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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000200008 

CASO CLÍNICO

 

Aprimoramentos no transplante de cabelo com laser de CO2 - apresentação de três casos clínicos*

 

 

Cristina MansurI; Leonora MansurII; João MansurIII; Maria Teresa FeitalIV; Itabyba Martins Miranda ChavesIV; Aloísio Couri GamonalV

IProfessora da UFJF, doutora pela UFRJ, pos-doctoral fellow na Univ. da California, San Francisco, EUA
IIResidente de Cirurgia Geral do Hospital Universitário de Juiz de Fora
IIIDoutor em dermatologia pela UFRJ, residência de Cirurgia Plástica na Universidade Santa Cecília, Santos
IVProfessores da UFJF
VProf. de Anestesiologia da FMUFJF, responsável pelo CET/SBA do Hospital Universitário de Juiz de Fora, membro do Conselho Editorial da Revista Brasileira de Anestesiologia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores apresentam três casos de transplante de cabelo em que foram feitas incisões receptoras mistas: orifício com vaporização com laser de CO2 nos quais se adicionou uma incisão lateral a frio. Essa incisão lateral facilita a introdução dos microenxertos por permitir a saída do ar e melhora sua fixação por conferir elasticidade ao orifício. Os pacientes foram previamente betabloqueados para evitar o efeito beta da adrenalina.

Palavras-chave: cabelo/transplante; dióxido de carbono; lasers.


 

 

INTRODUÇÃO

É discutida a eficácia e o resultado final do laser de CO2 em transplante de cabelo.1,2,3

Os autores apresentam neste trabalho o resultado estético final em três pacientes de transplante de cabelo (três sessões por paciente), usando-se o laser de CO2 na área receptora, complementado com pequena incisão lateral feita com lâmina fria.

Os transplantes de cabelo começaram no final da década de 1950, com a técnica em que se tirava grandes punchs da região occipital e parietal. As técnicas evoluíram para microenxertos (de um a três fios), minienxertos (de quatro a oito fios), redondos ou lineares.

As áreas receptoras para esses minienxertos eram feitas com motores, lâminas pequenas ou agulhas e expansores especiais.4

A técnica de microenxertos permite enxertos com quantidade de cabelos que varia de um a três fios, é usada na linha de frente e confere naturalidade. O minienxerto, com variação de quatro a oito fios de cabelo nas linhas traseiras, tem finalidade de dar maior densidade e sustentação à linha de frente.

No início da década de 1990 foram publicados os primeiros trabalhos mostrando o uso do laser de CO2 na área receptora dos microenxertos.5,6

Seu uso no transplante tem várias vantagens: diminuição do sangramento, diminuição do tempo cirúrgico, menor trauma ao minienxerto, vaporização da área calva permitindo colocar maior densidade de pêlos transplantados (vaporiza-se o tecido, formando o espaço em que o microimplante será introduzido com maior facilidade), menor compressão no minienxerto, menor uso de adrenalina e redução das complicações pós operatórias.5-8

A dúvida quanto a sua eficácia deve-se ao fato de o laser deixar uma tênue camada de queimadura nas paredes do orifício, o que poderia atrapalhar a pega dos enxertos.2,9

Trabalhos nos quais se compararam os tufos em área em que foram feitas incisões com lâmina de bisturi e outra em que foi usado laser mostraram que o sangramento da área receptora trabalhada com laser de CO2 foi menor e o número de cabelos que cresceu foi igual ao da área preparada com lâmina de bisturi. A única desvantagem foi a maior formação de crosta pós-operatória na área trabalhada com laser.10,11

 

RELATO DOS CASOS

Caso 1 - Homem de 57 anos, calvície padrão V de Hamilton (Figura 1a), com queda de cabelo que começou progressivamente. Fazia uso de solução minoxidil a 5% há dois anos. O quadro estava estável, e o paciente optou por um transplante de cabelo. Foram feitas três sessões (com intervalos de oito meses e um ano e três meses entre elas, nessa ordem). A foto (Figura 1b) foi feita oito meses após a terceira e última sessão do transplante.

 


 

Caso 2 - Homem de 49 anos, com calvície tipo VII de Hamilton (Figura 2a), que começou aos 17 anos, rapidamente progressiva e, no momento da consulta, estável. Usou minoxidil sem melhoras. Foram feitas três sessões de transplante, com intervalos de 10 meses e dois anos entre elas. A figura 2b reproduz foto feita seis meses após a segunda sessão, e a figura 3c, 12 meses após a última sessão de transplante.

