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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.3 Rio de Janeiro May/June 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000300012 

COMUNICAÇÃO

 

Uso de esponja cirúrgica para curativo compressivo de enxerto cutâneo*

 

 

Maurício ZaniniI; Carlos D' Apparecida Santos Machado FilhoII; Fábio TimonerIII

IMembro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, residente em Cirurgia Dermatológica da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC
IIDoutor em Medicina, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, chefe interino da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC
IIIMembro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, professor auxiliar de Cirurgia Dermatológica da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O enxerto cutâneo é um modo efetivo para restaurar feridas. O curativo compressivo é importante para a vitalidade do enxerto. Os autores observaram que o uso de esponja cirúrgica como curativo compressivo em enxertos cutâneos é factível e aconselhável.

Palavras-chave: cirurgia; sobrevivência de enxerto; transplante de pele.


 

 

O enxerto cutâneo é um modo efetivo para restaurar ou reparar uma ferida, cirúrgica ou não, desde que preservados os princípios de vascularidade, antissepsia e hemostasia. Trata-se de segmento de epiderme e derme de espessura variável obtido cirurgicamente de uma área doadora a fim de ser implantado numa área receptora.1 A quantidade de derme determinará a espessura do enxerto. Em geral, quanto mais fino o enxerto maior seu potencial de vida e menor a qualidade estética.2

Após o enxerto ser fixado na área receptora é importante estabelecer um curativo compressivo. Esse curativo é de particular importância para enxertos de grande dimensão e espessura. Entretanto, existem algumas situações em que o curativo compressivo não é aconselhado, como em feridas infectadas ou localizadas em áreas que potencialmente produzem grande quantidade de linfa, como a região inguinal.1

Sabendo-se que o enxerto não apresenta pedículo vascular, o objetivo do curativo compressivo é otimizar o contato do enxerto com o leito da ferida e permitir adequada angiogênese. Em intervalo de três a cinco dias começam a surgir comunicações vasculares com a pele transplantada. O curativo compressivo reduzirá a possibilidade de deslocamentos que comprometeriam essa comunicação. Além do mais, possibilitará menor ocorrência de hematoma e seroma, eventos que habitualmente conduzem à perda de vitalidade e, por conseqüência, à falência do enxerto.2

A pressão adequada sobre o enxerto varia de 15 a 30mmHg. Pouca pressão pode produzir contato inadequado e permitir a formação de coleções líquidas. Muita pressão pode comprimir os capilares e determinar necrose do enxerto.3 A compressão pode ser obtida com alguns materiais como gazes cirúrgicas, algodão umedecido e esponja. A técnica habitual consiste em suturar um bolo de gazes sobre o enxerto. Entre o enxerto e o curativo é comum aplicar-se gaze não aderente com pomada antibiótica ou vaselina.1

O curativo compressivo é deixado por período que varia de sete a 14 dias desde que não haja sinais de infecção, sangramento ou perda da imobilização. Caso contrário, o curativo deve ser retirado, e o enxerto, examinado. Por exemplo, coleção sangüínea, purulenta ou serosa deve ser evacuada. O curativo pode ser recolocado após a correção desses eventos adversos descritos.2,4

O método mais amplamente usado de fixação do curativo é a sutura trançada superior ao material compressivo (Figura 1). Vários materiais podem ser usados na compressão, como gaze, algodão, discos plásticos, moldes de cera, etc. A idéia do uso de esponja ou espuma surgiu em 1929 com Blair e Brown, que afirmaram ser a esponja o mais prático distribuidor de pressão.1

 

 

No Serviço de Cirurgia Dermatológica são realizados enxertos cutâneos de dimensão e espessura variáveis que foram submetidos ao curativo compressivo com esponja cirúrgica usada na escovação das mãos. A escova-esponja já vem esterilizada por radiação gama-Cobalto 60 (Figura 2).

