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Anais Brasileiros de Dermatologia

Print version ISSN 0365-0596On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.82 no.3 Rio de Janeiro May/June 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962007000300012 

QUAL O SEU DIAGNÓSTICO ?

 

Caso para diagnóstico*

 

Case for diagnosis

 

 

Guilherme Cenci GuimarãesI; Antônio Francisco Bastos FilhoII; Lucia Helena Fávaro ArrudaIII

IMédico dermatologista do Serviço de Dermatologia, Hospital e Maternidade Celso Pierro, Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil
IIMédico dermatologista voluntário do Serviço de Dermatologia, Hospital e Maternidade Celso Pierro, Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil
IIIMédica dermatologista. Responsável pelo Serviço de Dermatologia, Hospital e Maternidade Celso Pierro, Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP). Mestre em Dermatologia pela Escola Paulista de Medicina (Unifesp) - Campinas (SP), Brasil.

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

A pitiríase rotunda é dermatose rara, caracterizada por placas circulares bem definidas, hipo ou hiperpigmentadas, localizadas no tronco e porção proximal dos membros. São descritos dois subtipos: o tipo I acomete pacientes negros e orientais sem história familiar de pitiríase rotunda e está relacionado com doença sistêmica concomitante; o tipo II ocorre em caucasianos com história familiar e sem doença subjacente. Descreve-se um caso do tipo I em mulher negra de 39 anos.

Palavras-chave: Adulto; Dermatopatias genéticas; Manifestações cutâneas; Neoplasias


ABSTRACT

Pityriasis rotunda is a rare dermatosis characterized by sharply defined, hypo- or hyperpigmented circular plaques, located in the trunk and proximal extremities. There are two described subtypes: type I affects Black or Eastern patients without family history of pityriasis rotunda and is associated with simultaneous systemic illness; type II occurs in Caucasians with a family history of pityriasis rotunda and without underlying disease. In this article we report the case of type I pityriasis rotunda in a 39-year-old black woman.

Keywords: Adult; Neoplasms; Skin diseases, genetic; Skin manifestations


 

 

HISTÓRIA DA DOENÇA

Paciente do sexo feminino, 39 anos, melanodérmica, natural de São Paulo e procedente de Campinas. Apresentava, há quatro anos, manchas castanhas com descamação fina e prurido discreto. Tinha história de herpes-zóster facial há um ano. Não havia parentes com quadro semelhante.

Ao exame dermatológico observaram-se placas castanhas circulares, de bordas bem delimitadas, com escamas castanhas ictiosiformes, localizadas no tórax, abdômen, coxas e glúteo esquerdo (Figuras 1 e 2). Mediam de cinco a 15 centímetros de diâmetro, e algumas eram confluentes.

 

 

 

 

Os resultados dos exames laboratoriais de rotina, função tireoidiana e radiografia de tórax não mostraram alterações. As sorologias para HIV 1 e 2, hepatite B e C não foram reagentes. O exame com lâmpada de Wood não mostrou fluorescência. O exame micológico direto e a cultura para fungos foram negativos.

À histopatologia a epiderme apresentava hiperceratose ortoceratósica e agranulose (Figura 3).

 

 

COMENTÁRIOS

A pitiríase rotunda (PR) é doença rara que se apresenta como placas bem definidas, circulares, descamativas, variando de três milímetros até 28 centímetros de diâmetro,1-5 com escamas ictiosiformes aderidas, sem alterações inflamatórias, hipercrômicas ou hipocrômicas.2-5 Acomete principalmente o tronco e a porção proximal dos membros. A maioria dos casos relatados é oriunda do Japão, África do Sul (Bantu), Índia Ocidental1-5 e Itália (Sardenha).3-5 São descritos dois subtipos:3-5

PR do tipo I: acomete indivíduos negros ou orientais1-5 na faixa etária dos 20 aos 45 anos, com discreta predominância no sexo feminino (1,5:1).2 A maioria dos casos é descrita no Japão, África do Sul (Bantu) e Índia Ocidental.1-5

