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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.80 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962005000200003 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, EPIDEMIOLÓGICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Dermatite de contato por metais: prevalência de sensibilização ao níquel, cobalto e cromo*

 

 

Ida DuarteI; José Roberto AmorimII; Eliene Félix PerázzioIII; Rutsnei Schmitz JuniorIV

IProfessora Adjunta da Disciplina de Dermatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP)
IIMédico dermatologista em estágio de especialização na clínica
IIIResidente da disciplina de Dermatologia da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP)
IVAcadêmico da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo (SP)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Dermatite de contato (DC) por metais é dermatose comum em diversos grupos populacionais.
OBJETIVOS: Caracterizar o grupo com DC ao níquel, cromo e cobalto na população estudada, determinar a prevalência da sensibilização aos mesmos, verificar as combinações de testes positivos e comparar com a literatura.
CASUÍSTICAS E MÉTODOS: Foram realizados testes epicutâneos em 1.208 pacientes com hipótese diagnóstica de DC. Selecionaram-se aqueles com testes positivos aos metais.
RESULTADOS: Obtiveram-se 404 pacientes (33,5% da amostra) com pelo menos um teste positivo ao níquel e/ou cobalto e/ou cromo. Foram 487 testes positivos a metais, correspondendo a 48% de todos os testes positivos. A maioria dos pacientes era do sexo feminino (72%), de cor branca (54%), com idade entre 40 e 49 anos (25%) empregada na área de limpeza (59%). Dos 404, 329 (81,5%) foram positivos a apenas um tipo de metal, sendo 60% com teste positivo ao níquel, 13% ao cromo e 8,5% ao cobalto. Cerca de 18,5% apresentaram testes positivos a dois ou três metais, sendo a associação níquel/cobalto a mais comum.
CONCLUSÕES: A sensibilização aos metais foi de 48%, entre os testes positivos e ocorreu principalmente em mulheres da cor branca, na faixa etária de 40 a 49 anos e sem correlação ocupacional. A maioria apresentou sensibilização a apenas um metal. Esses dados são semelhantes aos de outros trabalhos já publicados.

Palavras-chave: Cobalto; Cromo; Dermatite de contato; Metais; Níquel.


 

 

INTRODUÇÃO

Níquel, cobalto e cromo são os metais mais comumente responsáveis pela dermatite de contato por metais. A sensibilização por esses componentes pode estar relacionada ou não à profissão. A concomitância de testes positivos a esses elementos ocorre, na maioria das vezes, por co-sensibilização, devido à exposição simultânea a materiais contendo esses elementos em sua composição.1-3

Não há na literatura consultada relato sobre o comportamento da sensibilização a metais na população brasileira.

Assim sendo, os principais objetivos deste trabalho foram: 1) determinar a prevalência de sensibilização ao níquel, cobalto e cromo, na população brasileira, com hipótese diagnóstica de dermatite de contato, atendida num serviço assistencial entre 1995 e 2002; 2) caracterizar o subgrupo com dermatite de contato por metais, 3) verificar as combinações de testes positivos entre esses três componentes, 4) comparar os resultados com aqueles obtidos na literatura.

 

CASUÍSTICA E MÉTODOS

Durante o período compreendido entre 1995 e 2002, foram realizados testes de contato em 1.208 pacientes com hipótese diagnóstica de dermatite de contato encaminhados ao Setor de Alergia e Fototerapia da Clínica de Dermatologia da Santa Casa de São Paulo.

Os pacientes foram submetidos à bateria de testes epicutâneos preconizada pelo Grupo Brasileiro de Estudos em Dermatite de Contato,4 fabricada pela FDA-Allergenic e composta por 30 elementos (Quadro 1).

 

 

A leitura dos testes foi realizada em 48 e 96 horas de acordo com os critérios adotados pelo grupo e pelo International Contact Dermatitis Research Group - ICDRG em 1981.5

Os dados obtidos foram adicionados a um protocolo elaborado no programa EPI-INFO 6.4. para compilação dos resultados.

 

RESULTADOS

Dos 1.208 pacientes testados, 804 (66,5%) tiveram testes negativos aos metais e 404 (33,5%) apresentaram testes positivos a um ou mais dos metais - níquel, cobalto e cromo - e relevantes com a história clínica dos pacientes. Para um intervalo de confiança de 95% a estimativa da proporção de sensibilização aos metais está entre 31% e 36%.

