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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596

An. Bras. Dermatol. vol.80 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962005000400017 

OBITUÁRIO

 

Prof. Diltor Vladimir Araújo Opromolla *13/04/1934 - 15/12/2004

 

 

Dr. Raul Negrão Fleury

Médico Anatomopatologista - Instituto Lauro de Souza Lima - Bauru – SP

 

 


 

 

 

Faleceu no dia 15/12/2004, aos 70 anos de idade, o Dr. Diltor Vladimir Araújo Opromolla. Nascido em São Paulo, no dia 13/04/1934, dedicou a maior parte de sua vida ao Instituto Lauro de Souza Lima em Bauru, que com o nome de Asilo Colônia Aymorés fora inaugurado exatamente um ano antes de seu nascimento, 13/04/1933. Essa instituição foi criada pelo governo do Estado de São Paulo, incluída na política de internação compulsória de doentes de hanseníase, o que também resultou na criação de outros asilos-colônias, como Santo Ângelo (Mogi das Cruzes), Padre Bento (Guarulhos), Pirapitingui (Sorocaba) e Cocais (Casa Branca). São raros os exemplos de vida como a do Dr. Diltor, indissoluvelmente ligada a uma instituição. Formou-se na Faculdade de Medicina de Sorocaba (PUC-SP) em 1957 e no ano seguinte estava em Bauru, já trabalhando no Sanatório Aymorés. Sua trajetória profissional e científica foi determinada por algumas características de personalidade. Inteligente, estudioso e dedicado, recém-formado já mostrava excelente formação especializada em dermatologia e em medicina de maneira geral. No trato com as pessoas era extremamente simpático, cativante, natural e sem afetação; com os doentes mostrava interesse pessoal, respeito e afetividade. Sua formação médica e seu interesse pelos pacientes resultaram em condutas diagnósticas e terapêuticas precisas e muito bem documentadas. Todas essas posturas, aliadas a uma curiosidade científica intensa, variada e permanente, conduziram ao sucesso profissional e à extensa produção científica. Nos primeiros anos de sua atividade médica, esteve ligado ao Dr. Lauro de Souza Lima em trabalhos sobre terapêutica em hanseníase, e disso derivou seu trabalho pioneiro sobre o uso da rifampicina, que é, até hoje, dentro da multidrogaterapia, a droga mais efetiva. Com o passar dos anos tornou-se figura científica respeitadíssima no Brasil e no mundo. Suas intervenções em qualquer tipo de reunião científica e em qualquer lugar eram recebidas com profundo respeito.

Analisando seu currículo de pesquisador no site do CNPq, vemos que teve 231 trabalhos científicos publicados em periódicos nacionais e estrangeiros, participou de aproximadamente 300 congressos, simpósios e seminários dentro e fora do Brasil. Orientou muitas teses de mestrado e doutorado, fazendo parte de cursos de pós-graduação nas mais prestigiadas escolas do país, como a Faculdade de Medicina de São Paulo (USP), Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e Faculdade de Medicina de Botucatu (Unesp). Foi editor-chefe da revista Hansenologia Internationalis desde 1989, editor de vários manuais didáticos na área da hanseníase e escreveu inúmeros capítulos de livros. Prefaciou a segunda edição do compêndio Leprosy, de Robert C. Hastings. Nos últimos 30 anos participou praticamente de todas as atividades de âmbito governamental na área de hanseníase no Estado de São Paulo e no Brasil. Foi membro do Steering Committee of the Therapy of Mycobacterial Diseases, presidente da International Leprosy Association para a América Latina, chairman da Seção de Quimioterapia no Congresso Internacional de Lepra em Orlando (EUA) em 1993, sendo convidado oficial da American Leprosy Mission para todos os congressos internacionais de hanseníase. Esse currículo invejável, embora bastante resumido e incompleto, é apenas um subproduto de sua atividade maior, que foi transformar um asilo-colônia, em fase de desativação, em hospital de dermatologia, instituto de pesquisa e centro de referência em hanseníase para o Brasil e países de língua portuguesa. Para isso valeu-se de sua capacidade de trabalho, de seu abrangente conhecimento em todas as áreas da hanseníase, de seu prestígio científico e poder de persuasão sobre aqueles que escolheu como colaboradores. Na área de reabilitação das deficiências de origem neurológica, começou com uma mera sala para prevenção e tratamento das úlceras dos pés e evoluiu para serviço de reabilitação completo com cirurgia, fisioterapia, terapia ocupacional, psicologia, oficina de próteses e sapataria, atividades que se estenderam extramuros. Foi eficiente colaborador e orientador da Sociedade de Reabilitação e Reintegração do Incapacitado (Sorri). Instalou residência em dermatologia, reconhecida pelo MEC e Sociedade Brasileira de Dermatologia. De pequena estante com livros velhos, desenvolveu a biblioteca do Instituto, que incorporou a do Instituto de Saúde - Biblioteca Luiza Keffer, especializada em hanseníase e atualmente a maior da área no Brasil. Dos restos da Revista Brasileira de Leprologia, também em decadência, criou, por inspiração do professor Abrão Rothberg, o periódico Hansenologia Internationalis, este com quase 30 anos de publicação ininterrupta. Trajetórias semelhantes foram seguidas na criação de outros serviços, como a Oftalmologia, os laboratórios de Microbiologia, Imunologia, e de Micobactérias, este último especializado em pesquisa na área de resistência medicamentosa na hanseníase. E, finalmente, houve a consolidação do Instituto Lauro de Souza Lima como Instituto de Pesquisa da Secretaria de Estado de Saúde do Estado de São Paulo.

É preciso ter vivido o Asilo Colônia Aymorés para valorizar o trabalho de Diltor Opromolla. Nadou contra a corrente, enfrentou a descrença, a imobilidade, a indiferença e acreditou sempre. Lutou cada dia de sua vida e no último ano, aposentado compulsoriamente, submetido a cirurgia de risco e tratamento adjuvante desgastante, continuou trabalhando como se nada houvesse acontecido. Em seus últimos 15 dias de vida foi ao Acre continuar seu bem-sucedido trabalho sobre a doença de Jorge Lobo, ao Ministério da Saúde, onde foi homenageado por sua vida dedicada à hanseníase. E, no final de semana que antecedeu seu falecimento, participou de reuniões científicas em Araraquara e São Paulo, tendo trabalhado com entusiasmo até seu último momento.