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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.78 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2003

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962003000600007 

CASO CLÍNICO

 

Alopecia cicatricial da sarcoidose*

 

 

Giane Pereira Giro TeixeiraI; Luciana Vieira de PaulaI; Maria Auxiliadora Jeunon de SousaII; Isabel Cristina Brasil SucciIII

IEspecialistas em Dermatologia
IIResponsável pelo Setor de Dermatopatologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto - UERJ
IIICoordenadora do Curso de Pós-Graduação em Dermatologia; Chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto - UERJ

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores apresentam um caso de alopecia cicatricial associada a lesões papulosas na face e no tronco, com quatro anos de evolução. O diagnóstico de sarcoidose foi confirmado pelo exame histopatológico. Durante o seguimento, a paciente desenvolveu lesões pulmonares. A alopecia cicatricial é complicação rara da sarcoidose e se confunde, clinicamente, com outras dermatoses, entre elas o lúpus eritematoso discóide e o líquen plano pilar.

Palavras-chave: alopecia; sarcoidose.


 

 

INTRODUÇÃO

A sarcoidose é doença multissistêmica, granulomatosa, de etiologia e patogênese desconhecidas. Pode afetar qualquer órgão e envolve a pele em 25% dos casos.1 O couro cabeludo é raramente acometido,2 e as lesões podem ser inicialmente nodulares ou papulosas, coalescendo e formando placas que deixam área de alopecia cicatricial. A suspeita diagnóstica pode ser facilitada na presença de outras lesões cutâneas e/ou sistêmicas de sarcoidose.

 

RELATO DE CASO

Paciente com 42 anos, do sexo feminino, negra, casada, comerciária, natural de Minas Gerais. Refere surgimento, há quatro anos, de lesão eritêmato-escamosa, pruriginosa, no vértice do couro cabeludo, associada a lesões eritêmato-papulosas na face e no tronco, assintomáticas. Há um ano e seis meses, a lesão do couro cabeludo evoluiu para alopecia e apareceram novas lesões cutâneas, quando procurou o Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto.

Ao exame dermatológico, apresentava placa de bordas eritêmato-escamosas e centro atrófico, com raros pêlos. (Figura 1) Na face, região anterior do tórax e dorso havia lesões eritêmato-papulosas, algumas confluindo em configuração anular. (Figura 2) O exame clínico estava normal.

 

 

 

 

Exames laboratoriais: hemograma sem alterações, dosagem de cálcio sérico (10,1mg/dl) e urinário (83,52mg/24 horas) normais, FAN negativo, PPD não reator. Radiografia de tórax e das mãos, espirometria e exame oftalmológico não apresentaram alterações; e a dosagem da enzima conversora da angiotensina estava normal (2,3ng/dl).

No exame histopatológico da lesão cutânea e do couro cabeludo, os autores observaram, na derme, numerosos granulomas epitelióides com pobreza linfocitária. (Figuras 3, 4 e 5) Na coloração pela orceína (couro cabeludo), notaram ausência de fibras elásticas nas áreas em que se encontravam os granulomas. A imunofluorescência direta da lesão foi negativa.

 

 

Foi instituído o tratamento com prednisona 40mg/dia por um mês, seguido de esquema para retirada do corticóide no mês seguinte e infiltração de triamcinolona na lesão do couro cabeludo. Houve regressão das lesões cutâneas e melhora da descamação nas bordas da placa de alopecia, mas sem repilação.

Há um ano apresentou queixa de dispnéia e foi encaminhada ao Serviço de Pneumologia. No Rx de tórax observou-se um infiltrado nodular difuso, e a tomografia computadorizada de tórax mostrou infiltrado reticulonodular predominantemente periférico. Presença de linfocitose no lavado bronco-alveolar, com BAAR negativo em três amostras de escarro; e distúrbio ventilatório restritivo acentuado na prova de função respiratória. Foi instituída prednisona 80mg/dia por três meses. Está há cinco meses em uso de prednisona 20mg/dia, com melhora da dispnéia e tomografia computadorizada de tórax normal.

