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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.81 no.6 Rio de Janeiro Nov./Dec. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962006000600014 

SÍNDROME EM QUESTÃO

 

Você conhece esta síndrome?*

 

 

Roberta Soriano de CerqueiraI; Alessandra Ribeiro RomitiII; Walter Belda JrIII; Zilda Najjar Prado de OliveiraIII; Maria Cecília Rivitti MachadoIII; Ricardo RomitiIII

IMédica da Universidade Federal de Alagoas – Ufal - Alagoas (AL), Brasil
IIEx-residente do Departamento de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil
IIIProfessor Assistente, Departamento de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A síndrome Leopard é distúrbio autossômico dominante de forte penetrância e expressividade variável. O epônimo Leopard foi criado em 1969 como regra mnemônica, ressaltando as características mais marcantes da síndrome: lentiginose, distúrbios de condução no ECG, hipertelorismo ocular, estenose pulmonar, anormalidade genital, retardo do crescimento e déficit auditivo sensorial. Relata-se o caso de uma menina de 15 anos com características da síndrome Leopard e discutem-se suas principais manifestações clínicas e genéticas.

Palavras-chave: Esotropia; Estenose da valva pulmonar; Genitália; Genitália/anormalidades; Lentigo; Perda auditiva; Síndrome Leopard


 

 

RELATO DE CASO

Doente do sexo feminino, 15 anos de idade, branca, natural e procedente de Minas Gerais, apresentava fácies sindrômica com hipertelorismo e estrabismo convergente (Figura 1), déficit de crescimento e retardo puberal, acompanhados de dezenas de máculas acastanhadas, bem delimitadas, de poucos milímetros de diâmetro, acometendo difusamente a pele, e que se desenvolveram após o primeiro ano de vida (Figura 2). Associadamente, duas outras lesões, mais escuras, maiores e isoladas, eram evidentes na coxa e no dorso.

 

 

 

 

Manifestações sistêmicas incluíam eletrocardiograma com alteração difusa da repolarização, estenose subaórtica e miocardiopatia hipertrófica. Ultra-som pélvico evidenciou ausência de ovário esquerdo, sem outras alterações. O desenvolvimento intelectual era normal. Negava consangüinidade e possuía irmã gêmea bivitelina cujo exame clínico e de imagens não evidenciou nenhuma alteração. Negava casos semelhantes no restante da família. Exame histopatológico de lesão dorsal revelou alterações consistentes com lentigo simples.

 

QUE SÍNDROME É ESTA?

Síndrome Leopard

A síndrome lentiginosa múltipla é caracterizada por manchas lentiginosas múltiplas associadas a alterações sistêmicas específicas. O termo Leopard foi usado originalmente por Golin, Anderson e Blaw em 1969 e serve como regra mnemônica para a síndrome caracterizada por lesões lentiginosas múltiplas, eletrocardiograma anormal, hipertelorismo ocular, estenose pulmonar, anomalias genitais e reprodutivas, retardo do crescimento e diminuição da audição.1

Como nem todas as alterações sistêmicas podem se expressar simultaneamente, Voron et al. sugeriram um mínimo de características para o diagnóstico dessa síndrome: além das características lentiginosas, ao menos duas outras alterações sistêmicas, ou simplesmente três características não lentiginosas.2

A lentiginose é a característica mais marcante dessa síndrome. Manifesta-se por múltiplas máculas acastanhadas, bem delimitadas, de aproximadamente 5mm de diâmetro, concentradas sobretudo no pescoço, extremidades superiores, tronco e abaixo dos joelhos. Acometem também a face, couro cabeludo, palmas, plantas e genitais, sendo a mucosa invariavelmente preservada. Os lentigos estão presentes desde o nascimento ou surgem na primeira infância e se tornam progressivamente mais numerosos e escuros com a idade. Eventualmente, máculas maiores, mais escuras e de contornos geométricos podem estar associadas.2-5

Eletrocardiograma anormal é comum nessa síndrome, sendo a estenose pulmonar o defeito estrutural mais comum. Desvio do eixo é a anormalidade mais reportada. Outras alterações freqüentes incluem o prolongamento do intervalo P-R, batimento ventricular ectópico isolado, ampliação do complexo QRS, onda P anormal, inversão da onda T, bloqueio do ramo esquerdo anterior e bloqueio ventricular total.5 O prognóstico dessa síndrome dependerá essencialmente das lesões cardíacas.

