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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.81 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962006000100003 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, EPIDEMIOLÓGICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Associação entre doença arterial coronariana e as pregas lobular diagonal e anterotragal em homens*

 

 

Hélio Amante MiotI; Luciana Molina de MedeirosII; Caio Roberto Shwafaty de SiqueiraIII; Letícia de Chiara CardosoII; Juliana Hammoud GumieiroIV; Marco Antônio Pandini FilhoIV; Luciane Donida B. MiotV

IProfessor Doutor Substituto do Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - FMB/Unesp - Botucatu (SP), Brasil
IIMédica Residente da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - FMB/Unesp - Botucatu (SP), Brasil
IIIMédico Residente da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - FMB/Unesp - Botucatu (SP), Brasil
IVEstudante de Medicina Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - FMB/Unesp - Botucatu (SP), Brasil
VDermatologista do Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - FMB/Unesp. Pós-graduanda (doutorado) em Patologia na Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - FMB/Unesp - Botucatu (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Diversas alterações dermatológicas foram associadas à doença arterial coronariana, representando achados de fácil constatação que podem contribuir na estratificação não invasiva do risco cardíaco.
OBJETIVOS: Avaliar comparativamente a prevalência de certos achados dermatológicos em pacientes com ou sem doença arterial coronariana.
MÉTODOS: Estudo caso/controle envolvendo pacientes do sexo masculino submetidos à cineangiocoronariografia. Foram considerados aqueles casos com obstrução de mais de 50% em pelo menos uma coronária. Avaliou-se a presença da prega lobular diagonal, prega anterotragal, alopecia e presença de pêlos no tórax nos dois grupos. Os resultados foram ajustados para os fatores de risco: tabagismo, hipertensão, diabetes, idade, dislipidemia e índice de massa corporal.
RESULTADOS: Analisaram-se 110 pacientes (80 casos e 30 controles). A prevalência da prega lobular diagonal nos casos (60,0%) foi maior do que no grupo controle (30,0%) (p<0,05). Alopecia androgenética e distribuição de pêlos no tórax não demonstraram associação positiva com coronariopatia neste estudo. O Odds Ratio (IC 95%), da prega lobular diagonal foi de 3,1 (1,2-8,3) e para prega anterotragal foi de 5,5 (1,9-16,3). A verificação simultânea da prega lobular diagonal e prega anterotragal representou valor preditivo positivo de 90%.
CONCLUSÕES: Detectou-se associação positiva entre a presença da prega lobular diagonal bilateral e prega anterotragal bilateral com doença arterial coronariana, sendo que a presença simultânea das duas pregas apresenta alta preditividade para doença arterial coronariana.

Palavras-chave: Arteriosclerose coronária; Fatores de risco; Masculino; Orelha externa


 

 

INTRODUÇÃO

A doença arterial coronariana (DAC) permanece como uma das maiores causas de mortalidade e morbidade na população adulta, com importante aumento da prevalência associado à idade. A adoção de medidas de prevenção de aterosclerose e a detecção clínica precoce são ações prioritárias em saúde coletiva.1

Os principais fatores de risco associados à DAC dividem-se em modificáveis (obesidade, tabagismo, diabetes mellitus, hipertensão arterial e dislipidemia) e não modificáveis (idade, sexo masculino e história familiar). A estratificação do risco coronariano na população geral depende da verificação desses elementos, associada aos achados clínicos, de forma que a intervenção efetiva nos fatores modificáveis altera o risco de um evento coronariano primário ou secundário.2

Historicamente, diversos achados dermatológicos foram descritos como indicadores de DAC, como alopecia androgenética, pilificação auricular, pilificação torácica e a presença da prega lobular diagonal bilateral (PLD), ou sinal de Frank (Figura 1).3,4 Entretanto, a literatura apresenta poucos estudos controlados que avaliem essa associação, sendo que esses achados dermatológicos não foram ainda sistematicamente investigados na população brasileira.

 

 

Observou-se ainda grande freqüência da prega anterotragal (PAT) em pacientes coronarianos, sendo que sua prevalência nunca fora avaliada em estudos controlados.

Este estudo avalia a prevalência de achados dermatológicos em pacientes submetidos à cineangiocoronariografia.

