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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.84 no.1 Rio de Janeiro Jan./Feb. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962009000100017 

MEMÓRIA

 

Acervo raro da Sociedade Brasileira de Dermatologia: considerações sobre sua preservação histórica*

 

 

Jeorgina Gentil RodriguesI; Izelda Maria Carvalho CostaII; Rosalynn LeiteIII; Rosângela SoaresIV

IMestre de Ciência da Informação pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Bibliotecária da Seção de Obras Raras A. Overmeer da Biblioteca de Ciências Biomédicas do Instituto de Comunicação e Informação Científica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IIDoutora em Dermatologia pela Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Diretora da Biblioteca da SBD - Gestão 2007/2008 e professora orientadora do curso de pós-graduação em Ciências da Saúde da Universidade de Brasília (UNB) - Brasília (DF), Brasil
IIIBacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Bibliotecária da Sociedade Brasileira de Dermatologia - Rio de Janeiro (RJ), Brasil
IVBacharel em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio) - Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Endereço para correspondência/Mailing Address

 

 


RESUMO

O artigo descreve a formação da coleção de obras raras da Biblioteca Professor Francisco Eduardo Rabello da Sociedade Brasileira de Dermatologia.

Palavras-chave: Acervo de biblioteca; Artigo histórico; Biblioteca Professor Francisco Eduardo Rabello; Livros raros; Sociedade Brasileira de Dermatologia


 

 

INTRODUÇÃO

A história da dermatologia moderna começa na Europa, em especial na França, entre os séculos XV e XVI, onde médicos começam a se interessar por problemas cutâneos. No Brasil, a dermatologia tem seu início em 1882, com a instalação do primeiro Serviço Clínico de Doenças da Pele na Policlínica Geral do Rio de Janeiro.

A partir das descobertas da microbiologia, em finais do século XIX e início do século XX, e da dinâmica induzida pelo ensino da dermatologia como especialidade, os estudos nesta área evoluíram até atingir seu atual nível de excelência.

A dermatologia teve, nas últimas décadas, grande crescimento tanto quantitativo como qualitativo. O conhecimento dos mecanismos patogênicos das dermatoses foi muito ampliado, bem como se incorporaram novas terapêuticas que têm beneficiado de maneira crescente os portadores de dermatoses.1

Foi nesse cenário que nasceu a então Sociedade Brasileira de Dermatologia e Sifilografia, hoje Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD), em 1912, no Pavilhão São Miguel da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro.2

A primeira reunião científica da SBD ocorreu em primeiro de março de 1912, no anfiteatro da 19a Enfermaria da Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro, com 18 ilustres médicos, dos quais apenas 10 eram dermatologistas.3 A sífilis, a lepra, a leishmaniose, a paracoccidioidomicose, a bouba, as micoses profundas e superficiais constituíam tema de freqüentes debates. O professor Fernando Terra (1865-1940), idealizador da criação da SBD, foi seu primeiro presidente, exercendo mandato entre 1912 e 1925.

Em 20 de outubro de 1933, foi inaugurada na Santa Casa de Misericórdia do Rio de Janeiro a Biblioteca do Pavilhão São Miguel e por muitos anos serviu a SBD, que também ocupava aquele espaço. Tendo sido considerada detentora do maior acervo bibliográfico da América Latina na área de dermatologia, 2,3 na década de 1970, a biblioteca foi transferida em definitivo para a SBD.

 

A BIBLIOTECA PROFESSOR FRANCISCO EDUARDO RABELLO

O médico dermatologista Francisco Eduardo Rabello (1941-1976) é reconhecido como um dos pioneiros da dermatologia como especialidade no Brasil. Em homenagem a esse grande médico, a SBD batiza com seu nome a biblioteca da instituição.

A Biblioteca Professor Francisco Eduardo Rabello foi criada para servir como referência nacional na área de dermatologia e preservar a memória institucional.4 Seu acervo de obras raras é composto por cerca de 2.250 volumes (Figura 1).5

 

 

Entre as obras mais antigas do acervo, encontra-se o primeiro e grande tratado sobre a sífilis e doenças venéreas, de autoria de J. Astruc, intitulado De Morbis Venereis Libri Novem (1740). Ainda do século XVIII, destaca- se o livro Morborum antiquitates... (1774), do relevante historiador médico C. G. Gruner. A relação de obras do século XIX compreende raridades, em torno principalmente das técnicas de representação iconográficas. O processo de criação das ilustrações científicas era mediado pelos grandes artistas e anatomistas da época, atingindo no final desse século o apuro técnico e descritivo exigido pela ciência.6,7 Nesse contexto, destacam-se as obras Monographie des dermatoses ou précis théorique et pratique des maladies de la peau (1822), de J.-L. Alibert (Figura 1);5 Traité des maladies du cuir chevelu. .. (1850), de P.-L.A. Cazenave, e Traité complet des maladies vénériennes. Clinique iconographique de l'Hôpital des vénériens... (1862), de P. Ricord. No início do século XX, a fotografia possibilitou o rigor na visualização das lesões cutâneas. Destaca-se aqui o trabalho de C. Lailler, denominado Leçons cliniques sur les teignes, faites a l'hôpital Saint-Louis (1878). O autor utilizou fotografias em sépia no registro das dermatoses (Figura 2).8 Contudo, o uso da fotografia não anulou a importância das técnicas do desenho científico. Nesse sentido, destaca-se a obra Traité pratique et théorique de la lèpre (1886), de A. Cullerier, em que se encontram ilustrações científicas muito belas que representavam de forma acurada as dermatoses (Figura 3).9

