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Anais Brasileiros de Dermatologia

versão impressa ISSN 0365-0596versão On-line ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. v.80 n.1 Rio de Janeiro jan./fev. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962005000100013 

MEMÓRIA

 

Os pioneiros da dermatologia - Parte 2 - A propósito da vida e obra de Paul Gerson Unna

 

 

Ney Romiti

Professor Emérito. Titular da Disciplina de Clínica e Patologia da Dermatologia da UNILUS

Endereço para correspondência

 

 

 

Necessário se faz apresentar à nova geração dos dermiatras a vida do médico Paul Gerson Unna que é mais conhecido, tão-somente, por sua revolucionária bota-de-Unna, mas esta, de significado bem menor quando comparada com a extensa e marcante contribuição à formação e ao pioneirismo na dermatologia, tanto na pesquisa quanto em sua atuação docente, o que ainda mais se realça por não ter, ao longo de anos, usufruído da proteção universitária.

Paul Unna nasceu em Hamburgo (08/09/1850) e foi tardiamente, em homenagem à tradicional família materna de médicos de Hamburgo desde o século 17, que incorporou o sobrenome Gerson ao seu de batismo, tornando-se assim Paul Gerson Unna. Seu pai foi respeitável clínico geral, assim como três de seus filhos (Karl, Paul Jr. e Georg Wilhelm) dermatologistas, e o quarto, Eugen, farmacêutico. Sua formação médica na graduação deu-se nas Universidades Heidelberg, Leipzig e Strassburg, e foi em Viena, atraído pela fama dessa Escola (Hebra, Kaposi e Auspitz), que fez a pós-graduação em dermatologia. Seu interesse pela especialidade já se define em sua dissertação inaugural quando, sob orientação do anatomista Waldeyer, apresentou a tese "Contribuição à Histologia e Formação da Derme e seus Anexos". A originalidade de minucioso pesquisador já aí se delineia quando detalha a estrutura da pele caracterizando sua diferenciação em quatro camadas e responsabilizando a basal pela regeneração da epiderme.

É de 1894 sua abrangente publicação: A Histopatologia das Doenças da Pele. Essa obra foi o resultado de extenuante pesquisa sobre os achados anatomopatológicos consagrados na época, mas também colocações originais que se opunham a muitos dos conceitos preestabelecidos. Esse livro foi o básico para todos aqueles que foram atraídos pela dermatologia. Ainda hoje, clássico é o capítulo "Nevi". Merece ser realçada a complementação patológica com detalhes clínicos e orientação terapêutica. São dessa época seus originais métodos de coloração para evidenciar e diferençar as estruturas e composição da pele. Assim, identificou as células, plasmáticas, névicas, a composição do colágeno e da elastina, a espongiose, a degeneração em balão e reticular da camada espinhosa na varicela, zóster e outras buloses. Também à bacteriologia, patologia e terapia da lepra dedicou especial atenção, e é de 1884 sua visita a Armauer Hansen, na Noruega. Para esses doentes, vindos de todo o mundo, construiu enfermaria no jardim de sua clínica. Especiais e originais métodos de coloração para o bacilo da lepra foram descritos. Afirmava que a doença denominada zaraath, descrita no terceiro livro de Moisés, seria tão-somente a denominação para ampla coletânea de diferentes dermatoses, portanto não só a lepra. Diversas outra dermatoses foram alvo de sua descrição e caracterizou em detalhes e batizou aquela que hoje conhecemos como dermatite seborréica.

Sempre esteve atento aos avanços terapêuticos, sendo muitos deles originais e que mereceram diversas monografias intituladas "O diagnóstico e a terapia das dermatoses". A indicação da cignolina, derivado do antranol, para a terapia da psoríase é de 1916. Os emplastos, as gazes gessadas e congêneres com ou sem ácido salicílico tornaram-se importantes recursos terapêuticos. Sabonetes com ictiol, ácido salicílico, enxofre, alcatrão, resorcina com veículos hidratantes pertencem a essa época e até hoje os produtos comercialmente conhecidos como Nivea fazem parte do arsenal terapêutico atual. Foi pioneiro na pesquisa da bio e histoquímica da pele; queratina, cromólise, oxirredução, proteínas pertencem a essa safra. É ainda de sua lavra a introdução do termocautério e o expressor de comedões como recursos terapêuticos nos procedimentos cirúrgicos.

Extensa é sua produção bibliográfica, em que se incluem mais de 500 publicações, realçando-se seu Atlas de Histologia e Patologia da Pele, que mereceu diversas edições entre 1896 e 1910. Conjuntamente com Morris (Londres), Duhring (Filadélfia) e Leloir (França), edita o famoso Atlas Internacional das Raras Doenças da Pele, escrito em francês, inglês e alemão, em que fica acentuada a importante troca de conhecimentos e atualização no conceito das dermatoses.

Foi tardiamente, em 1907, aos 57 anos de idade, que o senado de Hamburgo lhe conferiu o título de professor e a direção de duas enfermarias no Hospital Eppendorfer, e, em 1919, a recém-criada Universidade de Hamburgo concedeu-lhe o título de professor honorário.

Conjuntamente com dois outros dermatologistas, Hans v. Hebra e Oscar Lassar, editou a revista de publicação mensal Monatshefte fuer praktische Dermatogie (1882), que foi rebatizada como Dermatologisch Wochenschrifte e logo Dermatologisch Monatsschrifte.

Reconhecia a especial necessidade da reciclagem médica e já em 1888 organizava cursos teórico-práticos para os médicos, em meio aos quais já se incluíam diversos estrangeiros.

Constante foi seu amor e dedicação à música, que traduziu por concertos semanais realizados em sua casa, atuando como exímio celista.

As referências bibliográficas fazem parte do artigo de A. Hollander (seu último discípulo): Monatsschrift 1974. Band 160, Heft 1. q

 

 

Endereço para correspondência
Ney Romiti
Rua Machado de Assis, 303
11050 - 060 Santos SP

Recebido em 04.10.2004.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 04.10.2004.

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