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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.80 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2005

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962005000600017 

MEMÓRIA

 

Há 100 anos, a descoberta do Treponema pallidum*

 

 

Elemir Macedo de Souza

Professor Livre-docente; Coordenador da Disciplina de Dermatologia, Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - Campinas - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A descoberta do Treponema pallidum por Schaudinn & Hoffmann em 3 de março de 1905 foi influenciada pela comunicação de Siegel, sobre a descoberta do agente etiológico da sífilis. Encarada com ceticismo, a comunicação acarretou novas investigações, conduzidas pelo zoologista Schaudinn e pelo dermatologista Hoffmann -primeiros observadores do agente da sífilis, denominado Spirochaeta pallida. A descoberta foi o passo inicial para o desenvolvimento dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos nos anos subseqüentes.

Palavras-chave: História da Medicina; Sífilis; Treponema pallidum.


 

 

Há 100 anos, o agente etiológico da sífilis foi identificado por Fritz Richard Schaudinn, que nasceu em Röseningken, Prússia Oriental, em 19 de setembro de 1871, estudou zoologia na Friedrich-Wilhelm Universität e morreu na cidade de Hamburgo em 22 de junho de 1906. Em 2 de fevereiro de 1905, o zoologista Franz Eilhard Schulze relatou, na Academia Real Prussiana de Ciências, que seu assistente John Siegel (médico no Instituto Berlinense de Zoologia) descobrira o agente etiológico da sífilis. Tratava-se de um protozoário por ele denominado Cytorrhyctes luis. Esse mesmo gênero, segundo Siegel,1 seria responsável pela varicela, doença mão-pé-boca e escarlatina.

Para dirimir as dúvidas que pairavam sobre o anúncio, o diretor do Serviço de Saúde Imperial de Berlim convidou o professor catedrático de dermatologia da clínica de sífilis da Charité, Edmund Lesser, para novas investigações. Foram designados para o estudo o dermatologista assistente de Lesser, Paul Erich Hoffmann - que nasceu em 25 de abril de 1868 em Witzmitz, Pomerânia, estudou medicina na Academia Militar de Berlim e morreu em 8 de maio de 1959, na cidade de Bonn -, o zoologista Fritz Schaudinn, diretor do laboratório de Protozoários do Serviço de Saúde Imperial de Berlim, e Fred Neufeld, discípulo de Koch, como consultor em bacteriologia.

No dia 3 de março de 1905, Schaudinn examinou um preparado a fresco, cujo material fora obtido por Hoffmann de uma pápula erodida na vulva de uma mulher com sífilis secundária.

Esse exame foi realizado num então moderno microscópio Zeiss com objetivas apocromáticas, permitindo a Schaudinn observar vários microorganismos espiralados, muito claros, delgados, rodando em torno de seu maior comprimento e movendo-se para frente e para trás. Schaudinn mostrou o achado para Hoffmann e Neufeld, e denominou-o Spirochaeta pallida. Ele foi demonstrado em várias lesões da sífilis, tanto a fresco como corado pelo Giemsa. Os achados foram discutidos no Serviço Imperial de Saúde, e, ao optar-se pela publicação, Neufeld abandonou o grupo. Schaudinn & Hoffmann fizeram uma publicação provisória2 sobre a presença do Spirochaeta pallida nas secreções e nos papilomas sifilíticos, na revista sobre trabalhos do Serviço de Saúde Imperial, em 25 de abril de 1905, dia do 37º aniversário de Hoffmann ("Vorläufiger Bericht über das Vorkommen von Spirochaeten in syphilitischen Krankheitsprodukten und bei Papillomen", In: Arbeiten aus dem Kaiserlichen Gesundheitsamt, XXII: 527-534; 25 Apr 1905).2 Schaudinn & Hoffmann diferenciaram o delicado espiroqueta do grosseiro Spirochaeta refringens encontrado nas mucosas.

