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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.80 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962005000400006 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, EPIDEMIOLÓGICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Epidemiologia dos carcinomas basocelulares em Blumenau, SC, Brasil, de 1980 a 1999*

 

 

Nilton Nasser

Doutor em Dermatologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ - Rio de Janeiro (RJ), Brasil; Especialista em Dermatologia pela SBD e Professor Titular da Disciplina de Dermatologia do Curso de Medicina da Universidade Regional de Blumenau - FURB - Santa Catarina (SC), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: A morbidade dos carcinomas basocelulares da pele vem aumentando no mundo. No Brasil não existem dados sobre coeficientes de morbidade desses cânceres.
OBJETIVOS: Detectar a morbidade, analisar e classificar os cânceres basocelulares da pele em Blumenau, de 1980 a 1999, segundo as principais características clínicas e histológicas.
MÉTODOS:Utilizaram-se exames histopatológicos oriundos dos laboratórios de Blumenau, revisados quanto às variáveis sexo, idade, localização primária e tipo histológico. Os coeficientes de morbidade anuais foram calculados utilizando o número de casos de neoplasias encontradas e a população anual estimada entre 1980 e 1999.
RESULTADOS: Identificaram-se 5.254 carcinomas basocelulares, com maior freqüência nas mulheres e na faixa etária acima de 50 anos. A localização primária em áreas expostas foi predominante. Os coeficientes de morbidade encontrados variaram entre 51,5 casos por 100.000 habitantes em 1980 e 225 casos por 100.000 habitantes em 1999.
CONCLUSÕES: Os cânceres basocelulares da pele encontrados em Blumenau estão dentro do padrão encontrado na literatura de acordo com a idade, localização anatômica e tipos histológicos. Os coeficientes de morbidade desse tumor são os únicos encontrados na literatura brasileira pesquisada.

Palavras-chave: Carcinoma basocelular/epidemiologia; Morbidade; Neoplasias


 

 

INTRODUÇÃO

Os carcinomas basocelulares constituem o mais comum carcinoma da pele, aparecendo em todas estatísticas como responsável por cerca de 70 a 75% dos casos.1-5

Este estudo encontrou 65,7% de basocelulares entre todos os casos diagnosticados de câncer da pele no município.

Os dados de morbidade envolvendo os cânceres basocelulares isoladamente quase não existem na literatura mundial, pois esses cânceres somados aos carcinomas espinocelulares aparecem classificados como carcinomas da pele não melanomas.6

Nos EUA, Scotto1 encontrou 233 casos de cânceres da pele não melanomas por 100.000 habitantes/ano. O maior registro encontrado foi no Norte da Austrália, onde a doença chega atingir de 1.000 a 2.000 casos por 100.000 habitantes/ano.7-9

Ainda nos EUA, em 1994, esperava-se que entre 900.000 e 1.200.000 norte-americanos apresentassem carcinomas da pele não melanomas.10

Neste trabalho procura-se mostrar os coeficientes de morbidade pelos cânceres basocelulares no município de Blumenau, no período de 1980 a 1999, e as principais características clínicas e histológicas, levando em consideração sexo, idade, localização primária e tipos histológicos.

Os resultados permitem mostrar dados inéditos para o Brasil e referenciais para quase toda a Região Sul do país, cuja população é predominante de raça branca e sujeita a grande intensidade de radiação ultravioleta.

 

MATERIAIS E MÉTODO

Os coeficientes de morbidade dos carcinomas basocelulares para a cidade de Blumenau foram calculados com base na população anual de 1980 a 1999 estimada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE)11 e levantamento dos casos da doença diagnosticados histopatologicamente em dois laboratórios de anatomia patológica da cidade, Cipac (Laboratório de Citologia, Imunopatologia e Anatomia Patológica) e BML Patologia (Laboratório Beatriz Moreira Leite), de 1980 a 1999, no total de 5.254 casos de carcinomas basocelulares. Na revisão dos casos só foram considerados os provenientes do Município de Blumenau para maior fidelidade no cálculo do coeficiente de morbidade. A análise estatística foi realizada com testes de associação, empregando-se o teste qui-quadrado.

