SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.79 issue1Woolly hair nevus syndromeComparative dermatology author indexsubject indexarticles search
Home Pagealphabetic serial listing  

Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000100014 

CORRESPONDÊNCIA

 

Eritema nodoso e infecção pelo vírus da hepatite C*

 

 

Thelma SkareI; Rafael BonanII

IProfessora Assistente de Reumatologia do Curso de Medicina da Faculdade Evangélica de Medicina do PR (FEPAR)
IIAcadêmico do 6o ano - FEPAR

Endereço para correspondência

 

 

O vírus da hepatite C é um RNA vírus que causa hepatite crônica em 75% dos indivíduos infectados.1 Tanto a infecção aguda como a crônica podem ser assintomáticas ou cursar apenas com sintomas leves e inespecíficos, de tal maneira que a doença é, muitas vezes, detectada tardiamente, quando os medicamentos usados para tratamento têm sua eficácia reduzida.2

O diagnóstico precoce dessa doença pode ser facilitado se o médico estiver apto para reconhecer suas manifestações extra-hepáticas, como, por exemplo, as dermatológicas. Têm sido descritos casos de vasculites por crioglobulinemia,2 porfiria cutânea tardia,1,2 líquen plano,1,2 vitiligo,2 poliarterite nodosa1 e prurido generalizado1 associados à infecção pelo vírus C.

Os autores apresentam um caso de infecção pelo vírus C numa mulher grávida, cujo diagnóstico foi feito pela presença de eritema nodoso.

Trata-se de paciente de 28 anos, com história de nódulos avermelhados e dolorosos nos membros inferiores que apareciam de maneira intermitente há dois anos. Havia feito uso de glicocorticóide, por pouco tempo, na tentativa de solucionar as queixas, sem ajuda. No momento da consulta a paciente não usava medicamentos, salvo alguns comprimidos de paracetamol esporadicamente. Negava sintomatologia articular, fotossensibilidade ou fenômenos vasomotores. Tinha história de alopecia leve e de úlceras orais. Ex-tabagista, era gestante de sete meses, sendo aquela sua terceira gestação. Não tinha tido sintomas semelhantes nas gestações anteriores. Ao exame físico a paciente apresentava sinais vitais normais; precórdio com bulhas rítmicas e normofonéticas; pulmões limpos. Abdômen com aumento uterino compatível com 28 semanas de gravidez e sem outras visceromegalias. Na pele da região pré-tibial existiam lesões compatíveis com eritema nodoso bilateralmente (Figura 1).

 

 

A biópsia da lesão cutânea mostrou presença de áreas nodulares de infiltração inflamatória com histiócitos, linfócitos e raros neutrófilos associados a áreas de necrose na derme reticular e tecido gorduroso; pesquisa de BAAR foi negativa.

A investigação laboratorial mostrou: células LE, fator reumatóide, VDRL e PPD negativos, FAN positivo em título baixo (1/80). Pesquisas de auto-anticorpos, como anti-Sm, anti-Ro/SSA, anti-La/SSB, anti-RNP, e crioglobulinas foram negativas. Dosagem de antiestreptolisina O foi normal; RX de tórax foi protelado por causa da gravidez. Provas de função hepática mostraram SGOT (transaminase oxalacética) de 118U/L (normal até 30U/L) e SGPT (transaminase pirúvica) de 102U/L (normal até 20U/L). A sorologia para HVC foi positiva, e essa infecção foi confirmada pela PCR. (teste da reação em cadeia pela polimerase) qualitativa. Genotipagem mostrou tratar-se do subtipo 3a.

Em virtude da positividade para hepatite C, programou-se o parto via cesárea. Logo após o nascimento da criança, a paciente foi encaminhada para biópsia hepática e uso de ribavirine e interferon em outro serviço. Mediante contato telefônico, feito oito meses após o encaminhamento para biópsia e tratamento, a paciente informou estar passado bem, sem recidiva das lesões cutâneas até o momento.

O eritema nodoso é uma forma de expressão de hipersensibilidade mediada por células que se manifesta clinicamente pelo aparecimento de nódulos subcutâneos, dolorosos, situados mais comumente nas superfícies extensoras das pernas e que podem estar associados a febre, artralgias ou artrites e linfadenopatia.3

Várias doenças podem desencadear seu aparecimento. Entre elas estão as infecções, uso de medicamentos, sarcoidose, doença de Crohn e linfomas. A maior ou menor prevalência de uma ou outra causa depende da população estudada, uma vez que elas variam conforme a localização regional.4

A gravidez tem sido implicada em casos de eritema nodoso,3 e, no caso descrito, existia a possibilidade de que a mesma estivesse envolvida no processo etiológico. Entretanto, a paciente vinha tendo surtos recorrentes há dois anos, quadro iniciado quando a mesma não estava grávida.

A infecção pelo vírus da hepatite C como causa de eritema nodoso já foi identificada anteriormente,3,5,6 embora essa não seja associação freqüentemente reconhecida. O caso apresentado, ainda que não possa ser implicado diretamente na etiopatogenia do processo, permitiu não só o diagnóstico da doença hepática e instituição precoce de tratamento, como, ao se programar cesárea, diminuir os riscos de contaminação da criança pela via vertical.

 

REFERÊNCIAS

1. Bonkovsky LH, Mehta S. Hepatitis C: a review and update. J Am Acad Dermatol 2001;44:159-79.

2. Schwabwer MJ, Zlotogorski A. Dermatologic manifestations of hepatitis C infection. Int J Dermatol 1997;36:251-4.

3. Dixey JJ. Erythema nodosum In Klippel J, DieppePA. Rheumatology 2nd Ed, Ed Mosby, London,1998; Sec 5; 25. 1-4

4. García-Porrua C, González-Gay MA, Vásquez-Caruncho M et al. Erythema nodosum, Artrithis Rheum 2000;43(3):584-92.

5. Domingo P, Rios J, Martinez E, Casas F. Erythema nodosum and hepatitis C (letter). Lancet 1990; 336:1377.

6. Terver MNG, Modiano P, Gogolewski S, Gaucher P, Schmutzb JL. Erythème nouex rélélateur dúne hépatite C chronique active (letter). Presse Medicale 1995;24 (26):1221.

 

 

Endereço para correspondência
Thelma L Skare
João Alencar Guimarães, 796
80310-420 Curitiba PR
Tel./fax: (41) 274-1659 / 240-5082
E-mail: tskare@onda.com.br

Recebido em 29.04.2002
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 13.06.2003

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Reumatologia do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba- Paraná.