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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.81 no.2 Rio de Janeiro Mar./Apr. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962006000200008 

CASO CLÍNICO

 

Líquen aureus “algesiogênico”*

 

 

Roberto Rheingantz da Cunha FilhoI; Joel SchwartzII; Jorge ZanolIII

IMestre em Saúde e Comportamento - Universidade Católica de Pelotas - UCPel - Pelotas (RS), Médico Dermatologista (SC), Brasil
IIProfessor Adjunto da Faculdade de Medicina da Universidade do Rio Grande do Sul - UFRGS - Porto Alegre (RS), Brasil
IIIDermatopatologista do Serviço de Dermatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS - do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre - Porto Alegre (RS), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

Descreve-se caso de líquen aureus em paciente do sexo feminino, com 23 anos de idade que apresentava há dois anos lesão dolorosa, purpúrica, acastanhada tendendo por semelhante a cor de ferrugem e de aspecto liquenóide no antebraço. O exame anatomopatológico revelou denso infiltrado linfo-histiocitário na derme superior papilar, com extravasamento de hemácias. O líquen aureus é relativamente raro, sendo ainda mais raro o sintoma de dor.

Palavras-chave: Erupções liquenóides; Dor; Púrpura


 

 

INTRODUÇÃO

O líquen aureus está classificado dentro das dermatoses purpúricas pigmentares ou púrpuras pigmentares crônicas, sendo uma capilarite rara e de causa desconhecida.1

Foi descrito em 1958 por Martin,2 primeiramente como caso para diagnóstico. Anos após, Calnan3 utilizou a expressão “lichen aureus” para descrever um novo caso. Outros autores sugeriram a denominação “lichen purpuricus”,4 que também é utilizada pela literatura. O quadro clínico caracteriza-se por lesões usualmente assintomáticas,1-6 de aspecto liquenóide e componente purpúrico de coloração variável, podendo apresentar-se acastanhada, avermelhada, violácea, cor de ferrugem ou, mais raramente, “dourada”.

Os autores descrevem um caso de interesse por se tratar de paciente com lesão dolorosa.

 

RELATO DO CASO

Paciente do sexo feminino, de 23 anos, veio à consulta com queixa de “mancha” dolorosa no antebraço, com dois anos de evolução. A paciente negou qualquer tipo de trauma no local e referia dor espontânea na lesão, com piora ao toque. Não havia história clínica de infecções ou doenças prévias. Hemograma, plaquetas, tempo de protombina e parcial de tromboplasmina, provas de função hepática e renal e glicemia de jejum não mostraram alterações. Fator antinúcleo e sorologia de Lues (VDRL) foram não reagentes. A paciente fazia uso de anticoncepcional oral há cerca de cinco anos.

Ao exame dermatológico foi observada lesão purpúrica, de aspecto liquenóide, coloração vermelho-acastanhada, cerca de 2cm, localizada na face flexora do antebraço direito (Figura 1). Todo o tegumento cutâneo da paciente foi examinado, não sendo observadas outras lesões. À palpação da lesão a paciente referia intensificação da dor, reagindo, aliás, com fácies de dor e afastando o membro atingido.

 

 

O exame anatomopatológico demonstrou denso infiltrado linfo-histiocitário na derme superior e extravasamento de hemácias. Capilares com endotélio edemaciado e depósitos de hemossiderina nos macrófagos, achados de púrpura pigmentar crônica, compatíveis com líquen aureus (Figura 2).5

 

 

Foi realizado tratamento com corticóide oclusivo de alta potência por 20 dias, sem melhora. A paciente foi orientada quanto ao significado e o bom prognóstico da doença, preferindo manter apenas acompanhamento clínico.

 

DISCUSSÃO

O líquen aureus é erupção purpúrica pigmentar rara, sendo distinguível das demais (Doença de Schamberg, púrpura eczematóide, púrpura anular teleangectásica de Majocchi) por se tratar de erupção liquenóide, bem localizada, usualmente solitária ou segmentar.1-3 Nos casos de dermatite purpúrica liquenóide de Gougerot-Blum também ocorre o componente liquenóide, porém este é difuso.1

Não está bem estabelecida a freqüência por sexo ou grupos etários,1 apesar de haver vários relatos em crianças e adultos jovens.6-10 A maior casuística reuniu 12 casos,6 mostrando predomínio do sexo masculino (oito casos), média de 27 anos (de um a 50 anos), atingindo preferencialmente os membros inferiores, sendo a maioria nos tornozelos e apenas um caso em outra topografia (abdômen).7 Há relato de líquen aureus com disposição zosteriforme e segmentar.11

Fato interessante neste relato é a sintomatologia de dor, intensificada pela palpação. Revisando a literatura mundial, observa-se apenas um relato semelhante, feito em 1983 por Reinhardt e colegas.12 Eles descreveram paciente com lesão assintomática até três meses de evolução; a partir de então, a lesão tornou-se mais extensa e associou-se com dor profunda, não articular. Têm-se verificado com mais freqüência lesões assintomáticas. As pruríticas ocorrem, mas de maneira rara.6,13

