SciELO - Scientific Electronic Library Online

 
vol.79 número3Estudo clínico de 35 pacientes com diagnóstico de erisipela internados no Hospital Central da Irmandade da Santa Casa de Misericórdia de São PauloCoxins interfalangeanos sobre paquidermodactilia índice de autoresíndice de assuntospesquisa de artigos
Home Pagelista alfabética de periódicos  

Anais Brasileiros de Dermatologia

versão On-line ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. v.79 n.3 Rio de Janeiro maio/jun. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000300006 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Estudo de nove casos de tinha negra observados na Grande Vitória (Espírito Santo, Brasil) durante período de cinco anos*

 

 

Lucia Martins Diniz

Professora Assistente do Serviço de Pós-Graduação em Dermatologia da Emescam e responsável pelo Laboratório de Micologia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Tinha negra ou ceratofitose negra constitui-se em infecção fúngica crônica do estrato córneo da epiderme, rara, causada pelo fungo filamentoso Phaeoannellomyces werneckii. Caracteriza-se clinicamente por mancha acastanhada, de limites nítidos, pouco descamativa, assintomática, preferencialmente localizada na palma da mão.
OBJETIVO: Registrar a presença de casos de tinha negra no Estado do Espírito Santo e descrever suas características epidemiológicas.
CASUÍSTICA E MÉTODOS: Foram pesquisados casos com o diagnóstico clínico de tinha negra em meio a todos os pacientes submetidos a exames laboratoriais para a determinação de fungos no laboratório do Serviço de Dermatologia de Vitória, no período de primeiro de janeiro de 1998 a primeiro de janeiro de 2003.
RESULTADOS: Foram encontrados nove casos de tinha negra, sendo todos os portadores da raça branca com lesão localizada em uma das palmas das mãos; sete casos (77,7%) no sexo feminino, e seis casos (66,6%) na faixa de idade pré-escolar. Houve confirmação laboratorial em todos os casos.
CONCLUSÕES: a) Foram diagnosticados nove casos de tinha negra durante o estudo, mesmo em região de praia; b) o sexo feminino, a raça branca e as crianças foram mais freqüentemente acometidos; c) a localização preferencial foi na região palmar, com predileção pela mão esquerda.

Palavras-chave: epidemiologia; exophiala; tinha.


 

 

INTRODUÇÃO

A tinha negra ou ceratofitose negra constitui-se em infecção fúngica crônica do estrato córneo da epiderme, descrita na Bahia em 1891 por Alexandre Cerqueira, que a denominou Keratomycosis nigricans palmaris.1-6 Parreiras Horta em 1921 isolou o fungo de lesões e classificou-o como Cladosporium werneckii. McGinnis & Schell em 1985 propuseram um novo gênero para o fungo, devido à conidiogênese por anelação, denominando-o Phaeoannellomyces werneckii (Phaeo = escuro; annellomyces = anel), porém, nesse mesmo ano, Nishimura & Miyaji deram-lhe a última denominação - Hortae werneckii.7 Raros casos na Venezuela têm sido determinados pelo Stenella araguata.3,4

A tinha negra tem predileção por regiões tropicais e subtropicais da Ásia, África, América Central e América do Sul, mas também há casos na América do Norte.1,8 No Brasil a maioria dos casos relatados é dos estados de Pernambuco, Bahia, Rio de Janeiro e São Paulo, embora existam casos esporádicos publicados no Amazonas, Pará, Minas Gerais, Espírito Santo, Rio Grande do Sul, Ceará e Paraná.3,4,7,8,9,10

Afeta indivíduos de ambos os sexos e pode comprometer qualquer faixa etária, porém a maioria dos casos refere-se ao sexo feminino e a idades abaixo dos 20 anos.1,4,5,6,8

O Phaeoannellomyces werneckii é fungo sapróbio do meio ambiente, isolado de: solo, plantas, areia da praia, ar, peixes em decomposição e pele normal (couro cabeludo e espaços interdigitais). Os casos são evidenciados, freqüentemente, em áreas costeiras, indicando a possibilidade de ser infecção fúngica adquirida à beira-mar.1,10 Uijithof e colaboradores em 1994 identificaram o Phaeoannellomyces werneckii em áreas ricas em concentração salina.11,12

