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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.81 no.3 Rio de Janeiro June 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962006000300008 

CASO CLÍNICO

 

Leishmaniose mucosa fatal em criança*

 

 

Daniela VelozoI; Andréa CabralII; Maria Custódia Machado RibeiroIII; Jorgeth de Oliveira Carneiro da MottaIV; Izelda Maria Carvalho CostaV; Raimunda Nonata Ribeiro SampaioVI

IEx-residente do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário de Brasília - HUB - Brasília (DF), Brasil
IIEx-residente do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário de Brasília - HUB - Brasília (DF), Brasil
IIIMédica do Serviço de Pediatria do Hospital Universitário de Brasília - HUB - Brasília (DF), Brasil
IVDermatologista do Hospital Universitário de Brasília - HUB. Mestranda do curso de pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília - UnB - Brasília (DF), Brasil
VDoutora em Dermatologia. Orientadora do curso de pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília - UnB. Professora adjunta da Universidade de Brasília - UnB. Coordenadora da disciplina de Dermatologia. Chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário de Brasília - HUB - Brasília (DF), Brasil
VIProfessora da Universidade de Brasília. Chefe do Serviço de Dermatologia do Hospital Universitário de Brasília - HUB - Brasília (DF), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A leishmaniose tegumentar americana, doença endêmica e crescente no Brasil, pode manifestar-se por úlceras na pele e lesões nas mucosas nasal, oral e faringiana. O antimônio pentavalente é a droga de primeira escolha no tratamento, com resposta menos favorável nas formas mucosas. Destaca-se a dificuldade para diagnosticar e tratar um caso de leishmaniose mucosa em criança de cinco anos que teve exames parasitológicos, imunológicos e reação em cadeia da polimerase negativos. Somente após várias repetições o esfregaço foi positivo. A paciente apresentou infecção bacteriana secundária persistente das lesões e falta de resposta a drogas específicas e antibióticos, evoluindo para septicemia e óbito.

Palavras-chave: Evolução fatal; Leishmaniose mucocutânea; Septicemia


 

 

INTRODUÇÃO

A prevalência da leishmaniose tegumentar americana no Brasil é a maior das Américas. A média anual tem sido 35.000 casos.1,2 As principais espécies que causam a doença no país são Leishmania (Viannia) guyanensis, Leishmania (Viannia) braziliensis e Leishmania (Leishmania) amazonensis.2

A doença pode apresentar-se nas formas cutânea localizada (LC), cutânea disseminada (LD), cutânea difusa (LCD) e mucosa (LM), com ou sem lesões na pele.

A leishmaniose mucosa (LM) ocorre em percentual que varia de três a 5% dos casos de infecção por L (V) braziliensis,3,4 é mais grave e pode deixar seqüelas. Geralmente inicia-se meses ou anos após a involução das lesões de pele. As mucosas mais acometidas são as do nariz, faringe, laringe e boca. Pode complicar por infecções como rinite, sinusite, meningite e broncopneumonia, sendo esta última a principal responsável pelo óbito.4

O diagnóstico é feito pela clínica, epidemiologia e por exames laboratoriais. O exame direto é positivo em 75% das lesões cuja evolução varia de dois a seis meses e em 20% após esse tempo.1,4 A cultura e a inoculação em hamster têm sensibilidade de 30 e 50%, respectivamente.1,4 A intradermorreação de Montenegro (IDRM) é positiva em 82,4 a 100% no momento do diagnóstico.5 Pode ser negativa na doença com até quatro meses de evolução, na LCD e em imunossuprimidos.

A imunofluorescência indireta (IFI) é positiva em 71% na LC e 100% na LM.6 A reação em cadeia da polimerase (PCR) a fresco, isoladamente, é mais sensível do que qualquer outro método convencional.7 A histopatologia demonstra infiltrado histiolinfoplasmocitário e, raramente, amastigotas. Pode apresentar granuloma tuberculóide.8

O tratamento de primeira escolha é o antimônio pentavalente em dose de 10 a 20mg/SbV/kg/dia, EV ou IM, durante 20 dias na LC e 30 dias na LM.1,4 Sua toxicidade é dose-dependente e manifesta-se no coração, nos rins e no fígado. A anfotericina B clássica é a segunda escolha.