 

CASUÍSTICA

Foi conduzido um estudo caso/controle envolvendo 110 pacientes adultos do sexo masculino submetidos à cineangiocoronariografia em Hospital Universitário, no período de janeiro de 2004 a setembro de 2005.

Foram convocados para a pesquisa os pacientes que apresentaram oclusão menor que 50% em todas as artérias coronárias ao exame (controles); posteriormente, foram convocados os casos na proporção de 2,5:1.

Os dados epidemiológicos dos pacientes foram obtidos utilizando formulário padronizado, e os fatores de risco coronariano considerados foram: idade, hipertensão arterial sistêmica, dislipidemia, tabagismo, diabetes mellitus, história familiar de doença coronariana e índice de massa corporal.

Consideraram-se hipertensos os pacientes com pressão arterial no dia do exame >140x90mmHg ou em uso de anti-hipertensivo; dislipidêmicos, aqueles com colesterol total acima de 260mg/dl ou usando medicação antilipêmica; tabagistas, aqueles que fumaram regularmente por mais que cinco anos consecutivos; diabéticos, aqueles com duas glicemias de jejum acima de 126mg/dl ou em uso de tratamento antidiabético; história familiar, aqueles com parentesco de primeiro grau portadores de DAC; e o índice de massa corporal foi medido utilizando o peso atual em quilogramas dividido pelo quadrado da estatura em metros.

Foram mensuradas as prevalências da prega lobular longitudinal (bilateralmente), prega anterotragal (bilateralmente), alopecia androgenética e pilificação torácica, entre casos e controles. Os resultados foram ajustados para os fatores de risco coronariano empregando o método da regressão logística múltipla não condicional (stepwise backward).

O tamanho amostral mínimo foi calculado com base na prevalência da prega lobular diagonal constatado por outro estudo controlado realizado em ocidentais.5

As proporções entre os grupos foram comparadas usando o teste exato de Fisher, e os dados contínuos foram comparados pelo teste T de Student. Os dados foram tabulados em MS Excel 2003TM, e analisados usando o software Bioestat 2.0.6Considerou-se significativo valor de p menor que 5%.

 

RESULTADOS

Dos 110 pacientes avaliados, foram 80 casos e 30 controles, no período de janeiro de 2004 a agosto de 2005. Os principais dados epidemiológicos coletados estão listados na tabela 1, demonstrando que os pacientes estudados encontram-se em média acima dos 50 anos de idade e com índice de massa corporal médio acima do normal.

A presença bilateral de PLD e a de PAT associaram-se positivamente à DAC mesmo após o ajuste para as demais variáveis de risco coronariano (Tabela 2), sendo que a presença simultânea das duas pregas representou sensibilidade de 56,3% e o valor preditivo positivo de 90% (p<0,05 Fisher).

Alopecia androgenética esteve presente em 62,5% dos casos e 50,0% dos controles, porém, a presença de alopecia ou de seus diferentes padrões (frontal, temporal, vértex e difusa) não demonstrou associação estatística com DAC (p>0,1 Regressão Logística Múltipla).

A presença de pilificação torácica ou de seus padrões clínicos (esternal, mamilar ou ambos) também não se associou à DAC (p>0,1 Regressão Logística Múltipla).

Tanto PLD como PAT apresentaram maiores prevalências com o aumento da faixa etária (Gráficos 1 e 2), embora tenham sido mais freqüentes no grupo de casos do que nos controles nas diferentes idades.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O presente estudo constatou que PAT e PLD mostraram associação positiva com DAC em homens, independente dos demais fatores de risco coronariano.

O aumento da prevalência da PLD coincidente com o da faixa etária levou muitos autores a considerarem-na apenas como variável de confusão, tendo em vista que a DAC também se torna mais freqüente com o avançar da idade. Porém, a análise multivariada demonstrou a PLD como fator isoladamente relacionado à DAC.4,5

A escolha de pacientes apenas do sexo masculino baseou-se na tentativa de reduzir a possibilidade de detecção de pregas causadas pelo uso de brincos, não declarado por nenhum dos pacientes incluídos no estudo.

