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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.3 Rio de Janeiro May/June 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000300004 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Dermatoses pediátricas no Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco*

 

 

Josemir Belo dos SantosI; Leilane Oliveira CordeiroII; Lillian Oliveira CordeiroII; Patrícia de Barros GuimarãesIII; Paula Maria Rodrigues de B. CorrêaIII; Silvia da Costa CarvalhoIV

IProfessor do Departamento de Dermatologia do Hospital das Clínicas - UFPE
IIEstudante de Medicina do sexto ano da UFPE
IIIResidente de Dermatologia do Hospital das Clínicas UFPE
IVDermatologista e Preceptora do Centro Dermatologia do Recife-CEDER

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Numerosas condições dermatológicas podem afetar a população pediátrica. Há poucos estudos sobre a dermatologia pediátrica no Brasil.
OBJETIVOS: Estudar as dermatoses pediátricas no Hospital das Clínicas do Recife, Pernambuco - Brasil.
MATERIAL E MÉTODOS: Durante o período de maio de 1999 a maio de 2000, foram analisados 307 prontuários de crianças atendidas no Ambulatório de Dermatologia da Universidade Federal de Pernambuco. Foram encontrados os dados referentes a caracterização individual, procedência, motivo da consulta, diagnóstico clínico laboratorial e tratamentos previamente realizados.
RESULTADOS: As dermatoses alérgicas foram as mais freqüentes (17,64%), seguidas pelas desordens pigmentares (15,54%) e infecções virais (13,44%).
CONCLUSÃO: Os dados encontrados estão de acordo com a literatura. Quanto às infecções, representam um grande percentual dos casos analisados, devendo-se isso provavelmente ao baixo nível socioeconômico dos pacientes em estudo. A caracterização da epidemiologia dos problemas cutâneos em crianças deve ser uma prioridade de estudos futuros.

Palavras-chave: criança; dermatopatias; prevalência


 

 

INTRODUÇÃO

Embora acredite-se que a prevalência de dermatoses nas crianças dos países em desenvolvimento seja muito alta, há poucos relatos epidemiológicos sobre esse assunto, o que prejudica o planejamento das ações de saúde.

Este trabalho visa estabelecer as dermatoses mais comuns na infância e sua distribuição nos diferentes grupos etários, como contribuição aos estudos epidemiológicos pertinentes.

 

MATERIAL E MÉTODOS

Este trabalho foi desenvolvido em um serviço público especializado de referência que atende pacientes de baixo nível socioeconômico. Durante o período de maio de 1999 a maio de 2000, foram analisados 307 prontuários de crianças atendidas no Ambulatório de Dermatologia da Universidade Federal de Pernambuco. Foram encontrados os dados referentes a caracterização individual, procedência, motivo da consulta, diagnóstico clínico laboratorial e tratamentos previamente realizados.

As crianças foram classificadas de acordo com a faixa etária em recém-nascidas se tinham até 28 dias de vida, lactentes, entre 29 dias e dois anos incompletos, pré-escolares, entre dois anos completos e cinco anos incompletos, e escolares, de cinco anos até 12 anos. Com relação à cor da pele foram classificadas em leucodérmicas ou brancas, faiodérmicas ou mestiças e melanodérmicas ou negras.

As doenças evidenciadas em levantamento dos prontuários foram assim agrupadas: doenças sexualmente transmissíveis (condiloma acuminado), foliculoses (acne), infecções bacterianas (foliculite, escarlatina e impetigo), infecções virais (molusco contagioso, verruga vulgar e filiforme, herpes simples e zóster), infecções fúngicas (pitiríase versicolor, tinha do couro cabeludo, tinha do corpo, tinha crural, piedra branca e Kerion Celsi), dermatozoonose (escabiose e larva migrans), cistos e nevos organóides e melanocíticos benignos (cisto mucoso, mílio, quelóide, siringoma, xantogranuloma juvenil, Nevil, nevo melanocítico, nevo verrucoso e nevo sebáceo), tumores mesenquimais (hemangiomas e granuloma piogênico), genodermatoses (ictioses, epidermólise bolhosa e doença de Darier), erupções eczematosas (dermatite de contato, dermatite atópica e disidrose), erupções eritêmato-descamativas (psoríase, dermatite seborréica e pitiríase rósea de Gibert), erupções urticadas (urticária), discromias (vitiligo, nevo acrômico, hiper/hipocromia residuais), tricoses (eflúvio telógeno e alopecia areata), outros (pseudotinha amiantácea, xerose, ceratose pilar e estrófulo).