O meio de transmissão permanece desconhecido, sendo evidenciada infecção após traumatismo e, mesmo, sem nenhuma solução de continuidade da pele.8 Questiona-se o papel da imunidade celular ou da imunidade inespecífica local levando a um desequilíbrio na relação hospedeiro/fungo.1 O relato de casos familiares pode referir-se à transmissão entre humanos ou exposição à mesma fonte de infecção.4

O período de incubação da tinha negra varia de duas a sete semanas. Caracteriza-se clinicamente pelo surgimento inicial de uma ou mais manchas de coloração variando do marrom-claro ao negro, que confluem, evoluem centrífugamente, atingindo entre um e cinco centímetros, com mínima descamação, de limites nítidos, assintomáticas e desacompanhadas de qualquer processo inflamatório. Localiza-se preferencialmente na região palmar ou nos dedos, raramente nas plantas dos pés, dorso das mãos, região cervical, dorsal, genitália masculina e punhos. Raríssimos são os casos de localização palmar bilateral.1,4-8,13

Preconiza-se a diferenciação diagnóstica com nevo melanocítico, melanoma, sífilis secundária, pigmentação exógena (tintas, nitrato de prata, corantes, nanquim). Quando de lesões sediadas fora das regiões palmares, deve-se diferenciar do eritema pigmentado fixo, pitiríase versicolor, hipercromia pós-inflamatória, etc.1,8

O diagnóstico laboratorial por exame micológico direto, com hidróxido de potássio a 20% em solução aquosa de dimetil-sulfóxido, das escamas obtidas por raspado da lesão revela múltiplas hifas demácias (decorrentes do pigmento diidroxinaftaleno melanina), septadas, curtas, de diâmetro variável, conídeos marrom-claros, elípticos, unicelulares e bicelulares, característicos do Phaeoannellomyces werneckii. A semeadura das escamas provindas das lesões em meio de ágar Sabouraud determina o crescimento de colônia, inicialmente, leveduriforme, úmida, brilhante, lisa, esférica, cor cinza-olivácea, semelhante a "gota de petróleo", atingindo crescimento máximo entre 21 e 25 dias, quando se observa, então, um franjeado filamentoso na periferia. A micromorfologia da colônia mostra células globosas, leveduriformes, micélio alongado e tortuoso com inúmeros septos.11,14,15

A tinha negra pode ser tratada topicamente com agentes ceratolíticos, como o ácido salicílico 2 a 4%, e com antifúngicos: cetoconazol creme, derivados imidazólicos, ciclopirox olamina, duas vezes ao dia, por duas a três semanas. Raramente ocorre recorrência.1-4

 

CASUÍSTICA E MÉTODOS

Estudo retrospectivo baseado em dados obtidos das fichas arquivadas de pacientes que se submeteram a exames para pesquisa de fungos no laboratório do Serviço de Dermatologia da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, ES, no período de primeiro de janeiro de 1998 a primeiro de janeiro de 2003. Das fichas com o diagnóstico clínico de tinha negra foram anotados nome, idade, sexo, raça, bairro e cidade de residência dos pacientes, a localização das lesões e os resultados dos exames micológicos diretos e culturas para fungos.

O exame micológico direto das escamas retiradas por raspado das lesões dos pacientes foi realizado com a aplicação de uma gota de hidróxido de potássio a 20% em solução aquosa de dimetil-sulfóxido sobre lâmina de microscopia, recoberta por lamínula, sendo, então, a preparação observada ao microscópio óptico. As escamas foram semeadas em meio de ágar Sabouraud e observadas diariamente por período de 30 dias, para a avaliação macroscópica e microscópica da colônia.

 

RESULTADOS

Durante o período de primeiro de janeiro de 1998 a primeiro de janeiro de 2003 foram submetidos à pesquisa de fungos no laboratório 3.350 pacientes, advindos de diversos bairros da Grande Vitória, com média de 670 pacientes por ano. Deles, nove pacientes (0,26%) tiveram diagnóstico confirmado clínica e laboratorialmente de tinha negra.

