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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000200003 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Avaliação dos hábitos de exposição ao sol e de fotoproteção dos universitários da Região Metropolitana de Porto Alegre, RS*

 

 

Francine Batista CostaI; Magda Blessman WeberII

IMédica formada pela Universidade Luterana do Brasil - Ulbra
IIProfessora Adjunta Mestre em Dermatologia do Curso de Medicina da Universidade Luterana do Brasil - Ulbra

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Sabe-se que a mudança de hábito da população mundial com relação à exposição ao sol provocou aumento da incidência de câncer da pele nas últimas décadas. Tais informações são especialmente relevantes na Região Sul, na qual há maior prevalência da população branca, mais propensa aos danos solares, em comparação ao restante do Brasil.
OBJETIVOS: Avaliar os hábitos de exposição ao sol e de fotoproteção dos universitários da Região Metropolitana de Porto Alegre no período de julho a setembro de 2001.
MÉTODOS: Foram respondidos 1.030 questionários por universitários residentes na Região Metropolitana de Porto Alegre.
RESULTADOS: Nos finais de semana, 38,4% dos estudantes permanecem ao sol entre duas e seis horas diárias. Durante o verão, 43,7% deles se expõem ao sol entre as 10 e as 15h; 85% dos estudantes afirmam usar filtro solar, mas 65% não o usam ao praticar esportes ao ar livre.
CONCLUSÕES: Os autores observaram que a maioria dos universitários se expõe excessivamente ao sol, em horários impróprios e sem efetiva proteção solar.

Palavras-chave: estudantes; protetores de raios solares.


 

 

INTRODUÇÃO

O câncer de pele é um grave problema de saúde pública devido ao aumento em sua incidência no século 20,1,2,3 provocado principalmente pelas mudanças de hábito da população mundial com relação à exposição solar.4,5,6 No período de 1973 a 1994, a incidência do câncer de pele do tipo melanoma aumentou em 120,5%, e a taxa de mortalidade, para 38,9%.2 Nos Estados Unidos, o risco de desenvolver melanoma foi de um para 1.500, em 1935; um para 250, em 1980; e um para 74, em 2000.2,3

Nas últimas décadas ampliou-se o conhecimento referente à etiologia do câncer de pele e identificou-se a radiação ultravioleta como um dos principais agentes envolvidos.1,5,7,8,9 A maior fonte natural de radiação ultravioleta é o sol, ao qual a pele está em constante exposição, seja durante atividades recreativas ou trabalho. Atualmente, fontes artificiais de radiação ultravioleta são usadas com fins terapêuticos ou estéticos.1,3,10,11

A prevenção do câncer de pele, no adolescente e no adulto jovem, é importante por ser nessa faixa etária que os indivíduos permanecem grande parte do tempo ao ar livre.13,14 Grandes esforços estão sendo empreendidos para melhorar o comportamento das crianças em relação à exposição solar,1,15 mas poucos programas de prevenção do câncer de pele são dirigidos aos adolescentes.12,16

Apesar de essas campanhas de prevenção darem ênfase aos riscos da exposição solar, os dados da literatura demonstram que 50% dos adolescentes bronzeiam-se intencionalmente13 e, quando ao sol, pouco aplicam o filtro solar ou usam chapéu e camisa, ficando assim expostos excessivamente à radiação durante o verão.12,13,14 Bakos et al., em 1994-1995, na Praia de Torres, no Rio Grande do Sul, demonstraram que 36,9% de uma população com média de idade de 20 anos usavam filtro solar.4

A influência da moda e da indústria de cosméticos pode influenciar a percepção dos jovens a respeito dos riscos da exposição solar desprotegida e excessiva.9,12,14,17 É importante educar os jovens, e isso deveria começar pelo modelo parental de proteção solar desde a infância.8,12,14,18-21