O hipertelorismo não é tão comum quanto as demais características da síndrome. No entanto, estrabismo e nistagmo têm sido relatados com alguma freqüência.2 As alterações geniturinárias são mais comuns no sexo masculino, sendo a criptorquidia a manifestação mais freqüentemente relatada.5 Nas mulheres, o que se encontra é hipoplasia do ovário ou, ele sendo único, puberdade precoce e menopausa tardia. O retardo do crescimento é característica comum, sendo a maioria dos pacientes classificada abaixo do percentil 25 para altura e peso.

A doente aqui relatada apresentava múltiplas lesões lentiginosas, anormalidade de repolarização no eletrocardiograma, hipertelorismo e estrabismo ocular, retardo puberal com ausência do ovário esquerdo, retardo no crescimento, e, até a presente data, ausência de perda sensorial da audição.3 A diminuição auditiva é, de todas as características dessa síndrome, a menos encontrada. É classicamente do tipo neurossensorial e usualmente diagnosticada na infância, mas pode se desenvolver mais tardiamente.

A síndrome Leopard manifesta-se de forma autossômica dominante com alta penetrância e expressividade variada. É rara, com aproximadamente 100 casos descritos até 2006. Acomete igualmente ambos os sexos. Sua patogênese ainda é desconhecida, porém ocorre mutação do gene PTPN11 (Shp2) em 90% dos casos.4,6

Embora rara, a síndrome Leopard deve sempre ser lembrada em doentes com lesões lentiginosas múltiplas na presença de alterações cardíacas. Exame físico e investigação sistêmica minuciosa são essenciais. As alterações neurossensoriais da audição podem ocorrer tardiamente, mas devem ser periodicamente monitorizadas durante a infância e adolescência, pois o diagnóstico tardio pode prejudicar o desenvolvimento neuropsicomotor da criança e dificultar o aprendizado.

 

REFERÊNCIAS

1. Pickering D, Laski B, Macmillan DC, Rose V. “Little Leopard” syndrome. Description of 3 cases and review of 24. Arch Dis Child. 1971;46:85-90.         [ Links ]

2. Agha A, Hashimoto K. Multiple lentigines (LEOPARD) syndrome with Chiara I malformation. J Dermatol. 1995;22:520-3.        [ Links ]

3. Ribeiro AP, Romiti R, Machado MCR, Belda W, Oliveira ZNP. Leopard syndrome. Eur J Pediatr Dermatol. 1997;7:163-6.        [ Links ]

4. Sarkozy A, Conti E, Digilio MC, Marino B, Morini E, Pacileo G, et al. Clinical and molecular analysis of 30 patients with multiple lentigines LEOPARD syndrome. J Med Genet. 2004;41:68.        [ Links ]

5. David A, Voron MD, Hayes H, Hatfield MD, Ronald K, Kalkhoff MD. Multiple lentigines Syndrome: case report and review of the literature. Am J Med. 1976;60:447-55.        [ Links ]

6. Kontaridis MI, Swanson KD, David FS, Barford D, Neel BG. PTPN11 (Shp2) mutations in LEOPARD syndrome have dominant negative, not activating, effects. J Biol Chem. 2006;281:6785-92.         [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Ricardo Romiti
Rua Dr. Neto de Araújo, 320 cj. 1004
CEP: 04111 001 São Paulo SP
Tel: 011-55492211
E-mail: rromiti@hotmail.com

Conflito de interesse declarado: Nenhum.

Recebido em 20.11.2006.
Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 29.11.2006.

 

 

* Trabalho realizado no Departamento de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo (USP) – São Paulo (SP), Brasil.