Em relação à variável sexo, sete casos (77,7%) eram do sexo feminino, e dois (22,3%) eram do sexo masculino. Quanto à faixa etária, seis casos (66,6%) tinham entre três e sete anos de idade, e três deles (33,4%) eram adultos. Todos eram da raça branca e clinicamente apresentavam mancha acastanhada única, de limites nítidos, discretamente descamativa e assintomática (Figura 1), localização em uma das palmas (um caso no dedo da mão), sendo sete casos (77,7%) na mão esquerda, e dois (22,3%) na mão direita (Tabela 1).

 

 

Os exames micológicos diretos das escamas das lesões de todos os pacientes mostravam hifas filamentosas, acastanhadas, septadas, curtas, de diâmetro variável, conídeos marrom-claros, elípticos, unicelulares e bicelulares (Figura 2). As culturas em meio de ágar Sabouraud das escamas de todos os pacientes mostravam macroscopicamente o crescimento de colônia leveduriforme, úmida, brilhante, lisa, esférica, cor cinza-olivácea, semelhante a "gota de petróleo" (Figura 3). A micromorfologia das colônias utilizando-se o corante lactofenol-azul-algodão caracterizava-se por hifas septadas, blastoconídeos e artroconídeos, característicos do fungo Phaeoannellomyces werneckii (Figura 4).

 

 

 

 

 

 

Os pacientes foram tratados com antifúngicos tópicos, alguns com isoconazol, e outros com cetoconazol duas vezes ao dia, por 20 dias, com evolução para a cura, sem recorrência das lesões.

 

DISCUSSÃO

A tinha negra é infecção fúngica do estrato córneo da epiderme, de aparecimento esporádico. Durante o período do estudo foram observados nove casos de tinha negra.

Mattêde e colaboradores16 publicaram estudo no qual isolaram o agente da tinha negra nas areias de praias oceânicas, especificamente no Espírito Santo. Muitos habitantes da região da Grande Vitória têm como lazer o hábito de freqüentar as praias, entrando, conseqüentemente, em contato com a areia. Como a tinha negra é pouco observada nessa região, considerando o número de pessoas que freqüentam as praias, não deve ser esse o principal fator de contágio dessa doença, permanecendo a hipótese da participação da imunidade local desequilibrando a relação homem/fungo, permitindo a infecção pelo Phaeoannellomyces werneckii. Esse fungo apresenta adesão lipofílica à pele humana e atividade lipolítica, ali sobrevivendo devido ao fato de assimilar produtos excretados.17

A tinha negra afeta indivíduos de ambos os sexos e em qualquer idade. No entanto, na literatura existe freqüência maior no sexo feminino e abaixo dos 20 anos de idade,11 corroborando os dados deste estudo, pois sete pacientes eram do sexo feminino, sendo seis em crianças com idade variando entre três e sete anos.

Montiel, em 1986, observou que as crianças apresentavam preferencialmente lesões de tinha negra na palma da mão direita, e os adultos, na palma da mão esquerda. Sugeriu aquele autor que as manifestações estariam relacionadas à hiper-hidrose.11 Já Gondim-Gonçalves e colaboradores8 observaram maior freqüência de lesões na região palmar esquerda, fato também evidenciado neste estudo, pois sete pacientes apresentavam lesão na mão esquerda, o que, portanto, é desfavorável à hipótese de infecção após trauma, pois seria de esperar que a mão direita, geralmente a mais utilizada, estivesse comprometida com maior freqüência.

Todos os resultados dos exames micológicos diretos e culturas em meio de ágar Sabouraud confirmaram o diagnóstico de suspeição. Ressalta-se a importância desses exames no diagnóstico diferencial em casos de manchas acastanhadas, principalmente nas regiões palmares e plantares, evitando-se, assim, a realização de procedimentos invasivos na diferenciação com nevo melanocítico e melanoma. Uma alternativa na diferenciação dessas lesões pigmentares seria a utilização da dermatoscopia, que mostra um padrão pigmentar homogêneo, não melanocítico, sem seguir os dematóglifos, nos casos de tinha negra.18

 

CONCLUSÕES

a) Foram diagnosticados nove casos de tinha negra durante o estudo, mesmo em região praiana;

b) o sexo feminino, a raça branca e as crianças foram mais freqüentemente acometidos;

c) a localização preferencial foi na região palmar, com predileção pela mão esquerda.