 

 

A técnica realizada é descrita a seguir. O enxerto é suturado com fio mononáilon 6.0 com pontos separados a fim de estabilizar sua localização. Suturas adicionais são realizadas nos pontos cardinais em número que varia de três a seis com fio mononáilon 5.0 a fim de fixar o curativo compressivo (Figura 3). O preparo da esponja compressiva consiste em dois passos. Primeiro, destaca-se a esponja da escova, o que é um processo muito simples; segundo, com uma tesoura ou lâmina de bisturi, reduz-se a espessura da esponja para 0,8 ou 1cm. Deixa-se uma extensão projetada para exceder em torno de 0,5cm a margem do enxerto. Antes de iniciar a colocação do curativo, é preciso certificar-se da ausência de sangramento e da correta disposição do enxerto. Em seguida, coloca-se pomada antibiótica à base de gentamicina, bacitracina ou neomicina. Sobre a pomada, coloca-se a esponja e a fixamos com as suturas adicionais. A sutura deve exercer adequada tensão para manter imobilizado o enxerto. O uso de fita cirúrgica adesiva (micropore®) sobre o curativo é permitido e reduz o desconforto estético do paciente. A reavaliação deve ser feita em prazo que pode variar de 24 a 72 horas, a fim de observar qualquer complicação cirúrgica. O curativo é retirado, e as suturas, removidas em sete dias da face e em duas semanas de outros locais (Figura 4).

 

 

 

 

A realização de curativo compressivo para enxerto cutâneo com esponja e materiais similares, embora não seja procedimento de uso recente,1,5,6 é freqüentemente esquecido no Brasil. O uso da esponja oferece muitas vantagens, a saber: baixo custo, adequada proteção do enxerto, fácil técnica de realização, moldável em diferentes formas, pressão uniformemente distribuída, retirada fácil e redução do desconforto pós-operatório do paciente. Quando comparada com os cuidados pós-operatórios da técnica habitual com gaze ou algodão, a esponja mostra-se mais prática por geralmente não aderir ao enxerto e, quando isso ocorre, poder ser retirada com mais facilidade. Nos casos em que haja necessidade de examinar o enxerto, tanto a retirada quanto a recolocação da esponja são mais fáceis do que com outras técnicas. A referência à redução do desconforto do paciente significa que os eventuais sangramentos que ocorrem no pós-operatório tendem a ser absorvidos completamente pela esponja.

O curativo ideal apresenta importantes aspectos como ventilação, absorção líquida, proteção, aplicação de pressão e método de barreira contra contaminantes.7 A esponja enquadra-se nessa definição. Com base no disposto, pode-se concluir que o uso de esponja cirúrgica no curativo compressivo de enxertos cutâneos é factível e aconselhável.

 

REFERÊNCIAS

1.Vasconez LO, Vasconez HC. Plastic & reconstructive surgery. In: Way LW. Surgical diagnosis and treatment. Connecticut: Appleton & Lange Pubs., 1994:1130-4.         [ Links ]

2. Leffell DJ. Split-thickness skin grafts. In: Robinson JK, Arndt KA, LeBoit PE, Wintroub BU. Atlas of cutaneous surgery. Philadelphia: W.B. Saunders Co., 1996:149-56.         [ Links ]

3. Larson PO. Foam-Rubber sents for skin grafts. J Dermatol Surg Oncol 1990; 16:851-4.         [ Links ]

4. Wheeland RG. Skin grafts. In: Roenigk RK, Roenigk HH Jr, eds. Dermatologic surgery: principles and pratice. New York: Marcel Dekker, 1989:323-45.         [ Links ]

5. Mehta HK. A new method of full-thickness skin graft fixation. Br J Plast Surg 1985; 38:125-8.         [ Links ]

6. Shively RE, Northington JW, Williamson GB, Gum RA. A simple skin graft dressing allowing early graft inspection. Ann Plast Surg 1981; 7: 334-5.         [ Links ]

7. Smith SL, Belmont JM, Casparian JM. Analysis of pressure achieved by various materials used for pressure dressings. Dermatol Surg 1999; 25(12): 931-4.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Dr. Maurício Zanini
Rua Vicente de Carvalho, 198
09060-590 Santo André SP
Tel.: (11) 4992-7724
E-mail: drzanini@terra.com.br

Recebido em 22.05.2003.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 23.11.2003.

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Fundação do ABC, Santo André, SP, Brasil.