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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.80 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962005000200010 

COMUNICAÇÃO

 

Eritema ab igne: relato de um caso*

 

 

Magda Blessmann WeberI; Humberto Antonio PonzioI; Francine Batista CostaII; Leandra CaminiIII

IProfessor adjunto; mestre de Dermatologia. Universidade Luterana do Brasil - ULBRA, Porto Alegre (RS)
IIMédica residente do Hospital Nossa Senhora de Fátima, Caxias do Sul (RS)
IIIMédica formada pela Universidade Luterana do Brasil - ULBRA, Porto Alegre (RS)

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A lesão cutânea do eritema ab igne é caracterizada por eritema reticulado, hiperpigmentação, descamação fina, atrofia epidérmica e telangiectasias. Atualmente, a região lombar é a mais atingida, devido ao uso de bolsas de água quente, para alívio de dores crônicas, e por constantes exposições a calor profundo em sessões de fisioterapia. Os autores alertam sobre uma dermatose pouco diagnosticada e que talvez seja mais prevalente pela alta freqüência com que são realizados tratamentos fisioterápicos.

Palavras-chave: Eritema; Fisioterapia (especialidade); Radiação térmica.


 

 

Atualmente o eritema ab igne (EAI) ou eritema calórico é raro ou pouco relatado.1-3 Caracteriza-se por eritema reticulado, hiperpigmentação, descamação, atrofia epidérmica e telangiectasias, presentes em áreas de exposição prolongada à radiação térmica.4-6 Geralmente é assintomático, mas os pacientes podem referir ardência e prurido.6 A lesão é adquirida pela exposição repetida e prolongada7 à radiação infravermelha em temperatura de até 45ºC.4,7,8

A radiação infravermelha pode ser produzida a partir de diversas fontes de calor, tais como bolsas de água quente, braseiros, fornos a gás ou a carvão e radiadores a vapor.1,2,7-9 Atualmente, o predomínio das lesões é na região lombosacral devido às dores crônicas nessa área e o conseqüente uso repetido e prolongado de calor no local para alívio desses sintomas.1,2,10 Imamura et al. relatam que os tratamentos fisioterápicos, recomendados com mais freqüência nos dias de hoje, usam o ultra-som e a diatermia de ondas curtas para promover, através de ondas mecânicas de alta freqüência, uma vibração extremamente rápida nos tecidos de forma a gerar calor e conseqüente dilatação dos vasos locais e alívio da dor.9

As alterações histopatológicas incluem atrofia epidérmica e perda da junção dermoepidérmica com alterações vacuolares na camada basal.1,3-5 Ocorre fragmentação do colágeno,1,3 deposição de melanina e hemossiderina, e formação de telangiectasias,1,3-5,8 além de infiltração perivascular de leucócitos polimorfonucleares, linfócitos e histiócitos.5 Há também acúmulo de tecido elástico na derme superior.5,6 Alguns casos mostram hiperceratose e displasia epidérmica, similares à ceratose actínica.3,4,6

A lesão característica do EAI associada à história de exposição excessiva ao calor na área de aparecimento facilita o diagnóstico clínico da doença.8,10 A duração das exposições repetidas necessárias para provocar alterações na pele varia de alguns meses a anos, e o dano parece ser cumulativo.7 Uma complicação rara e tardia é a transformação maligna do EAI em carcinoma epidermóide.4,6-8.

Há relatos de boa resposta terapêutica ao uso tópico do creme de 5-FU, pela inibição do metabolismo dos queratinócitos displásicos.7 A simples e precoce suspensão das fontes de calor é suficiente para o desaparecimento espontâneo da lesão ou para que sua coloração fique menos aparente.10 A lesão pode tornar-se permanente se a exposição ao calor for recorrente.5

Paciente do sexo feminino, branca, 40 anos, há um ano apresentando dores na região lombossacra, em acompanhamento com fisioterapeuta. Compareceu à consulta com queixa de mancha assintomática na região lombar, de evolução lenta, há seis meses. Desde o início do quadro de dor, há um ano, vinha fazendo uso diário de calor no local, com bolsa de água quente, aliada à fisioterapia, com aplicações de ultra-som e ondas curtas, de forma cíclica. Ao exame da pele, apresentava mancha eritêmato-acastanhada, reticulada, abrangendo toda a região lombossacra (Figura 1). O exame histopatológico revelou discreto edema dérmico, sobretudo perivascular, onde havia discreta infiltração linfocitária focal (Figura 2). Com o diagnóstico de eritema ab igne, a paciente foi orientada a suspender o uso de calor local e não aplicar medicamento tópico ou sistêmico. A reavaliação, três meses depois, mostrou o desaparecimento quase total das lesões.

