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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000600009 

CASO CLÍNICO

 

Nevo de Sutton simulando nevo em cocar: relato de caso*

 

 

Maurício ZaniniI; Carlos D'Apparecida Machado FilhoII; Francisco Macedo PaschoalIII; Francisco Le VocciIII

IDermatologista, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia; Auxiliar de ensino em Cirurgia Dermatológica
IIDoutor em Dermatologia, chefe interino da disciplina de Dermatologia
IIIMestre, dermatologista, professor-assistente do Departamento de Dermatologia

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Os autores relatam um caso de nevo halo de Sutton simulando clinicamente o nevo em cocar. Nevo em cocar é uma rara variante do nevo nevomelanocítico adquirido que apresenta característico aspecto de lesão em alvo. Pode determinar dificuldade diagnóstica com nevo nevomelanocítico displásico, melanoma e nevo halo de Sutton.

Descritores: diagnóstico; nevo; nevo pigmentado; patologia.


 

 

INTRODUÇÃO

Nevo (naevus, em latim, impressão materna) é uma lesão circunscrita da pele e/ou mucosa com curso clínico longo ou permanente, provavelmente refletindo um mosaicismo genético.1,2 O nevo melanocítico é um agrupamento de nevomelanócitos na epiderme e/ou derme.3 A célula nevomelanocítica é similar ao melanócito, mas pode ser dele diferenciada por não apresentar processos dentríticos, ter aspecto mais arredondado, citoplasma mais abundante e núcleos e nucléolos mais proeminentes. Os melanossomos são idênticos aos encontrados nos melanócitos, com exceção do tamanho e número.3 Oitenta por cento ou mais da população tem ou teve pelo menos um nevo melanocítico. Tendem a aparecer ao longo do primeiro ano de vida, crescer com o desenvolvimento corporal e regredir com o envelhecimento.2,3

O nevo halo de Sutton caracteriza-se pela presença de um halo leucodérmico em torno de um nevo melanocítico.2,3 O nevo cocardiforme (em cocar) é uma rara variante do nevo melanocítico adquirido4 que apresenta caracteristicamente um aspecto de lesão em alvo.3,4 Os autores relatam um caso de nevo halo de Sutton mimetizando o nevo em cocar.

 

RELATO DE CASO

Paciente, branca, do sexo feminino, 35 anos, queixava-se de mancha em dorso há mais de um ano. A lesão cursou com lento crescimento, associado com prurido e ardência eventuais. Ao exame, observou-se em dorso lesão em alvo, bem delimitada, medindo 2x2cm, constituída de pápula central eritematosa discretamente elevada, zona circular peripapular normocrômica e halo macular de coloração acastanhada com 0,5cm de diâmetro (Figuras 1 e 2). Paciente também apresentava no dorso múltiplas máculas e pápulas acastanhadas de tonalidade variável, compatíveis com nevos melanocíticos e melanoses solares. Negava doenças e história familiar. Submetida ao estudo histopatológico com biópsia excisional com a hipótese clínica de nevo halo de Sutton, melanoma, nevo em cocar e nevo displásico. A histopatologia mostrou células nevomelanocíticas na epiderme e derme superficial, e intenso infiltrado inflamatório predominantemente linfocitário com disposição em halo (Figura 3). O diagnóstico histopatológico foi de nevo halo de Sutton.

 

 

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O nevo melanocítico é um agrupamento de nevomelanócitos na epiderme e/ou derme. É considerado um tumor benigno ou hamartoma de células nevomelanocíticas. Origina-se de um melanoblasto anormal (nevomelanoblasto) a partir da crista neural, para, então, migrar com o melanoblasto para a derme e subseqüentemente epiderme antes da oitava semana de gestação.3 As células névicas apresentam maturação seqüencial, iniciando na epiderme e posteriormente migrando para a derme, na forma de ninhos celulares. De acordo com a fase de maturação, tem-se a variabilidade clínico-histológica dos nevos melanocíticos adquiridos em juncional (epiderme), composto (epidérmico e dérmico) e intradérmico.5 Pode ser encontrado em outros locais, como a derme profunda, panículo e estruturas anexiais.1,2,3,5

O nevo halo de Sutton, também denominado leucodermia centrífuga adquirida, caracteriza-se pela presença de um halo leucodérmico em torno de um nevo melanocítico. Em 1874, Hebra e Kaposi descreveram a condição inadequadamente como vitiligo. Foi em 1916 que Sutton determinou que esse nevo era uma entidade dermatológica distinta. Afeta 1% da população geral, sem preferência familiar, sexual ou racial e com pico de incidência na segunda década de vida. Até 50% dos pacientes cursam com mais de um nevo halo, que tem predileção pelo tronco.3 O desenvolvimento do nevo halo de Sutton parece decorrer de um fenômeno de autodestruição das células névicas por mecanismo imunológico; progressivamente o nevo desaparece, permanecendo uma mácula leucodérmica que repigmenta por completo. Habitualmente é uma alteração sem expressão clínica, porém pode ser a primeira manifestação do vitiligo, sendo, então, necessário o acompanhamento do paciente.6 O fenômeno de halo, similar ao nevo halo de Sutton, pode ocorrer com o melanoma.3