 


 

 

 

 


 

 

 

Caso 3 - Homem de 35 anos, com calvície tipo III de Hamilton, que desde 16 anos apresentava entradas marcantes (Figura 3a), que eram características familiares. Foram feitas três sessões de transplante, com intervalos de nove meses e um ano e meio entre elas. A figura 3b reproduz foto feita seis meses após o primeiro transplante, e a figura 3c, um ano e três meses após a última sessão de transplante.

 

MATERIAL E MÉTODO

Foram realizadas três sessões de transplante em cada paciente, utilizando-se o laser de CO2 da Sharplan de 80 watts com scanner, associado a pequena incisão lateral com lâmina fria (lâmina 11).

Foi feita anestesia local, com uma solução de 120ml de bupivacaína salina a 0,125% com adrenalina a 1/200.000. Por ser o couro cabeludo ricamente vascularizado, parte dessa adrenalina cai rapidamente na circulação não só pela rápida absorção, mas também porque pequena quantidade acaba sendo aleatoriamente injetada diretamente dentro de vasos.

Como recentes estudos controlados e multicêntricos12,13 demonstram que a prevenção da taquicardia com o uso de betabloqueador é extremamente benéfica para os pacientes,14 aqueles que tinham freqüência cardíaca acima de 60 batimentos por minuto em repouso ingeriram 25mg do betabloqueador atenolol duas horas antes do transplante. A diminuição do trabalho cardíaco reduz o consumo de oxigênio pelo miocárdio, prevenindo a isquemia. Ocorre redução na pressão arterial, prevenindo a crise hipertensiva com todas as suas conseqüências, evitando também aumento de sangramento, que tanto dificulta o transplante de cabelo. Todos foram sedados por anestesiologista com midazolan e fentanila sob monitorização eletrocardiográfica e oximetria em centro cirúrgico. Em todos foi utilizada antibioticoterapia profilática.

A zona doadora foi retirada em fita de aproximadamente 13cm x 1,5cm da região occipital e fragmentada. A seguir a peça foi fragmentada com o auxílio de lupa.

Os orifícios da área receptora foram escaneados usando-se a potência de 55 watts durante o tempo de 0,06 segundos, obtendo-se assim furos de 1,2mm com 5mm de profundidade.

Tais orifícios foram então escarificados com um único e rápido movimento de introdução de uma broca odontológica instalada na ponta de uma lapiseira, com a finalidade de retirar a tênue área de necrose das bordas do orifício, reavivando a superfície receptora para facilitar a pega do transplante.

Para facilitar a introdução dos microtufos, os orifícios foram rasgados lateralmente com uma incisão de 1,2mm realizada com lâmina 11.

 

RESULTADOS

O crescimento dos pêlos transplantados (Figuras 1b, 2b e 3b) ocorre geralmente três ou quatro meses após o procedimento.

Após três sessões nos três pacientes apresentados (Figuras 1a, 2a e 3a), o resultado estético do transplante de cabelo feito com o laser de CO2 foi bom, sem complicações imediatas e/ou tardias e sem cicatrizes inestéticas. As fotos finais foram feitas entre oito meses e um ano e três meses após a terceira sessão (Figuras 1b, 2c e 3c).

 

DISCUSSÃO

Tem sido controvertido o uso do laser de CO2 em transplante de cabelo. As preocupações quanto a sua eficácia são relativas à pega dos enxertos, cicatriz e ao crescimento de menor número de cabelos em áreas receptoras em que se usou laser.8

Desvantagem das incisões com lâmina fria

Na técnica convencional, ao serem feitas simples incisões com pequenas lâminas ou agulhas na zona receptora, nenhum tecido calvo é removido e nenhum espaço é gerado. Os enxertos adicionados ao couro cabeludo funcionam como cunhas. Assim, a cada microenxerto colocado, a compressão lateral vai aumentando, até chegar a um ponto que satura, e vários microenxertos são empurrados para fora novamente. Tentativas repetidas de recolocá-los podem traumatizar as matrizes. Chama-se de "efeito cunha" essa tendência à extrusão dos microimplantes sujeitos a compressão lateral.

Desvantagens do laser

Para entrar nos orifícios cilíndricos feitos com laser, os enxertos têm que ter diâmetro muito menor do que o do orifício. Assim, uma vez introduzidos, eles ficam frouxos dentro do orifício. A realização de muitos orifícios de vaporização com laser no couro cabeludo também tende a retirar sua elasticidade lateral, agravando a falta de compressão aos microimplantes. Os enxertos colocados nos orifícios cilíndricos feitos com laser funcionam como êmbolo, e o ar retido no fundo tende a expulsá-los de volta.