 

REFERÊNCIAS

1. Moreira VMS, Santos VLC, Carneiro SCS, Assis TL, Carvalho MMO, Oliveira JVC. Ceratofitose Negra. An Bras Dermatol 1993; 58(5):281-5.         [ Links ]

2. Sodré CT. Ceratofitoses. An Bras Dermatol 1989; (Supl.1): 97-99.         [ Links ]

3. Purim KSM, Telles Filho FQ, Serafini SZ. Feohifomicose Superficial (Tinea Nigra) - Relato de dois casos no Paraná. An Bras Dermatol 1990;65(4):178-80.         [ Links ]

4. Marques SA, Camargo RMP. Tinea Nigra: relato de casos e revisão da literatura brasileira. An Bras Dermatol 1996;71(5): 431-5.         [ Links ]

5. Zaitz C, Campbell I, Marques AS, Luiz LRB, Souza VM. Compêndio de Micologia Médica. Ed Medsi, 1998: 77 -79.         [ Links ]

6. Talhari S, Neves RN. Dermatologia Tropical. Ed Medsi, 1995: 124-6.         [ Links ]

7. Lacaz CS, Porto E, Martins JEC, Heins-Vaccari EM, Melo NT. Tratado de Micologia Médica Lacaz. Ed. Sarvier, 2002:303-304.         [ Links ]

8. Gondim-Gonçalves HM, Mapurunga ACP, Diógenes MJN. Tinha Negra Palmar Bilateral. An Bras Dermatol 1991; 66(1): 37-8.         [ Links ]

9. Rocha GL. Tinea Nigra Palmares. An Bras Dermatol 1964; 39(3):1-4.         [ Links ]

10. Mattêde MGS, Coelho CC, Palhano Júnior L. Tinha Negra Palmar - Relato de quatro casos no Estado do Espírito Santo. An Bras Dermatol 1988;63(4):379-80.         [ Links ]

11. Dinato SLM, Almeida JRP, Romiti N, Camargo FAA. Tinea Nigra na cidade de Santos - relato de cinco casos. An Bras Dermatol 2002;77(6):721-6.         [ Links ]

12. Uijithof JM, de Cock AW, de Hoog GS, Quint WG, Van Belkum A. Polymerase chain reaction - mediated genotyping of Hortaea werneckii, causative agent of Tinea Nigra. Mycoses 1994; 37(9-10):307-12.         [ Links ]

13. Azambuja RD, Proença NG, Freitas THP, Amorim VLF. Tinea Nigra Plantaris. An Bras Dermatol 1980;55(3):151-4.         [ Links ]

14. Lacaz CS, Porto E, Martins JEC. An Bras Dermatol 1989;64 (supl1):55-91.         [ Links ]

15. Lacaz CS, Porto E, Heins Vaccari EM, Melo NT. Guia para identificação: Fungos, Actinomicetos, Algas de interesse médico. Ed Sarvier, 1998:290-1.         [ Links ]

16. Mattêde MGS, Nascimento FF, Mattêde AF, Palhano Jr L. Flora micótica das praias oceânicas poluídas e não poluídas em clima de verão. Ciência e Cultura 1986;38:664-71.         [ Links ]

17. Gottlich E, de Hoog GS, Yoshida S, Takeo K, Nishimura K, Miyaji M. Cell-surface hidrophobicity and lipolysis as essential factors in human Tinea Nigra. Mycoses 1995;38(11-12):489-94.         [ Links ]

18. Smith SB, Beals SL, Elston DM, Meffert JJ. Dermoscopy in the Diagnosis of Tinea Nigra Plantaris. Cutis 2001;68:377-80.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Lucia Martins Diniz
Rua Carlos Martins - nº 634 - Jardim - Camburi
29090-060 Vitória ES
Telefone: (27) 3337-4236 ou 3325- 0940.
E-mail: diniz@tecnosite.com.br

Recebido em 16.06.2003
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 12.03.2004.

 

 

* Trabalho realizado na Escola de Medicina da Santa Casa de Misericórdia de Vitória, Espirito Santo - Emescam.