 

 

 

 

Outro conjunto documental importante é aquele atribuído aos autores de vanguarda, do qual se destacam as obras de F. Hebra, Traité des maladies de la peau (1872); P.G. Unna e colaboradores, Internationaler Atlas seltener Hautkrankheiten (1881); L.A.J. Brocq, Traitement des maladies de la peau, avec un abrégé de la symptomatologie, du diagnostic et de l'étiologie des dermatoses (1898); e J. A. Fournier, De l'ataxie locomotrice d'origine syphilitique (tabes spécifique). Leçons cliniques professées à l'Hôpital Saint-Louis (1882).

A dermatologia brasileira fez-se representar nesse acervo por intermédio de Fernando Terra, Francisco Eduardo Rabello, Oscar da Silva Araújo, Emilio Ribas, Werneck Machado, Adolpho Lindemberg, Nelson de Souza Campos e Heráclides de Souza Araújo, do Instituto Oswaldo Cruz

Contudo, doenças como a sífilis e a hanseníase ainda configuram grande problema de saúde pública. A sífilis, principal doença sexualmente transmissível (DST) depois da Aids, é considerada prioridade pelo Ministério da Saúde. Com relação à hanseníase, a detecção de casos novos permanece alta em muitos países, o Brasil entre eles.

Nesse contexto, a Biblioteca Professor Francisco Eduardo Rabello possui acervo histórico de grande importância para a história da dermatologia moderna, com destaque para doenças como a sífilis e a hanseníase. A consulta ao setor de obras raras é permitida mediante agendamento prévio e só no local, atendendo aos pesquisadores da SBD e as instituições de pesquisa e ensino do país.

 

REFERÊNCIAS

1.  Rivitti EA. Reflexões sobre a dermatologia atual no Brasil. An Bras Dermatol. 2006;81:505-7         [ Links ]

2.  Carneiro G. História da Dermatologia no Brasil. Rio de Janeiro: Sociedade Brasileira de Dermatologia; 2002         [ Links ]

3.  Nascimento LV. A SBD e a perspectiva futura de progresso científico. An Bras Dermatol. 2002;77:515-6         [ Links ]

4.  Azulay RD. Biblioteca da Sociedade Brasileira de Dermatologia: sua importância na formação do especial ista. An Bras Dermatol. 1989;64:3         [ Links ]

5.  Alibert JLM. Monographie des dermatoses, ou Précis théorique et pratique dês maladies de la peau. Paris: Chez Lê Docteur Daynac; 1832         [ Links ]

6.  Fonseca A, Ferraz AR. Iconografia Dermatológica: visão histórica e promotores. Rev SPDV. [periódico na Internet] 2005 [Acesso em 27 out 2008];63:165-172. Disponível em: http://www.dermo.pt/revistas/vol63n2/Vol64-N2-Abril- Junho2005.pdf         [ Links ]

7.  Instituto de Comunicação e Informação Científica em Saúde da Fundação Oswaldo Cruz. Ilustrare Scientia: guia de exposição. Rio de Janeiro: Icict/Fiocruz; 2007         [ Links ]

8.  Lailler C. Leçons cliniques sur leis teignes, faites a l’hôpi tal Saint-Louis. Paris: Adrien Delahaye, Libraires - Êdi teurs; 1878         [ Links ]

9.  Cullerier A. Traité pratique et théorique de la lèpre. Paris: A. Delahaye et Lecrosinier; 1886        [ Links ]

 

 

Endereço para correspondência:
Jeorgina Gentil Rodrigues
R. Silva Rabelo, 135/202 - Méier
20735 080 - Rio de Janeiro - RJ
E-mail: jeorginarodrigues@hotmail.com

Aprovado pelo Conselho Editorial e aceito para publicação em 31.10.2008.

 

 

Conflito de interesse: Nenhum
Financial funding: None
Como citar este artigo/How to cite this article: Rodrigues JG, Leite R, Costa IMC, Soares R. Acervo raro da Sociedade Brasileira de Dermatologia: considerações sobre sua preservação histórica. An Bras Dermatol. 2008;84(1):93-5.
* Trabalho realizado na Divisão de Dermatologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (HC-FMUSP) - São Paulo, Brasil. Grupo de Estudos em Vasculites.