 

RELATO DE CASO

Criança de cinco anos, do sexo feminino, parda, natural e procedente do Distrito Federal (DF). A mãe referiu viagem ao Paraná com a criança aos dois anos de idade e óbito de outra filha aos quatro anos com suspeita de fibrose cística. Relatou que em fevereiro de 2001 a criança apresentou pápula eritematosa na região malar direita com secreção purulenta que, tratada com neomicina tópica e cefalosporina, teve remissão. Em junho surgiram novas lesões na face e microadenomegalia cervical que tiveram melhora com o mesmo tratamento. Em agosto surgiram obstrução e infiltração da mucosa nasal, tratada como rinite alérgica sem melhora. Em novembro teve ulceração com secreção purulenta da mucosa nasal esquerda, que melhorou quando tratada com anti-histamínico e cefalosporina. Em dezembro apresentou perfuração do septo nasal, sendo indicada biópsia, que não foi realizada.

Em março de 2002, apresentava destruição parcial da cartilagem da asa nasal esquerda e perfuração do septo, lesão granulosa no palato duro, lesões infiltradas no mento e região malar esquerda, e poliadenomegalia cervical (Figuras 1 e 2).

 

 

 

 

As hipóteses diagnósticas principais foram leishmaniose e linfoma. Foram normais ou negativos: hemograma, bioquímica, complemento, várias culturas para leishmânia, micobactérias e fungos, c-ANCA, FAN, PPD, dosagem de imunoglobulinas, anti-HIV, IDRM (três vezes), IFI para LTA (duas vezes), inoculação em hamster (três meses), PCR para leishmânia em biópsia de mucosa incluída em parafina e radiografia de tórax. A tomografia dos seios da face mostrou pansinusite. O exame histopatológico revelou infiltrado com granulomas contendo células epitelióides e gigantes, com necrose e neutrófilos no centro (Figura 3), compatível com tuberculose. A imuno-histoquímica era positiva para CD34, sem vasculite granulomatosa e negativa para marcadores de neoplasia e bacilo da tuberculose.

 

 

Sendo o exame histopatológico compatível com tuberculose e todos exames negativos para leishmânia, foi iniciado esquema tríplice (rifampicina, isoniazida e pirazinamida), por consenso entre a Pediatria e a Dermatologia. Surgiram novas lesões após um mês de tratamento, sendo as drogas suspensas. Repetida a rotina para LTA, foi achada amastigota no esfregaço (Figura 4).

 

 

Foi iniciado tratamento com 20mg SbV/kg em dias alternados (23 dias) pela Pediatria. A criança apresentou novas lesões, e foi usada anfotericina B lipossomal na dose total de 517mg, com aumento da uréia e creatinina, queda do estado geral e agravamento das lesões, atingindo nariz, lábios, palato duro e mole, regiões perioral e malar esquerda (Figuras 5 e 6).

 

 

 

 

Houve persistência da infecção secundária – isolados estafilococos e pseudomonas, sensíveis in vitro, mas resistentes in vivo, à terapia com amoxicilina, associação amoxicilina-clavulanato, aminoglicosídeos, cefalosporinas, ciprofloxacina, vancomicina e imipenem –, tendo a criança evoluído com broncopneumonia, sepse e óbito em agosto de 2002.

 

DISCUSSÃO

Considerando o período de incubação da LTA de um a três meses, se a criança tivesse adquirido a doença em viagem no norte do Paraná, três anos antes do início das lesões, estaria muito prolongado. Esse estado é endêmico,9 mas também no DF são registrados casos autóctones desde 1980.10 A criança freqüentava chácara no DF, próxima a córrego circundado por mata, havendo, portanto, a possibilidade de ter aí se infectado.

A lesão iniciou por pápula na face que evoluiu para lesão ectimóide, tratada com antibióticos sem resposta adequada. Algumas vezes, a lesão inicial da LTA pode passar despercebida ou mesmo apresentar-se semelhante à picada de inseto e regredir espontaneamente, sem deixar cicatriz, o que pode ocorrer em 15% dos casos. Outras vezes, pode simular impetigo, foliculite ou ectima, como aconteceu neste caso.

A leishmaniose tegumentar americana pode atingir indivíduos de qualquer idade, sendo mais freqüente dos 20 aos 40 anos. A incidência em crianças depende da faixa etária, variando de 4,6 a 25% em crianças até os 10 anos. Em estudo retrospectivo de série de casos com 379 pacientes atendidos no serviço de Dermatologia do HUB, foram analisados dados de crianças até 10 anos, encontrando-se cinco (22,72%) com LM, todas apresentando infiltração no septo nasal.11

Saliente-se a grande dificuldade em confirmar o diagnóstico deste caso, uma vez que a IDRM (três exames), a IFI (dois exames), a cultura para leishmânias (três vezes), a inoculação em hamster (três meses) e vários esfregaços foram negativos, além da biópsia ter sido realizada cinco vezes e mostrado padrão de granuloma tuberculóide, raro na leishmaniose.8 Como se observa, a paciente teve repetidamente IDRM negativa, e dados da literatura4 apontam esse exame como dado prognóstico para a ocorrência de recidivas após o tratamento e como resistência à infecção corroborando com a idéia de que a resposta imune celular é importante para a recuperação do hospedeiro e para sua proteção contra a infecção.