O uso de filtro solar é uma estratégia efetiva10,22,23,24 para reduzir a quantidade de radiação ultravioleta e queimadura solar, e também são necessários o uso de outros meios físicos de fotoproteção e o cuidado com relação ao horário de exposição ao sol para diminuir a incidência de câncer de pele.10,11,19,25 A identificação do indivíduo de alto risco é importante para o desenvolvimento de esforços de prevenção eficiente.6,8,11,12,18,26

A fim de implementar estratégias de prevenção efetivas, todos os profissionais da área da saúde têm que entender os fatores que afetam a decisão do paciente de se bronzear, bem como devem tentar modificar as percepções públicas para diminuir a exposição solar.1,6,7,8,27,28,29

Este trabalho propõe-se a avaliar os hábitos de exposição e de proteção solar dos universitários da Região Metropolitana de Porto Alegre. Os resultados da pesquisa poderão oferecer subsídios para estratégias de prevenção do câncer de pele.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Foi distribuído um questionário para estudantes universitários da Região Metropolitana da cidade de Porto Alegre, RS. O estudo foi conduzido durante o período de julho a setembro de 2001. Os questionários foram distribuídos em série, pelos pesquisadores, a 1.200 estudantes de cinco universidades da região durante os intervalos das atividades em sala de aula nos períodos diurno e noturno. O objetivo e a importância da pesquisa constavam no cabeça-lho do questionário e foram apresentados aos estudantes no momento da solicitação de participação no estudo. Foram respondidos 1.030 questionários. Não foi levada em consideração a área de graduação do universitário.

O questionário foi elaborado pelos pesquisadores autores deste trabalho e é composto de 10 perguntas, incluindo idade, sexo e questões gerais sobre comportamento e hábito relativos à exposição ao sol, como: 1. tempo e horários de exposição; 2. uso de proteção solar; 3. fator de proteção solar que usa; 4. estação do ano em que usa filtro solar; 5. Uso de outros meios físicos de proteção solar; e 6. uso de filtro solar durante a prática de esportes ao ar livre.

Os dados foram reunidos no programa SPSS (Statistical Package for Social Sciences), e sua análise estatística foi realizada de forma descritiva com utilização de freqüências absolutas (n) e relativas (%).

 

RESULTADOS

Foram respondidos 1.030 questionários. A amostra foi composta por 343 universitários do sexo masculino (33,3%) e 687 do sexo feminino (66,7%), com média de idade de 22,7 (±5,4) anos (Quadro 1).

Quanto ao período de exposição solar, foram encontrados os seguintes resultados: 70,7% dos estudantes expõem-se ao sol no máximo até duas horas diárias durante a semana (de segunda a sexta-feira). No final de semana, 4,9% dos estudantes expõem-se ao sol por mais de seis horas diárias, e 38,4% expõem-se entre duas e seis horas diárias. O horário de exposição ao sol mais freqüente durante o verão é após as 15h (70,6% dos estudantes), sendo que desses indivíduos 43,7% também se expõem entre as 10 e as 15h (Quadro 1).

Quanto à proteção solar, foram encontrados os seguintes resultados: 85,2% da amostra usa filtro solar. Desses, 84,9% escolhem fator de proteção solar maior do que oito, 65% não o usam quando praticam esportes ao ar livre, e 17,9% o aplicam durante todas as estações do ano. O uso de outros meios físicos para fotoproteção apresenta a seguinte freqüência: 42% dos estudantes usam camiseta, 34,8%, chapéu, e 38,4%, guarda-sol (Quadro 2).

Dos pesquisados que afirmam não fazer uso de filtro solar, a maioria é do sexo masculino (62,5%), menor de 25 anos (84,9%) e não usa outros meios de proteção solar, como chapéu (55,9%), camiseta (45,4%) e guarda-sol (85,5%)(Quadro 3).

