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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.82 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2007

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962007000400012 

QUAL É SEU DIAGNÓSTICO ?

 

Caso para diagnóstico*

 

Case for diagnosis

 

 

Susana GiraldiI; Betina WernerII

IMestre em Pediatria e médica do Ambulatório de Dermatopediatria, Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Curitiba (PR), Brasil
IIDermatopatologista e doutoranda da Universidade Federal do Paraná (UFPR) – Curitiba (PR), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

O pili migrans cutâneo consiste na presença de haste de pêlo, localizado na camada superficial do estrato córneo, que se desloca com a movimentação do pé. Descreve-se o caso de uma criança com pêlo humano incrustado na região plantar direita.

Palavras-chave: Cabelo; Criança; Pele


ABSTRACT

Cutaneous pili migrans is the presence of shafts inside the stratum corneum that migrate due to foot movements. We report a case of a child with this condition in the right plantar region caused by a human hair.

Keywords: Child; Hair; Skin


 

 

HISTÓRIA DA DOENÇA

Paciente do sexo feminino, de dois anos e 11 meses, há sete dias com história de aparecimento de lesão linear assintomática que "caminha" no pé direito, sem antecedentes de trauma local. A suspeita clínica foi de larva migrans cutânea ou corpo estranho.

Ao exame dermatológico presença de estrutura linear acastanhada na região tenar plantar direita. Ao exame dermatoscópico observou-se corpo linear, acastanhado, de aproximadamente 3cm de comprimento, curvado em forma de "U" em sua parte superior, com discreto eritema da base nesse local (Figura 1). Após dois dias, a paciente foi reavaliada, e a lesão linear havia mudado de posição na região plantar. Fezse, então, pequena incisão com agulha de insulina, sob anestesia local com creme anestésico tópico e assepsia, para a retirada do corpo estranho. Realizada a abertura da queratina superficial, foi pinçado o corpo estranho linear, acastanhado, de consistência um pouco endurecida que saiu facilmente (Figura 2).

 

 

 

 

A mãe da criança relatava que há uma semana havia cortado seus cabelos em casa e que a criança tinha contato com grama sintética na escola. A análise microscópica do pêlo retirado revelou tratar-se de pêlo humano, com as características próprias da queratina e coloração habitual (Figura 3A). O exame sob luz polarizada corroborou a conclusão de pêlo humano normal (Figura 3B). Portanto, a hipótese de pêlo sintético foi completamente afastada.

 

 

COMENTÁRIOS

Pêlos migratórios1 ou pili migrans2 significam a presença de uma haste de pêlo penetrado ou enclausurado no interior da pele. A expressão tem sido utilizada para descrever a ocorrência de pêlo móvel, localizado na camada superficial do estrato córneo. Não há reação inflamatória do tipo corpo estranho, pois o pêlo se localiza geralmente na camada córnea ou epiderme.3 A maioria dos casos descritos na literatura ocorre em crianças, e o corpo se assemelha clinicamente à larva migrans cutânea.4 Esta é causada pela larva do Ancylostoma braziliensis ou caninum, proveniente das fezes de cães e gatos, e penetra a pele do ser humano escavando um túnel na epiderme. A lesão é comumente localizada na região plantar, com aspecto de túnel eritematoso e pruriginoso, podendo simular o pili migrans.

O pequeno número de casos de pili migrans cutâneo descritos na literatura se justifica por ser essa dermatose totalmente benigna, assintomática e não comunicada.3 A maioria dos casos é descrita na idade pediátrica,1,3,5 tendo um ocorrido em adolescente com neuropatia que arrastava os pés no chão,4 e há somente um caso relatado em adulto. O pêlo enclausurado na camada córnea pode ser autólogo humano ou heterólogo de animal, como um caso descrito de pêlo de cão.5

A paciente apresentada no presente relato pisou descalça em cabelos cortados da mãe que se encontravam no piso de seu domicílio, tendo um fio penetrado a pele fina da região plantar e ficado aprisionado na camada de queratina. Acredita-se que o pêlo penetra de forma oblíqua a camada córnea e tem movimento migratório resultante da contração muscular determinada pela deambulação do paciente.4

 

AGRADECIMENTOS

Ao dr. Fábio Augusto Selig, pediatra e especialista em cardiologia pediátrica, pelo encaminhamento do caso.

 

REFERÊNCIAS

1. Schamberg IL, Pak E, Strauss RE. Bristle migrans. Arch Dermatol.1961;83:663.        [ Links ]

2. Thai KE, Sinclair RD. Cutaneous pili migrans. Br J Dermatol. 2001;144:219.        [ Links ]

3. Neri I, Bianchi F, Medri M, Bardazzi F. Cutaneous Pili Migrans in a 3-year-old child. Pediatr Dermatol. 2004;21:612-3.        [ Links ]

4. Yaffee HS, Arbor A. Imbedded Hair Resembling Larva Migrans. Arch Dermatol.1957;76:254.        [ Links ]

5. Lehmuskallio EA. Hair fragment in the skin resembling larva migrans. Br J Dermatol.1975;93:349-50.        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Susana Giraldi
Rua Vicente Machado, 2505, apto, C5 Batel
80440-020 - Curitiba - PR
Tels.:(41) 3342-0285 / (41) 9994-2606
E-mail: sgiraldi@ufpr.br

Conflito de interesse : Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum

Recebido em 04.07.2006.
Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 20.10.2006.

 

 

* Trabalho realizado em clínica privada e no laboratório de Anatomia Patológica Diagnose – Curitiba (PR), Brasil.