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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000500005 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, EPIDEMIOLÓGICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Distribuição dos diagnósticos de lesões pré-neoplásicas e neoplásicas de pele no Hospital Universitário Evangélico de Curitiba*

 

 

Ana Paula DerghamI; Caren Cristiane MuraroI; Elisângela Aparecida RamosI; Lismary Aparecida de Forville MesquitaII; Luiz Martins CollaçoIII

IAcadêmicsa de Medicina do 5º ano da Faculdade Evangélica do Paraná (Fepar)
IIProfessora Auxiliar de Patologia da Fepar, médica dermatopatologista da Santa Casa de Misericórdia de Curitiba, mestre em cirurgia
IIIProfessor responsável pela disciplina de Patologia da Fepar, doutor em medicina interna pela UFPR

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: O câncer de pele é mais comum nas populações de pele branca. Quanto aos tumores de pele, o CBC é o mais freqüente. Das lesões pré-cancerosas, a que ocorre com mais freqüência é a ceratose actínica, que se torna maligna em percentual variável de 20 a 25% dos casos.
OBJETIVO: Analisar a ocorrência e os locais do corpo mais acometidos por lesões cancerosas de pele e também pela ceratose actínica.
MÉTODOS: Estudo retrospectivo que analisou, em 2002, biópsias de pele de 491 pacientes com diagnóstico de ceratose actínica, CBC, CEC ou melanoma, resultando em 531 diagnósticos registrados pelo Serviço de Anatomia Patológica de um hospital universitário de Curitiba.
RESULTADOS: Em amostra de 270 (54,99%) mulheres e 221 (45,01%) homens, o CBC (58,46% - 114/195) e o melanoma (61,5% - 16/26), assim como a ceratose actínica (60,79% - 107/176), acometeram mais o sexo feminino. O CEC prevaleceu no sexo masculino (64,39% - 61/94). Dos 531 diagnósticos, 62,90% (334) apontaram tumores malignos de pele, sendo o CBC o mais encontrado (39,74% - 211), e correspondendo 37,10% (197) à ceratose actínica. Quanto à localização das lesões, houve maior acometimento na extremidade cefálica, que atingiu 50,47% (268) dos casos. Em relação ao melanoma, três localizações foram mais prevalentes (dorso, região malar e pé), cada uma com 11,50% (3/26).
CONCLUSÕES: O CBC foi o tumor mais encontrado nos laudos analisados. O sexo feminino foi o mais acometido. Houve maior prevalência nas sexta e sétima décadas. A extremidade cefálica foi a localização mais comum das lesões estudadas, com exceção do melanoma, que ocorreu mais no dorso, região malar e pé

Palavras-chave: neoplasias cutâneas; epidemiologia; ceratose.


 

 

INTRODUÇÃO

O câncer de pele, caracterizado pelo crescimento anormal e descontrolado das células que compõem a pele, é o mais comum nas populações de pele branca, superando até a soma de todos os demais.1

Sua incidência exata não é conhecida, pois muitos casos não chegam a ser diagnosticados ou não são reportados pelo próprio médico. Pode ser considerado o mais freqüente de todos os tipos de câncer que acometem o ser humano.

De acordo com dados do Registro Nacional de Patologia Tumoral e Diagnósticos de Câncer do Ministério da Saúde, esse tipo de câncer é o mais comum entre os brasileiros de ambos os sexos. Em geral, as lesões são de fácil diagnóstico e possuem índices de cura superiores a 95% quando tratados precoce e corretamente.

As dermatoses pré-cancerosas são aquelas adquiridas ou genéticas, as quais podem evoluir para o câncer cutâneo.2

Tanto o câncer de pele como as dermatoses pré-cancerosas estão relacionados com a exposição excessiva à radiação solar, atingindo dessa forma, e com maior frequência, as porções do corpo expostas ao sol (cabeça, pescoço, membros). Também influem no aparecimento dessas lesões fatores como idade, sexo, grupo étnico, hábito de fumar, abuso de álcool, distribuição geográfica, cicatriz antiga, agressão física persistente, exposição a agentes radioativos etc.