Com relação aos testes positivos, no total foram 1.009 testes positivos a diferentes compostos entre os 1.208 pacientes testados, sendo 487 testes positivos a metais em 404 pacientes. Assim, 48% dos testes positivos estavam relacionados ao níquel, cromo ou cobalto, e a média foi de 1,2 teste positivo por paciente (Quadro 2).

 

 

A distribuição dos pacientes de acordo com o sexo é apresentada na tabela 1 e de acordo com a cor na tabela 2. Foram 113 homens (28% dos casos) e 291 mulheres (72%), sendo 218 brancos (54%), 70 negros (17%), 108 pardos (27%) e oito amarelos (2%).

 

 

 

 

A tabela 3 relaciona a distribuição dos pacientes de acordo com a idade. Foram 36 pacientes (9%) com idade entre 10 e 19 anos, 78 (19%) entre 20 e 29, 94 (23,5%) entre 30 e 39, 101 (25%) entre 40 e 49, 53 (13%) entre 50 e 59 anos, e 42 (10,5%) com 60 anos ou mais.

 

 

A tabela 4 mostra as localizações da dermatose, sendo mais freqüente nas mãos em 151 casos (37,5%), seguindo-se o segmento cefálico em 125 (31%), membros superiores, exceto mãos, em 121 (30%), membros inferiores, exceto pés, em 89 (22%), pés em 47 (12%), abdômen em 32 (8%) e tronco em oito (2%). No total foram 573 localizações com média de 1,4 local por paciente.

 

 

Na tabela 5 têm-se as profissões dos pacientes com testes positivos aos metais. A maioria era do setor de limpeza, incluindo as donas-de-casa, num total de 239, correspondendo a 59% dos casos. Seguiram-se 35 trabalhadores da construção civil (9%), 35 trabalhadores em escritório/estudantes (9%), 33 trabalhadores da saúde (8%), 15 mecânicos/metalúrgicos (4%), 14 balconistas/vendedores (3%), 11 cabeleireiros (3%), oito alfaiates/costureiros (2%), quatro marceneiros (1%), quatro trabalhadores da lavoura (1%). Seis pacientes (1%) não referiram nenhuma atividade profissional na época da realização dos testes de contato. Ainda com relação à profissão, 154 (39%) referiram aparecimento ou piora da dermatose com a atividade profissional, enquanto 250 (61%) não fizeram tal associação.

 

 

Na tabela 6 estão relacionados os testes positivos aos metais isolados ou associados entre si. Entre os 404 pacientes com testes positivos aos metais, 329 (81,5%) só eram sensíveis a um dos metais testados, sendo, 243 pacientes (60%) ao níquel, 52 (13%) ao cromo e 34 (8,5%) ao cobalto. Na associação de metais, 75 (18,5%) tiveram mais de um teste positivo, com oito pacientes (2%) com testes positivos ao níquel e ao cromo, 39 (9,5%) ao níquel e ao cobalto, 20 (5%) ao cromo e ao cobalto, e oito pacientes (2%) aos três componentes.

 

 

A tabela 7 demonstra de modo estatisticamente significante que o níquel apresentou maior prevalência de sensibilização de modo isolado quando comparados aos outros metais. Por outro lado, o cobalto teve maior índice de testes positivos quando associado ao cromo e ao níquel (X2=82,41; p<0,00001).

 

 

DISCUSSÃO

Neste trabalho 33,5% dos pacientes tiveram um ou mais testes positivos aos metais, correspondendo a 48% de todos os testes positivos. Em outras populações de perfil semelhante já estudadas, níquel, cromo e cobalto são os principais sensibilizantes,6-9 sendo o cromo mais comum em homens, e o níquel o principal sensibilizante em mulheres.8,10 Neste estudo, 78% eram mulheres, o que provavelmente contribuiu para o níquel ser a substância com maior número de testes positivos.

Assim, com relação à prevalência de sensibilização e ao sexo, os resultados foram semelhantes aos de publicações anteriores.