O nevo cocardiforme (em cocar) é uma rara variante do nevo melanocítico adquirido, inicialmente descrito por Mehregan e King, em 1972.4 O termo cocar, de origem francesa, instituído por Happle em 1974, é usado, pois a lesão lembra uma roseta, um distintivo de fita enrolada com forma semelhante à da rosa, usado em chapéus e botoeiras.4,7 O adjetivo cocardiforme é também empregado em outros distúrbios dermatológicos, como vitiligo e púrpura.8,9 Consiste num nevo melanocítico central juncional ou composto envolto por um halo pigmentado, habitualmente um nevo juncional, e por entremeio, uma zona normocrômica, determinando à lesão um aspecto de alvo.3,4,5,7,10,11 Há pouco mais de 10 casos relatados na literatura. Talvez esse dado seja decorrente do desconhecimento dessa afecção, com conseqüente erro diagnóstico (nevo de Sutton, nevo displásico, nevo melanocítico comum).3,10 Todos os casos relatados acometiam pacientes jovens. Alguns casos podem estar associados com disrafismo espinhal e diabetes mellitus juvenil.3,4,10 O mecanismo responsável pelo desenvolvimento desse padrão clínico de nevo melanocítico é desconhecido.11 A histologia não apresenta infiltrado inflamatório, e a imunofluorescência é negativa. Esses dados excluem um mecanismo imunológico como possível responsável pelo desenvolvimento do nevo em cocar, ao contrário do que ocorre com o nevo halo de Sutton.7,11 O manejo do nevo em cocar é o mesmo do nevo melanocítico comum. Concerne ao nevo em cocar, entretanto, a eventual dificuldade no diagnóstico clínico diferencial com nevo displásico, nevo de Sutton e melanoma.

De conhecimento dos autores, esta é a primeira descrição em que o nevo halo de Sutton mimetiza o nevo em cocar. Curiosamente, a apresentação do nevo halo de Sutton mostrou-se idêntica à do nevo em cocar, pois, geralmente, no nevo halo de Sutton, o fenômeno de halo inicia-se na periferia da lesão névica. Ao contrário do habitual, no paciente aqui relatado, o halo iniciou-se intermediamente, entre a periferia e o centro do nevo melanocítico. A correlação clinicopatológica revelou que a pápula central, predominantemente eritematosa, se constituía de células névicas dérmicas envoltas por infiltrado inflamatório, e a área circular pigmentada de células névicas epidérmicas.

 

REFERÊNCIAS

1. Wilkinson DS. Glossary of dermatological terms. In: Rook A, Wilkinson DS, Ebling FJG. Textbook of dermatology. London: Blackwell Science; 1998. p.3667.        [ Links ]

2. Atherton DJ. Naevi and other development defects. In: Rook A, Wilkinson DS, Ebling FJG. Textbook of dermatology. London: Blackwell Science; 1998. p.519-20.         [ Links ]

3. Rhodes AR. Benign neoplasias and hyperplasias of melanocytes. In: Fitzpatrick TB, Freedberg IM, Eisen AZ et al. Dermatology in medicine general. New York: McGraw-Hill; 1999. p.1018-22.        [ Links ]

4. MacKie RM. Melanocytic naevi and malignant melanoma. In: Rook A, Wilkinson DS, Ebling FJG. Textbook of dermatology. London: Blackwell Science; 1998. p.1728-9.        [ Links ]

5. Barnhill RL. Tumors of melanocytes. In: Barnhill RL. Textbook of dermatopathology. New York: McGraw-Hill; 1998. p.537-42.         [ Links ]

6. Azulay RD, Azulay DR. 2 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogman; 1999. p.344.        [ Links ]

7. Happle R. Kokardennaevus: eine ungewöhnliche variante des naevuszellnaevus. Hartuzt. 1974;25:594-6.        [ Links ]

8. Dupre A, Christol B. Cockade-like vitiligo and linear vitiligo a variant of fitzpatrick's trichrome vitiligo. Arch Dermatol Res. 1978; 28;262:197-203.         [ Links ]

9. Morelli P, Della Morte MA, Silva A, Valli F. La porpora "a coccarda" di Seidlmayer. Presentazione di un caso. Pediatr Med Chir. 1985;7:325-9.        [ Links ]

10. Capella GL, Altomare G. Cockade nevi and spinal dysraphism. Int J Dermatol. 2000; 39:318-20.        [ Links ]

11. James MP, Wells RS. Cockade naevus: an unusual variant of the benign cellular naevus. Acta Derm Venereol. 1980;60:360-3.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Maurício Zanini
Rua Elsa Odebrecht, 538
89021-135 Blumenau SC
E-mail: drzanini@terra.com.br

Recebido em 02.01.2003
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 05.12.2003

 

 

* Trabalho realizado no Instituto da Pele Prof. Dr. Luiz Henrique Camargo Paschoal - Faculdade de Medicina do ABC, Santo André, SP, Brasil.