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Anais Brasileiros de Dermatologia

On-line version ISSN 1806-4841

An. Bras. Dermatol. vol.84 no.4 Rio de Janeiro July/Aug. 2009

http://dx.doi.org/10.1590/S0365-05962009000400004 

INVESTIGAÇÃO CLÍNICA, EPIDEMIOLÓGICA, LABORATORIAL E TERAPÊUTICA

 

Identificação de enfermidades agudas causadas por animais e plantas em ambientes rurais e litorâneos: auxílio à prática dermatológica*

 

 

Vidal Haddad Junior

Professor doutor da Faculdade de Medicina de Botucatu (Universidade Estadual Paulista) – Botucatu (SP), Brasil – e médico colaborador do Hospital Vital Brazil, Instituto Butantan – São Paulo (SP), Brasil

Endereço para correspondência

 

 


RESUMO

FUNDAMENTOS: Nos últimos anos, existe um aumento progressivo do contato de moradores urbanos com ambientes selvagens devido a atividades de lazer. Com isso, algumas dermatites pouco conhecidas podem ser observadas nas clínicas privadas e ambulatórios dermatológicos, especialmente nos inícios de semana e finais de férias.
OBJETIVOS: Obter e fornecer informações para dermatologistas sobre o problema.
PACIENTES E MÉTODOS: O autor observou, em adultos e crianças, dermatites agudas associadas a plantas ou animais em Ubatuba, cidade litorânea de São Paulo, por dois meses (junho/julho de 2006) e na Faculdade de Medicina de Botucatu, também por dois meses (junho/julho de 2007).
RESULTADOS: Foram observados 25 pacientes na área rural e 43 na área litorânea nas condições estabelecidas. Em áreas rurais, foram mais observadas fitofotodermatites e picadas de insetos, enquanto em áreas litorâneas traumas por ouriços-do-mar e fitofotodermatites predominaram; entretanto, em ambas as áreas ocorreram outros acidentes de difícil identificação na prática diária.
CONCLUSÕES: Devemos estar atentos ao fato de o paciente procurar o dermatologista somente após as fases agudas dos acidentes. Informações sobre as enfermidades mais comuns e suas características podem ser muito úteis para a prática nos consultórios. O autor sugere uma tabela algorítmica para auxílio diagnóstico.

Palavras-chave: Animais peçonhentos; Dermatologia; Exposição ambiental; Intoxicação por plantas; Intoxicação por plantas/etiologia


 

 

INTRODUÇÃO

Embora algumas dermatites causadas por plantas e animais possam ocorrer em ambientes urbanos, a maioria dos casos acontece após contato com ambientes rurais.1,2,3 Atualmente, vivemos uma intensa valorização de atividades esportivas e de lazer, o que direciona o ser humano para esses locais. Com isso, contatos com vários animais e plantas podem ocasionar dermatites polimorfas de frequência e gravidade variáveis. Elas são, na maioria das vezes, causadas pelo contato direto com o agente e associadas a toxinas ou fenômenos alérgicos, diferindo das enfermidades comumente observadas nos consultórios. Os acidentes mais comuns causados por animais peçonhentos são provocados por artrópodes, como os besouros (especialmente dos gêneros Paederus e Epicauta), abelhas, aranhas (gêneros Loxosceles e Phoneutria) e formigas (particularmente as formigas lava-pés, do gênero Solenopsis). As aroeiras e plantas fotossensibilizantes são responsáveis pela maioria dos agravos causados por plantas. O conhecimento dos agravos mais comuns e o relato da estadia recente em ambiente aberto são extremamente úteis. Deve-se ainda ter em mente que o paciente será examinado pelo dermatologista apenas no retorno ao ambiente urbano, uma vez que o primeiro exame é realizado na maioria das vezes por um profissional que atua em pronto-socorro no local onde ocorre o acidente.

 

OBJETIVOS

Fornecer dados para identificação dos agentes causadores e alertar os dermatologistas para a possibilidade do atendimento de enfermidades provocadas por plantas e animais de locais silvestres em seus locais de prática diária.