Em 17 de maio de 1905, Schaudinn & Hoffmann apresentaram seus resultados na reunião da Sociedade Berlinense de Medicina, gerando enorme controvérsia e ceticismo. Muitos pesquisadores duvidaram da autenticidade do fato, entre eles Oskar Lassar. Siegel e seus seguidores engrossaram a fileira dos opositores, defendendo a etiologia pelo Citorrhyctes luis, afirmando que o achado de Schaudinn não passava de uma sujeira (artefato). A situação ficou muito constrangedora quando o presidente da Sociedade Berlinense de Medicina encerrou a sessão de modo irônico: "a sessão está encerrada até que um novo agente da sífilis seja encontrado".

Albert Neisser, conhecido venereologista, escreveu uma carta duvidando da veracidade da descoberta e enfatizando sua descrença de que o Spirochaeta fosse o agente etiológico da sífilis. Essa descrença não durou mais de um mês, e Neisser reconheceu a descoberta de Schaudinn. Hoffmann creditava toda a glória da descoberta à argúcia de Schaudinn, afirmando que seu papel fora o de coletor de material. Vários trabalhos foram publicados após a descoberta, confirmando o espiroqueta e iniciando a fase de consolidação diagnóstica e terapêutica.

Ilya Metschnikow encontrou o Spirochaeta pallida em úlceras de macacos inoculados com secreções sifilíticas, e Abraham Buschle detectou o treponema no fígado e baço de uma criança morta com sífilis congênita, confirmando a descoberta de Schaudinn & Hoffmann.

Em 14 de outubro de 1905, Schaudinn escreveu uma carta a Hoffmann propondo colocar o Spirochaetta pallida num novo gênero com a denominação Treponema pallidum.

As pesquisas conjuntas foram interrompidas pela morte de Schaudinn, em 1906, antes do que, porém, Schaudinn foi reconhecido em toda a Europa, sendo saudado por professores que o haviam contestado.

Os maiores reconhecimento e homenagem a Schaudinn, no entanto, ocorreram de modo especial no Congresso Internacional de Medicina em Lisboa. Sua presença na sala de conferências levou o professor François Hallopeau a levantar-se da cadeira de presidente, cedê-la a Schaudinn e solicitar que o plenário se levantasse com aplausos. Mal Schaudinn começou a agradecer, nova e estrondosa salva de palmas encheu o auditório.

O infortúnio de Schaudinn começou durante a viagem de volta à Alemanha, ao ser submetido a uma cirurgia de urgência a bordo devido a abscessos amebianos gastrointestinais. Essa amebíase provavelmente fora adquirida de maneira voluntária quando fazia pesquisas sobre as amebas. Schaudinn tinha pouco menos de 35 anos quando morreu em 22 de junho de 1906.

Hoffmann deu continuidade a seu trabalho fazendo palestras e ocupando os mais altos cargos universitários em Halle e Bonn. No período nazista viveu fora da Alemanha, mas voltou para Bonn, onde montou um laboratório. Em 1948 e 1949 publicou dois livros, fruto da sua vida médica: Wollen und Schaffen e Ringen um Vollendung. q

 

REFERÊNCIAS

1. Köhler W. Zentralblatt für Bakteriologie - 100 years ago: Protozoa as causative agents of smallpox, or: Cytoryctes and no end. Int J Med Microbiol. 2001; 291: 191-5.        [ Links ]

2. Kohl PK, Winzer I. [the 100 years since discovery of Spirochaeta pallida] Jahre Entdeckung der Spirochaeta pallida. Hautarzt. 2005;56:112-5.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Elemir Macedo de Souza
Rua Alexander Fleming, 181 - Cidade Universitária
13081-970 - Campinas - São Paulo
E-mail: elemir@fcm.unicamp.br

Recebido em 26.07.2005.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 30.08.2005.

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Clínica Médica da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas - UNICAMP - Campinas - São Paulo (SP), Brasil.