Trata-se, portanto, de um estudo retrospectivo, cuja análise estatística do diagnóstico das doenças com o tempo prévio foi realizada pelo Teste do Qui-Quadrado de Pearson, com nível de significância de 5%. A análise dos dados foi feita pelo SPSS (Statistical Package for Social Sciences), versão 9, e os gráficos elaborados pelo Excel versão 2000.

 

RESULTADOS

Dos 307 prontuários, observou-se que 62% das crianças eram do sexo feminino (n=191) e 38% do masculino (n=116) (Gráfico 1). A maioria dos pacientes era da Região Metropolitana do Recife, sendo que 50% deles eram da própria cidade do Recife (Gráfico 1). Os escolares perfizeram 50,82% do total, os pré-escolares 37,3%, os lactentes 11,8%, e os recém-nascidos 0,3%, mostrando que quanto maior a faixa etária maior a procura médica especializada.

 

 

Dos pacientes que se automedicaram 7,7% usaram medicação caseira, das quais se destacaram chá de aroeira, gelo e sabão amarelo. De acordo com a cor da pele (Gráfico 2), os pacientes foram classificados em três grupos: leucodérmicos ou brancos, faiodérmicos ou mestiços e melanodérmicos ou negros, cuja freqüência foi de [f=15] 4,2%, [f=328] 91,6% e [f=15] 4,2%, respectivamente.

 

 

Das 307 crianças estudadas, 238 (77,53%) apresentaram apenas uma dermatose, 65 (21,17%) delas apresentaram duas ou três dermatoses, enquanto apenas quatro (1,30%) apresentaram exame dermatológico normal. Como no grupo em que houve mais de um diagnóstico a distribuição de dermatoses foi semelhante à do grupo com apenas uma doença, a análise a seguir foi realizada considerando o grupo com apenas um diagnóstico.

Adicionalmente, o grupo de dermatoses alérgicas engloba erupções eczematosas e urticadas.

Como mostra o gráfico 3, as dermatoses alérgicas foram as mais prevalentes, com 17,64% (n=42) do total, seguidas pelas discromias, com 15,54% (n=37), infecções virais, 13,44% (n=32), cistos e nevos organóides e melanocíticos, com 8,82% (n=21), infecções fúngicas, 7,98% (n=19), dermatozoonoses, com 6,72% (n=16), infecções bacterianas, 5,04% (n=12), erupções eritêmato-descamativas e tumores mesenquimais, 3,78% (n=9) cada, genodermatoses, 3,36% (n=8), foliculoses, com 2,1% (n=5), e doenças sexualmente transmissíveis, 0,84% (n=2). As outras dermatoses somaram 9,66% (n=23).

 

 

Com relação à variável sexo, foi observado que as dermatoses alérgicas foram as mais comuns em ambos os sexos, com prevalência de 17,24% (n=25) nas meninas e 17,52% (n=17) nos meninos. No sexo feminino as discromias apresentaram a mesma freqüência que as dermatoses alérgicas, sendo seguidas por infecções virais e cistos, e nevos organóides e melanocíticos, que apresentaram freqüência de 11,72% (n=17). No sexo masculino, as infecções virais foram seguidas pelas discromias em ordem de freqüência com 15,46% (n=15) e 12,37% (n=12). Se considerarmos as infecções num só grupo, este passa a ser o mais numeroso em ambos os sexos, com 28,27% (n=41) no feminino e 39,17% (n=38) no masculino. Quanto às DST (n=2), todos os casos ocorreram no sexo feminino.