Torna-se difícil interpretar a negatividade da IFI visto que sua positividade nos casos de LTA mucosa é tida como 100%.1,4 Entretanto, na experiência dos autores já houve casos de forma mucosa com IDRM e IFI negativos.

O diagnóstico foi confirmado pelo achado de forma amastigota após vários esfregaços realizados. A lâmina foi avaliada por técnicos de laboratório, parasitologistas e médicos com vasta experiência na identificação de leishmânia, o que permitiu a conclusão.

A reação em cadeia de polimerase7 apresenta maior sensibilidade do que qualquer outro método diagnóstico usado isoladamente. Entretanto, o mesmo não pôde ser realizado a fresco, por questões operacionais. A PCR com checagem para inibição, realizada em bloco de parafina da biópsia, foi negativa. Esse método, quando acoplado à hibridização ou somente pelo gel agarose, tem positividade de 75% e 69% respectivamente (Pirmez, Claude; informação pessoal). Acredita-se que, em casos de escassez de parasitos, qualquer método parasitológico, mesmo através de anticorpos monoclonais e imunoperoxidase, pode falhar na confirmação diagnóstica.

O diagnóstico precoce poderia ter influenciado favoravelmente a evolução deste caso. Daí concluir-se pela necessidade de estudo de métodos diagnósticos mais precisos e efetivos, e da implementação na rede pública de saúde de reações como a PCR, principalmente na forma mucosa, mais difícil de diagnosticar.

A paciente não apresentou resposta ao tratamento com antimônio e nem com a anfotericina B lipossomal, com surgimento de novas lesões, associado de desnutrição progressiva e queda do estado geral. O antimônio pentavalente, apesar da toxicidade, é a droga de primeira linha para tratamento há mais de 50 anos, podendo falhar em 40% dos casos de LM.12 O controle de cura utilizado – a cicatrização completa das lesões – é insatisfatório e inadequado, porque são documentadas recidivas, mesmo após tratamento padronizado e cicatrização total das lesões ativas.13

Quanto à anfotericina B, a dose de 517mg usada foi inferior àquela recomendada de 2,5 a 3g para LM em adultos. Entretanto , ainda com tais doses, são registradas falhas terapêuticas.14 A nefrotoxicidade certamente foi agravada pelo uso de antibióticos nefrotóxicos.15

Quanto à infecção secundária, nas lesões foram demonstrados microorganismos sensíveis in vitro; entretanto, não se obteve resposta aos antibióticos inibidos pelo antibiograma, culminando com choque séptico e óbito. A constante negatividade das provas de IDRM e PPD poderia justificar a deficiência da resposta imune celular, porém não foi feito um estudo detalhado que confirmasse. Acredita-se que a imunidade celular do hospedeiro é de grande importância na resposta terapêutica da leishmaniose tendo em vista tratar-se de um parasito intracelular e o fato do antimonial ter ação como imunomodulador. Este caso, demonstra claramente que a leishmaniose mucosa é uma doença debilitante que pode causar desnutrição e imunodepleção propiciando infecções secundárias que podem se tornar mais graves que a própria doença de base.

 

AGRADECIMENTO

Claude Pirmez – pesquisadora da Fiocruz, Rio de Janeiro –, pela realização da PCR em bloco de parafina e ao técnico do Laboratório de Dermatomicologia da UnB, Tércio Pereira Rodrigues

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência
Raimunda Nonata Ribeiro Sampaio
SHIS QI 25 conjunto 02, casa 01
71660-220 - Brasília - DF
Telefone: (61) 367-1331
Fax: (61) 367-3825
E-mail: rnrsampaio@hotmail.com

Recebido em 02.01.2003.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 30.12.2005.
Conflito de interesse declarado: Nenhum

 

 

*Trabalho realizado nos Serviços de Dermatologia e de Pediatria do Hospital Universitário de Brasília - HUB e no Laboratório de Dermatomicologia da Universidade de Brasília - UnB - Brasília (DF), Brasil.