Em relação à idade, todas as faixas etárias estavam representadas, sendo que 48,5% dos pacientes tinham entre 20 e 49 anos, correspondendo à faixa de maior produtividade da população, brasileira, conseqüentemente a mais exposta à sensibilização.

Com relação à localização da dermatite de contato, os dados obtidos correspondem aos de estudo anteriormente realizado nessa população,4 demonstrando que as localizações mais comuns da dermatite de contato por metais são também mãos, face e membros superiores.

A maioria dos pacientes (59%) tinha sua atividade profissional relacionada a serviços de limpeza, incluindo as donas-de-casa. Cerca de 322 pacientes (83%) tinham sua atividade profissional relacionada a trabalho úmido (trabalhadores no setor de limpeza, pedreiro, pintor, cabeleireiro, etc). A presença de metais em produtos de limpeza tem sido relatada como potentes agentes desencadeadores ou mantenedores da dermatite de contato por metais.11 O trabalho em meio úmido associado à exposição aos metais favoreceu a sensibilização em 39% dos pacientes.

Os trabalhadores de limpeza estão relacionados a todos os tipos de metal, devido ao contato com o níquel e o cromo, e à co-sensibilização pelo cobalto.

O principal sensibilizante foi o níquel, ocorrendo em 243 pacientes como sensibilizante único e, em 55, associado ao cromo e cobalto. Esse componente teve diferença estatisticamente significante em relação ao cobalto, o qual apresentou maior freqüência de sensibilização quando associado a níquel ou cromo. A concomitância de sensibilização a metais ocorre por co-sensibilização, ou seja, pela exposição a materiais com diferentes metais em sua composição. Vários trabalhos demonstram a ausência de reação cruzada ao níquel, cromo e cobalto.8,12,13

A sensibilização ao cobalto ocorre principalmente pela presença desse metal em materiais que também contêm cromo e níquel, o que justifica a sensibilização ao cobalto ser mais comum associada aos outros metais, como aconteceu no presente trabalho.

Em alguns países da Europa, como a Dinamarca, estabeleceram-se nos últimos anos várias normas para diminuir a sensibilização ao cromo e ao níquel. A adição de sulfato ferroso no cimento, para diminuir a quantidade de cromo trivalente, já demonstrou ser eficiente na diminuição da incidência de dermatite alérgica de contato por cimento.14 A obrigatoriedade de utilização de metais, especificamente aqueles usados em bijuterias e piercings, com liberação de menores quantidades de níquel, já resultou em índices menores de sensibilização ao níquel nos últimos anos.15-17 Atualmente deve-se salientar o papel de novos costumes favorecendo a alergia a metais. Massimiliano et al.15 publicaram artigo descrevendo dois pacientes com dermatite alérgica ao níquel desencadeada por telefone celular. Matilla et al.16 relataram aumento da incidência de alergia ao níquel, principalmente em mulheres entre 1985 e 1995, associado ao uso de bijuterias e piercings. Erlich et al.17 sugeriram o aumento da sensibilização ao níquel associado ao maior uso de piercings.

 

CONCLUSÃO

Em resumo, no grupo estudado, a dermatite de contato por metais teve freqüência similar à de outros estudos já relatados, correspondendo a 48% dos testes positivos. Cerca de 33,5% da população estudada apresentou sensibilização aos metais, ocorrendo principalmente em mulheres da cor branca, na faixa etária de 40 a 49 anos. Em 39% houve associação da dermatose com a profissão dos pacientes estudados. A maioria apresentou sensibilização a apenas um tipo de metal, ressaltando que a sensibilização ao cobalto foi mais comum quando associada ao teste positivo ao níquel.

Todos os dados obtidos são semelhantes aos de outras populações estudadas, demonstrando que, no Brasil, o grupo estudado apresenta características semelhantes em relação à sensibilização a metais.

A continuação do estudo permitirá, no futuro, avaliar outros fatores que poderão interferir na incidência desse tipo de dermatose na população em geral. q

 

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Endereço para correspondência
Ida Duarte
Rua Diana, 820 / 1151
São Paulo - SP - 05019-000
Tel: (11) 223-0501
E-mail: idaduarte@terra.com.br

Recebido em 30.06.2004.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 04.02.2005.

 

 

*Trabalho realizado no Ambulatório de Dermatologia do Hospital Central da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (SP).