A exposição solar é o maior agente ambiental implicado na indução de câncer de pele não melanoma, denominação dada ao carcinoma de células escamosas (CEC) e ao carcinoma basocelular (CBC).3 Embora a exposição solar seja hábito adquirido pelos indivíduos em fases precoces de sua vida, a média de idade dos pacientes com câncer de pele não melanoma é de 60 anos.1

Das dermatoses pré-cancerosas, a mais freqüente é a ceratose actínica, que canceriza em percentual variável de 20 a 25%.4 Quanto aos tumores de pele, o mais freqüente é o CBC (aproximadamente 65% do total das neoplasias cutâneas). No Brasil, sua distribuição aponta 68%, para o sexo masculino, e 73,3%, para o feminino, do total de todos os cânceres. Em segundo lugar está o CEC (aproximadamente 25,1% para o sexo masculino e 19,4% para o feminino). O melanoma responde por aproximadamente 5%.5

Estima-se que o câncer de pele não melanoma esteja em alta e que um milhão de casos irão ocorrer a cada ano. Estudos demonstram que 40 a 50% das pessoas nos EUA que viverem até 65 anos terão câncer de pele não melanoma. É tipicamente encontrado na cabeça, no pescoço, na face e nos braços, mas pode ocorrer em qualquer localização. A maior causa de câncer não melanoma é a radiação ultravioleta (UV), principalmente UV-b. Embora o dano celular possa ocorrer nas fases iniciais da vida, a maioria dos cânceres aparece após 50 anos, como resultado da exposição cumulativa à UV.6 O objetivo deste estudo é analisar a ocorrência e os locais do corpo mais acometidos por lesões cancerosas de pele e também pela ceratose actínica.

 

PACIENTES E MÉTODOS

Neste estudo retrospectivo os 607 pacientes que realizaram biópsias de pele com diagnóstico de ceratose actínica, CBC, CEC ou melanoma foram selecionados dos 8.287 laudos registrados pelo Serviço de Anatomia Patológica do Hospital Universitário Evangélico de Curitiba em 2002. Dos laudos correspondentes foram extraídos os seguintes dados: nome do paciente e o número de seu registro no Setor de Anatomia Patológica, idade, sexo, diagnóstico(s) e o local da realização da biópsia. A falta de qualquer um desses dados supracitados resultava no não-aproveitamento do caso para a amostra. Foram excluídos 24 pacientes (4,66%). O presente estudo analisou biópsias de pele de 491 pacientes, obtendo o total de 531 diagnósticos. A descrição dos dados foi expressa na forma de porcentagens.

 

RESULTADOS

A idade variou entre oito e 94 anos, com média de 59,81 anos. Houve estreita variação entre a idade média dos pacientes com tumores malignos (60,02 anos) e a daqueles com dermatoses (58,6 anos). Do total de 491 pacientes, 270 eram mulheres (54,99%), e 221, homens (45,01%). O CBC (58,46% - 114/195) e o melanoma (61,54% - 16/26) ocorreram mais no sexo feminino (Gráfico 1), assim como a ceratose actínica (60,79% - 107/176) (Gráfico 1). O sexo masculino prevaleceu no CEC (64,89% - 61/94). Dos 531 diagnósticos, 62,90% (334) corresponderam aos tumores malignos de pele (Gráfico 2). O tumor mais encontrado foi o CBC (39,74% - 211), seguido pelo CEC (18,27% - 97) e melanoma (4,89% - 26) (Gráfico 3). Com relação às dermatoses, 31,10% delas (197) corresponderam à ceratose actínica (Gráfico 2). Quanto à localização das lesões estudadas, houve maior ocorrência na extremidade cefálica (região frontal, face, couro cabeludo e pavilhão auricular), representando 50,47% (268) dos casos. Na face (43,5% - 231) a localização mais encontrada foi a nasal, com 91 casos (39,39%), sendo o CBC o mais prevalente nessa região (59,34% - 54/91). O melanoma acometeu mais o dorso, a região malar e o pé (11,50% - 3/26). Ocorreram ainda dois casos de tumor de colisão, ambos na face.

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O CBC é o mais freqüente dos tumores malignos de pele (70%), dado confirmado na atual casuística, que encontrou 63,17%. A maioria das lesões ocorre na região cefálica. Como local preferencial apontam-se os dois terços centrais da face, encontrando-se o ápice e asas nasais como os mais acometidos; dorso da mão e antebraço são locais em que raramente ocorrem, bem como as palmas, plantas e mucosas. O presente estudo não registrou nenhum caso nas citadas localizações. Acomete mais indivíduos a partir da quinta década,7 informação discordante dos dados deste trabalho, que registraram a sexta década como a mais acometida. Ocorre mais no sexo feminino à semelhança deste estudo. O CEC localiza-se mais comumente em lábio inferior, orelha, face, dorso das mãos, mucosas e genitália externa. Da mesma forma, o atual estudo apresentou maior ocorrência em face, principalmente nariz e lábio inferior. A sétima década foi a mais encontrada, contrariando dados de literatura que demonstram ter a sexta década o maior número de casos. É raro encontrarem-se os tumores de colisão (CEC em contigüidade com o CBC). Os autores encontraram dois casos, na face.