A incisão a frio e a do laser têm ações diretamente opostas. Unindo-as em um mesmo procedimento, elas se neutralizarão. Colocando enxertos ligeiramente maiores do que o orifício do laser, têm-se bom contato do enxerto ao leito e compressão lateral ideal com menor tendêndia à extrusão dos enxertos.

A vaporização do laser de CO2 remove o tecido calvo, gerando espaço para a introdução do microtufo na área receptora, onde eles são introduzidos com muito mais facilidade, ficando assim menos sujeitos a trauma.

Nota-se que há um limite para a quantidade e o tamanho dos orifícios gerados pelo laser, pois a remoção de tecido em excesso causa o inverso, isto é, pressão lateral insuficiente para manter os microimplantes no lugar. Para evitar isso, os autores limitaram o orifício ao tamanho aproximado de 1,2mm, que corresponde ao ajuste médio no scanner do equipamento do laser. Após limpar os orifícios com broca odontológica, complementaram o orifício com uma incisão lateral ao furo do laser, de mesmo tamanho, fazendo um leito híbrido com remoção parcial de tecidos: metade orifício vaporizado pelo laser e metade fenda realizada com incisão de bisturi.

A rápida limpeza dos orifícios com a broca odontológica possibilita o contato do tecido transplantado com um leito perfeito para a pega, sem aumentar significativamente o sangramento, porque os vasos escarificados sangram menos do que os vasos cortados.

A incisão lateral aos furos, feita com lâmina fria, facilita a introdução e fixação dos microenxertos, permitindo a saída do ar e mantendo pressão lateral ideal para segurá-los.

Outra grande vantagem do laser é o menor sangramento,8,9 o que facilita a introdução dos microtransplantes e evita seu traumatismo.

Considerando que há um grande fluxo de sangue proveniente dos vasos supra-orbitários e supratrocleares, o emprego do laser é particularmente importante na região frontal.

Motivo da Apresentação

Para alguns autores, o uso do laser de CO2 na área receptora do transplante de cabelo não daria certo e poderia levar a cicatrizes inestéticas nessa área e/ou ao crescimento de menor número de cabelos.

O objetivo deste trabalho é a demonstração dos bons resultados estéticos usando-se essa técnica, que facilita a realização do procedimento e evita complicações imediatas e/ou tardias. q

 

REFERÊNCIAS

1. Fitzpatrick RE, Ruiz-Esparza J, Goldman MP. The depth of thermal necrosis using the CO2 laser. A comparison of the superpulsed and conventional mode. J Dermatol Surg Oncol 1991;17:340-344.        [ Links ]

2. Green HA, Domankevitz Y, Nishioka NS. Pulsed carbon dioxide laser ablation of burned skin. In vitro and in vivo analysis. Lasers Surg Med 1990;10476-484.        [ Links ]

3. Fitzpatrick RE. Laser hair transplantation: Tissue effects of laser parameters. Dermatol Surg 1995;21:1042-1046.        [ Links ]

4. Alster TS. Lasers in Dermatology. In Dermatologic Clinics. vol.15, n.3,1997 by Saunders Company, ISSN 0733-8635.        [ Links ]

5. Grevelink JM, Brennick JB. Hair transplantation facilitated by flashscanner-enhanced carbon dioxide laser. Head and Neck Surgery 1994;5:278-280.        [ Links ]

6. Grevelink JM, Farinelli W et al. Hair transplantation aided by CO2 lasers. Lasers Surg Med 1995;7:47.        [ Links ]

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8. Unger WP: Laser hair transplantation II. Dermatol Surg 1995;21:759-765.        [ Links ]

9. Zweig AD, Meierhofer B et al. Lateral thermal damage along pulsed laser incisions. Lasers Surg Med 1990;10:262-274.        [ Links ]

10. Unger WP, David LM. Laser Hair transplantation. J Dermatol Surg Oncol 1994;20:515-521.        [ Links ]

11. Villnow MM, Slatkin M et al. Megasession hair transplantation with a CO2 laser flashscanner. J Clin Laser Med Surg 1995;13:259-262.        [ Links ]

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13. Mangano DT, Layug EL, Wallace A et al. Multicenter Study of Perioperative Ischemia Research Group. Effects of atenolol on mortality and cardiovascular morbity after non cardiac surgery. N Engl J Med 1998; 335:1713-20        [ Links ]

14. Waltier DC. B-Adrenergic blocking drugs: Incredibily usefull, incredibily under used. Anesthesiology 1998; 88:2-5 (EDITORIAL)        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Cristina Mansur
R. Santo Antônio, 630
36015-001 Juiz de Fora MG
Tel.: (32) 3215-4466
E-mail: cristina@mansur.com.br

Recebido em 29.04.2002
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 18.03.2003

 

 

* Trabalho realizado na Clínica Mansur.