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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.79 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2004

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962004000600012 

QUAL O SEU DIAGNÓSTICO?

 

Caso para diagnóstico

 

 

Maurício ZaniniI; Carlos D'Apparecida Santos Machado FilhoII; Fábio TimonerIII; José Antônio TebcheraniIV

IMembro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, residente em Cirurgia Dermatológica da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC
IIDoutor em Medicina, membro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, chefe interino da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC
IIIMembro efetivo da Sociedade Brasileira de Dermatologia, professor auxiliar de Cirurgia Dermatológica da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Medicina do ABC
IVMédico patologista da Faculdade de Medicina do ABC e Complexo Hospitalar Padre Bento

Endereço para correspondência

 

 

HISTÓRIA DA DOENÇA

Paciente de 46 anos, do sexo feminino, fototipo III de Fitzpatrick, do lar, queixa-se de mancha na face com três anos de evolução. Refere lento crescimento, com períodos de melhora no inverno e piora no verão. O uso de pomadas medicinais de barreira confere melhora parcial. Nega o aparecimento de outras lesões cutâneas. Quanto a sua história mórbida e familiar, nada digno de nota; exame físico dentro da normalidade. Observou-se, na região labial superior esquerda, discreta lesão eritematosa, ligeiramente atrófica, não infiltrada, de limites regulares e pouco perceptíveis, e com formato oval de 2x1,5cm (Figura 1).

 

 

O estudo histopatológico revelou coleções bem definidas de células basofílicas basalióides, com disposição em paliçada na periferia, e com retração estromal adjacente formando lacunas ou fendas (Figuras 2 e 3).

 

 

 

 

COMENTÁRIO

As hipóteses clínicas estabelecidas foram de dermatite seborréica, dermatite de contato, dermatite perioral, lúpus eritematoso, doença de Bowen e carcinoma basocelular. O diagnóstico final foi obtido pela histopatologia e confirmou o carcinoma basocelular (CBC) superficial. A paciente foi conduzida com 5-fluorouracil (5FU) tópico 5% aplicado diariamente, apresentando resolução do quadro após três meses de tratamento. Com um ano de seguimento não houve recidiva.

O CBC é o tumor maligno mais comum no ser humano, sendo inicialmente descrito por Jacob, em 1827.1,2 É responsável por 70% dos cânceres cutâneos não melanoma.3 Geralmente surge a partir dos 30 anos de idade, e seus locais preferenciais de desenvolvimento apresentam alta densidade de glândulas sebáceas, particularmente a face. Oitenta e cinco por cento dos casos surgem na cabeça e no pescoço, sendo a pirâmide nasal o local mais comum (30%).1 Em recente estudo retrospectivo brasileiro, o sexo feminino teve maior incidência (55,7%) do tumor.2

Embora a origem do CBC seja questionável, acredita-se que se dê a partir da camada basal e/ou da bainha externa do folículo piloso.1 A radiação ultravioleta é considerada o principal desencadeador da neoplasia, porém outras irradiações ionizantes, ingestão de arsênio, inflamação crônica, injúria térmica e derivados do coaltar também são fatores de risco.1

Existem diversas formas clínico-histológicas do CBC, sendo o tipo nodular o mais comum.1 De acordo com Bandeira et al., de 704 CBCs estudados histologicamente, a forma superficial foi responsável por 14,1% dos casos.2 O CBC superficial ou eritematoso é uma variante clínico-histológica que geralmente se manifesta como lesão eritematosa - com ou sem escamação, de formato arredondado ou ovalado e com limites definidos -, porém nem sempre perceptível. É mais freqüente no tronco.4 Na histopatologia, observam-se múltiplas coleções tumorais surgindo a partir da epiderme, com disposição em paliçada em sua periferia e retração estromal justatumoral.4

Existem diversas modalidades de tratamento para o CBC superficial a saber, curetagem, excisão cirúrgica, terapia fotodinâmica, criocirurgia, radioeletrodissecção, laser e quimioterapia tópica.5,6 Devido à baixa faixa etária da paciente, à localização estética e ao padrão clínico-histológico pouco agressivo, optou-se por 5FU creme 5% de uso diário.

O imiquimod tópico, um imunomodulador, determina índice de cura que varia de 87 a 100%, porém ainda não deve ser usado como rotina até que estudos bem controlados sejam concretizados.4 Apesar de a radioterapia ser uma terapêutica aclamada por alguns, os autores a consideram a última alternativa, principalmente para pacientes jovens, sobretudo por possuir potencial oncogênico não desprezível.7

O uso do 5FU creme a 5% é limitado ao CBC superficial e deve ser feito por período médio de três meses, em aplicação diária, com índice de cura variando de 80 a 95%.5 O uso oclusivo pode potencializar o efeito desse quimioterápico. O maior inconveniente dessa terapêutica é o processo inflamatório local, que determina dor, eritema e exsudação, bem como o tempo prolongado de tratamento.5

 

REFERÊNCIAS

1. Barnhill RL. Textbook of dermatopathology. 1st ed. New York: McGraw-Hill; 1998. p. 512-4.

2. Bandeira AM, Bandeira V, Silva JF, Mazza E. Carcinomas basocelulares: estudo clínico e anatomopatológico de 704 tumores. An bras Dermatol. 2003; 78:23-34.

3. Festa Neto C. Tratamento tópico do carcinoma basocelular superficial e nodular pelo imiquimod creme a 5%: observação de 10 casos. An bras Dermatol. 2002; 77: 693-8.

4. Azulay RD, Azulay DR. Dermatologia. 2ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara-Koogan; 1999. p. 333-6.

5. Gadelha AR, Costa IMC. Cirurgia dermatológica em consultório. 1a ed. São Paulo: Atheneu; 2002. p. 321-7.

6. Nouri K, Chang A, Trent JT, Jiménez GP. Ultrapulse CO2 used for the successful treatment of basal cell carcinomas found in patients with basal cell nevus syndrome. Dermatol Surg. 2002;28:287-290.

7. Ekmekçi P, Bostanci S, Anadolu R, Erdem C, Gürgey E. Multiple basal cell carcinomas developed after radiation therapy for tinea capitis: a case report. Dermatol Surg. 2001; 27:667-9.

 

 

Endereço para correspondência
Dr. Maurício Zanini
Rua Vicente de Carvalho, 198
09060-590 Santo André SP
Telefone: (11) 4992-7724
E-mail: drzanini@terra.com.br

 

 

* Trabalho realizado na Faculdade de Medicina da Fundação do ABC, Santo André - São Paulo, Brasil (disciplina de Dermatologia).