 

RESULTADOS

Foram diagnosticados 5.254 casos de carcinomas basocelulares nos laboratórios de anatomia patológica do município de Blumenau, SC, correspondendo a 65,7% do total de cânceres de pele diagnosticados (Tabela 1).

A distribuição dos casos segundo o gênero foi de 2.571 casos para o sexo masculino (48,9%), e de 2.683 casos para o sexo feminino (51,1%), conforme tabela 1.

Na tabela 2 demonstra-se a distribuição percentual dos carcinomas basocelulares de acordo com a faixa etária e o sexo, e visualiza-se que a faixa etária em que existe maior incidência desse tipo de carcinoma é a de 50 a 69 anos.

 

 

Na tabela 3 evidenciam-se os coeficientes de morbidade dos cânceres basocelulares de 1980 a 1999. Na tabela 4 demonstram-se os coeficientes de morbidade dos cânceres basocelulares conforme o sexo.

 

 

 

 

A porcentagem dos carcinomas basocelulares de acordo com a localização primária na pele encontra-se na tabela 5. Nota-se que 46,7% dos casos foram encontrados na face, atingindo o total de 81,2% na cabeça, e 18,8% dos casos no tronco e nos membros.

Na tabela 6 demonstra-se a percentagem dos tipos histológicos, classificados segundo Mackie,12 de carcinomas basocelulares encontrado no estudo. O tipo expansivo superficial atingiu 45,3% dos casos, sendo o mais freqüente, e o tipo esclerosante, que é mais invasivo e destruidor, correspondeu a 10% dos casos.

 

 

DISCUSSÃO

O número de casos de cânceres basocelulares encontrados atingiu 5.254. Trata-se, entretanto, de valor absoluto, que não pode ser comparado com outros valores absolutos encontrados em estudos nacionais e estrangeiros. Calcularam-se, portanto, os coeficientes de morbidade por 100.000 habitantes/ano, o que permite comparar com outros coeficientes da literatura em geral, principalmente os referentes à Austrália e aos Estados Unidos da América.13

Os coeficientes de morbidade permitem avaliar o aumento ou diminuição da incidência dos cânceres da pele e, no caso, o comportamento dos cânceres basocelulares em Blumenau em 20 anos.

Houve aumento considerável da morbidade, que, em 1980, era de 51,5 casos/100.000 habitantes e, em 1999, chegou aos 225 casos/100.000 habitantes (Gráfico 1).

 

 

Esse aumento, cerca de 430%, pode ser explicado pelo aumento do número de diagnósticos realizados no município, pela grande intensidade da radiação solar e pelo hábito de se expor ao sol.

A maior incidência foi no sexo feminino, com 51,1 % dos casos, não podendo essa diferença ser considerada significativa (p>0,05); na literatura, a incidência aparece praticamente igual.13-15

Quanto à faixa etária, a maior incidência foi entre 40 e 60 anos de idade, apresentado concordância com outros trabalhos.1,13-15

A maioria dos carcinomas basocelulares (77,75%) localizou-se primariamente em áreas expostas, com o mesmo comportamento de outros levantamentos estatísticos.2,6,15,16

A incidência de carcinomas basocelulares no pavilhão auricular atingiu mais homens (63,64%) do que mulheres (36,4%), provavelmente devido a fator epidemiológico importante: o comprimento dos cabelos que cobrem o pavilhão auricular feminino, com conseqüente proteção natural contra a radiação ultravioleta. Estatisticamente essa diferença pode ser considerada significante (p<0,05).