Embora o melanoma represente entre três e 5% dos tumores malignos,5 foram aqui registrados 7,78%. O melanoma é raro antes da puberdade. Seu pico de acometimento está entre 40 e 60 anos, informação compatível com este estudo, que demonstrou média de 50 anos. A ocorrência maior no sexo masculino é discutível. Para alguns autores, o predomínio está no sexo feminino.2 Devido a esse fato, questiona-se se há uma possível relação entre a produção de hormônio melanócito estimulante (MSH) e essa maior ocorrência do tumor nas mulheres.8 Cogita-se a influência hormonal no aparecimento e comportamento do melanoma, sendo encontrados receptores de estrógenos em melanócitos dos nevos e do melanoma, e receptores de progesterona e andrógeno no melanócito dos melanomas.9 O atual estudo encontrou dois terços dos casos em mulheres.

A ceratose actínica localizou-se principalmente na face, no couro cabeludo (calvo) e dorso dos braços e das mãos, em acordo com a literatura. Estudos mostram existir correlação entre CEC e ceratose actínica.10 Cockerell afirma em seu estudo que a ceratose actínica e o CEC representam a mesma lesão em diferentes estágios de evolução, considerando a ceratose actínica estágio mais precoce. A literatura refere que somente um em 1.000 casos de ceratose actínica desenvolve-se para CEC.11 Outros estudos computam entre 10 e 25% os casos de ceratose actínica evoluindo para carcinoma.12,13,14

Cogita-se, então, a respeito de qual seria o tumor maligno mais freqüente, se o CBC ou o CEC, já que, somando a ocorrência de ceratose actínica e CEC deste estudo, haveria maior número de casos de CEC do que CBC.

 

CONCLUSÕES

CBC foi o tumor mais encontrado nos laudos analisados. O sexo feminino foi o mais acometido. Houve maior prevalência nas sexta e sétima décadas. A extremidade cefálica foi a localização mais comum das lesões estudadas, com exceção do melanoma, que ocorreu mais em dorso, região malar e pé.

 

REFERÊNCIAS

1. Scotto J, Fears TR, Fraumeni JF. Incidence of Non-Melanoma Skin Cancer in the United States of America. U.S. Department of Health and Human Services, Bethesda, MD 1982.         [ Links ]

2. Azulay RD, Azulay DR. Oncologia Dermatológica. Em: Azulay RD, Azulay DR. Dermatologia 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1997. p.320-77.         [ Links ]

3. Kripke ML. In: Fitzpatrick TB, Eisen AZ, Wolff K, Freedberg IM, Austen KF eds. Dermatology in General Medicine. New York: Mc Graw-Hill; 1993. p.797-804.         [ Links ]

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7. Sampaio SAP, Rivitti EA. Tumores Epiteliais Malignos. Em: Sampaio SAP, Rivitti EA. Dermatologia 2ª ed. São Paulo: Artes Médicas; 2000. p. 839-45.         [ Links ]

8. Sampaio SAP, Rivitti EA. Tumores Epiteliais Malignos. Em: Sampaio SAP, Rivitti EA Dermatologia 1ª ed. São Paulo: Artes Médicas; 1998.         [ Links ]

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10. Sands AT, Abuin A, Sanchez A, Conti CJ, Bradley A. High Suscetibility to Ultraviolet-induced Carcinogenesis in Mice Lackin XPC. Nature. 1995; 377(6545):162-5.         [ Links ]

11. Cockerel CJ. Histopathology of incipient intrapidermal squamous cell carcinoma ("actinic keratosis"). J Am Acad Dermatol. 2000; 1(42):11-7.         [ Links ]

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13. Richard G, Gogau MD. Connexins: a Connection With the Skin Squamous Cell Carcinoma. Exp Dermatol Review. 2000;9:77-96.         [ Links ]

14. Sampaio SAP, Rivitti EA. Afecções Epiteliais Pré-malignas e Tumores Intra-epidérmicos. Em: Sampaio SAP, Rivitti EA Dermatologia 2ªed. São Paulo: Artes Médicas; 2000. p. 833-8.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Ana Paula Dergham
Av. República Argentina, 3995 - Bairro Novo Mundo
81050-000 Curitiba Paraná
Telefone: (41) 363-7551
E-mail: ap_dbr@yahoo.com.br

Recebido em 05.01.2004.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 07.08.2004.

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Anatomia Patológica do Hospital Evangélico de Curitiba.