 

CASUÍSTICA E MÉTODOS

O autor registrou dermatites causadas por animais e plantas em 68 adultos e crianças durante um período de dois meses (junho e julho), a partir de observações dirigidas em atendimentos realizados na Santa Casa de Ubatuba, litoral norte do Estado de São Paulo (junho/julho de 2006), e no ambulatório e triagem da Faculdade de Medicina de Botucatu, Universidade Estadual Paulista (junho/julho de 2007). As observações iniciais dos pacientes foram efetuadas pelo corpo clínico das instituições, em regime de rotina. A orientação do autor se fez após pré-seleção dos acidentados pelas equipes. Os pacientes cujo agravo tinha etiologia duvidosa quando do exame dermatológico e aqueles que não puderam dar informações com clareza foram excluídos do estudo. Os pacientes foram convidados a responder a um questionário dirigido e autorizaram o uso dos dados para uma análise descritiva dos quadros por meio de um protocolo assinado.

 

RESULTADOS

Foram observados 25 pacientes na área rural (Botucatu) e 43 na área litorânea (Ubatuba) nas condições exigidas pelo estudo. Aproximadamente 50% (33) eram crianças (menores de 12 anos). Todos os pacientes apresentaram comprometimento cutâneo em maior ou menor grau, e cerca de 70% manifestaram intenção de procurar um dermatologista quando retornassem à cidade de origem. Os pacientes foram classificados pelos tipos de lesões que apresentaram e estas foram associadas aos agentes (Tabela 1,2 e 3) Apenas sete pacientes (cerca de 10%) trouxeram os agentes causadores, e nenhum trouxe plantas, apesar de haver associação posterior das lesões com a proximidade destas.

 

 

 

 

DISCUSSÃO

O município de Botucatu apresenta florestas, rios e montanhas, onde é possível fazer caminhadas e praticar a pesca, o ciclismo e outros esportes. As fitofotodermatites foram comuns, devido à manipulação de frutas cítricas4 (Figura 1). As picadas de moscas e mosquitos vieram a seguir, associadas ou não a fenômenos alérgicos5 (Figura 2), assim como as picadas únicas de abelhas.2 Nos ambientes rurais, em determinadas épocas, ocorre parasitismo por carrapatos, especialmente pelos gêneros Ixodes e Amblyomma, causadores de uma dermatite vesiculosa extremamente pruriginosa. Esses artrópodes são incriminados ainda por transmitir doenças como a febre maculosa e a doença de Lyme (Figura 2). Dor intensa, pápulas e/ou placas se associam a acidentes por animais peçonhentos, como as lagartas,2,6 sendo as da família Megalopigidae as mais comuns. Já pustuloses súbitas em crianças com história de estadia no campo podem ser causadas por formigas lava-pés (Solenopsis invicta), embora a fase logo após a picada (antes de 24 horas) mostre pápulas eritemato-edematosas. 2,7 Vesículas e bolhas nas áreas expostas (especialmente na região cervical) podem ser causadas por besouros urticantes (potós, pertencentes ao gênero Paederus),2 animais comuns especialmente nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, mas presentes em todo o país (Figura 3) . Necroses cutâneas podem ser provocadas por peixes peçonhentos (arraias e bagres fluviais, por exemplo) ou por serpentes do gênero Bothrops1,2– as jararacas, urutus e jararacuçus (Figura 4). Quadros eczematosos, generalizados e agudos, são sugestivos de contato com os fenóis dispersos no ar por plantas da família Anacardiaceae, especialmente as aroeiras4 (Figura 1).