Outrossim, verificou-se maior incidência na pirâmide nasal de mulheres (62,6%) em comparação com a observada nos homens (37,4%), estatisticamente significante (p<0,05). Os cânceres basocelulares tiveram maior incidência nos membros inferiores das mulheres (58,3%) do que nos dos homens (41,67%), podendo o hábito do uso de calça comprida ser considerado fator protetor importante dos membros inferiores do homem.

Quando ao tipo histológico dos cânceres basocelulares, o mais encontrado foi o expansivo superficial, e vale ressaltar a porcentagem (10% dos casos) do tipo esclerosante, considerado o de maior agressividade e de difícil tratamento.16

A população estudada residente no Município de Blumenau, SC é em sua maioria caucasiana, descendente de alemães e italianos (do norte da Itália), portanto as peles mais encontradas são do tipo I e II, segundo classificação de Fritzpatrick.11-17

A raça branca possui menos pigmentos melânicos do que os morenos e negros, estando por isso mais sujeita aos efeitos da radiação solar.3-18

O risco do desenvolvimento do carcinoma basocelular é maior em brancos, com dificuldades para bronzear, tendência a queimaduras solares, cabelos claros e olhos azuis.2,14,19,20

Evidências epidemiológicas indicam que existe relação entre a excessiva exposição solar e o risco de desenvolver câncer da pele, especialmente os carcinomas não melanomas. A radiação ultravioleta é o mais importante fator de risco.19-21

A radiação ultravioleta que atinge a população de Blumenau, medida pelo Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) durante o verão (Quadro 1), mostra o UVB-Index de 11,5 no verão, mais alto do que o de cidades do Brasil mais próximas à linha do Equador (Quadro 2) e considerado muito alto conforme o quadro 3.

 

 

 

 

 

 

Quanto maior a radiação UVB maior a incidência dos carcinomas da pele, e essa radiação também depende da camada de ozônio, que filtra a radiação ultravioleta.21-23

A camada de ozônio na região de Blumenau pode ser considerada diminuída em relação à encontrada em outras localidades brasileiras com latitudes mais próximas da linha do Equador, quando deveria ser mais concentrada (Quadro 2), porque a camada de ozônio diminui dos pólos em direção a essa linha.22,23

 

CONCLUSÃO

Numa amostra de 5.254 de cânceres basocelulares diagnosticados no período de 20 anos e com os coeficientes de morbidade determinados anualmente, pode-se constatar que houve aumento progressivo dos coeficientes de morbidade de 1980 a 1990 (430%), com predomínio discreto no sexo feminino (51%).

A maior incidência ocorreu na população acima dos 40 anos de idade (88,9%), com presença significativa abaixo dessa idade.

A localização primária predominou nas áreas expostas, tendo sido os carcinomas basocelulares do tipo histológico expansivo superficial foram os mais encontrados (45,3%).

O aumento da radiação ultravioleta, devido à diminuição da concentração da camada de ozônio sobre a região de Blumenau, pode ser incluído nos principais fatores do aumento relatado dos carcinomas basocelulares.

Segundo os dados encontrados neste estudo, conclui-se que a população de Blumenau branca de fototipos I e II, exposta à intensa radiação solar tem grande risco de desenvolver carcinoma basocelular.

Os carcinomas basocelulares constituem importante problema de saúde pública nesse município, demandando programas de Educação Sanitária pertinentes a todas as faixas etárias, desde a infância, voltados para prevenção, fotoproteção e condições para diagnóstico e tratamento precoces da doença, evitando maiores danos que possam ser provocados por esse tipo de carcinoma da pele.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Nilton Nasser
Rua Curt Hering, 20 - 3° Andar - Centro
89010-030 - Blumenau - SC
Tel./fax: (47) 322-3143
E-mail: ninasser.bnu@terra.com.br

Recebido em 05.01.2004.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 27.06.2005.

 

 

* Trabalho realizado na Universidade Regional de Blumenau - FURB - Santa Catarina (SC), Brasil.