Esses pacientes apresentam menos de 30 lesões acastanhadas que são persistentes. Não há história familiar e existe associação do quadro cutâneo com doenças crônicas e malignidade.1-5 Ito e Tanaka, em revisão, relataram a associação com doenças sistêmicas em 61 (33,7%) de 181 pacientes.2 Diversos autores correlacionaram a dermatose com várias condições como gravidez, desnutrição, hepatite, hepatocarcinoma, carcinoma gástrico, adenoma de próstata, deficiência familiar de glicose-6- fosfato desidrogenase, tuberculose, mieloma, hanseníase e HIV.1-5

PR do tipo II: acomete caucasianos, sendo a maioria habitante ou descendente de pessoas da ilha da Sardenha, na Itália. Ocorre em crianças e adultos jovens, que apresentam muitas placas hipocrômicas, em número superior a 200. A ocorrência familiar é comum, e não há associação com doença subjacente. Os pacientes tendem à melhora após os 20 anos de idade.3,5

Os autores consideram que os casos de PR tipo I representam uma forma de ictiose adquirida, que ocorre quando um indivíduo com predisposição genética é submetido ao estresse de uma infecção crônica ou malignidade.2 No tipo II, a presença de grande número de casos entre familiares sugere que a doença seja geneticamente determinada, sendo que a evolução para resolução espontânea a coloca como genodermatose com expressão fenotípica temporária.3,5

O diagnóstico diferencial se faz com a pitiríase versicolor, pitiríase alba, dermatite atópica, tinha do corpo, eritrasma extraflexural, parapsoríse, eritema fixo medicamentoso e hanseníase.1-5

O exame histopatológico mostra epiderme com hiperceratose ortoceratótica, hipogranulose ou agranulose e derme sem alterações.1-5

A PR geralmente é refratária ao tratamento. Em alguns casos, o tratamento da condição de base, quando identificada, resulta na resolução das lesões. Podem ser utilizados também emolientes, queratolíticos, retinóides tópicos ou sistêmicos.1-5

O caso relatado se refere a paciente de pele negra com PR do tipo I em que não foi encontrada doença concomitante. Os autores não acharam relatos de PR no Brasil, na literatura pesquisada.

 

REFERÊNCIAS

1. Judge MR, McLean WHI, Munro CS. Disorders of keratinization. In: Champion RH, Burton JL, Burns DA, Breathnach SM, editors. Rook/ Wilkinson/ Ebling. Textbook of Dermatology. 7th ed. London: Blackwell Science; 2004. p.53-4.        [ Links ]

2. Pinto GM, Tapadinhas C, Moura C, Afonso A. Pityriasis rotunda. Cutis. 1996;58:406-8.        [ Links ]

3. Ena P, Cerimel D. Pityriasis rotunda in childhood. Pediatr Dermatol. 2002;19:200-3.        [ Links ]

4. Grimalti R, Gelmetti C, Brusasco A, Tadini G, Caputo R. Pityriasis rotunda: report of a familial occurrence and review of the literature. J Am Acad Dermatol. 1994;31:866:71.        [ Links ]

5. Ena P, Siddi GM. Pityriasis versicolor resembling pityriasis rotunda. J Eur Acad Dermatol Venereol. 2002;16:85-7.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Guilherme Cenci Guimarães
Serviço de Dermatologia, Hospital e Maternidade
Celso Pierro, PUC-Campinas.
Av. John Boyd Dunlop s/n, Jardim Ipaussurama,
13059-900 - Campinas - SP
E-mail: guicenci@terra.com.br.

Recebido em 02.08.2006.
Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 01.11.2006.

 

 

* Trabalho realizado no Serviço de Dermatologia, Hospital e Maternidade Celso Pierro, Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUC-Campinas) - Campinas (SP), Brasil.
Conflito de interesse declarado: Nenhum.

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