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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.81 no.5 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962006000500002 

EDITORIAL

 

Melanoma cutâneo: estudos de base populacional no Brasil

 

 

Nas últimas décadas, os melanomas cutâneos (MC) têm apresentado crescente incidência em vários países do mundo desenvolvido, em alguns até com mortalidade tendendo à estabilidade. No Brasil, além do crescimento da incidência, verifica-se também aumento da mortalidade, mais evidenciado em determinadas subpopulações que o compõem.

No Rio Grande do Sul, por exemplo, dados estimativos do INCA, do ano passado, demonstram que os melanomas cutâneos mais que triplicaram sua incidência nas mulheres e quase dobraram nos homens, em menos de 20 anos. As capitais estaduais, em regra, evidenciam mais casos de MC do que as cidades do interior; as mulheres de Porto Alegre, em 2005, tiveram a incidência estimada de 10,32/100.000 habitantes, pouco abaixo das mulheres inglesas, que era de 11,2/100.000 em 2000. Por outro lado, essas taxas foram suplantadas pelas mulheres de Florianópolis, com a incidência de 12,2/100.000 habitantes, em 2005!

Muito embora esses dados já apontem para a importância dos melanomas cutâneos no cenário dos cânceres no país, a real magnitude do problema não é conhecida, devido sobretudo à ausência de notificação compulsória, à falta de registro central para a neoplasia e à pouca atenção dada, em certos locais, decorrente da baixa incidência da neoplasia em determinadas áreas geográficas com predomínio de indivíduos de pele mais escura.

A população brasileira apresenta marcante heterogeneidade de tipos de pele, em cada uma das regiões do país, resultado da participação variável dos vários grupos étnicos que a compuseram. Dessa forma, é compreensível que a epidemiologia dos melanomas varie de acordo com a região estudada, sendo de grande valia toda a pesquisa que tente mapear as características desse tumor nas diferentes áreas do Brasil, considerando a variedade de peles encontrada em sua população.

A maioria dos estudos publicados está baseada em dados de base hospitalar, frutos de pesquisas realizadas por grupos especificamente interessados na neoplasia, havendo escassos trabalhos de base populacional que possam contribuir para o real conhecimento do problema no país.

Por esse motivo, é muito bem-vindo o artigo de Sortino-Rachou AM, Curado MP e Latorre MRDO – "Melanoma cutâneo: estudo de base populacional em Goiânia, Brasil, de 1988 a 2000", publicado no presente número dos Anais Brasileiros de Dermatologia, que analisa a incidência e a mortalidade do MC, em registro com 96,6% de confirmação histopatológica, naquela cidade do Brasil central.

Muito embora o trabalho demonstre incidências, em ambos os sexos, bem mais baixas do que as da Região Sul, comprova que elas também evidenciam uma tendência ao aumento, com o passar dos anos, sendo maior nas mulheres do que nos homens, semelhante ao que se passa no Brasil meridional, com maior número de melanomas. É possível que esse fenômeno esteja ligado a hábitos culturais de exposição solar excessivos, para fins estéticos, muito comuns na totalidade do país.

Interessante é notar que mais de 80% dos laudos histopatológicos não apresentavam classificação morfológica, nem outros parâmetros considerados para prognóstico, evidenciando outro problema: a ausência de uniformidade até no registro laboratorial dos MCs em território nacional.

Apesar do aumento na incidência, em Goiânia, a mortalidade parece estar se estabilizando, nas mulheres, à semelhança do que ocorre em outros países. Fato esse, também, nem sempre observado em outras regiões do país.

Concluindo, são necessários mais estudos de base populacional nas diferentes regiões geográficas no Brasil, para avaliar a real magnitude do problema e sua repercussão para o sistema de saúde pública, bem como para a obtenção de dados homogêneos e fidedignos que permitam comparação, produção de estatísticas e avaliação específica das populações de risco para o melanoma cutâneo, a fim de serem definidas políticas adequadas de controle e prevenção, que se adaptem especificamente a cada grupo populacional do país.

O trabalho de Sortino-Rachou et al. certamente servirá de estímulo para que mais pesquisas de base populacional sejam realizadas, em diferentes partes deste país continental, permitindo conhecimento mais seguro a respeito da epidemiologia dos melanomas cutâneos, e dele resultando melhores possibilidades de controle e resolução.

 

Lúcio Bakos
Coordenador da Campanha Nacional de Prevenção ao Câncer da Pele, da Sociedade Brasileira de Dermatologia;
Professor Titular de Dermatologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)