopecias, as doenças próprias da face (seborréia e cuperose) e as das extremidades (gangrena dos pés).

Nessa época, o grande médico árabe Avicena descreve a rubéola e a varíola. Lorry foi discípulo de Astruc, outro pioneiro. Lorry, ainda em seu livro, relembra trabalhos anteriores de outros autores:

A carta de Bonomo a Redi (1687) que responsabiliza um inseto como causa da sarna;

O Nosodochium Cutis, de Haffeureffer, publicado em 1630, que faz estudo interessante classificando as dermatoses e discutindo sua etiologia;

J. Riolan, em seu trabalho publicado em 1610, estuda as doenças da pele em 30 páginas e identifica quatro tipos de lesões: as deformações, os tubérculos, os tumores e as ulcerações;

T. Willis, em 1676, descreve separadamente as lesões vegetantes e as planas; cria ainda um capítulo sobre patologia geral;

Marcello Malpighi, em 1687, estuda pela primeira vez a estrutura da pele;

B. Ramazzini, em 1700, publica De Morbis Artificium Diatriba, no qual, pela primeira vez, descreve as dermatoses profissionais.

Vinte e um anos após a obra de Lorry, surge a Dermatologia em Londres, com Robert Willan, que desenvolve um importante trabalho sobre as doenças da pele e as classifica segundo as "lesões elementares", termo esse criado por seu discípulo Thomas Bateman.

É interessante referir que Willan se dedicava à saúde pública e à profilaxia das doenças infecciosas, sobretudo das relacionadas à pele e ressalta a varíola. Segundo Willan, em Londres, um terço das crianças morria antes dos dois anos de idade. Vale a pena fazer referência a sua frase: "Em Londres, muitas mulheres lavam apenas as mãos e o rosto e negligenciam a lavagem do corpo durante anos". Propôs um plano, pela primeira vez no mundo, para a criação de hospitais destinados aos portadores de doenças infecciosas.

Seu trabalho, importante do ponto de vista dermatológico, foi publicado em 1798 e mais tarde em 1808. Trata-se do livro On cutaneous diseases, em que descreveu 119 doenças da pele, entre as quais a psoríase, a ictiose vulgar e o eritema nodoso, desconhecidas até então. É interessante ressaltar que, pela primeira vez, usou iconografia em cores. Willan morreu de tuberculose aos 55 anos de idade.

Seu discípulo Bateman continuou, com êxito, seu trabalho. Publicou dois livros sobre Dermatologia; descreveu o molusco contagioso, a urticária, a sicose da barba e o eczema.

Outro inglês, Daniel Turner (1667-1741), também foi um dos pioneiros em Dermatologia e, além disso, introduziu a nomenclatura greco-latina para designar as dermatoses.

Merece ser citado o francês Jean-Louis Alibert, que trabalhou no Hospital Saint-Louis. Alibert, que era barão, expõe sua classificação baseada em raízes gregas, conforme o modelo botânico de Bernard de Junieu, que levou à instituição da "Árvore das Dermatoses". Um discípulo de Alibert foi a Londres e voltou com idéias contrárias às de seu mestre, baseando-se nas idéias de Willan. Criou-se um cisma entre "alibertistas e willanistas". Seguindo a mesma linha de Alibert, seus discípulos incluem elementos etiológicos e histoprognósticos (Cazenave e Schedel) e o estudo estrutural das lesões (Rayer). Alibert foi considerado, por muitos, o verdadeiro fundador da Dermatologia francesa.

Em Londres, surge ainda o dermatologista Erasmus Wilson, que realiza uma nova classificação baseada em aspectos morfológicos, anatomopatológicos e etiológicos (metade do século XIX). Outro que merece especial atenção é Jonathan Hutchinson por suas interessantes obervações sobre a sífilis congênita. Na França, Ricord funda a Venereologia francesa, e Léon Bassereau descreve o cancro mole. Ainda na França, Jean Alfred Fournier tornou-se profundo conhecedor, mundialmente, aliás, da sifiligrafia; foi o primeiro titular da disciplina clínica das Doenças Cutâneas e Sifilíticas da Faculdade de Medicina de Paris, criada por ele, em 1879.

Na metade do século XIX surge, em Viena, o extraordinário Ferdinando Hebra, que que fundou a melhor escola de Dermatologia do mundo daquela época, mantendo-se durante 50 anos, durante os quais despertou a atenção de colegas de várias partes do mundo que lá estagiaram. Até o já famoso Louis A. Duhring, fundador da Dermatologia americana, foi à Viena melhorar seus conhecimentos dermatológicos. Hebra formou alunos de elevada categoria: Heinrich Auspitz, Isidor Neuman e Moritz Kohn, que, após casar com a filha de Hebra e para evitar ações anti-semitas, mudou seu sobrenome judeu para Kaposi (nome de um rio da Hungria, de onde ele procedia).

É interessante ressaltar descobertas etiológicas daquela época: o agente da sarna (Simon-François Renusci), o agente do impetigo (Radcliffe Crocker) e o da gonorréia (Albert Nusier), e o cogumelo da tinha favosa (David Grubi).

Os dados acima foram extraídos do livro intitulado La naissance de la Dermatologie (1776-1880), de autoria de Gerard Tilles.

 

 

Endereço para correspondência
Rubem David Azulay
Av. Atlântica, 3130 - Apto. 701 - Copacabana
Rio de Janeiro RJ 22070-000
Tel.: (21) 2522-1598

Recebido em 17.12.2002
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 19.12.2002