 

DISCUSSÃO

A sarcoidose cutânea pode ocorrer sem doença sistêmica associada.3 Em adição às formas clássicas descritas, uma ampla variedade de apresentações incomuns pode ser encontrada. Uma dessas formas é a alopécica, que se confunde clinicamente com outras dermatoses como o lúpus eritematoso discóide, o líquen plano pilar e a foliculite decalvante.4

A alopecia da sarcoidose representa uma alopecia cicatricial verdadeira,4 com ausência de fibras elásticas ao exame histopatológico. Existem apenas 28 casos publicados na literatura de língua inglesa, a maioria em mulheres negras com evidência de comprometimento intratorácico.3,5,6,9,10 Além das placas de alopecia, o envolvimento cutâneo é geralmente visto em outros locais. Clinicamente, as áreas de alopecia podem aparecer como áreas atróficas associadas ou não a eritema e descamação, placas, nódulos ou ulceração.11,12

Os pacientes com lúpus eritematoso podem ter lesões discóides no couro cabeludo, resultando em placas de alopecia cicatricial, com atrofia variável e áreas de hiperpigmentação e hipopigmentação. Pode-se notar ceratose folicular nas placas de alopecia do lúpus. Muitas vezes é difícil estabelecer seu diagnóstico pela histopatologia.

O líquen plano pilar geralmente se apresenta como uma placa de alopecia com pápulas foliculares individuais ou hiperceratose. A condição tende a ser progressiva, com expansão e coalescência das placas individuais.4 Seu diagnóstico clínico e histopatológico pode confundir-se com o de lúpus eritematoso.

Na foliculite decalvante, encontra-se placa de alopecia com ou sem erosão, descamação ou crostas associadas. Em torno da lesão, pústulas foliculares ocorrem em surtos. O estágio tardio é caracterizado pela fibrose reparativa.

Dessas dermatoses, o lúpus é, sem dúvida, o mais freqüente; sua alopecia cicatricial é indistinguível da sarcoidose, assim como o líquen plano pilar e a foliculite decalvante que, embora raros, são também mais comuns do que a sarcoidose. A distinção entre essas afecções torna-se mais difícil quando não há lesão cutânea associada.

O exame histopatológico pode auxiliar no diagnóstico e, no caso da sarcoidose, é conclusivo pelo encontro de granuloma não caseoso de células epitelióides.

Quanto ao tratamento da alopecia, há pouca resposta aos corticosteróides (sistêmicos ou intralesionais) e à cloroquina nos casos relatados.5,7,8,13

Os autores enfatizam, então, a recomendação de que a sarcoidose, apesar de causa rara, seja incluída no diagnóstico diferencial das alopecias cicatriciais.

 

REFERÊNCIAS

1. Sharma OP. Sarcoidosis of the Skin. In: Fitzpatrick TB, Freedberg IM, Eisen AL et al. Dermatology in General Medicine. Mc Graw-Hill; 1999: 2099-2106.        [ Links ]

2. Greer KE, Harman LE, Kayne AL. Unusual cutaneous manifestations of sarcoidosis. South Med J, 1977; 70(6):666-8.        [ Links ]

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4. Dirk MAJ, Elston M, Bergfeld WF. Cicatricial alopecias (and other causes of permanent alopecia). In: Olsen EA. Disorders of hair growth - Diagnosis and Treatment. Mc Graw-Hill; 1994: 285-313.        [ Links ]

5. Katta R, Nelson B, Chen D, Roenigk H. Sarcoidosis of the scalp: a case series and review of the literature. J Am Acad Dermatol, 2000; 42(4):690-2.        [ Links ]

6. Jacyk WK. Sarcoidosis in the West African. A report of light nigerian patients with cutaneous lesions. Trop Geogr Med, 1984; 36(3):231-6.        [ Links ]

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8. Verbov J. The place of intralesional steroid therapy in dermatology. Br J Dermatol, 1976; 94 suppl 12:51-8        [ Links ]

9. Golitz LE, Shapiro L, Hurwitz E, Stritzler R. Cicatricial alopecia of sarcoidosis. Arch Dermatol., 1973;107(5):758-60.        [ Links ]

10. Jacyk WK. Cutaneous sarcoidosis in black South Africans. Int J Dermatol, 1999;38(11):841-5.        [ Links ]

11. Albertini JG, Tyler W, Miller OF 3rd. Ulcerative sarcoidosis. Case report and review of the literature. Arch Dermatol, 1997;133(2):215-9.        [ Links ]

12. Wilson NJ, King CM. Cutaneous sarcoidosis. Postgrad Med J, 1998;74(877):649-52.        [ Links ]

13. Zic JA, Horowitz DH, Arzubiaga C, King LE Jr. Treatment of cutaneous sarcoidosis with chloroquine. Arch Dermatol, 1991;127(7):1034-40.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Giane Pereira Giro Teixeira
Av. Américo Buaiz 501/205 - Torre Leste - Enseada da Praia do Suá
Vitória ES 29050-420
Tel/Fax: (27) 3345-6712 / 3345-6385
E-mail: giane@multicast.com.br

Recebido em 11.07.2000
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 10.03.2003

 

 

*Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário Pedro Ernesto - Universidade do Estado do Rio de Janeiro.