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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000200012 

CORRESPONDÊNCIA

 

Hérnia de Petit: comentário de um caso*

 

 

Maurício ZaniniI; Fábio R. TimonerII; Carlos D'Aparecida Machado FilhoIII

IEspecialista em Dermatologia, residente em Cirurgia Dermatológica, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Cirurgia Dermatológica
IIEspecialista em Dermatologia, professor assistente, membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia e Cirurgia Dermatológica
IIIChefe interino da disciplina de Dermatologia da FUABC, doutor em dermatologia

Endereço para correspondência

 

 

Paciente do sexo masculino, branco, 36 anos, operário industrial, procedente de Santo André-SP, procurou o serviço queixando-se de um "caroço" nas costas com mais de 10 anos de evolução. A lesão era assintomática, e seu tamanho estava aumentando progressivamente desde o aparecimento. Negava história de trauma local. Ao exame, observou-se na região dorsal inferior direita um tumor de configuração ovóide, 10cm x 8cm, pouco móvel e de consistência firme e elástica (Figura 1). Não se mostrava redutível e, à manobra de valsalva, aparentava aumentar discretamente sua consistência. O paciente foi submetido a estudo ultra-sonográfico com a hipótese de lipoma. O exame mostrou uma protusão da parede fibromuscular dorsal tendo tecido adiposo como conteúdo. Estabelecido o diagnóstico de hérnia dorsal de Petit, o paciente foi encaminhado ao serviço de cirurgia geral.

 

 

Hérnia é uma protusão anormal de tecido ou órgão de seu local anatômico para outro através de um orifício natural ou defeito no septo fibromuscular. A maioria das hérnias ocorre na parede abdominal anterior, particularmente na região inguinal. Contudo, outros locais podem ser acometidos como a região femoral, umbilical, abdômen lateral e região lombar.1

A hérnia lombar ou dorsal é rara e surge por um defeito na fáscia fibromuscular da parede posterior do abdômen.2 Até 1995 haviam sido relatados apenas 300 casos de hérnias lombares.3 A hérnia lombar ocorre basicamente em dois locais: no espaço de Grynfelt ou triângulo lombar superior e no espaço de Petit ou triângulo lombar inferior.2 A hérnia de Grynfelt é mais comum do que a de Petit.3 Podem ser adquiridas ou congênitas. A forma congênita manifesta-se normalmente na infância,2 podendo ser um fenômeno isolado ou associado a distúrbios congênitos/hereditários como a síndrome da deficiência vertebral lombar, meningocele e neurofibromatose.4,5 A hérnia lombar adquirida pode ser primária ou idiopática e secundária (cirurgia, trauma fechado ou aberto).2,6

A hérnia de Petit normalmente afeta mulheres jovens e atléticas. A principal queixa do paciente é a percepção de um tumor de consistência firme no dorso, que pode estar acompanhada de sensação de ardência ou dor. Encarceramento e estrangulamento ocorrem em 10% dos casos. O conteúdo herniário normalmente é composto de tecido adiposo, porém estruturas viscerais podem estar presentes. O tamanho da hérnia lombar evolui progressivamente, e, dessa maneira, o tratamento cirúrgico está indicado sempre que ela for diagnosticada e consiste na reconstrução da parede.1,6 O diagnóstico diferencial deve incluir tumores intracavitários (tumor renal), contratura muscular, tumores de partes moles (incluindo lipoma), hematoma e abcesso.1,2

O objetivo desta correspondência foi ressaltar a importância do conhecimento médico holístico, bem como da salutar aplicação de exames complementares quando bem indicado. Baseando-se apenas nos achados clínicos, que sustentavam um forte diagnóstico de lipoma ou tumor de partes moles, e caso o paciente aqui descrito fosse conduzido cirurgicamente como tal, o resultado poderia ter sido desastroso. q

 

REFERÊNCIAS

1. Deveney KE. Hernias and other lesions of abdominal wall. In: Way LW. Surgical diagnosis and treatment. Connecticut: Appleton & Lange Pubs., 1994:712-22.

2. Thor K: Lumbar hernia. Acta Chir Scand 1985; 151:389-90.

3. Alves Junior A; Maximiano L; Fujimura I; Pires PW; Birolini D. Hérnia de Grynfelt. Relato de caso e revisão da literatura. Rev Hosp Clin Fac Med Sao Paulo 1995;50(2):111-4.

4. Karmani S; Ember T; Davenport R. Congenital lumbar hernias: A case report. J Pediatr Surg 2002;37(6):921-2.

5. Rimmelin A; Dias P; Salatino S; Dietemann JL. Hernie colique lombaire secondaire a des anomalies osseuses congenitales entrant dans le cadre d'une neurofibromatose de type I. J Radiol 1996;77(4):279-81.

6. Barden BE; Maull KI. Traumatic lumbar hernia. South Med J 2000;93(11):1067-9.

 

 

Endereço para correspondência
Maurício Zanini
Rua Vicente de Carvalho, 198
09060-590 Santo André SP
Tel.: (11) 4992-7724
E-mail: drzanini@terra.com.br

Recebido em 08.10.2002
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 08.10.2002

 

 

* Trabalho realizado na Faculdade de Medicina do ABC - Instituto da Pele Prof. Dr. Luiz Henrique Camargo Paschoal - Serviço de Cirurgia Dermatológica - Santo André-SP.