 

DISCUSSÃO

No presente trabalho, os universitários foram questionados quanto à exposição usual ao sol e ao freqüente uso de fotoproteção. Os resultados, no que se refere ao tempo de exposição ao sol e ao uso de meios físicos de proteção solar, são semelhantes aos dados da literatura.8,10,12,28

Setenta por cento dos estudantes expõem-se em horário de menor risco para a pele, após as 15h. Porém, 43,7% dos estudantes também se expõem no horário de maior intensidade de radiação ultravioleta, entre 10 e 15h. A literatura justifica esse comportamento, durante o verão, devido a fatores sociais, como almoçar tarde; fazer mais esportes ao ar livre; a intenção de aproveitar as férias.4 Dessa forma, as atividades ao ar livre ocorrem principalmente em horários impróprios.

Neste trabalho, realizado em 2001, foi observado que 85,2% dos universitários utilizam o filtro solar. Um estudo de 1994-1995 demonstrou que 36,9% deles usavam filtro solar, numa população com a média de idade de 20 anos.4 Foi verificado um aumento na utilização do filtro solar de 1994-1995 para 2001 em populações com médias de idade semelhantes.

Sessenta e um por cento dos pesquisados usam fator de proteção solar (FPS) menor do que 15, o que não é preconizado pelas campanhas de prevenção do câncer de pele. Apenas 17,9% dos estudantes usam filtro solar durante todas as estações do ano, sugerindo que esse hábito parece estar associado à falsa concepção de que o sol só é intenso no verão. Observou-se que, dos universitários que afirmavam ter o costume de usar filtro solar (85,2%), apenas 35% o fazem durante a prática de esportes ao ar livre. Sendo assim, o filtro solar aparentemente só é lembrado e aplicado por eles quando têm a intenção de "bronzear-se".

Neste estudo, foi verificado que independente do uso ou não do filtro solar, a maioria dos estudantes não utiliza outros meios físicos de fotoproteção, como camiseta, chapéu e guarda-sol. A proteção solar efetiva, que consiste no uso de filtro solar, meios físicos de proteção e estratégias para evitar o sol, não é habitualmente praticada.10 Mesmo sob o emprego da maneira mais corriqueira de proteção - uso do filtro solar -, observa-se um comportamento de risco para os efeitos maléficos do sol.

A maioria dos estudantes que não usam o filtro solar é homem e menor de 25 anos. A literatura mostra que os indivíduos do sexo feminino usam protetor solar com mais freqüência.21 A partir desses dados, poderíamos levantar a hipótese de que, pelo fato de a maioria das mulheres ser mais vaidosa ou preocupada com a estética, cuida-se melhor ou evita mais do que os homens os efeitos prejudiciais do sol.

Os dados deste trabalho servem para obter conhecimentos dos hábitos de exposição solar e fotoproteção de uma população universitária da Região Metropolitana de Porto Alegre e, assim, estar mais atentos para orientação desses hábitos nos níveis individual e coletivo.

Os estudos enfatizam a importância da conscientização sobre os perigos da exposição excessiva ao sol, por intermédio da participação da mídia em campanhas de prevenção,4 campanhas de orientação nas escolas,13 de estratégias para modificar os fatores que interferem na decisão do indivíduo para bronzear-se27 e do modelo parental e da educação desde a infância,14 bem como a identificação do indivíduo de alto risco para o desenvolvimento de câncer de pele11 e da proteção solar efetiva.10

 

CONCLUSÃO

Neste trabalho, avaliou-se o comportamento dos adultos jovens referente à exposição solar e fotoproteção, e constatou-se que a maioria se expõe excessivamente ao sol, em horários impróprios e sem efetiva proteção solar.

A maioria dos universitários faz uso de filtro solar, porém não o faz durante a prática de esportes ao ar livre. A maioria dos pesquisados não faz uso de outros meios físicos de fotoproteção, como chapéu, camiseta e guarda-sol. Daqueles que não fazem uso de filtro solar, grande parte é de homens com menos de 25 anos. q

 

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Endereço para correspondência
Francine Batista Costa
Av. Nilo Peçanha, 2863/603
91330-001 Porto Alegre RS
Tel.: (51) 3328-3271
E-mail: frc.poa@terra.com.br

Recebido em 09.06.2003
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 16.10.2003

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Luterana do Brasil