Em relação à faixa etária, entre os lactentes as dermatoses alérgicas, com 21,42% (n=6), representaram o grupo mais prevalente, seguidas pelas infecções bacterianas e dermatozoonoses, com 14,28% (n=4) cada. Entre os pré-escolares, as dermatoses alérgicas foram novamente as mais comuns, com 24% (n=20), seguidas pelas discromias e infecções fúngicas, com 15,66% (n=13) e 12% (n=10), respectivamente. No grupo dos escolares ocorre uma mudança no perfil de prevalência, com as discromias formando o grupo mais numeroso (28,11%) (n=23), seguidas pelas infecções virais e dermatoses alérgicas, com 17,32% (n=22) e 11,81% (n=14), respectivamente.

 

DISCUSSÃO

Em estudos com 110 crianças hospitalizadas, Hubert et al.3 concluíram considerando muito importante o conhecimento das doenças dermatológicas, uma vez que os achados cutâneos, além de muito comuns nesse grupo, alterariam o diagnóstico e/ou tratamento em 8% dos casos. No entanto, vale ressaltar que a presente pesquisa foi realizada com pacientes ambulatoriais e não hospitalizados.

Com relação à automedicação, destacaram-se o chá de aroeira, planta bastante comum nessa região; o gelo e o sabão amarelo; muito provavelmente essas substancias foram utilizadas devido ao fácil acesso, baixo custo e por serem consideradas inócuas.

Pelos dados expostos, foi observado que os faiodérmicos compõem a maior parte dessa população e também foram os mais numerosos entre as crianças atendidas. Outro fato evidenciado foi que os indivíduos do sexo feminino constituíram a maioria dos atendidos no ambulatório, perfazendo 61% do total.

Com relação às doenças diagnosticadas, as dermatoses alérgicas formaram a maioria, com 17,64% do total. Entretanto, se consideradas as infecções num só grupo, 33,19% dos pacientes nele se enquadrariam, tornando-o o mais prevalente. Similarmente, Wisuthsarewong & Viravan4 em seu trabalho com 2.361 crianças tailandesas encontraram maior prevalência de dermatites eczematosas (41,2%) seguidas de infecções cutâneas (21,9%).

Iranir et al. 5 em trabalho realizado na Turquia determinaram a prevalência de doenças dermatológicas e sua associação aos fatores socioeconômicos em escolas primárias, tendo examinado o total de 785 crianças. Os autores concluem que as dermatoses infecciosas, dermatite atópica, eczemátide e xerose têm alta prevalência entre os mais pobres.

No que diz respeito às dermatoses alérgicas, observou-se que a prevalência variou entre 21,42%, 24% e 11,81% de acordo com as faixas etárias lactente, pré-escolar e escolar, respectivamente. Embora o eczema e as infecções sejam as dermatoses mais comuns na infância, há diminuição dos eczemas atópico e seborréico com o aumento da idade.1,6

As infecções fúngicas representaram apenas 7,98% do total de dermatoses. Estratificando-se por faixa etária, o grupo pré-escolar teve prevalência maior de dermatofitoses (12%). Os resultados obtidos não estão de acordo com a literatura mundial, em que a maioria dos autores relata que as infecções fúngicas são comuns na infância. Isso pode ser devido ao fato de os pediatras estarem aptos a tratar as dermatofitoses em geral, diminuindo a demanda para o serviço especializado. Não foram registradas onicomicoses, e esses dados estão em acordo com a literatura, pois a prevalência dessa doença em crianças é substancialmente mais baixa do que em adultos.2

Tomljanovic et al.7 reportam que em seu trabalho com 308 crianças com dermatofitoses, 81,49% tinham infecção por Microsporum spp e 18,51% por Trichophyton spp. Pfützner8 também relata que esses dois agentes são os que mais comumente infectam as crianças.

Fung e Lo 9 registram que as dermatoses mais freqüentes foram acne vulgar, eczemas, manchas café com leite, nevos melanocíticos congênitos, ceratose pilar e pitiríase alba. Esses resultados diferem do presente trabalho provavelmente devido ao fato de os autores de Hong Kong analisarem em sua pesquisa o total de 1.006 crianças e adolescentes. No estudo aqui apresentado foram incluídas apenas as crianças.