 

 

 

 

 

 

 

 

Em ambientes litorâneos, como os observados em Ubatuba, existe o risco de acidentes semelhantes aos das áreas rurais, pelo contato crescente com as matas e cursos fluviais, mas a maioria dos acidentes está associada ao mar. 1,8 Novamente encontramos uma grande incidência de fitofotodermatites, pelo advento do turismo, mas os problemas mais comuns foram acidentes por ouriços-do-mar. Pisados pelos banhistas, eles causam inflamação inicial seguida de uma dermatite nodular tardia com presença de espículas, geralmente nas regiões plantares1,2,9 (Figura 5). Os acidentes por águas-vivas e caravelas (cnidários) também são comuns e assemelham-se aos quadros de fitofotodermatites, podendo haver confusão diagnóstica, o que será mais provável na fase não inflamatória inicial (cerca de 24 horas após o contato)1,2,10, 11 (Figura 6).

 

 

 

 

O tratamento dos acidentes varia de acordo com a etiologia:1,2 acidentes com inoculação de peçonhas devem primariamente ser tratados com soro antiveneno, mas isso só é possível em envenenamentos por serpentes e aranhas (todos os envenenamentos por serpentes e alguns por aranhas2), uma vez que não são produzidos soros contra o veneno da maioria dos animais peçonhentos. Acidentes por lagartas, cnidários e peixes peçonhentos só podem ser medicados sintomaticamente: no caso das lagartas, com o uso de analgésicos e, por vezes, anestesia troncular; para os cnidários, com o uso de água do mar gelada e compressas de vinagre; e para os peixes peçonhentos, com imersão em água quente. Os corticoides tópicos podem ser empregados nas dermatites irritativas por contato – como a fitofotodermatite –, nas dermatites por besouros, nos quadros eczematosos por plantas, no prurido agudo e nas picadas de carrapato. Miíases devem ser extraídas por expressão ou com o auxílio de pinças, assim como as espículas de ouriços-do-mar.1-7

 

CONCLUSÕES

Existem diferenças entre as fases agudas de acidentes por animais e plantas e as manifestações apresentadas pelos pacientes após 24 a 48 horas. Inicialmente, é mais provável que todas as dermatites aqui apresentadas serão observadas por profissionais no setor de emergência dos hospitais, mas em um ou dois dias a probabilidade de um dermatologista ser procurado aumenta, em razão de a totalidade dos pacientes apresentarem manifestações cutâneas. A dor, elemento importante logo após o contato com animais peçonhentos, como lagartas, cnidários, serpentes e peixes, não estará presente quando o paciente for examinado em um consultório. Da mesma forma, lesões cutâneas podem mudar sua apresentação, como ocorre nas picadas de formigas lava-pés, que formam pústulas sobre as pápulas urticadas iniciais em cerca de 24 horas. Fitofoto-dermatites, que geram pouca sintomatologia, podem tornar-se extremamente semelhantes a acidentes com águas-vivas e caravelas após 24 a 48 horas, quando estes já não apresentam sua dor característica. O conhecimento sobre as enfermidades mais comuns e suas características pode ser muito útil para a prática nos consultórios e ambulatórios. Para isso, é fornecida uma tabela algorítmica (Tabela 1) que mostra os principais sinais e sintomas presentes em pacientes acidentados por plantas e animais silvestres (incluindo os peçonhentos) 24 a 48 horas após os acidentes, enfatizando a importância do exame clínico e da identificação das alterações ocorridas desde o contato inicial em áreas silvestres.

 

REFERÊNCIAS

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Endereço para correspondência:
Vidal Haddad Junior

Caixa Postal 557
CEP: 18618-000 - Botucatu - SP
Tel./Fax: (14) 3882-4922
E-mail: haddadjr@fmb.unesp.br

Recebido em 26.04.2009.
Aprovado pelo Conselho Consultivo e aceito para publicação em 29.05.09.

 

 

* Trabalho realizado na Santa Casa de Misericórdia de Ubatuba – Ubatuba (SP), Brasil – e na Faculdade de Medicina de Botucatu – Universidade Estadual Paulista (Unesp) – Botucatu (SP), Brasil.
Conflito de interesse: Nenhum
Suporte financeiro: Nenhum
Como citar este artigo: Haddad Jr V. Identificação de enfermidades agudas causadas por animais e plantas em ambientes rurais e litorâneos: auxílio à prática dermatológica. An Bras Dermatol. 2009;84(4):343-8.