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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.81  suppl.3 Rio de Janeiro Sept./Oct. 2006

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962006000900002 

CASO CLÍNICO

 

Acantoma epidermolitico da região escrotal*

 

 

Nelson Guimarães ProençaI; Nilceo MichalanyII

IDermatologista, Médico Voluntário da Clínica de Dermatologia da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil
IIDermatopatologista, Médico Voluntário da Clínica de Dermatologia da Santa Casa de São Paulo - São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

São apresentados dois casos de acantoma epidermolítico da região escrotal. Trata-se de homens com 52 e 68 anos de idade, tendo 21 e cinco lesões, respectivamente, todas assintomáticas. O exame anatomopatológico foi característico, mostrando hiperplasia da epiderme com alteração epidermolítica da porção superior da camada espinhosa, que se estende até a camada granulosa. Casos como esses não têm sido publicados, até aqui, no Brasil. O registro dos casos foi feito para despertar o interesse de dermatologistas e urologistas por uma afecção que não parece ser tão rara, conforme tem sido afirmado.

Palavras-chave: Acantoma; Epiderme; Escroto; Genitália masculina


 

 

INTRODUÇÃO

Em 1970 Shapiro, Baraf1 relataram seis casos de lesões solitárias (escroto, ânus, pálpebra, região geniana, perna) e um caso com múltiplas lesões (escroto), cujo estudo anatomopatológico mostrou tratar-se de espessamento da camada malpighiana (acantoma) associado à presença de alterações epidermolíticas, ao nível da camada granulosa da epiderme. Entendendo que se tratava de um quadro não descrito antes, deram a denominação de acanthoma epidermolyticum (AE).

Nos 30 anos que se seguiram foram poucas as comunicações a respeito do tema,2-8 o que deixou a impressão de se tratar de afecção bastante rara. Não obstante, os autores têm observado que, pelo menos no que se refere à região escrotal, não é tão rara assim. Os autores tiveram oportunidade de observar vários pacientes com esse tipo de lesão cutânea escrotal, nos últimos anos, em dois dos quais procederam à biópsia, a qual permitiu firmar o diagnóstico.

 

RELATO DOS CASOS

Ambos os pacientes eram de raça branca, um de origem italiana, o outro, de origem árabe. Tinham 52 e 68 anos, respectivamente. O primeiro consultou por ter notado a presença das lesões, que já persistiam por dois anos, sem apresentar modificações. O segundo não havia percebido que tinha lesões, avistadas durante um exame dermatológico. Em ambos os casos as lesões estavam disseminadas na região escrotal, somando 21 no primeiro paciente e apenas cinco no segundo. Apresentavam-se como pápulas ovaladas ou em forma de disco, com diâmetro variável entre dois e 6mm. A superfície era absolutamente plana e de cor mais clara do que a da pele da região escrotal, violáceo-clara, variando a tonalidade do acinzentado ao esbranquiçado (Figuras 1A e 1B). Eram assintomáticas, mas estavam suficientemente desenvolvidas a ponto de despertar a atenção dos pacientes. No primeiro caso pensou-se tratar-se de infecção pelo HPV, tendo-se procedido à tentativa de demonstração da presença do vírus, pela técnica de hibridização, a qual resultou negativa. O exame anatomopatológico desse paciente mostrou o aspecto característico do AE (Figuras 2A e 2B), conforme já descrito.1,9 A experiência vivida com esse primeiro caso permitiu aos autores o estabelecimento do diagnóstico clínico correto no segundo, o qual foi a seguir confirmado pelo exame anatomapatológico.

 


 

 


 

DISCUSSÃO

AE foi descrito em diferentes localizações, a saber: pálpebra,1 região geniana,1 perna,1 ânus,1 dorso,4,5 e antebraço.7 Na região escrotal há registro anterior de três casos,1,3 aos quais agora são acrescentados mais dois.

Na maior parte das comunicações trata-se de lesão solitária, mas também foram descritas lesões múltiplas, sobretudo na região escrotal1 e na região dorsal.4-6

Em um paciente transplantado de rim, imunodeprimido por drogas, foram encontradas centenas de lesões de AE distribuídas pelo couro cabeludo, membros superiores e inferiores, além de múltiplas lesões de verruga vulgar e de poroceratose.7

Tentativas de isolar o DNA dos papilomavírus humanos (HPV), em biópsias de casos de AE, foram negativas.7,8

O diagnóstico diferencial principal do acantoma epidermolítico é com as verrugas pelo HPV. Isso ocorre tanto com as lesões de face e do tronco (semelhança com a verruga plana) como com as lesões do escroto (semelhança com o condiloma).

Do ponto de vista histopatológico, destaque-se a necessidade de não se confundir com o chamado acantoma acantolítico, no qual o fenômeno histopatológico principal é outro, pois se trata de acantólise e não de hiperceratose epidermolítica.

O interesse em conhecer melhor o AE da região escrotal levou os autores a organizar um protocolo de pesquisa, que já está em andamento. Por meio dele pretende-se fixar aspectos epidemiológicos, tais como a freqüência e a distribuição por grupos etários e conhecer melhor seus aspectos ultramicroscópicos. É possível que a ultramicroscopia contribua para compreender a histogênese dessa curiosa lesão.

 

REFERÊNCIAS

1. Shapiro L, Baraf CS. Isolated epidermolytic acanthoma. Arch Dermatol. 1970;101:220-3.        [ Links ]

2. Hirone T, Fukushiro R. Disseminated epidermolytic acanthoma. Acta Derm Venereol. 1973;53:393-402.        [ Links ]

3. Niizuma K. Isolated epidermolytic acanthoma: a histological study. Dermatologica. 1979;159:30-6.        [ Links ]

4. Knipper JE, Hud JA, Cockerell CJ. Disseminated epidermolytic acanthoma. Am J Dermatopathol. 1993;15:70-2.        [ Links ]

5. Metzler G, Sönnichsen K. Disseminierte epidermolytische akanthome. Hautarzt. 1997;48:740-2.        [ Links ]

6. Sánchez-Carpintero I, España A, Idoate MA. Disseminated epidermolytic acanthoma probably related to trauma. Br J Dermatol. 1999;141:728-30.        [ Links ]

7. Chun SI, Lee LS, Kim NS, Park KD. Disseminated epidermolytic acanthoma with disseminated superficial porokeratosis and verruca vulgaris in a immunosuppressed patient. J Dermatol. 1995;22:690-2.        [ Links ]

8. Leonardi C, Zhu W, Kinsey W, Penneys NS. Epidermolytic acanthoma does not contain human papillomavirus DNA. J Cutan Pathol. 1991;18:103-5.        [ Links ]

9. Lever WF, Schaumburg-Lever G. Histopatologia da Pele. São Paulo: Manole; 1991. p.478-9.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Nelson Guimarães Proença
Rua Prof Artur Ramos, 241 - 9o. Andar
01454-011 - São Paulo - SP
Tel.: (11) 3032-4633 / Fax: (11) 3032-7573
E-mail: nelson@proencaderm.med.br

Recebido em 29.01.2004.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 07.06.2006.

 

 

* Trabalho realizado em Clínica privada.
Conflito de interesse declarado: Nenhum