Em um estudo soroepidemiológico realizado por Semenovitch & Lupi10, com 160 crianças do Estado do Rio de Janeiro, os autores encontraram prevalência de 58,1% para o vírus varicela-zóster. Os resultados foram estatisticamente significantes e correlacionaram-se com o aumento da idade (p<0,0001). Na presente pesquisa as infecções virais foram as mais prevalentes em ambos os sexos, com 13,44% do total global. Entretanto, não foram realizados estudos sorológicos.

As infecções bacterianas foram menos freqüentes, com 5,04%. Isso pode ser decorrente do menor número de encaminhamento desses pacientes ao dermatologista pelos pediatras, talvez pelo maior conhecimento quanto à condução terapêutica em relação às dermatoses virais. Pfützner8 afirma que das infecções bacterianas o impetigo é um dos mais freqüentes, o que está de acordo com os achados descritos no presente artigo.

 

CONCLUSÃO

De todas as doenças diagnosticadas, as dermatoses alérgicas foram as mais encontradas, e esses dados estão de acordo com a literatura. Quanto às infecções, representam um grande percentual dos casos analisados, devendo-se isso provavelmente ao baixo nível socioeconômico dos pacientes em estudo.

Há uma grande carência de estudos epidemiológicos sobre as dermatoses pediátricas, o que prejudica o bom desempenho das ações de saúde. A caracterização da epidemiologia dos problemas cutâneos em crianças deve ser uma prioridade de estudos futuros. As dermatoses infantis devem ser monitoradas para que os programas de educação de saúde cutânea e medidas preventivas possam ser planejados e implementados efetivamente.

 

REFERÊNCIAS

1. Figueroa JL, Fuller LC, Abraha A et al. The prevalence of skin disease among school children in rural Ethiopia- a preliminary assessment of dermatologic needs. Pediatr Dermatol 1996; 13(5):378-81.         [ Links ]

2. Gupta AK, Chang P, Del Rosso JQ et al. Onychomycosis in children: prevalence and management. Pediatr Dermatol 1998;15(6):464-71.         [ Links ]

3. Hubert JN, Callen JP, Kasteler JS. Prevalence of cutaneus findings in hospitalized pediatric patients. Pediatr Dermatol 1997;14(6):426-9.         [ Links ]

4. Wisuthsarewong W, Viravan S. Analysis of skin diseases in a referral pediatric dermatology clinic in Thailand. J Med Assoc Thai 2000; 83(9):999-1004.         [ Links ]

5. Iranir I, Sahin MT, Gunduz K et al. Prevalence of skin conditions in primary school children in Turkey: differences based on socioeconomic factors. Pediatr Dermatol 2002;19(4):307-11.         [ Links ]

6. Goh CL, Akarapanth R. Epidemiology of skin disease among children in a referral skin clinic in Singapore. Pediatr Dermatol 1994;11(2):125-8.         [ Links ]

7. Tomljanovic-Veselski M, Zilih-Ostojic C, Topolovac Z, Kozul B. Characteristics of dermatophytoses in children treated at the Department of Dermatology and Venerology, dr Josip Bencevic General Hospital, Slanvonski Brod, Croatia, from February 1993 till February 2000. Acta Dermatovenerol Croat 2002; 10(3):151-154.         [ Links ]

8. Pfützner W. [Infectious skin disease in childhood. 1: bacteria and fungi]. MMW Fortschr Med 2002; 144(25):24-28.         [ Links ]

9. Fung WK, Lo KK. Prevalence of skin disease among school children and adolescents in a Student Health Service in Hong Kong. Pediatr Dermatol 2000; 17(6):440-6.         [ Links ]

10. Semenovitch I, Lupi O. A seroepidemiologic survey of the prevalence of varicella-zoster in the pediatric population in two university hospitals in Brazil. Int J Dermatol. 2003; 42(3):193-196.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Patricia de Barros Guimarães
Rua da Harmonia, 430 / 804 - Casa Amarela
52051-390 Recife PE
Tel: 9166-6429
E-mail: patriciagui@ig.com.br

Recebido em 13.05.2003
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 12.03.2004.

 

 

* Local de realização do trabalho: Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco/UFPE.