As afecções purpúricas caracterizam-se histologicamente, com extravasamento de hemácias, hemossiderina nos macrófagos, podendo haver dano vascular mínimo, com estreitamento da luz vascular, edema endotelial e infiltrado linfocítico perivascular. No líquen aureus o infiltrado na derme é bastante denso, o suficiente para dar o aspecto liquenóide da lesão.5

Diagnóstico diferencial importante é a histiocitose,9 que apresenta lesões de aspecto purpúrico e/ou de eczema seborréico, mas é diferenciada histologicamente.5 Também deve ser lembrada a púrpura por trauma, que não tem o aspecto liquenóide e crônico do líquen aureus.1

O curso do líquen aureus tem-se mostrado lento e com bom prognóstico, havendo melhora da maioria dos casos em dois ou três anos, apesar de haver extremos de um ano e meio até 18 anos de evolução.6,13 É afecção rebelde aos tratamentos, embora existam relatos recentes de melhora com Puva,14 e outro com pimecrolimus tópico.15 Apesar das dificuldades do estudo de doenças raras, a investigação deve ser estimulada para que se tenham evidências epidemiológicas, fisiopatológicas e que expliquem os sintomas de dor e prurido.

 

REFERÊNCIAS

1. Piette WW. Hematologic disorders. In: Freedberg IM, Eisen AZ, Wolff K, Austen KF, Goldsmith LA, Katz SI, Fitzpatrick TB, editors. Dermatology in General Medicine. New York: McGraw Hill; 1999. p.1877.        [ Links ]

2. Martin R. Case for diagnosis. Trans St Johns Hosp Dermatol Soc. 1958;40:93.        [ Links ]

3. Price ML, Wilson JE, Calnan C. Lichen aureus: a localized persistent form of pigmented purpuric dermatosis. Br J Dermatol. 1984;112:307-14.        [ Links ]

4. Kanitakis C, Tsoitis G. Lichen purpurique. Ann Dermatol Venereol. 1982;109:445-52.        [ Links ]

5. Elder D, Elenitsas R, Jaworsky C, Johnson B Jr. Lever's Histopathology of the Skin. 8th ed. Philadelphia: Lippicont Rover; 1997. p.202-3.        [ Links ]

6. Graham RM, English JS, Emmerson RW. Lichen aureus: a study of twelve cases. Clin Exp Dermatol. 1984;9:393-401.        [ Links ]

7. Rubio FA, Robayna G, Herranz P, de Lucas R, Contreras F, Casado M. Abdominal Lichen aureus in a child. Pediatr Dermatol. 1997;14:411.        [ Links ]

8. Patrizi A, Neri I, Marini R, Guerrini V. Lichen aureus with uncommon clinical features in a child. Pediatr Dermatol. 1991;8:280-3.        [ Links ]

9. Megahed M, Schuppe HC, Hölzle E, Jürgens H, Plewig G. Langerhans cell histiocytosis masquerading as lichen aureus. Pediatr Dermatol. 1991;8:213-6.        [ Links ]

10. Esmenjand RJ, Dahl MV. Segmental Lichen aureus: onset associated with trauma and puberty. Arch Dermatol. 1988;124:1572-4.        [ Links ]

11. Dippel E, Schröder K, Goerdt S. Zosteriformer Lichen aureus. Hautarzt. 1998;49:135-8.        [ Links ]

12. Reinhardt L, Wilkin JK, Tausend R. Vascular abnormalities in Lichen aureus. J Am Acad Dermatol. 1983;8:417-20.        [ Links ]

13. Ratnam KV, Su WP, Peters MS. Purpura simplex (inflammatory purpura without vasculitis): a clinico pathologic study of 174 cases. J Am Acad Dermatol. 1991;25:642-7.        [ Links ]

14. Ling TC, Goulden V, Goodfield MJ. Puva therapy in lichen aureus. J Am Acad Dermatol. 2001;45:145-6.        [ Links ]

15. Böhn M, Bonsmann G, Luger TA. Resolution of lichen aureus in a 10-year-old child after topical pimecrolimus. Br J Dermatol. 2004;151;519-20.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência
Dr Roberto Rheingantz da Cunha Filho
Rua Roberto Tromposky, 194 - Centro
89600-000 - Joaçaba - SC
Tel.: (49) 3522-1269
E-mail: robertodermatologista@yahoo.com.br

Recebido em 24.07.2003.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 01.11.2004.
Conflito de interesse declarado: Nenhum

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia da Universidade do Rio Grande do Sul do Complexo Hospitalar da Santa Casa de Porto Alegre - Porto Alegre (RS), Brasil.