 

 

 

 

O eritema ab igne é dermatose dependente de calor que resulta em pigmentação reticulada com telangiectasia e atrofia. Geralmente, é assintomática, sendo o diagnóstico realizado por meio da história de exposição ao calor na área acometida e pelas características morfológicas da lesão.

No caso aqui apresentado, a localização da dermatose é coerente com os casos atualmente descritos, em função do uso cada vez mais freqüente da fisioterapia e seus procedimentos terapêuticos associados, como o ultra-som, a diatermia de ondas curtas e as bolsas de água quente, caracterizando, assim, lesões iatrogênicas.

Embora a histopatologia do caso descrito não demonstre significativas alterações, houve reconhecimento de infiltração linfocitária discreta perivascular, uma característica histopatológica do eritema ab igne.

Nesse caso, a correlação causa/efeito pôde ser facilmente estabelecida. O diagnóstico, portanto, é essencialmente clínico. Quando ocorre involução espontânea do quadro, após suspensão das fontes de calor, ou seja, por meio de um teste terapêutico, a suspeita diagnóstica de eritema ab igne é reforçada.

Os pacientes que se submetem a tratamento fisioterápico por tempo prolongado devem ser orientados no sentido de observar o aparecimento de manchas na região de aplicação de calor, e assim tornar possível o diagnóstico de uma dermatose de solução terapêutica simples, mas com possibilidade de degeneração maligna, quando de longa evolução. q

 

REFERÊNCIAS

1. Galvin S, Buchness MR. Rectangular reticulate patches on the pretibial areas. Erythema ab igne. Arch Dermatol. 1990;126:386 -7.        [ Links ]

2. Meffert JJ, Davis BM. Furniture-induced erythema ab igne. J Am Acad Dermatol. 1996;34:516-7.        [ Links ]

3. Page EH, Shear NH. Temperature-dependent skin disorders. J Am Acad Dermatol. 1988;18:1003-19.        [ Links ]

4. Arrington JH, Lockman DS. Thermal keratoses and squamous cell carcinoma in situ associated with erythema ab igne. Arch Dermatol. 1979;115:1226-8.        [ Links ]

5. Finlayson GR, Sams WM, Smith JG. Erythema ab igne: a histopathological study. J Invest Dermatol. 1966;46:104-8.        [ Links ]

6. Hurwitz RM, Tisserand ME. Erythema ab igne. Arch Dermatol. 1987;123:21-2.        [ Links ]

7. Sahl W, Taira JW. Erythema ab igne: treatment with 5-fluorouracil cream. J Am Acad Dermatol. 1992;27:109-10.        [ Links ]

8. Milligan A, Graham-Brown RAC. Erythema ab igne affecting the palms. Clin Exp Dermatol. 1989;14:168-9.        [ Links ]

9. Imamura MT, Imamura ST, Hsing WT. Agentes físicos em reabilitação. In: Lianza S, editores. Medicina de reabilitação. 2a ed. São Paulo: Guanabara-Koogan,1995. p.103-7.        [ Links ]

10. Dvoretzky I, Silverman NR. Reticular erythema of the lower back. Erythema ab igne. Arch Dermatol. 1991;127:405-9.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Francine Batista Costa
Av. Nilo Peçanha 2863/603
91330-001 - Porto Alegre - RS
Tel.: (51) 3328-3271
E-mail: frc.poa@terra.com.br

Recebido em 25.08.2003.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 29.10.2004.

 

 

*Trabalho realizado na Universidade Luterana do Brasil - ULBRA, Porto Alegre (RS).