Da mesma forma, a consideração apenas das pregas bilaterais e que acometessem toda a extensão do lóbulo visou reduzir a detecção de pregas desenvolvidas por vícios posturais, principalmente da posição de dormir.

Outros estudos que não consideraram essas variáveis constataram prevalências maiores dessas variáveis entre os pacientes.4,5,7-9

A ligação fisiopatológica entre PLD e DAC ainda não foi esclarecida.

Em trabalho que avaliou cadáveres também foi constatada a associação de PLD com DAC, e, histologicamente, observaram-se alterações ateroscleróticas nos lóbulos de orelha dos pacientes portadores de PLD. Esses achados sugerem a concomitância do acometimento aterosclerótico de duas circulações terminais (coração e extremidade do lóbulo da orelha), sem suprimento de artérias colaterais, como fundamento fisiopatológico do surgimento da prega.10

Outra sugestão é de que a perda generalizada de elastina e fibras elásticas, constatada em espécimes de biópsia de lóbulos de orelha de pessoas afetadas, reflita a ocorrência de doença microvascular presente concomitantemente nas coronárias.10

A significância da PLD entre os pacientes portadores de coronariopatia não foi confirmada por certos estudos prospectivos criteriosos;11,12 entretanto, uma meta-análise revelou que o encontro da prega pode fornecer informações úteis, mas variações raciais, de sexo e a consideração de diferentes faixas etárias podem resultar em avaliações equivocadas de seu valor.13,14

A relação entre casos e controles de 2,5:1 foi determinada com a finalidade de reduzir a possibilidade de erro aleatório, tendo em vista a dificuldade de pacientes adultos com exames normais em um estudo observacional dessa natureza.

A alopecia androgenética e a pilificação torácica não foram associados à DAC na população testada. Esses achados confirmam as observações de outro estudo controlado que também não encontrou associação desses elementos com DAC; porém, resultados controversos podem ser identificados na literatura, principalmente associando alopecia com padrão temporal à DAC.4,15 O trabalho aqui apresentado não identificou qualquer padrão de alopecia como indicativo de DAC.

Esse estudo foi o primeiro a descrever a PAT como fator isoladamente associado à DAC e salienta a importante preditividade de DAC quando há a associação entre PAT e PLD, apesar da baixa sensibilidade, o que pode colaborar com a estratificação de risco coronariano de forma não invasiva.

Outros estudos são necessários para avaliar o impacto desses achados na mortalidade por evento coronariano, investigar a associação com doença aterosclerótica de outros órgãos (artérias periféricas e sistema nervoso central) e a efetiva redução do risco de evento coronariano a partir da modificação dos demais fatores de risco.

 

CONCLUSÃO

Foi detectada associação positiva tanto entre a PLD e DAC quanto entre a PAT e DAC. A verificação simultânea dessas duas pregas apresenta alta preditividade para DAC. Novos estudos devem ser conduzidos para determinar o impacto dessas alterações na estratificação do risco cardíaco.

 

AGRADECIMENTOS

Os autores agradecem aos responsáveis pela disciplina Cardiologia e à equipe da hemodinâmica da FMB/Unesp, que permitiram a execução da pesquisa junto a seus pacientes.

 

REFERÊNCIAS

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3. Frank ST. Aural sign of coronary artery disease. N Engl J Med. 1973; 289: 327-8.         [ Links ]

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6. Ayres M, Ayres Jr M, Ayres DL, dos Santos AS. Bioestat: 2.0 aplicações estatísticas nas áreas das ciências biológicas e médicas. Belém : Sociedade Civil Mamirauá MCT – CNPq; 2000.         [ Links ]

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Endereço para correspondência:
Hélio Amante Miot
Departamento de Dermatologia e Radioterapia da FMB/Unesp - Campus Universitário de Rubião Jr.
Rua Rio Grande do Norte, 1560/702
18618-000 - Botucatu – SP
Tel./Fax: (14) 3882-4922
E-mail: heliomiot@fmb.unesp.br

Recebido em 28.12.2005.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 27.01.2006.
Conflito de interesse declarado: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Dermatologia e Radioterapia da Faculdade de Medicina de Botucatu - Universidade Estadual Paulista - FMB/Unesp - Botucatu (SP), Brasil.

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